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O necessário
ceticismo
ciranda
que vai
ciranda que vem
roda na ciranda
que é pro mal virar pro bem
ciranda
por ti
ciranda por mim
roda na ciranda
que é pro não virar pro sim
Estava
ouvindo isso aí. Com Pedro Luís e a Parede, quando, chato que sou,
me incomodou o paralelo. De um bem afirmativo e um negativo lado
escuro da Força.
Estamos
acostumados a isso; o mesmo adjetivo negativo já soou redundante
aí acima. Neguinho vem nos fazendo acostumar a considerar as ações
afirmativas, em qualquer sentido, como possibilidade de mudança.
Vivemos em um mundo em que é preciso aceitar, concordar, afirmar.
Gloriosa e exultantemente afirmar. Vivemos em tempos negativos,
em que é preciso utilizar a força todo modificante do SIM. Só assim.
*
Deus.
O Bem. Coisas afirmativas. A sarça ardente declara a Moisés, como
única definição de Deus, que ele é aquele que é (Sum qui sum). Agostinho,
ao tratar de conceitos com Bem e Verdade, se manteria muito próximo
de parafrasear a sarça: O verdadeiro é o que é; a Verdade é o que
exibe o que é.
Shakespeare.
O Humano. Vivia na tensão entre o bem e o mal, o sim e o não. O
príncipe de Elsinore, maior epítome dessa nossa condição, tinha
sua dúvida precisamente entre afirmar e negar a si mesmo (To be
or not to be). Uma dúvida que curiosamente só se resolve, pela afirmativa,
no caminho da chacina (Let be: Seja). Iago, o mais acabado malfeitor
de suas peças, é justamente aquele que busca resolver a dúvida de
Hamlet sem comprometer sua vida, apenas as dos outros (I am not
what I am: Não sou o que sou), Iago que se define, no fim, até pela
negação de sua participação no mundo, de maneira talvez vista como
mais egoísta que a de Hamlet, quando declara (I shall speak no more:
Não vou mais falar). E cala frente ao quadro da morte de Othello
e Desdêmona.
Mas
Deus é o mesmo Bem. Hamlet é Bom (!?), por ser humano. E Iago é
o vilão, logo diferente (!) de nós.
A própria
literatura nos acostumou também a ver apresentada uma versão caricaturada
do extremo negativismo, como nos niilistas do romance russo do XIX,
ou ao menos uma versão manietada (tudo menos adequada para os tais
tempos atuais) da dúvida no existencialismo francês. Negar sistematicamente
é tolo e contraproducente, e no limite autista.
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Num
livrinho bastante interessante para os hojemdias, O Mundo Assombrado
pelos Demônios, o astrônomo e divulgador científico Carl Sagan,
se esbatia contra essa pretensa bondade marista afirmativa do senso-comum
ao buscar afirmar a necessidade do ceticismo científico para qualquer
ação no mundo. O cético, afinal, é outra dessas figuras caricaturadas
como inúteis. Não tenho dúvida de que na superfície a palavra é
mesmo uma ofensa em português, pois o cético é o chato que se recusa
a acreditar, que se nega a compartir do oba-oba afirmativo, tolerante
e crente. Estraga-festas. Alguém que preferiria ter visto anunciada
a morte de Chico Xavier como a de um filantopo e líder espírita
que se declarava médium. (Exemplo inspirado em fatos reais..)
O ceticismo
científico pregado por Sagan não é niilista. Trata-se apenas da
crença na necessidade de observação e comprovação antes de se concordar
com algo. (O radical presente no adjetivo grego skeptikos é o mesmo
do nosso verbo espiar, por exemplo. Um cético, na hélade, era um
observador). Ver para crer e, mesmo vendo, de início desconfiar
dos olhos. Mas Tomé é o exemplo do homem de pouca fé; caricato.
Mesmo
o Vaticano busca comprovação cientifica dos milagres dos candidatos
a santos. Contudo essa atitude afirmativa cega continua ligada a
algum tipo de religiosidade. E se você disser por aí que o percentual
de curas milagrosas ocorridas nas últimas duas décadas no santuário
de Lourdes (mesmo aceitando-se sem questionamento os dados da igreja)
é igual ao de curas espontâneas nos grandes hospitais do mundo,
no mesmo período, você vai ser o azedo cético, no pior dos sentidos.
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Ninguém
questionaria. Ninguém em sua sã e boa consciência e devidamente
informado duvidaria da necessidade premente de tolerância e aceitação
no mundo de hoje.
O que
me incomoda é que as pessoas pareçam pensar que o único caminho
que levaria a um novo estado de coisas passe preferencialmente por
um vale de extática concórdia. Ainda me é muito mais fácil acreditar
que uma boa quantidade de nãos bem aplicada tem muito mais potencial
de mudança do que toda a afirmação do mundo.
Pois
não estamos nos Jardins Elíseos, e há muito mais que se negar.
Caetano
Waldrigues Galindo, 28, é professor de Filologia Românica e História
da Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná, e escreve
muito regularmente nessa coluna.
[email protected]
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