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De
Rebus Comicis!
Como
eu já faço intelectualmente e vivo de fazer sentimentalmente, vou
hoje fazer laponicamente: vou me apoiar na Sandra.
O último
texto dela nos leva até ao século xx, e ao futuro curioso e ainda
meio subterrâneo que os gêneros humorísticos teriam nele, ao menos
como considerados pela séria sociedade e os colendos colegiados.
A mim,
que sou mais restritinho, interessa agora só nois: o Brasil e os
brasileiros de agora, e a curiosa relação que temos e tem ele com
o cômico e especialmente o satírico. Relação maluca que nos leva
a meter o LFVeríssimo por meses a fio em todas as listas de mais
vendidos, fazendo ao mesmo tempo com que a academia e o meio literário
"erudito"o ignorem solerte, galharda e orgulhosamente.
Mas o caso do Veríssimo é mais simples, ainda cai na recusa pura
e simples que a "curtura" sempre teve, e tem, de aceitar a bunda
exposta e o nariz caricato do palhaço. O de sempre..
Quero
mais é falar de um caso mais curioso, mais desconhecido, e que nos
é mais caro aqui em Nosotros. Um caso que tem bastante que ver com
as leituras que fazemos de uma palavra e o culto que estabelecemos
de seu possível sentido. Um caso que se refere a nossa relação pretensamente
figadal com a irreverência.
Está
claro, para o Joãozinho da Esquina Famigerado, que o brasileiro
é um povo muito irreverente, e que mesmo nosso país é marcadamente
irreverente. I-reverente: aquele que não presta reverência,
não paga respeito, não observa solenidades.
Meu problema com essa idéia segura e estabelecida reside no sentido
que se dá usualmente a palavra de formação tão clara; pois o que
chamamos irreverência é tão-somente nossa engraçadinhice.
A bem da verdade somos um povo (católico) cheio de não-me-toques,
cheio de respeitos e de limites para o nosso riso. E o limite (no
que não somos assim tão diferentes de qualquer outro povo) é o respeito
que se deve ter pelo leitor, pelo espectador, pelo ouvinte. Nosso
humor (no que não somos assim tão diferentes de qualquer outro povo..)
se estabelece no pacto entre palhaço e audiência que reza que o
alvo da sátira, o depositório do escárnio, o vaso em que se cospe,
nunca se pode identificar com o leitor. Permite-se mesmo rir do
palhaço, ao menos no que ele possa representar de espereótipo do
outro, mas não se deve apontar a metralhadora giratória da sátira
para o indivíduo que está virando as páginas, mudando os canais.
Somos
um povo irreverente que ainda se vê extremamente incomodado
pelos poucos autores que não se poupam e não nos poupam de suas
vergastadas. E é no fim muito bom que seja assim, pois esses indivíduos
é que representam, senão a essência do verdadeiro humor (como definido
pelo Pirandello), pelo menos a essência da verdadeira sátira, que
não pode, e não deve ser assimilada com facilidade pela cultura.
Se
Veríssimo não é aceito pela academia, ele deve mais é exultar. Faz
parte da arte a que se dedica. Ele deveria mesmo esperar ser enxovalhado
e menosprezado, e deveria exultar com isso. Mas ele não dirá isso,
ao menos não nesses termos. Porque ele, ainda, é um humorista irreverente
brasileiro. Ele não cospe em prato algum. Ele faz parte do meio
cultural que tem como símbolo nossa mpb, em que niguém, jamais,
fala mal de ninguém, em que se permite, no máximo, uma declaraçãozinha
de falta de afinidade daqueles indivíduos que cultuam a aceitabilidade,
a antropofagia e a multipicidade. Fulano de tal é um merda,
e tudo o que ele escreveu é uma bosta, é algo que não ouviremos
com freqüência nesse meio.
O que
nos leva de volta ao assunto nosotrosiano que mencionei acima, de
passagem: Diogo Mainardi.
O homem que não é bem-visto pela academia e, supremo triunfo!, não
é aceito sequer pelo público. A se acreditar nele, nem mesmo sua
mulher o acha minimamente interessante ou polido. O cara
que soa verdadeiramente incômodo porque não poupa ninguém, porque
nos chama a todos de merdas, ele incluso, porque é, de fato, um
irreverente. E a isso, meus amigos, não estamos, mesmo acostumados,
porque no final do afinaldecontas, talvez não sejamos assim tão
diferentes de qualquer outro povo.
TRÊS
NOTINHAS
1.
Meçam seu grau de recusa ao estilo irreverente por sua reação ao
comentário supremo triunfo, acima.
2.
Meçam seu grau de capacidade de irreverência, por si mesmos e pela
raça humana como um todo, pela dor que sentirem (de toda a nenhuma)
durante uma, obrigatória, leitura de alguns textos da biblioteca
básica de humor doloroso de Nosotros: As viagens de Gulliver
e Modesta proposta para evitar que as crianças da Irlanda não
se transformem em um fardo para seus pais e para seu país (in:
Panfletos satíricos) de Jonathan Swift; Cândido e
Micrômegas (in: Contos e novelas) de Voltaire; Malthus,
O arquipélago e especialmente Contra o Brasil e a
obra-primíssima O polígono das secas do genial messias Diogo
Mainardi. Além de um textinho teórico, O humorismo de Luigi
Pirandello. E divirtam-se.
3. Entendam como quiserem a seguinte estorinha:
1996, um euzinho ingênuo, estudante de letras, vai a São Paulo apenas
para ver o ainda hoje idolatrado José Saramago falar. Na hora das
perguntas, vou ao microfone e, trêmulo, inicio o seguinte diálogo,
que nunca sairá da vida de minha bigorna fatigada: Eu: Um autor
brasileiro, editado pela mesma casa que o publica aqui, chamado
Diogo Mainardi, diz em seu último livro, recém-lançado, pela boca
de um megalômano personagem identificado como o autor, que
a função da literatura é degradar a humanidade. O que o senhor
acha dessa noção.
José Saramago: Que lhes faça bom proveito.
Caetano
Waldrigues Galindo, 28, é professor de Filologia Românica e História
da Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná, e escreve
muito regularmente nessa coluna.
[email protected]
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