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Tapu, ja!
A
Espanha vive uma copa de exceção. Afinal, havia 52 anos que eles
não estreavam com vitória (hmm). Já o Brasil, há 44 anos não fazia
mais de quatro gols em uma só partida de um mundial, como aconteceu
contra a Costa Rica (oba). Tudo está tranqüilo também porque Japão
e Coréia, países que sediam a competição, conseguiram passar à segunda
fase, evitando desmentir uma escrita de mais de 72 anos (ufa).
Não
precisa nem gostar de futebol, basta assistir a uns dois, três jogos
da copa, pra perceber que esse tipo de dadinho estatístico faz a
delícia de boleiros e galvões buenos ao redor do globo. (Alemanha
e México foi o jogo com mais cartões amarelos da história das copas!).
Mas o mais divertido é que os locutores e comentaristas, seguidos
de perto pelo público, insistem em promover leituras semi-sacralizadas
dos dados.
Coincidências,
curiosidades não têm possibilidade de existência. Se algo não acontece
há quarenta anos, a chance de que ocorra agora não é maior, como
previria a lei das probabilidades. Também não é menor, como se sinalizasse
novos tempos, novas tendências. É ínfima, porque passa a pesar contra
sua realização o poder mágico do Tabu. No futebol nada pode ocorrer
pela primeira vez depois de vinte anos sem se revestir do manto
profano da quebra de um tabu!
Pois
falemos de tabus. (Todas as vezes em que o Brasil enfrentou a Inglaterra,
foi campeão!) Pra todos os fins, a noção de tabu veio ao ocidente
cultural via antropólogos e freudólogos (desde a publicação de Totem
e Tabu). E veio ela carregando junto a palavra, lá dos rincões da
Polinésia, onde todos os objetos, fatos e pessoas do mundo se dividem
em duas classes: ou são Noa, ou são Tapu.
As
coisa Noa são normais. Já o que é Tapu não pertence a esse mundo,
para bem ou para mal. Está ligado a outras esferas místicas e, conseqüentemente,
interdito para os mortais noa que, mesmo por tocá-los, por mencionar
seu nome, podem-se contaminar de seu estatuto sobrenatural fronteiriço
e, assim, tornar-se párias: criaturas tabuizadas, excluídas e proibidas.
Expulsas.
(Isso
tudo é muito similar ao que, acreditamos, significasse primitivamente
a noção de Sagrado, entre os indo-europeus. Algo não necessariamente
divino e bom, mas obrigatoriamente separado do mundo dos homens
por poder supra-humano e, assim, evitável, formidável e digno de
devoção ou de repúdio.)
Quebrar
um tabu, logo, seria tocar, mencionar ou receber algo proibido.
E o indivíduo responsável por tal feito pode-se julgar felizardo
se for considerado meramente contaminado pelo tabu. Viver excluído
ainda deve ser melhor que ser executado. O tabu é o que é proibido;
transcendentalmente, metafisicamente, inquestionavelmente vetado.
Quebrá-lo não é apenas fazer o que não devia ser feito, mas o que
era impossível de se fazer, por decreto divino.
É engraçado,
não é? Mas é exatamente assim que os boleiros parecem se comportar
em relação a seus tabus. Ou nós todos em relação, digamos,
a tabus lingüísticos ou comportamentais. (Caralho, nunca o campeão
tinha sido eliminado sem fazer um só gol!).
O tabu
se encontra ilhado entre o divino e o mortal: é formidando. Quebrá-lo
é romper o equilíbrio sutil que possa existir entre esses dois domínios.
E obviamente coisas inéditas estão por acontecer na seqüência. Não
é exatamente a quebra do tabu que interessa por seu ineditismo,
mas sim o que pode acontecer depois dela, visto que as convenções
usuais do misterioso pacto entre deuses e homens agora não são mais
válidas.
Tudo
coisa das mais séria, com diproma e recomendação das toridade!
Portanto,
meus irmãos e companheiros nessa sina de servir a dois senhores,
um no vaticano e outro na Inter de Milão, lembremo-nos do mais amalucado
dos tabus inquebrantáveis: a simetria interpretativa!
Que
reza que, em se tomando a copa da Espanha, vencida pelos Italianos,
como centro, (muito possivelmente pelo estatuto profano daquela
copa, vencida de maneira espúria, tripudiando sobre o corpo de Zico
projetado na terra) cria-se um padrão irrefutável de reproduções
especulares, à esquerda e à direita.
Quer
ver?
78
e 86, os safados transparanaenses, com a mão dos cartolas e depois
a do Maradona.
74
e 90, chucrutes.
70
e 94, êba!
66 e 98, apesar de sugerir uma quebra do padrão sacrossanto, revelam-se,
ao olhar mais atento daqueles acostumados à leitura das Centúrias,
como copas ganhas, de maneira muito estranha, pelos países que as
sediaram, e que jamais (eu disse jamais) voltariam a ser campeões.
Deu
pra perceber?
Está escrito em letras indeléveis feitas lei além do sopro do indizível:
AS
DUAS PRÓXIMAS SÃO NOSSAS!
Eparrei!
Caetano
Waldrigues Galindo, 28, é professor de Filologia Românica e História
da Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná, e escreve
muito regularmente nessa coluna.
[email protected]
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