Edição de 15.7 a 21.7.2002



:: COLUNISTAS ::

André Tezza Consentino
Bob Marochi
Caetano Galindo
Rosiane C. de Freitas
Rogerio W. Galindo



Qvod licet

(Fazia já tempo que eu não sapecava um título pernóstico em latim. No entanto agora eu sou mais outro, e traduzo: o que é permitido)

Dona Biba me contou:

Estavam ela e a Lindsay (Ah, a onomástica desbragada do Brasil..) na escola, calmamente brincando de dirigir seu carrinho, naquele momento latarificado no prosaico trepa-trepa do Cantinho do Céu. Murilo, mais que safardanas, estava à espreita, ansioso por participar também dos jogos, mas sem obter a necessária permissão de inclusão por parte de uma das legígeras participantes. No que abandonam as duas a viatura, apercebem-se, por cima de seus pequenos ombrinhos, que o insidioso não só se apoderara do veículo, como ainda fazia força, e causava estrépito, intentando ser notado.

O problema é que as duas, ostensivamente, ao largar o brinquedo tinham tomado uma providência sagaz para evitar tal incômodo e revolução, pois esvaziaram o tanque do automóvel!

"Cê aquidita, papai, dirigi um carro sem gasulina!?" E as duas seguiram afetando nem o ver, pois que ele não existia dentro de suas regras de verossimilhança.

*

Somos seres narrantes. Não podemos viver decentemente sem um suprimento qualquer de ficção que criamos ou consumimos, e qualquer criança sabe disso e já fez seus pais ficarem sabendo. Desde muito cedo.

O que aponta de mais divertido na estória aí de cima é o estabelecimento claríssimo de leis de coerência interna. Um tipo de verossimilhança muito mais adequado a nossos tempos do que aquela que os gregos e eventualmente nossos professores de escolinha quiseram nos incutir, em que a arte deve ser condizente com a vida que a gera.

O Super-homem voa. Mas o super-homem não lê pensamentos. Se em alguma estória Bob Kane tivesse feito seu herói conhecer previamente as idéias de um bandido com seu poder paranormal teria sido, merecidamente, rejeitado por seus leitores. Funes, o memorioso, não solta raios de laser pelos punhos. Leopold Bloom pode voar fugindo de um ciclope enquanto vagueia por Dublin, mas não aceitaríamos que ele entrasse no mundo do realismo mágico e se visse acompanhado por um velho com umas asas enormes enquanto volta para casa.

Em tempos pós, super, infra ou ultra realistas a situação é claramente mais parecida com aquela que os relatos das crianças poderiam ter nos mostrado desde o início: cada texto estabelece sozinho suas regras de boa-conduta. Cada texto cria seu mundo necessariamente coerente, e em função dos desvios injustificados dessa regra que ele mesmo institui pode e merece ser julgado como falho em sua "verossimilhança".

Nenhum dos dois passos costuma ser fácil, seja para o leitor em seu caminho dos textos mais singelos aos mais exigentes, seja para o pobre do aluninho de literatura na universidade. Primeiro, para alguns, questionar a verossimilhança clássica como único possível registro em torno dos quais se estruturem os textos literários. Segundo, reconhecer as falhas nos textos de qualidade menor, especialmente quando buscam se apoiar na primeira liberdade mencionada acima.

Mas convenhamos, as parlendas, as brincadeiras de ficção, a literatura das HQs, já haviam feito isso muito tempo antes com a cabeça do tal aluno-leitor.

Por que a dita Literatura Séria parece ainda precisar de tanta firula e de tanta solenidade, que acarretam aleijões narrativos que uma criança de 4 aninhos e meio, perfeitamente normal, pode se gabar de jamais ter conhecido, é já um problema que cabe, certamente, mais como pergunta aos professores e aos "literatos". Talvez pela mesma razão porque, ao ganhar de mim semana passada dois livrinhos de história da arte no Brasil no século XX, dona Biba tenha preferido o segundo volume, sobre a metade mais recente do século, quando quase todos os adultos ignorantes em artes plásticas como ela teriam preferido o primeiro, de pintores figurativistas, cheio de retratos, naturezas mortas e paisagens. Mas à cabecinha privilegiada de nem mesmo cinco aninhos parecia óbvio que os emaranhados de cores e formas dos abastracionistas, os penetráveis de Oiticica e os bichos de Lígia Clarck eram muito mais legais.

Não sei.

Tenho dito.

Volto a isso semana que vem. Em companhia de Euterpe, sincretizada na santíssima Cecília! .

Caetano Waldrigues Galindo, 28, é professor de Filologia Românica e História da Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná, e escreve muito regularmente nessa coluna.

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