Edição de 17.6 a 23.6.2002



:: COLUNISTAS ::

André Tezza Consentino
Bob Marochi
Caetano Galindo
Rosiane C. de Freitas
Rogerio W. Galindo



Tapu, ja!

A Espanha vive uma copa de exceção. Afinal, havia 52 anos que eles não estreavam com vitória (hmm). Já o Brasil, há 44 anos não fazia mais de quatro gols em uma só partida de um mundial, como aconteceu contra a Costa Rica (oba). Tudo está tranqüilo também porque Japão e Coréia, países que sediam a competição, conseguiram passar à segunda fase, evitando desmentir uma escrita de mais de 72 anos (ufa).

Não precisa nem gostar de futebol, basta assistir a uns dois, três jogos da copa, pra perceber que esse tipo de dadinho estatístico faz a delícia de boleiros e galvões buenos ao redor do globo. (Alemanha e México foi o jogo com mais cartões amarelos da história das copas!). Mas o mais divertido é que os locutores e comentaristas, seguidos de perto pelo público, insistem em promover leituras semi-sacralizadas dos dados.

Coincidências, curiosidades não têm possibilidade de existência. Se algo não acontece há quarenta anos, a chance de que ocorra agora não é maior, como previria a lei das probabilidades. Também não é menor, como se sinalizasse novos tempos, novas tendências. É ínfima, porque passa a pesar contra sua realização o poder mágico do Tabu. No futebol nada pode ocorrer pela primeira vez depois de vinte anos sem se revestir do manto profano da quebra de um tabu!

Pois falemos de tabus. (Todas as vezes em que o Brasil enfrentou a Inglaterra, foi campeão!) Pra todos os fins, a noção de tabu veio ao ocidente cultural via antropólogos e freudólogos (desde a publicação de Totem e Tabu). E veio ela carregando junto a palavra, lá dos rincões da Polinésia, onde todos os objetos, fatos e pessoas do mundo se dividem em duas classes: ou são Noa, ou são Tapu.

As coisa Noa são normais. Já o que é Tapu não pertence a esse mundo, para bem ou para mal. Está ligado a outras esferas místicas e, conseqüentemente, interdito para os mortais noa que, mesmo por tocá-los, por mencionar seu nome, podem-se contaminar de seu estatuto sobrenatural fronteiriço e, assim, tornar-se párias: criaturas tabuizadas, excluídas e proibidas. Expulsas.

(Isso tudo é muito similar ao que, acreditamos, significasse primitivamente a noção de Sagrado, entre os indo-europeus. Algo não necessariamente divino e bom, mas obrigatoriamente separado do mundo dos homens por poder supra-humano e, assim, evitável, formidável e digno de devoção ou de repúdio.)

Quebrar um tabu, logo, seria tocar, mencionar ou receber algo proibido. E o indivíduo responsável por tal feito pode-se julgar felizardo se for considerado meramente contaminado pelo tabu. Viver excluído ainda deve ser melhor que ser executado. O tabu é o que é proibido; transcendentalmente, metafisicamente, inquestionavelmente vetado. Quebrá-lo não é apenas fazer o que não devia ser feito, mas o que era impossível de se fazer, por decreto divino.

É engraçado, não é? Mas é exatamente assim que os boleiros parecem se comportar em relação a seus tabus. Ou nós todos em relação, digamos, a tabus lingüísticos ou comportamentais. (Caralho, nunca o campeão tinha sido eliminado sem fazer um só gol!).

O tabu se encontra ilhado entre o divino e o mortal: é formidando. Quebrá-lo é romper o equilíbrio sutil que possa existir entre esses dois domínios. E obviamente coisas inéditas estão por acontecer na seqüência. Não é exatamente a quebra do tabu que interessa por seu ineditismo, mas sim o que pode acontecer depois dela, visto que as convenções usuais do misterioso pacto entre deuses e homens agora não são mais válidas.

Tudo coisa das mais séria, com diproma e recomendação das toridade!

Portanto, meus irmãos e companheiros nessa sina de servir a dois senhores, um no vaticano e outro na Inter de Milão, lembremo-nos do mais amalucado dos tabus inquebrantáveis: a simetria interpretativa!

Que reza que, em se tomando a copa da Espanha, vencida pelos Italianos, como centro, (muito possivelmente pelo estatuto profano daquela copa, vencida de maneira espúria, tripudiando sobre o corpo de Zico projetado na terra) cria-se um padrão irrefutável de reproduções especulares, à esquerda e à direita.

Quer ver?

78 e 86, os safados transparanaenses, com a mão dos cartolas e depois a do Maradona.
74 e 90, chucrutes.
70 e 94, êba!
66 e 98, apesar de sugerir uma quebra do padrão sacrossanto, revelam-se, ao olhar mais atento daqueles acostumados à leitura das Centúrias, como copas ganhas, de maneira muito estranha, pelos países que as sediaram, e que jamais (eu disse jamais) voltariam a ser campeões.

Deu pra perceber?
Está escrito em letras indeléveis feitas lei além do sopro do indizível:

AS DUAS PRÓXIMAS SÃO NOSSAS!

Eparrei!

Caetano Waldrigues Galindo, 28, é professor de Filologia Românica e História da Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná, e escreve muito regularmente nessa coluna.

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