Edição de 29.7 a 04.8.2002



:: COLUNISTAS ::

André Tezza Consentino
Bob Marochi
Caetano Galindo
Rosiane C. de Freitas
Rogerio W. Galindo



Schnitke

Tenho uma relação afetiva com Arnold Schnittke, morto há pouco.

Um de meus primeiros contatos com música erudita contemporânea, talvez mesmo o primeiro, foi com uma obra sua. Muito por acaso.

Lembra que em algum momento no fim dos oitenta, começo dos noventa, a Globo tinha um horário dedicado a Concertos Internacionais? Foi onde passaram, por exemplo, os Carmina Burana de Carl Orff, com regência de Seiji Osawa e com a Kathleen Battle, que teve alguma repercussão na época, ajudando o Orff a se equiparar ao Bolero-de-Ravel (de autor de mesmo nome) na listinha dos "clássicos populares".

Numa dessas noites o programa era o Concerto de Natal da Filarmônica de Berlim. E o safado do Herr Karajan sapecou, entre Tchaicóvskis e Vivaldis "populares", o Concerto para Viola do Schnittke, tocado pelo homem que o encomendara ao autor: Yuri Bashmett. Coisa das mais finas, que me impressionou muito.

Vivo de um mês pra cá mais um surto de contemporaneidade. Detonado de novo por Schnittke. Por acaso.
Encontrei, fora da desorganizada sessão de música contemporânea do Saraivão, um quinteto pra piano do homem lançado pela Naxos.
Coisa boa demais pra cabeça. Música não-sinfônica, recente e barata!
E o tal quinteto é do cuzíssimo da cobra. Só a valsinha desconstruída do segundo movimento e a canzonetta aleijada do último salvam qualquer semana de audição de Kelly Key em alto-falantes nas ruas.

E é aí que eu queria chegar. (Mas só agora!)
Schnittke fala mais rápido ao ouvido do homem comum do que, digamos, Nono, Boulez, Ives ou Stockhausen. Porque ele não se furta a se apropriar, por vezes muito bem-humoradamente, da tradição musical com que temos mais contato. Ele mete uma valsinha meio circense no início de uma peça e a desmonta dolorosamente nos minutos seguintes. Ele cantarola ao piano uma melodia linda assoviável e repetitiva por baixo de acordes monstruosos e cânones apertados das cordas.

É mais fácil, para nós, reles mortais, saber o que Schnittke está fazendo. Reconhecer seus caminhos e procedimentos. Aquela curiosa sensação de sem-pai-nem-mãezidade que freqüentemente assola o manezinho como eu e tu em um disco com obras de Luciano Berio (ou nas salas da Bienal de São Paulo) é mantida um pouco mais afastada por meio do recurso à paródia, à citação e ao convívio.

Como Lucien Freund entre os artistas plásticos, Schnittke pode não ser o mais amado por seus pares mais vanguardeiros. Mas, como ele, tem mais chances de atingir os leigos. E, mais do que isso, se oferece mais a ser alcançado, evitando algo que me parece um postulado dos mais sólidos de boa parte da produção contemporânea em arte de ponta: o intencional hermetismo para iniciados.

Schnittke é proselitista. Quer ser ouvido.

Se o cinema desbancou a literatura como narrativa, resta ao prosador o experimento formal. Se a música pop tomou o campo ao preencher a necessidade vital por música das pessoas por aí, resta ao músico inovador o experimento descomprometido com o consumo.
Ou não.

Pode-se fazer o cinema inovador chegar às massas.
Pode-se fazer o atonalismo, os clusters microtonais, serem ouvidos por quem só conhece Beethoven e Mozart.
Talvez ainda não pelos fãs de Baba, Baby, mas aos poucos dá pra chegar lá.

De novo, o mesmo Joyce:
Caviar para o público em geral!

P.S. Sobre cinema e música inovadores. Kubrick, mestre no primeiro, soube muito bem fazer o segundo: quem conhece seus filmes já ouviu, ainda que sem saber, Penderecki, Bartók, Ligeti e quetais. E nem não achou feio não..

Caetano Waldrigues Galindo, 28, é professor de Filologia Românica e História da Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná, e escreve muito regularmente nessa coluna.

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