|
Qvod licet
(Fazia
já tempo que eu não sapecava um título pernóstico em latim. No entanto
agora eu sou mais outro, e traduzo: o que é permitido)
Dona
Biba me contou:
Estavam
ela e a Lindsay (Ah, a onomástica desbragada do Brasil..) na escola,
calmamente brincando de dirigir seu carrinho, naquele momento latarificado
no prosaico trepa-trepa do Cantinho do Céu. Murilo, mais que safardanas,
estava à espreita, ansioso por participar também dos jogos, mas
sem obter a necessária permissão de inclusão por parte de uma das
legígeras participantes. No que abandonam as duas a viatura, apercebem-se,
por cima de seus pequenos ombrinhos, que o insidioso não só se apoderara
do veículo, como ainda fazia força, e causava estrépito, intentando
ser notado.
O problema
é que as duas, ostensivamente, ao largar o brinquedo tinham tomado
uma providência sagaz para evitar tal incômodo e revolução, pois
esvaziaram o tanque do automóvel!
"Cê
aquidita, papai, dirigi um carro sem gasulina!?" E as duas seguiram
afetando nem o ver, pois que ele não existia dentro de suas regras
de verossimilhança.
*
Somos
seres narrantes. Não podemos viver decentemente sem um suprimento
qualquer de ficção que criamos ou consumimos, e qualquer criança
sabe disso e já fez seus pais ficarem sabendo. Desde muito cedo.
O que
aponta de mais divertido na estória aí de cima é o estabelecimento
claríssimo de leis de coerência interna. Um tipo de verossimilhança
muito mais adequado a nossos tempos do que aquela que os gregos
e eventualmente nossos professores de escolinha quiseram nos incutir,
em que a arte deve ser condizente com a vida que a gera.
O Super-homem
voa. Mas o super-homem não lê pensamentos. Se em alguma estória
Bob Kane tivesse feito seu herói conhecer previamente as idéias
de um bandido com seu poder paranormal teria sido, merecidamente,
rejeitado por seus leitores. Funes, o memorioso, não solta raios
de laser pelos punhos. Leopold Bloom pode voar fugindo de um ciclope
enquanto vagueia por Dublin, mas não aceitaríamos que ele entrasse
no mundo do realismo mágico e se visse acompanhado por um velho
com umas asas enormes enquanto volta para casa.
Em
tempos pós, super, infra ou ultra realistas a situação é claramente
mais parecida com aquela que os relatos das crianças poderiam ter
nos mostrado desde o início: cada texto estabelece sozinho suas
regras de boa-conduta. Cada texto cria seu mundo necessariamente
coerente, e em função dos desvios injustificados dessa regra que
ele mesmo institui pode e merece ser julgado como falho em sua "verossimilhança".
Nenhum
dos dois passos costuma ser fácil, seja para o leitor em seu caminho
dos textos mais singelos aos mais exigentes, seja para o pobre do
aluninho de literatura na universidade. Primeiro, para alguns, questionar
a verossimilhança clássica como único possível registro em torno
dos quais se estruturem os textos literários. Segundo, reconhecer
as falhas nos textos de qualidade menor, especialmente quando buscam
se apoiar na primeira liberdade mencionada acima.
Mas
convenhamos, as parlendas, as brincadeiras de ficção, a literatura
das HQs, já haviam feito isso muito tempo antes com a cabeça do
tal aluno-leitor.
Por
que a dita Literatura Séria parece ainda precisar de tanta firula
e de tanta solenidade, que acarretam aleijões narrativos que uma
criança de 4 aninhos e meio, perfeitamente normal, pode se gabar
de jamais ter conhecido, é já um problema que cabe, certamente,
mais como pergunta aos professores e aos "literatos". Talvez pela
mesma razão porque, ao ganhar de mim semana passada dois livrinhos
de história da arte no Brasil no século XX, dona Biba tenha preferido
o segundo volume, sobre a metade mais recente do século, quando
quase todos os adultos ignorantes em artes plásticas como ela teriam
preferido o primeiro, de pintores figurativistas, cheio de retratos,
naturezas mortas e paisagens. Mas à cabecinha privilegiada de nem
mesmo cinco aninhos parecia óbvio que os emaranhados de cores e
formas dos abastracionistas, os penetráveis de Oiticica e os bichos
de Lígia Clarck eram muito mais legais.
Não
sei.
Tenho
dito.
Volto
a isso semana que vem. Em companhia de Euterpe, sincretizada na
santíssima Cecília! .
Caetano
Waldrigues Galindo, 28, é professor de Filologia Românica e História
da Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná, e escreve
muito regularmente nessa coluna.
[email protected]
|