Edição de 09.09 a 15.09.2002



:: COLUNISTAS ::

André Tezza Consentino
Bob Marochi
Caetano Galindo
Rosiane C. de Freitas
Rogerio W. Galindo



De Rebus Comicis!

Como eu já faço intelectualmente e vivo de fazer sentimentalmente, vou hoje fazer laponicamente: vou me apoiar na Sandra.

O último texto dela nos leva até ao século xx, e ao futuro curioso e ainda meio subterrâneo que os gêneros humorísticos teriam nele, ao menos como considerados pela séria sociedade e os colendos colegiados.

A mim, que sou mais restritinho, interessa agora só nois: o Brasil e os brasileiros de agora, e a curiosa relação que temos e tem ele com o cômico e especialmente o satírico. Relação maluca que nos leva a meter o LFVeríssimo por meses a fio em todas as listas de mais vendidos, fazendo ao mesmo tempo com que a academia e o meio literário "erudito"o ignorem solerte, galharda e orgulhosamente.
Mas o caso do Veríssimo é mais simples, ainda cai na recusa pura e simples que a "curtura" sempre teve, e tem, de aceitar a bunda exposta e o nariz caricato do palhaço. O de sempre..

Quero mais é falar de um caso mais curioso, mais desconhecido, e que nos é mais caro aqui em Nosotros. Um caso que tem bastante que ver com as leituras que fazemos de uma palavra e o culto que estabelecemos de seu possível sentido. Um caso que se refere a nossa relação pretensamente figadal com a irreverência.

Está claro, para o Joãozinho da Esquina Famigerado, que o brasileiro é um povo muito irreverente, e que mesmo nosso país é marcadamente irreverente. I-reverente: aquele que não presta reverência, não paga respeito, não observa solenidades.
Meu problema com essa idéia segura e estabelecida reside no sentido que se dá usualmente a palavra de formação tão clara; pois o que chamamos irreverência é tão-somente nossa engraçadinhice.
A bem da verdade somos um povo (católico) cheio de não-me-toques, cheio de respeitos e de limites para o nosso riso. E o limite (no que não somos assim tão diferentes de qualquer outro povo) é o respeito que se deve ter pelo leitor, pelo espectador, pelo ouvinte. Nosso humor (no que não somos assim tão diferentes de qualquer outro povo..) se estabelece no pacto entre palhaço e audiência que reza que o alvo da sátira, o depositório do escárnio, o vaso em que se cospe, nunca se pode identificar com o leitor. Permite-se mesmo rir do palhaço, ao menos no que ele possa representar de espereótipo do outro, mas não se deve apontar a metralhadora giratória da sátira para o indivíduo que está virando as páginas, mudando os canais.

Somos um povo irreverente que ainda se vê extremamente incomodado pelos poucos autores que não se poupam e não nos poupam de suas vergastadas. E é no fim muito bom que seja assim, pois esses indivíduos é que representam, senão a essência do verdadeiro humor (como definido pelo Pirandello), pelo menos a essência da verdadeira sátira, que não pode, e não deve ser assimilada com facilidade pela cultura.

Se Veríssimo não é aceito pela academia, ele deve mais é exultar. Faz parte da arte a que se dedica. Ele deveria mesmo esperar ser enxovalhado e menosprezado, e deveria exultar com isso. Mas ele não dirá isso, ao menos não nesses termos. Porque ele, ainda, é um humorista irreverente brasileiro. Ele não cospe em prato algum. Ele faz parte do meio cultural que tem como símbolo nossa mpb, em que niguém, jamais, fala mal de ninguém, em que se permite, no máximo, uma declaraçãozinha de falta de afinidade daqueles indivíduos que cultuam a aceitabilidade, a antropofagia e a multipicidade. Fulano de tal é um merda, e tudo o que ele escreveu é uma bosta, é algo que não ouviremos com freqüência nesse meio.

O que nos leva de volta ao assunto nosotrosiano que mencionei acima, de passagem: Diogo Mainardi.
O homem que não é bem-visto pela academia e, supremo triunfo!, não é aceito sequer pelo público. A se acreditar nele, nem mesmo sua mulher o acha minimamente interessante ou polido. O cara que soa verdadeiramente incômodo porque não poupa ninguém, porque nos chama a todos de merdas, ele incluso, porque é, de fato, um irreverente. E a isso, meus amigos, não estamos, mesmo acostumados, porque no final do afinaldecontas, talvez não sejamos assim tão diferentes de qualquer outro povo.

TRÊS NOTINHAS
1. Meçam seu grau de recusa ao estilo irreverente por sua reação ao comentário supremo triunfo, acima.
2. Meçam seu grau de capacidade de irreverência, por si mesmos e pela raça humana como um todo, pela dor que sentirem (de toda a nenhuma) durante uma, obrigatória, leitura de alguns textos da biblioteca básica de humor doloroso de Nosotros: As viagens de Gulliver e Modesta proposta para evitar que as crianças da Irlanda não se transformem em um fardo para seus pais e para seu país (in: Panfletos satíricos) de Jonathan Swift; Cândido e Micrômegas (in: Contos e novelas) de Voltaire; Malthus, O arquipélago e especialmente Contra o Brasil e a obra-primíssima O polígono das secas do genial messias Diogo Mainardi. Além de um textinho teórico, O humorismo de Luigi Pirandello. E divirtam-se.
3. Entendam como quiserem a seguinte estorinha:
1996, um euzinho ingênuo, estudante de letras, vai a São Paulo apenas para ver o ainda hoje idolatrado José Saramago falar. Na hora das perguntas, vou ao microfone e, trêmulo, inicio o seguinte diálogo, que nunca sairá da vida de minha bigorna fatigada: Eu: Um autor brasileiro, editado pela mesma casa que o publica aqui, chamado Diogo Mainardi, diz em seu último livro, recém-lançado, pela boca de um megalômano personagem identificado como o autor, que a função da literatura é degradar a humanidade. O que o senhor acha dessa noção.
José Saramago: Que lhes faça bom proveito.

Caetano Waldrigues Galindo, 28, é professor de Filologia Românica e História da Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná, e escreve muito regularmente nessa coluna.

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