|
Schnitke
Tenho
uma relação afetiva com Arnold Schnittke, morto há pouco.
Um
de meus primeiros contatos com música erudita contemporânea, talvez
mesmo o primeiro, foi com uma obra sua. Muito por acaso.
Lembra
que em algum momento no fim dos oitenta, começo dos noventa, a Globo
tinha um horário dedicado a Concertos Internacionais? Foi onde passaram,
por exemplo, os Carmina Burana de Carl Orff, com regência de Seiji
Osawa e com a Kathleen Battle, que teve alguma repercussão na época,
ajudando o Orff a se equiparar ao Bolero-de-Ravel (de autor de mesmo
nome) na listinha dos "clássicos populares".
Numa
dessas noites o programa era o Concerto de Natal da Filarmônica
de Berlim. E o safado do Herr Karajan sapecou, entre Tchaicóvskis
e Vivaldis "populares", o Concerto para Viola do Schnittke, tocado
pelo homem que o encomendara ao autor: Yuri Bashmett. Coisa das
mais finas, que me impressionou muito.
Vivo
de um mês pra cá mais um surto de contemporaneidade. Detonado de
novo por Schnittke. Por acaso.
Encontrei, fora da desorganizada sessão de música contemporânea
do Saraivão, um quinteto pra piano do homem lançado pela Naxos.
Coisa boa demais pra cabeça. Música não-sinfônica, recente e barata!
E o tal quinteto é do cuzíssimo da cobra. Só a valsinha desconstruída
do segundo movimento e a canzonetta aleijada do último salvam qualquer
semana de audição de Kelly Key em alto-falantes nas ruas.
E é
aí que eu queria chegar. (Mas só agora!)
Schnittke fala mais rápido ao ouvido do homem comum do que, digamos,
Nono, Boulez, Ives ou Stockhausen. Porque ele não se furta a se
apropriar, por vezes muito bem-humoradamente, da tradição musical
com que temos mais contato. Ele mete uma valsinha meio circense
no início de uma peça e a desmonta dolorosamente nos minutos seguintes.
Ele cantarola ao piano uma melodia linda assoviável e repetitiva
por baixo de acordes monstruosos e cânones apertados das cordas.
É mais
fácil, para nós, reles mortais, saber o que Schnittke está fazendo.
Reconhecer seus caminhos e procedimentos. Aquela curiosa sensação
de sem-pai-nem-mãezidade que freqüentemente assola o manezinho como
eu e tu em um disco com obras de Luciano Berio (ou nas salas da
Bienal de São Paulo) é mantida um pouco mais afastada por meio do
recurso à paródia, à citação e ao convívio.
Como
Lucien Freund entre os artistas plásticos, Schnittke pode não ser
o mais amado por seus pares mais vanguardeiros. Mas, como ele, tem
mais chances de atingir os leigos. E, mais do que isso, se oferece
mais a ser alcançado, evitando algo que me parece um postulado dos
mais sólidos de boa parte da produção contemporânea em arte de ponta:
o intencional hermetismo para iniciados.
Schnittke
é proselitista. Quer ser ouvido.
Se
o cinema desbancou a literatura como narrativa, resta ao prosador
o experimento formal. Se a música pop tomou o campo ao preencher
a necessidade vital por música das pessoas por aí, resta ao músico
inovador o experimento descomprometido com o consumo.
Ou não.
Pode-se
fazer o cinema inovador chegar às massas.
Pode-se fazer o atonalismo, os clusters microtonais, serem ouvidos
por quem só conhece Beethoven e Mozart.
Talvez ainda não pelos fãs de Baba, Baby, mas aos poucos dá pra
chegar lá.
De
novo, o mesmo Joyce:
Caviar para o público em geral!
P.S.
Sobre cinema e música inovadores. Kubrick, mestre no primeiro, soube
muito bem fazer o segundo: quem conhece seus filmes já ouviu, ainda
que sem saber, Penderecki, Bartók, Ligeti e quetais. E nem não achou
feio não..
Caetano
Waldrigues Galindo, 28, é professor de Filologia Românica e História
da Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná, e escreve
muito regularmente nessa coluna.
[email protected]
|