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Teoria da Conspiração
Uma
estorinha, pra começar. Ainda há, pra quem não saiba, brasileiros
morrendo de doença de chagas. Aquela mesma, transmitida pelo barbeiro,
cujo agente foi identificado e descrito por Oswaldo Cruz. Aquela
que nos acostumamos a ver associada a imagens de mamelucos pitorescos
nos livros da escola, como coisa do passado.
Seu
Oswaldo, aliás, o sanitarista das antigas, deve manter atribulada
agenda de voltinhas periódicas no caixão por ver gente em seu país
ainda nestes dias morrendo de dengue e de chagas. Contudo, se no
caso da dengue ainda são o descaso dos governos locais e a inépcia
da sociedade civil em tomar providências simples que garantem as
ondas periódicas de mortes, no caso do mal de chagas a coisa vai
um pouquinho mais longe. Pois o problema é que a tal doença resta,
hoje, incurável. Pode ser tratada, mas a vítima, depois de contraí-la,
convive com o tripanossoma até que a morte os separe.
Descobriu-se
recentemente, todavia, que um remédio que já circula no mercado
e que já é fabricado em escala industrial pode ser capaz de curar
definitivamente os infectados pela doença. Mas acontece que o medicamente
em questão é um anti-micótico bom de vendas, e o laboratório que
o fabrica vem boicotando sistematicamente as pesquisas sobre seus
outros efeitos "indesejados" porque teme que, confirmados os resultados,
elas possam levar a uma quebra de patente pelo governo brasileiro
(que, graças a Deus, está já famoso por isso).
Que
se fodam os caboclinhos nas cabanas de barro. O pé-de-atleta dos
holandeses é que garante o leite das crianças.
E é
esse tipo de meleca que me leva a ficar com um bruta pé-atrás com
essa estória que pipoca agora de que "se descobriu" que a reposição
hormonal, empregada para amenizar os efeitos da menopausa, pode
causar câncer, provocar derrames e infartos. O que levou a uma onda
considerável de barulho televisivo e impresso, que talvez, e apenas
talvez, sirva mais do que conteste.
Ora,
venhamos. As mulheres que se recuperam da extração de tumores, bem
como as que já sofreram acidentes vasculares (e falo apenas por
experiência pessoal) souberam desde sempre que estavam proibidas
de investir na reposição, porque os riscos eram muito grandes.
Sempre
se soube do risco, ou pelo menos há muito se sabe das probabilidades
aumentadas de uma recidiva para essas mulheres. No entanto não se
consideravam os perigos para as outras mulheres? Estranho.
Se
agora neguinho resolveu avisar a comunidade, via "cientistas americanos",
não consigo deixar de pensar que haja nessa revelação a mão peluda
das malditas empresas farmacêuticas que mataram e matam milhares
de subnutridos para proteger seus interesses.
A pesquisa
nas universidades americanas, quando não é subvencionada pelo governo
(e ela é também subvencionada pelo governo, senhores privatizantes)
é bancada por esses mesmos laboratórios que ela, aparentemente,
às vezes ataca. A estorinha lá de cima mostra sobejamente que, se
for o caso, verbas, e cabeças, podem ser cortadas de laboratórios
universitários apenas para que certos resultados jamais venham a
ser divulgados.
É muito
difícil que seja publicado um resultado univocamente contrário aos
interesses comerciais imediatos ou próximos desses grupos. E quem
trabalha com pesquisa nessa área sabe disso melhor do que eu, e
sofre muito mais. Eles via de regra não permitem. Simplesmente não
permitem; e têm a seu alcance os instrumentos para fazer valer seu
prohibitur.
Sabe
briga de gente grande? Onde se algo nos diz respeito é apenas um
sopapo meio sem rumo que caia na nossa cacunda? É esse o caso. É
lá entre as centenas de gentes graúdas que correm os interesses
e as decisões. Os milhões de pacientes são peso-morto, mortos ou
vivos.
Não
costumo bancar o obsessivo anti-globalizante, acho na verdade usualmente
burras as manifestações que carregam essa bandeira. E vai até por
isso o título do texto, um equívoco usual de tradução do inglês,
que me soa bastante adequado como rótulo para idéias como essas
minhas aí de cima. Porque adequadamente se deveria traduzir conspiracy
theory pelo singelo mania de perseguição.
Agora
onde é que a mania vira teoria coerente para explicar o mundo? Aí
é que reside o busílis.
No
novo filme de Woody Allen um personagem diz a outro, acometido pelo
mal a que me refiro:
- Você sabe que existe um nome pra quem acha que tudo e todos estão
contra si, não é? E o outro responde:
-
Sei. É "perspicaz"!
Alguma
coisa, grande, está lá, que definitivamente não se importa muito
com a gente. E, em minha modestíssima opinião, ela há de, qualquer
dia desses, lançar um novo e fenomenal tratamento para os efeitos
da menopausa.
"Agora
sem efeitos colaterais!"
Caetano
Waldrigues Galindo, 28, é professor de Filologia Românica e História
da Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná, e escreve
muito regularmente nessa coluna.
[email protected]
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