Edição de 1.7 a 8.7.2002



:: COLUNISTAS ::

André Tezza Consentino
Bob Marochi
Caetano Galindo
Rosiane C. de Freitas
Rogerio W. Galindo



Plájio

antes de que o helvítico cometesse deuteronomia..

A frase acima está na primeira seção do Finnegans Wake (e lá vou eu de novo). No processo que o mesmo Joyce não cansava de glosar, ela vai escrita em camadas.

Num primeiro nível trata meramente de situar a ação descrita (com o perdão da má palavra), o surgimento de Earwicker, em tempos pré-históricos. Brincando com nomes de livros do velho testamento, Joyce remete os fatos a um passado mesmo religiosamente atemporal.

Abaixo disso, contudo, há mais um dos códigos privados do menino. O helvítico seria uma referência direta T. S. Eliot, que morava na Suíca, ergo, na Helvécia. O crime de cometer deuteronomia se referiria à acusação que Joyce fazia a Eliot de ter plagiado o Ulisses em seu poema The Wasteland, deuteronomia significando em grego segunda legislação.

Logo, no sempre-presente registro autobiográfico de Joyce, a ação agora se localiza antes do ano de 1922, em que foram publicadas as duas obras. (E a gente acha que a nossa Semana é que é importante, véi..)

Pequenos subsídios históricos:
Como poderia Eliot plagiar algo que foi publicado junto com seu poema? O fato é que o Ulisses foi sendo divulgado, antes da edição em livro da Shakespeare and Co., aos pedaços em uma revista literária. E Eliot -como Joyce, um protegé de um munífico e bibliofânico Ezra Pound- não poderia ter deixado de ler os fragmentos.

Ninguém leva muito a sério a, digamos, acusação de Joyce. Que ele teria feito com alguma freqüência. (Joyce era obsedado pela idéia da traição). Contudo, há um texto do próprio Eliot que diz mais ou menos assim: que o senhor Joyce criou um método que poderá ser usado por outros depois dele, sem que isso configure cópia ou plágio.

Ai, ai, Thomas, que tua vida se complica..

O método em questão é o tratamento paralelo do registro mítico e cotidiano contemporâneo, em que se usa um para enriquecer e explanar o outro, em ambos os sentidos.

*

Aquele dramaturgo elisabetano cujo nome não me atrevo a pronunciar, bem como todos seus colegas, chupava tramas, enredos, estórias e personagens de todos os lugares. Apenas uma de suas peças não tem uma fonte. Ou, como preferem dizer os críticos, não tem ainda uma fonte descoberta.

O mesmo Joyce se apropriava loucamente de tudo em que pudesse meter mãos. O final de seu conto Os Mortos, elogiado por seu compatriota George Moore, era todo decalcado de um romance desse mesmo escritor: situação, simbologia e neve caindo..
Ele era capaz de metabolizar simultaneamente o místico Blake e o orgiástico Sacher-Masoch com o único fim de vestir adequadamente seu episódio circeano retirado de Homero, em que seu personagem Bloom, cujo nome vem de pelo menos quatro pessoas suas conhecidas e sua personalidade de umas outras duas, salva Stephen Dedalus, alter ego do autor, de um bordel realmente existente em Dublin.

Mas Brutus é um homem honrado
E Ulisses é uma peça tremendamente original, assim como a Wasteland.

Um deles não tem enredo, e seus personagens são filtrados de centenas de pessoas por um autor que copia de tudo e de todos. Um autor que correu explicar que o dito monólogo interior, que empregava com maestria em toda a obra, era roubado de um francês de nome Dujardin, que se esforçou por promover. Já a outra teria usado uma inovação técnica de Joyce como seu método literário básico. (É bom acreditar que é a Joyce que Eliot invoca como mein irisch kind, meu menino irlandês, em seu poema, não é?)

Quid noui?
Onde está, então, o novo,? aquela maldição que sempre procuramos e que nos faz tanto mais felizes quanto mais bombástico se anuncie..

Se Eliot realçava o uso do mito modernizado, eu, por mim, prefiro ficar com o uso consistente de diferentes linguagens e meios narrativos para cada situação como o grande diferencial literário do Ulisses. Mas e daí?

O ponto parece mesmo ser que, se há de se ver algo de novo sob o sol, ele aparece de cem em cem anos.

A nós, o butim. Gratia artis.

Caetano Waldrigues Galindo, 28, é professor de Filologia Românica e História da Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná, e escreve muito regularmente nessa coluna.

[email protected]

 

 
ASSINE: NOSOTROS


 

Artigos anteriores

Chusma de tunantes

The Globe

Tapu, ja!

Primeiro poder

Bloom

The Grinch

Trenodia

Slainte

Bygmester Joyce

O que Shakespeare escreveu?

Uma fé, uma lei, um rei

Shoah

A.B..

Carpe fruito

Chomsky e o Brasil
que não se conhece

Fúria contra a máquina

Acentos

In fesionem aqua

É hoje: tive uma idéia!

Alcafurra: as doudas aventuras de um ministro da educação

Cinco vezes pouco (quase nada)

Grammatica. Palavra triste, quando se perde um grande amor

Finnegans Wake, ininteligível, é o livro mais democrático que existe

Falamos português há 500 anos e tem gente que diz que não sabemos fazer isso

O preconceito que pode vir do modo como os outros falam

Jazz erudito para quê?

Introdução a Lichtenberg

Coisas boas da vida

Quod scripsimus. Papéis voam do World Trade Center em chamas

Habemus lexicon: o grande dicionário de Houaiss.

Uma ode a Björk

Paulo Coelho e a vanguarda

O dia do foda-se

Vamos à música: sejamos mais felizes

Gerald Thomas entrevista (sic) Gal Costa (chic)

Aureae mediocritates: Haroldo de Campos e seu pseudo-poema na Folha

De coronae muscis:
a arte da picaretagem e a picaretagem na arte

Oblivescenda: estamos nos esquecendo de boa parte do mundo

Hosted by www.Geocities.ws

1