Edição de 22.7 a 28.7.2002



:: COLUNISTAS ::

André Tezza Consentino
Bob Marochi
Caetano Galindo
Rosiane C. de Freitas
Rogerio W. Galindo



Teoria da Conspiração

Uma estorinha, pra começar. Ainda há, pra quem não saiba, brasileiros morrendo de doença de chagas. Aquela mesma, transmitida pelo barbeiro, cujo agente foi identificado e descrito por Oswaldo Cruz. Aquela que nos acostumamos a ver associada a imagens de mamelucos pitorescos nos livros da escola, como coisa do passado.

Seu Oswaldo, aliás, o sanitarista das antigas, deve manter atribulada agenda de voltinhas periódicas no caixão por ver gente em seu país ainda nestes dias morrendo de dengue e de chagas. Contudo, se no caso da dengue ainda são o descaso dos governos locais e a inépcia da sociedade civil em tomar providências simples que garantem as ondas periódicas de mortes, no caso do mal de chagas a coisa vai um pouquinho mais longe. Pois o problema é que a tal doença resta, hoje, incurável. Pode ser tratada, mas a vítima, depois de contraí-la, convive com o tripanossoma até que a morte os separe.

Descobriu-se recentemente, todavia, que um remédio que já circula no mercado e que já é fabricado em escala industrial pode ser capaz de curar definitivamente os infectados pela doença. Mas acontece que o medicamente em questão é um anti-micótico bom de vendas, e o laboratório que o fabrica vem boicotando sistematicamente as pesquisas sobre seus outros efeitos "indesejados" porque teme que, confirmados os resultados, elas possam levar a uma quebra de patente pelo governo brasileiro (que, graças a Deus, está já famoso por isso).

Que se fodam os caboclinhos nas cabanas de barro. O pé-de-atleta dos holandeses é que garante o leite das crianças.

E é esse tipo de meleca que me leva a ficar com um bruta pé-atrás com essa estória que pipoca agora de que "se descobriu" que a reposição hormonal, empregada para amenizar os efeitos da menopausa, pode causar câncer, provocar derrames e infartos. O que levou a uma onda considerável de barulho televisivo e impresso, que talvez, e apenas talvez, sirva mais do que conteste.

Ora, venhamos. As mulheres que se recuperam da extração de tumores, bem como as que já sofreram acidentes vasculares (e falo apenas por experiência pessoal) souberam desde sempre que estavam proibidas de investir na reposição, porque os riscos eram muito grandes.

Sempre se soube do risco, ou pelo menos há muito se sabe das probabilidades aumentadas de uma recidiva para essas mulheres. No entanto não se consideravam os perigos para as outras mulheres? Estranho.

Se agora neguinho resolveu avisar a comunidade, via "cientistas americanos", não consigo deixar de pensar que haja nessa revelação a mão peluda das malditas empresas farmacêuticas que mataram e matam milhares de subnutridos para proteger seus interesses.

A pesquisa nas universidades americanas, quando não é subvencionada pelo governo (e ela é também subvencionada pelo governo, senhores privatizantes) é bancada por esses mesmos laboratórios que ela, aparentemente, às vezes ataca. A estorinha lá de cima mostra sobejamente que, se for o caso, verbas, e cabeças, podem ser cortadas de laboratórios universitários apenas para que certos resultados jamais venham a ser divulgados.

É muito difícil que seja publicado um resultado univocamente contrário aos interesses comerciais imediatos ou próximos desses grupos. E quem trabalha com pesquisa nessa área sabe disso melhor do que eu, e sofre muito mais. Eles via de regra não permitem. Simplesmente não permitem; e têm a seu alcance os instrumentos para fazer valer seu prohibitur.

Sabe briga de gente grande? Onde se algo nos diz respeito é apenas um sopapo meio sem rumo que caia na nossa cacunda? É esse o caso. É lá entre as centenas de gentes graúdas que correm os interesses e as decisões. Os milhões de pacientes são peso-morto, mortos ou vivos.

Não costumo bancar o obsessivo anti-globalizante, acho na verdade usualmente burras as manifestações que carregam essa bandeira. E vai até por isso o título do texto, um equívoco usual de tradução do inglês, que me soa bastante adequado como rótulo para idéias como essas minhas aí de cima. Porque adequadamente se deveria traduzir conspiracy theory pelo singelo mania de perseguição.

Agora onde é que a mania vira teoria coerente para explicar o mundo? Aí é que reside o busílis.

No novo filme de Woody Allen um personagem diz a outro, acometido pelo mal a que me refiro:
- Você sabe que existe um nome pra quem acha que tudo e todos estão contra si, não é? E o outro responde:
- Sei. É "perspicaz"!

Alguma coisa, grande, está lá, que definitivamente não se importa muito com a gente. E, em minha modestíssima opinião, ela há de, qualquer dia desses, lançar um novo e fenomenal tratamento para os efeitos da menopausa.

"Agora sem efeitos colaterais!"

Caetano Waldrigues Galindo, 28, é professor de Filologia Românica e História da Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná, e escreve muito regularmente nessa coluna.

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