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Primeiro poder
Foi
confirmada a morte do repórter Tim Lopes.
Um traficante conhecido como Elias Maluco teria sido o responsável
por seu rapto, pela sessão de tortura por que teria passado, e teria,
pessoalmente, executado o jornalista que com uma câmera oculta buscava
averiguar -e teria comprovado- a existência de consumo de drogas
e de práticas sexuais, mesmo envolvendo menores, abertamente em
bailes funk da periferia do Rio de Janeiro.
O Rio
de Janeiro vive, há tempos, uma colombiana situação de guerra civil
cada vez mais impossível de se disfarçar, malgrado os esforços populistas
de governador após governador por causar impacto na mídia, deixando
intacta a estrutura que administra a maior parte do território da
cidade. Aqui, como na Colômbia, há mesmo regiões de tráfego proibido
para as forças do governo: governo paralelo, aqui mero fantoche.
Morrem
traficantes, matam-se uns aos outros e, menos freqüentemente acabam
mortos pela polícia; trata-se de um meio em que alguém com trinta
anos é certamente um sobrevivente, com mortes em suas costas que
respondam pelos anos que ganhou. Morrem policiais, matam-se uns
aos outros e são mortos em confrontos com os traficantes.
O problema para nós, dada a situação que vivemos em tempos de governo
militar, e dada a situação que vivemos hoje, vendo de que a polícia
é capaz, é que não conseguimos uma empatia sem ressalvas com o sofrimento
e a abnegação dos representantes da "ordem estabelecida", talvez
especialmente no Rio, onde as aspas tem mais valor.
É de todo impossível identificar mocinhos por quem torcer.
Em
campo como esse, é sempre e só à sociedade civil que podemos recorrer
na esperança de reconstruir uma esperança. ONGs, algumas vezes,
e muito especialmente os jornalistas.
Ainda com tudo o que possamos saber, e que efetivamente podemos
saber, sobre a Imprensa e suas iguais perversão e corrupção, consigo,
ao menos eu, encontrar nas figuras dos jornalistas a fresta de luz
em meio à cegueira. Gente como Philip Gourevitch, Caco Barcellos,
Sydney Schanberg e Dith Pran, gente epitomizada no martírio recente
de Daniel Pearl, morto numa guerra que se identificava como tal;
morto repórter de guerra em campo de batalha.
Esse
Tim Lopes morreu em meio à mistificação de que apenas trabalhava
seu dia-a-dia. Entrava e saía da redação, em casa.
Saiu para fazer uma reportagem, mais uma, da televisão, normal,
de um país e de uma cidade que viveriam tempos normais. No dia seguinte
poderia estar cobrindo uma greve de funcionários públicos. Morreu
na guerra, no campo inimigo, claramente demarcado, intencionalmente
esfumado em seus limites. Não há que se negar: talvez tenha morrido
também por essa mentira, tentando contribuir em sua destruição.
Pra
nós, aqui, acostumados a borrar fronteiras de realidades incômodas
ou a empurrá-las ilusivamente para longe de nosso cotidiano, esses
jornalistas e seu trabalho encarnam uma função de importância difícil
de se superestimar. Eles, como as ONGs que pouco menciono por conhecer
parcamente, são a possibilidade do grito. Neles, e nelas, vemos
configurada a possibilidade da reação contra não uma banda podre,
ou facção determinada, mas uma estrutura decomposta que convive
com a guerra e que nos mostra piscinões de gente sarada e feliz;
que aceita dinheiro de traficantes para permitir e proteger suas
atividades, seja por ausência e omissão, seja com presença e intervenção.
Essas criaturas são a prova, que não queremos ver, que vocifera
em nosso ouvido que, se há de haver heróis no mundo hoje, somos
mesmo nós os candidatos mais prováveis a ter de carregar a imensa
responsabilidade de que fugimos profissionalmente, quase profissionalmente.
Mas
eles têm de conviver com essa mesma distribuição e esse idêntico
equilíbrio de forças de conservação. Eles têm de conviver com aquele
que, por tudo o que possa ter tentado dizer agora, é o mais nefasto
dos crimes que se podem cometer em nossos tempos, em nossas cidades:
o do indivíduo que bloqueia, intencionalmente, ou perverte a possibilidade
de ação da imprensa, de dentro ou de fora dela.
O governante que fecha o legislativo não me causa um décimo do pavor
e do repúdio que provoca aquele que fecha dois jornais. O "homem
de imprensa" que impede o trabalho de se realizar cala o grito que
devia propagar. Mata a voz que deveria ser a sua, única possível.
E mata tanta gente quanto o berro da violência na rua ou nos escritórios.
Ou na guerra.
Que vivemos. Em que morrem crianças, também, por nossa culpa.
Nosso
Daniel Pearl será esquecido antes do final do ano, quando reviverá
na retrospectiva final, logo depois do Jornal Nacional, que talvez,
merecidamente, ainda conquiste enormes audiências com sua estória.
Continuaremos desancando qualquer um que atente contra o potencial
turístico da cidade maravilhosa sentada orgulhosa em uma pilha de
corpos que sempre cresce, ao lado da baía mais linda do mundo.
Vivendo
calmamente. A não ser pela grita.
Caetano Waldrigues Galindo, 28, é professor de Filologia Românica
e História da Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná,
e escreve muito regularmente nessa coluna.
[email protected]
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