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Um
mal-des-siècles
O
senso-comum, a opinião do Joãozinho da Esquina, é freqüentemente
um entrave e uma censura para o trabalho da ciência. E especialmente
para que o trabalho introvertido e solitário dos pesquisadores possa
encontrar o trânsito que mereça e, assim, justificar aqueles esforços,
modificando, de fato, as relações interpessoais ou entre as pessoas
e a realidade: mudando o mundo mesmo. Sabe como?
Costumo
exagerar um pouco nosso drama particular quando falo com meus alunos,
e digo que nenhuma ciência além da física pode lamentar um embate
tão acirrado com as opiniões pré-concebidas e estabilíssimas da
população quanto a lingüística, teórica e mesmo descritiva. Pois
exatamente como no caso da física, o problema é que a realidade
de que trata a lingüística (o uso da linguagem, sua natureza, suas
características) é de trato cotidiano para todos nós. Vivemos num
mundo regido por leis físicas, e vivemos esse mundo por meio do
instrumento privilegiado e exclusivo que é a linguagem humana.
O fato de as úlceras serem causadas por bactérias, e não por estresse,
como se julgava até há pouco, diz respeito especialmente aos médicos
e aos pacientes com úlcera; noções sobre a linguagem e especialmente
sobre as línguas que falamos afetam a todos. E todos nos sentimos
autorizados a dar palpites sobre algo com que convivemos desde que
nos conhecemos por gente. Diga-se de passagem, algo que faz com
que nos conheçamos por gente.
Pois
bem. Relata meu orientador de doutorado que ouviu, durante uma entrevista
com um diplomata aposentado, interessado em aprender línguas, a
seguinte afirmação, da boca do senhor Jô Soares (que é um homem
muito culto): É verdade que você aprendeu muitas línguas africanas,
mas também é verdade que devemos reconhecer que estas línguas são
muito primitivas, porque, por exemplo, elas têm muitas vogais.
Posso imaginar neguinho que viu o programa sair arrotando isso na
primeira oportunidade que surgir, para qualquer fim. Pois Jô Soares
é um homem muito culto: pode-se mesmo citar a fonte de uma informação
dessas em uma mesa de bar, como juízo de autoridade.
Por
tudo o que eu já disse até aqui, mesmo o mais inocente dos leitores
já teria imaginado, mas não custa dizê-lo com todas as letrinhas,
mesmo porque me proporciona grande prazer! A afirmação do senhor
José Eugênio é de rematada estupidez. Algo de uma pessoa que é incapaz
de ostentar qualquer traço de conhecimento de tudo o que a lingüística
elaborou pelo menos desde o final do século XIX. Alguém que, portanto,
deve ignorar também a relatividade, a mecânica quântica, o big-bang,
as supercordas e quejandas. Mas Jô Soares é um homem muito culto.
Pois
vejamos. Muita vogal é coisa estranha.. Será que o homem estava
falando de inventário fonológico, ou seja com quantas vogais diferentes
conta cada língua? Bom, o francês, língua em que foi educado o muito
culto senhor Jô Soares, conta com 19 vogais diferenciadas em sua
pronúncia padrão, entre vogais orais e nasais. Língua primitiva
a não mais poder!
Mas acho que não, ele estava falando de línguas com poucas consoantes
em suas palavras, não é? Ótimo, haveremos de entregar ao mundo eslavo
a palma dos mais evoluídos da civilização ocidental. Sugiro aliás,
se me for permitido, que a entrega do prêmio se dê na cidade croata
de Krk, último bastião do desenvolvimento intelectual humano. Ora
venhamos, o mesmo conceito língua africana é coisa muitas vezes
mais imprecisa do que seria o terminologicamente inútil língua européia.
Há famílias e famílias e famílias de línguas na África. Todas presumivelmente
atrasadíssimas e cheias de vogais. Pois Jô Soares é um homem muito
culto.
A
estupidez dói na cara de todos os que trabalham a sério com lingüística,
e que acreditam que esse campo ainda pode se ver livre de preconceitos
e verdades acientíficas. Mas dói em qualquer um com um pouco de
bom-senso a percepção de que esse tipo de asneira vai-se ver sempre
dirigido precisamente contra a África.
É tudo parte de um mesmo saco: desde o proverbial aluno que contesta
o número de línguas existentes no mundo dizendo que "aquelas da
África são todas dialetos", passando pela noção prepóstera
de que pode haver línguas primitivas (ou pior, famílias de línguas
primitivas e, pior, que essa característica se imprima na fonologia!),
até o jornalista da revista Veja da semana passada que, ao contrário
da nobilíssima exceção da Gazeta do Povo, que nos acostumamos a
enxovalhar, publicou um textinho medíocre sobre a situação atual
de Ruanda e, mais uma vez, se dignou a pôr na conta de subdesenvolvidas
guerras tribais o maldito genocídio organizado, planejado e
friamente levado a cabo em 94.
Germânicos
e Hebreus são também nomes de tribos, mas esse holocausto ninguém
vai querer desclassificar como mera e endêmica guerra tribal. Assim
como ninguém vai atribuir a um motivo desses a conduta espúria,
podre e perversa de Paris durante o massacre dos Tútsis a um antigo
ódio desenvolvido entre estes e a tribo dos frâncicos, entupidos
de vogais que são..
Caetano
Waldrigues Galindo, 28, é professor de Filologia Românica e História
da Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná, e escreve
muito regularmente nessa coluna.
[email protected]
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