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Slainte
Dia desses, por mando de uns desmandos da itapemirim, que não cuidou
quanto devia da emissão dos seus bilhetes, me vi subitado presentoso
com uma volta curitiba em ônibus golden.
Troço chique que sobeja. No exagero.Tem tubitôi, tavisseinho maravilha..
E tem filmim.
Por grande augúrio natural, eu, que voltava justamente de uma prova
uspeana para entrada em um doutorado sobre literatura irlandesa,
acabei por assistir um filminho que de há tempos cobiçava, e que
cujo o nome dele português eu não se lembro mais não. Chama Waking
Ned Devine, e trata dos estratagemas de uma aldeota irlandesa para
enganar a loteria e receber por um bilhete cujo o portador já nada
porta, falecido, de assustado. Muito saboroso.
O filme é uma festa pra quem tem ouvidos de ouvir diferenças, já
conhece ou quer conhecer o "Oirish" english. Mas irlandês, que é
bom, só se ouve no final, na cena do triunfo, em que bebem sua guinness,
como sempre, e saúdam, Slainte, enquanto brindam.
Eu sou troncho de se emocionar com isso. Sempre me toca a relação
das pessoas com as línguas. E aquela pequena celebração gaélica,
em um filme necessariamente falado em inglês (ou ninguém nem não
via não), me pareceu subitamente bonitinha.
Já um outro filme do mesmo diretor, tal John Sayles, dito O Mistério
da Ilha (The Secret of Roan Inish), traz a língua já no título:
Roan inish = ilha das focas. E, dado momento, conta a estória de
um indivíduo castigado em sua escola, durante a ocupação inglesa,
apenas por falar sua língua e não a língua do inglês, como eles
a chamam. Revoltado, esmurra seu professor, xingando-o em irlandês.
Meus alunos já estão cansados de meu ouvir babar sobre a resistência
catalã ao prohibitur do generalíssimo. Tem gente que não mais me
atura ouvir dizer da fofura que é a Björk soltando suas frases em
islandês (que mesmo em sites oficiais de letras já vi chamadas de
"algaravia") na MTV, em meio a canções, como manda a cartilha pop,
em inglês. Ou a menina do Catatonia berrando em gaélico. Ou nossos
hermanos paraguayos, que chamam gringos todos os que não falam guarany,
independente de sua origem.
Todos exemplos de gente que resistiu, que fingiu ceder em superfície,
ou não, mas que se manteve presa a sua língua, minha pátria.
Em tempos mais recentes, uma outra banda pop deu mais uma cartada
nesse jogo de línguas e poderes e braços-de-ferro. Trata-se de outros
malucos islandeses: os caras do Sigur Rós, endeusados por todo mundo
que já escutou e que gosta de pop para não-teens.
Face ao mesmo dilema, o de ceder a uma língua internacional ou
agarrar-se completamente a sua língua, falada por uma população
menor que a de Curitiba, os caras tiveram uma idéia brilhante. Radicalizaram
o estranho. Decidiram ser estrangeiros mesmo em sua própria pátria.
Inventaram uma língua sua, que chamam esperancês, e nela mumuram,
gemem, seus poucos versos em suas canções de dez minutos. Não cederam.
Pergunta: O que é que isso tudo diz a nós brasileiros, que de nossa
tivemos uma língua, mas que a deixamos morrer. Nem se fala DO nheengatu,
hoje em dia. O que é que isso tudo diz de nós, brasileiros, que
ainda nos acreditamos convidados na casa dos portugueses. Que nos
negamos a ver o óbvio, e dá-lo ao mundo: que é nossa essa língua
que falamos, mais que de ninguém. Nós somos, ou devíamos ser, a
régua capaz de medir desvios. Somos mais novos, mais fortes, mais
ricos, mais numerosos e mais bonitos. Mas nossa maldita inferioridade
complexada ainda acredita falar errada a língua certa dos lusitanos.
Dai-me paciência.
Slainte.
PS. O cinema e o maldito poblema da destribuição. Perto de mim,
naquele já citado e vangloriado Golden Busssss, vinham duas pessoas,
uma senhora e uma menina, que falavam, um pouco alto demais, sobre
o Big Brother e o Clone. Empolgadíssimas. Isso antes de Registro,
quando corria no vídeo do busssss uma fita do Stallone. A partir
de registro ficaram quietinhas, sorridentes e fascinadas vendo o
filme irlandês (Sem volume. Aparentemente quem não tinha seus póprios
intra-auriculares ficava na mão). Filme que elas, provavelmente,
jamais iriam buscar na locadora, lá no andar de cima, na pártchi
dji ártchi (todo filme europeu é de arte!). Um filme que dificilmente
vão mostrar na tv, e que certamente não passou no cinema.
PPS. Lembrei agora do Trem da Vida, filme lindo lindo de Radu Mihaileanu,
que só vai aqui embaixo porque não tem uma só palavra em romeno.
PPPS. Todos três na locadora decente mais próchima de seu lar.
Caetano Waldrigues Galindo, 28, é professor de Filologia Românica
e História da Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná,
e escreve muito regularmente nessa coluna.
[email protected]
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