Edição de 12.8 a 18.8.2002



:: COLUNISTAS ::

André Tezza Consentino
Bob Marochi
Caetano Galindo
Rosiane C. de Freitas
Rogerio W. Galindo



Curtura

Cristóvão Tezza, um dos maiores nomes da literatura paranaense hoje, faz cinqüenta em fins de agosto. Por causa disso, as homenagens e tributos se multiplicam. Isso não nos impediu de ter uma conversa algo amarga sobre literatura na semana passada. Ele, o escritor estabelecido, e eu, o poeta amador.

Tudo começou por causa de Paulo Coelho, na semana de sua imortalização. Mas não tinha muito que ver com isso, diretamente. Cês vão ver. Vamos começar por uns dados marginais.

*

João Cabral de Melo Neto, nosso maior poeta depois do Bandeira, disse numa entrevista que tinha se sentido profundamente homenageado em uma certa vez, quando a recepcionista de uma companhia aérea com quem comprava uma passagem lhe perguntou: o senhor é aquele João Cabral de Mello Neto? E, ao receber a confirmação, se desmanchou em elogios ao poeta.
Afinal, essas coisas fazem valer a pena: o fato de você ter feito diferença na vida de alguém.

Já estive, mesmo fora de Curitiba, ao lado do Cristóvão, e já vi grupos de menininhas no interior do Paraná vindo pedir emocionadas para tirar uma foto ao lado dele. Imaginei o que ele deve ter sentido. Quando alguém elogia uma das minhas coisas publicadas eu já fico feliz pra caralho.. A gente até acredita, aí, que literatura faz mesmo diferença. Ao menos na vida das pessoas.

*

Li antes de ontem a Casa dos Budas Ditosos, romance que João Ubaldo Ribeiro escreveu por encomenda, em quinze dias, para a série Plenos Pecados, da Objetiva. O livro, que nem não é tudo isso não, já vendeu mais de 150.000 exemplares. Coisa capaz de comprar um belo apartamento só em direitos autorais. Mesmo no Rio de Janeiro, onde mora o autor.

Marcante, especialmente para quem, na orelha do livro, era anunciado como autor do best seller Viva o Povo Brasileiro (esse sim do balaco), que tinha vendido até então, em coisa de vinte anos, 120.000.

Números? A reportagem da revista Época que celebrava descaradamente a escolha de Paulo Coelho para a ABL gritava: Edições em 155 países! Traduções em 56 idiomas! 37 milhões exemplares vendidos de apenas um livro, O Alquimista! Caraca, o homem é um esplendor!

*

Tudo isso parece apontar para alguma serventia e impacto, emocional e financeiro, qualitativo e quantitativo da literatura, mesmo em nossos dias de hoje, não? Mas foi bem daí, dos dados de Paulo Coelho, que partiu nossa conversa.
Porque convenhamos, meninos e meninas, 37 milhões de livros, com, digamos, 80 milhões de efetivos leitores presumidos (otimisticamente) roça mais ou menos no público de uma noite ruim da novela da Jade. É gente pra dedéu, mas não é o que parece.

Eu, muito puto, dizia, Cristóvão, literatura não serve mesmo pra nada.. Ele, do ramo, dizia, Caetano, crítica literária não presta serviço público algum; esse homem se fez contra toda a crítica.

De um jeito ou de outro, o saldo não é lá muito positivo..

*

Aí outra estória, que tirei do livro Season of Blood:

Um irlandês viaja por Ruanda durante o genocídio, cobrindo tudo para a BBC. Ao saber qual era sua vinculação, seu guia, um soldado do exército rebelde que ocupava o país para parar a matança, lhe faz apenas um pedido: Pede pra tocar One More Night, do Phill Collins, no rádio. Eu adoro essa música. Ouço a BBC todo dia, e vou estar esperando..

*

No meio da África. No meio de uma matança que exterminava quase dez por cento da população de um país com 27.000 quilômetros quadrados. No meio do nada.

*

Mas música pop não vale nada. Dizem alguns..

*

Ela pode não mudar a vida de ninguém, como talvez tenham feito o Cristóvão, o João Cabral e o João Ubaldo. Mas deixou sua marca, muito funda, em gente que jamais pode saber da existência dos maiores clássicos da literatura. Sei lá.
Ao mesmo tempo o repórter irlandês levou consigo para o caos sua ediçãozinha de bolso dos poemas de Yeats. Sei lá.
Há que se deixar de mitificar uns e demolir outros.
Cada coisa em seu lugar.
Sei lá.

*

Leiam o Mainardi. Na veja dessa semana.
E se divirtam.

Caetano Waldrigues Galindo, 28, é professor de Filologia Românica e História da Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná, e escreve muito regularmente nessa coluna.

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