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Plájio
antes de que o helvítico cometesse deuteronomia..
A frase
acima está na primeira seção do Finnegans Wake (e lá vou eu de novo).
No processo que o mesmo Joyce não cansava de glosar, ela vai escrita
em camadas.
Num
primeiro nível trata meramente de situar a ação descrita (com o
perdão da má palavra), o surgimento de Earwicker, em tempos pré-históricos.
Brincando com nomes de livros do velho testamento, Joyce remete
os fatos a um passado mesmo religiosamente atemporal.
Abaixo
disso, contudo, há mais um dos códigos privados do menino. O helvítico
seria uma referência direta T. S. Eliot, que morava na Suíca, ergo,
na Helvécia. O crime de cometer deuteronomia se referiria à acusação
que Joyce fazia a Eliot de ter plagiado o Ulisses em seu poema The
Wasteland, deuteronomia significando em grego segunda legislação.
Logo,
no sempre-presente registro autobiográfico de Joyce, a ação agora
se localiza antes do ano de 1922, em que foram publicadas as duas
obras. (E a gente acha que a nossa Semana é que é importante, véi..)
Pequenos
subsídios históricos:
Como poderia Eliot plagiar algo que foi publicado junto com seu
poema? O fato é que o Ulisses foi sendo divulgado, antes da edição
em livro da Shakespeare and Co., aos pedaços em uma revista
literária. E Eliot -como Joyce, um protegé de um munífico e bibliofânico
Ezra Pound- não poderia ter deixado de ler os fragmentos.
Ninguém
leva muito a sério a, digamos, acusação de Joyce. Que ele teria
feito com alguma freqüência. (Joyce era obsedado pela idéia da traição).
Contudo, há um texto do próprio Eliot que diz mais ou menos assim:
que o senhor Joyce criou um método que poderá ser usado por outros
depois dele, sem que isso configure cópia ou plágio.
Ai,
ai, Thomas, que tua vida se complica..
O método
em questão é o tratamento paralelo do registro mítico e cotidiano
contemporâneo, em que se usa um para enriquecer e explanar o outro,
em ambos os sentidos.
*
Aquele
dramaturgo elisabetano cujo nome não me atrevo a pronunciar, bem
como todos seus colegas, chupava tramas, enredos, estórias e personagens
de todos os lugares. Apenas uma de suas peças não tem uma fonte.
Ou, como preferem dizer os críticos, não tem ainda uma fonte descoberta.
O mesmo
Joyce se apropriava loucamente de tudo em que pudesse meter mãos.
O final de seu conto Os Mortos, elogiado por seu compatriota George
Moore, era todo decalcado de um romance desse mesmo escritor: situação,
simbologia e neve caindo..
Ele era capaz de metabolizar simultaneamente o místico Blake e o
orgiástico Sacher-Masoch com o único fim de vestir adequadamente
seu episódio circeano retirado de Homero, em que seu personagem
Bloom, cujo nome vem de pelo menos quatro pessoas suas conhecidas
e sua personalidade de umas outras duas, salva Stephen Dedalus,
alter ego do autor, de um bordel realmente existente em Dublin.
Mas
Brutus é um homem honrado
E Ulisses é uma peça tremendamente original, assim como a Wasteland.
Um
deles não tem enredo, e seus personagens são filtrados de centenas
de pessoas por um autor que copia de tudo e de todos. Um autor que
correu explicar que o dito monólogo interior, que empregava
com maestria em toda a obra, era roubado de um francês de nome Dujardin,
que se esforçou por promover. Já a outra teria usado uma inovação
técnica de Joyce como seu método literário básico. (É bom acreditar
que é a Joyce que Eliot invoca como mein irisch kind, meu
menino irlandês, em seu poema, não é?)
Quid
noui?
Onde está, então, o novo,? aquela maldição que sempre procuramos
e que nos faz tanto mais felizes quanto mais bombástico se anuncie..
Se
Eliot realçava o uso do mito modernizado, eu, por mim, prefiro ficar
com o uso consistente de diferentes linguagens e meios narrativos
para cada situação como o grande diferencial literário do Ulisses.
Mas e daí?
O ponto
parece mesmo ser que, se há de se ver algo de novo sob o sol, ele
aparece de cem em cem anos.
A nós,
o butim. Gratia artis.
Caetano
Waldrigues Galindo, 28, é professor de Filologia Românica e História
da Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná, e escreve
muito regularmente nessa coluna.
[email protected]
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