Edição de 11.6 a 17.6.2002



:: COLUNISTAS ::

André Tezza Consentino
Bob Marochi
Caetano Galindo
Rosiane C. de Freitas
Rogerio W. Galindo



Primeiro poder

Foi confirmada a morte do repórter Tim Lopes.
Um traficante conhecido como Elias Maluco teria sido o responsável por seu rapto, pela sessão de tortura por que teria passado, e teria, pessoalmente, executado o jornalista que com uma câmera oculta buscava averiguar -e teria comprovado- a existência de consumo de drogas e de práticas sexuais, mesmo envolvendo menores, abertamente em bailes funk da periferia do Rio de Janeiro.

O Rio de Janeiro vive, há tempos, uma colombiana situação de guerra civil cada vez mais impossível de se disfarçar, malgrado os esforços populistas de governador após governador por causar impacto na mídia, deixando intacta a estrutura que administra a maior parte do território da cidade. Aqui, como na Colômbia, há mesmo regiões de tráfego proibido para as forças do governo: governo paralelo, aqui mero fantoche.

Morrem traficantes, matam-se uns aos outros e, menos freqüentemente acabam mortos pela polícia; trata-se de um meio em que alguém com trinta anos é certamente um sobrevivente, com mortes em suas costas que respondam pelos anos que ganhou. Morrem policiais, matam-se uns aos outros e são mortos em confrontos com os traficantes.
O problema para nós, dada a situação que vivemos em tempos de governo militar, e dada a situação que vivemos hoje, vendo de que a polícia é capaz, é que não conseguimos uma empatia sem ressalvas com o sofrimento e a abnegação dos representantes da "ordem estabelecida", talvez especialmente no Rio, onde as aspas tem mais valor.
É de todo impossível identificar mocinhos por quem torcer.

Em campo como esse, é sempre e só à sociedade civil que podemos recorrer na esperança de reconstruir uma esperança. ONGs, algumas vezes, e muito especialmente os jornalistas.
Ainda com tudo o que possamos saber, e que efetivamente podemos saber, sobre a Imprensa e suas iguais perversão e corrupção, consigo, ao menos eu, encontrar nas figuras dos jornalistas a fresta de luz em meio à cegueira. Gente como Philip Gourevitch, Caco Barcellos, Sydney Schanberg e Dith Pran, gente epitomizada no martírio recente de Daniel Pearl, morto numa guerra que se identificava como tal; morto repórter de guerra em campo de batalha.

Esse Tim Lopes morreu em meio à mistificação de que apenas trabalhava seu dia-a-dia. Entrava e saía da redação, em casa.
Saiu para fazer uma reportagem, mais uma, da televisão, normal, de um país e de uma cidade que viveriam tempos normais. No dia seguinte poderia estar cobrindo uma greve de funcionários públicos. Morreu na guerra, no campo inimigo, claramente demarcado, intencionalmente esfumado em seus limites. Não há que se negar: talvez tenha morrido também por essa mentira, tentando contribuir em sua destruição.

Pra nós, aqui, acostumados a borrar fronteiras de realidades incômodas ou a empurrá-las ilusivamente para longe de nosso cotidiano, esses jornalistas e seu trabalho encarnam uma função de importância difícil de se superestimar. Eles, como as ONGs que pouco menciono por conhecer parcamente, são a possibilidade do grito. Neles, e nelas, vemos configurada a possibilidade da reação contra não uma banda podre, ou facção determinada, mas uma estrutura decomposta que convive com a guerra e que nos mostra piscinões de gente sarada e feliz; que aceita dinheiro de traficantes para permitir e proteger suas atividades, seja por ausência e omissão, seja com presença e intervenção.
Essas criaturas são a prova, que não queremos ver, que vocifera em nosso ouvido que, se há de haver heróis no mundo hoje, somos mesmo nós os candidatos mais prováveis a ter de carregar a imensa responsabilidade de que fugimos profissionalmente, quase profissionalmente.

Mas eles têm de conviver com essa mesma distribuição e esse idêntico equilíbrio de forças de conservação. Eles têm de conviver com aquele que, por tudo o que possa ter tentado dizer agora, é o mais nefasto dos crimes que se podem cometer em nossos tempos, em nossas cidades: o do indivíduo que bloqueia, intencionalmente, ou perverte a possibilidade de ação da imprensa, de dentro ou de fora dela.
O governante que fecha o legislativo não me causa um décimo do pavor e do repúdio que provoca aquele que fecha dois jornais. O "homem de imprensa" que impede o trabalho de se realizar cala o grito que devia propagar. Mata a voz que deveria ser a sua, única possível.
E mata tanta gente quanto o berro da violência na rua ou nos escritórios.
Ou na guerra.
Que vivemos. Em que morrem crianças, também, por nossa culpa.

Nosso Daniel Pearl será esquecido antes do final do ano, quando reviverá na retrospectiva final, logo depois do Jornal Nacional, que talvez, merecidamente, ainda conquiste enormes audiências com sua estória. Continuaremos desancando qualquer um que atente contra o potencial turístico da cidade maravilhosa sentada orgulhosa em uma pilha de corpos que sempre cresce, ao lado da baía mais linda do mundo.

Vivendo calmamente. A não ser pela grita.

Caetano Waldrigues Galindo, 28, é professor de Filologia Românica e História da Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná, e escreve muito regularmente nessa coluna.

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