Edição de 6.5 a 12.5.2002



:: COLUNISTAS ::

André Tezza Consentino
Bob Marochi
Caetano Galindo
Rosiane C. de Freitas
Rogerio W. Galindo



Trenodia


Em outubro, meus vinte e nove anos, pretendo ter já podido completar a tradução que faço, com um colega, do Doctor Faustus, peça escrita por Christopher Marlowe, no final do século XVI.

Marlowe era também, de sua parte, tradutor. Verteu, por exemplo, do latim para o inglês o primeiro canto do poema De Bello Ciuile, também conhecido como a Farsália, escrito no século I por Marcus Annaeus Lucanus.

Um outro colega, mais novo que eu, está, agora, terminando de revisar sua tradução do canto primeiro da Farsália.

Isso já bastaria como encanto, e como canto da beleza que não morre. Pois mil e quinhentos anos depois da morte de Lucano, um poeta, um menino elisabetano, traduz seu poema. Mais outros quinhentos anos, e um guri paulista mete mãos à mesma obra. Um texto de dois mil anos. Vivo.

Enquanto isso, dois outros indivíduos se debruçam sobre a obra original mais importante que aquele inglês deixou. Quinhentos anos depois. Vivo.

No entanto, estão mortos. Viveram não mais que nós.

Marlowe morreu no ano em que completava 29. Assassinado, como até hoje morremos aos milhares, aos milhões, os homens novos.
Lucano morreu no ano de seus 26. Doente, como morremos até hoje aos milhares, aos milhões. Jovens demais.

Isso os torna, talvez, mais vivos para nós. O fato de podermos vislumbrá-los como nós, com nossa idade. Prestes a morrer.
Com isso, são muito menos figuras de museus e dicionários. Muito mais homens, como nós. E nós, com eles, mais humanos. Pois mortais.
Dolorosamente.

Em Todo Sobre Mi Madre, de Almodóvar, alguém diz. Que não há nada mais triste que alguém que morre cedo demais. Jovem.
Marlowe e Lucano morreram sem nos ter dado o que poderiam. Jovens. Cedo demais.

Na verdade, escrevo este texto apenas por uma razão.
Porque soube ontem da morte de uma menina que não conheci. Uma menina cuja estória de vida nunca soube; mas cuja morte acompanhei, de longe.
Nem ao menos sei seu nome.

Ela é irmã da namorada de um meu primo. Ambos alunos no curso em que trabalho.
Viva, não seria para mim coisa alguma.
Agora morta, aos vinte e dois anos de idade.

Câncer.
Leucemia.
Diagnosticada, aos vinte anos. Tratada. Com todo o sofrimento descabido e anacrônico que a oncologia ainda nos inflige em suas curas.
Quando há. Longe da família, com a irmã em Curitiba, passou pela busca de doador, pelo transplante. E ele deu certo.

Mas a maldita praga estava já estabelecida.
Metástase.
Um tumor no cérebro.
Morta.
Aos vinte e dois anos de idade.

Pois nós.
Morremos.
Ao contrário de Marlowe, de Lucano, morremos com o que fomos.

Vivemos contudo enquanto vivam as vidas que tocamos. E especialmente longa essa vida há de ser, se cedo demais da nossa nos vimos privados.
Nada há de mais triste que a morte de alguém que ainda não.

Eu tenho medo.
Sua irmã deve ter.
Sua irmã se foi. Dela restou o que resta de nós, que morremos.
Uma vida de dor pela saudade. Uma vida de presença do amor que possamos ter gerado, que queiramos ter sentido.
A agulhada de uma ausência inexplicável, absurda. Incompreensível.
O vazio da vida que deixamos por completar.
Tudo através do amor que causamos, que nos deram..
De dragoste, mai ales..
Em nossa vida longa, ou breve. Mortal.

Na verdade tenho nada a dizer.
Este texto é todo uma dedicatória.
A uma menina que não conheci. A seu namorado, que se deixou ficar com ela. A sua irmã. A seus pais. A sua dor. A seu amor.
A meu primo, que me orgulha em seu cuidado.
A Christopher Marlowe, Marcus Annaeus Lucanus, Giovanni Battista Pergolesi, Guillaume Lekeu.
A ela, que nunca vou conhecer.

Caetano Waldrigues Galindo, 28, é professor de Filologia Românica e História da Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná, e escreve muito regularmente nessa coluna.

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