Edição de 8.7 a 15.7.2002



:: COLUNISTAS ::

André Tezza Consentino
Bob Marochi
Caetano Galindo
Rosiane C. de Freitas
Rogerio W. Galindo



O necessário ceticismo

ciranda que vai
ciranda que vem
roda na ciranda
que é pro mal virar pro bem

ciranda por ti
ciranda por mim
roda na ciranda
que é pro não virar pro sim

Estava ouvindo isso aí. Com Pedro Luís e a Parede, quando, chato que sou, me incomodou o paralelo. De um bem afirmativo e um negativo lado escuro da Força.

Estamos acostumados a isso; o mesmo adjetivo negativo já soou redundante aí acima. Neguinho vem nos fazendo acostumar a considerar as ações afirmativas, em qualquer sentido, como possibilidade de mudança. Vivemos em um mundo em que é preciso aceitar, concordar, afirmar. Gloriosa e exultantemente afirmar. Vivemos em tempos negativos, em que é preciso utilizar a força todo modificante do SIM. Só assim.

*

Deus. O Bem. Coisas afirmativas. A sarça ardente declara a Moisés, como única definição de Deus, que ele é aquele que é (Sum qui sum). Agostinho, ao tratar de conceitos com Bem e Verdade, se manteria muito próximo de parafrasear a sarça: O verdadeiro é o que é; a Verdade é o que exibe o que é.

Shakespeare. O Humano. Vivia na tensão entre o bem e o mal, o sim e o não. O príncipe de Elsinore, maior epítome dessa nossa condição, tinha sua dúvida precisamente entre afirmar e negar a si mesmo (To be or not to be). Uma dúvida que curiosamente só se resolve, pela afirmativa, no caminho da chacina (Let be: Seja). Iago, o mais acabado malfeitor de suas peças, é justamente aquele que busca resolver a dúvida de Hamlet sem comprometer sua vida, apenas as dos outros (I am not what I am: Não sou o que sou), Iago que se define, no fim, até pela negação de sua participação no mundo, de maneira talvez vista como mais egoísta que a de Hamlet, quando declara (I shall speak no more: Não vou mais falar). E cala frente ao quadro da morte de Othello e Desdêmona.

Mas Deus é o mesmo Bem. Hamlet é Bom (!?), por ser humano. E Iago é o vilão, logo diferente (!) de nós.

A própria literatura nos acostumou também a ver apresentada uma versão caricaturada do extremo negativismo, como nos niilistas do romance russo do XIX, ou ao menos uma versão manietada (tudo menos adequada para os tais tempos atuais) da dúvida no existencialismo francês. Negar sistematicamente é tolo e contraproducente, e no limite autista.

*

Num livrinho bastante interessante para os hojemdias, O Mundo Assombrado pelos Demônios, o astrônomo e divulgador científico Carl Sagan, se esbatia contra essa pretensa bondade marista afirmativa do senso-comum ao buscar afirmar a necessidade do ceticismo científico para qualquer ação no mundo. O cético, afinal, é outra dessas figuras caricaturadas como inúteis. Não tenho dúvida de que na superfície a palavra é mesmo uma ofensa em português, pois o cético é o chato que se recusa a acreditar, que se nega a compartir do oba-oba afirmativo, tolerante e crente. Estraga-festas. Alguém que preferiria ter visto anunciada a morte de Chico Xavier como a de um filantopo e líder espírita que se declarava médium. (Exemplo inspirado em fatos reais..)

O ceticismo científico pregado por Sagan não é niilista. Trata-se apenas da crença na necessidade de observação e comprovação antes de se concordar com algo. (O radical presente no adjetivo grego skeptikos é o mesmo do nosso verbo espiar, por exemplo. Um cético, na hélade, era um observador). Ver para crer e, mesmo vendo, de início desconfiar dos olhos. Mas Tomé é o exemplo do homem de pouca fé; caricato.

Mesmo o Vaticano busca comprovação cientifica dos milagres dos candidatos a santos. Contudo essa atitude afirmativa cega continua ligada a algum tipo de religiosidade. E se você disser por aí que o percentual de curas milagrosas ocorridas nas últimas duas décadas no santuário de Lourdes (mesmo aceitando-se sem questionamento os dados da igreja) é igual ao de curas espontâneas nos grandes hospitais do mundo, no mesmo período, você vai ser o azedo cético, no pior dos sentidos.

*

Ninguém questionaria. Ninguém em sua sã e boa consciência e devidamente informado duvidaria da necessidade premente de tolerância e aceitação no mundo de hoje.

O que me incomoda é que as pessoas pareçam pensar que o único caminho que levaria a um novo estado de coisas passe preferencialmente por um vale de extática concórdia. Ainda me é muito mais fácil acreditar que uma boa quantidade de nãos bem aplicada tem muito mais potencial de mudança do que toda a afirmação do mundo.

Pois não estamos nos Jardins Elíseos, e há muito mais que se negar.

Caetano Waldrigues Galindo, 28, é professor de Filologia Românica e História da Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná, e escreve muito regularmente nessa coluna.

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