Edição de 26.8 a 2.9.2002



:: COLUNISTAS ::

André Tezza Consentino
Bob Marochi
Caetano Galindo
Rosiane C. de Freitas
Rogerio W. Galindo



Um mal-des-siècles

O senso-comum, a opinião do Joãozinho da Esquina, é freqüentemente um entrave e uma censura para o trabalho da ciência. E especialmente para que o trabalho introvertido e solitário dos pesquisadores possa encontrar o trânsito que mereça e, assim, justificar aqueles esforços, modificando, de fato, as relações interpessoais ou entre as pessoas e a realidade: mudando o mundo mesmo. Sabe como?

Costumo exagerar um pouco nosso drama particular quando falo com meus alunos, e digo que nenhuma ciência além da física pode lamentar um embate tão acirrado com as opiniões pré-concebidas e estabilíssimas da população quanto a lingüística, teórica e mesmo descritiva. Pois exatamente como no caso da física, o problema é que a realidade de que trata a lingüística (o uso da linguagem, sua natureza, suas características) é de trato cotidiano para todos nós. Vivemos num mundo regido por leis físicas, e vivemos esse mundo por meio do instrumento privilegiado e exclusivo que é a linguagem humana.
O fato de as úlceras serem causadas por bactérias, e não por estresse, como se julgava até há pouco, diz respeito especialmente aos médicos e aos pacientes com úlcera; noções sobre a linguagem e especialmente sobre as línguas que falamos afetam a todos. E todos nos sentimos autorizados a dar palpites sobre algo com que convivemos desde que nos conhecemos por gente. Diga-se de passagem, algo que faz com que nos conheçamos por gente.

Pois bem. Relata meu orientador de doutorado que ouviu, durante uma entrevista com um diplomata aposentado, interessado em aprender línguas, a seguinte afirmação, da boca do senhor Jô Soares (que é um homem muito culto): É verdade que você aprendeu muitas línguas africanas, mas também é verdade que devemos reconhecer que estas línguas são muito primitivas, porque, por exemplo, elas têm muitas vogais.
Posso imaginar neguinho que viu o programa sair arrotando isso na primeira oportunidade que surgir, para qualquer fim. Pois Jô Soares é um homem muito culto: pode-se mesmo citar a fonte de uma informação dessas em uma mesa de bar, como juízo de autoridade.

Por tudo o que eu já disse até aqui, mesmo o mais inocente dos leitores já teria imaginado, mas não custa dizê-lo com todas as letrinhas, mesmo porque me proporciona grande prazer! A afirmação do senhor José Eugênio é de rematada estupidez. Algo de uma pessoa que é incapaz de ostentar qualquer traço de conhecimento de tudo o que a lingüística elaborou pelo menos desde o final do século XIX. Alguém que, portanto, deve ignorar também a relatividade, a mecânica quântica, o big-bang, as supercordas e quejandas. Mas Jô Soares é um homem muito culto.

Pois vejamos. Muita vogal é coisa estranha.. Será que o homem estava falando de inventário fonológico, ou seja com quantas vogais diferentes conta cada língua? Bom, o francês, língua em que foi educado o muito culto senhor Jô Soares, conta com 19 vogais diferenciadas em sua pronúncia padrão, entre vogais orais e nasais. Língua primitiva a não mais poder!
Mas acho que não, ele estava falando de línguas com poucas consoantes em suas palavras, não é? Ótimo, haveremos de entregar ao mundo eslavo a palma dos mais evoluídos da civilização ocidental. Sugiro aliás, se me for permitido, que a entrega do prêmio se dê na cidade croata de Krk, último bastião do desenvolvimento intelectual humano. Ora venhamos, o mesmo conceito língua africana é coisa muitas vezes mais imprecisa do que seria o terminologicamente inútil língua européia. Há famílias e famílias e famílias de línguas na África. Todas presumivelmente atrasadíssimas e cheias de vogais. Pois Jô Soares é um homem muito culto.

A estupidez dói na cara de todos os que trabalham a sério com lingüística, e que acreditam que esse campo ainda pode se ver livre de preconceitos e verdades acientíficas. Mas dói em qualquer um com um pouco de bom-senso a percepção de que esse tipo de asneira vai-se ver sempre dirigido precisamente contra a África.
É tudo parte de um mesmo saco: desde o proverbial aluno que contesta o número de línguas existentes no mundo dizendo que "aquelas da África são todas dialetos", passando pela noção prepóstera de que pode haver línguas primitivas (ou pior, famílias de línguas primitivas e, pior, que essa característica se imprima na fonologia!), até o jornalista da revista Veja da semana passada que, ao contrário da nobilíssima exceção da Gazeta do Povo, que nos acostumamos a enxovalhar, publicou um textinho medíocre sobre a situação atual de Ruanda e, mais uma vez, se dignou a pôr na conta de subdesenvolvidas guerras tribais o maldito genocídio organizado, planejado e friamente levado a cabo em 94.

Germânicos e Hebreus são também nomes de tribos, mas esse holocausto ninguém vai querer desclassificar como mera e endêmica guerra tribal. Assim como ninguém vai atribuir a um motivo desses a conduta espúria, podre e perversa de Paris durante o massacre dos Tútsis a um antigo ódio desenvolvido entre estes e a tribo dos frâncicos, entupidos de vogais que são..

Caetano Waldrigues Galindo, 28, é professor de Filologia Românica e História da Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná, e escreve muito regularmente nessa coluna.

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