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Scientia
Começo
com uma estória.
A estória de Rubem Polaco, que Deus o tenha em sua santa e alta
paz, caminhoneiro havido por todos, e sobretudo por si mesmo tido
na conta de homem muito bonito. Ouvi a narrativa de sua morte incrível
e dolorosa, acontecida há décadas, e a ouvi contada com uma riqueza
e uma vivacidade que não tento repetir. Acaba que Rubem, batendo
o caminhão que levava bobinas de papel, foi ejetado da cabine por
sua carga que a esmagou, rolando por cima dela. Tudo isso para deixá-lo
misteriosamente ileso, caído no chão, na estrada em aclive em frente
ao caminhão. Protegido inexplicavelmente da passagem do rolo que
destruíra seu carro, ele, levantando, viu descerem as bobinas pelo
asfalto, rumo seu, e por elas foi esmagado contra a lataria do que
restava da cabine. Destruído da barriga para baixo. Rubem Polaco,
homem muito bonito, acabou-se. E acabou sua vida pedindo a um companheiro
que o matasse com um tiro, que a dor era tanta. Só não atira no
rosto, pedia, deixa inteiro pro velório.
*
Me
faltam totalmente razões para desconfiar da veracidade da estória.
Mesmo por quê, levando-se em conta o que conheço da filha do homem
que me contou, ele deve ser ruim de mentira.
Acho
que já andei falando por aqui, tem tempo, de um texto meu favorito.
É do velho Pirandello, fez minha cabeça nos meus dezenove anos,
e se chama Advertência sobre os Escrúpulos da Fantasia. Tem uma
mensagem muito clara: tome cuidado com o que você cobra de maldita
verossimilhança na literatura ou nas artes em geral; temos muito
mais cuidado em observá-la e mantê-la nesses registros, do que a
vida Real jamais teve. A vida, por ser real, se dá freqüentemente
ao luxo da inverossimilhança.
O biólogo
J.B.S. Haldane sintetizou em uma só frase, muito citada, o espírito
de todo o texto de Pirandello, agora estendido definitivamente para
além da literatura e da arte: O mundo não é apenas mais estranho
do que imaginamos; é mais estranho do que podemos imaginar.
Essas
idéias levam à consideração inequívoca de que é necessário manter
olhos de ver e ouvidos de ouvir, abertos e dispostos a acreditar
no inversossímil. Como no entanto essa prescrição pode vir a se
fazer acompanhar da necessidade de ceticismo que em outro texto
recente andei defendendo?
Esse
balanço é exatamente a característica mais singular e mais delicada
do que vocês podem ver descrito e citado como o "método científico".
É assim mesmo que se faz ciência, esse conjunto de crenças organizado
que, segundo os místicos e teóricos da Nova Era, nós, humanos pretensiosos,
levamos a sério demais.
Pois
se, ao contrário de se tratar de uma estória isolada e incrível,
um fato estranho se transforma em regularidade, não é mais a disposição
a crer no improvável que age, mas sim a necessidade de, um, a partir
de agora verificar as fontes de informação e, dois, formalizar uma
teoria coerente que explique a recorrência.
Assim,
se nos últimos trinta anos, tivesse havido quatro dezenas de relatos
de mortes de caminhoneiros exatamente iguais à de Rubem Polaco,
não seria nada mais que razoável que nós primeiramente passássemos
a desconfiar da veracidade das fontes, que poderiam ter-se contaminado
pela narrativa inicial, gerando folclore, e, se verificada sua autenticidade,
tentássemos descobrir o que é que havia na mecânica e na constituição
desses caminhões que permitia e propiciava que tal fato ocorresse
repetidamente. Só assim poderíamos, inclusive, salvar outras vidas.
Mas seria fundamental que as estórias fossem comprovadas como verdadeiras
e, em seguida, que os acidentes fossem reproduzidos (crash tests)
em condições controladas para que pudéssemos buscar entendê-los
com esses nossos cérebros pernósticos, diria Paulo Coelho. Certo?
No
entanto, décadas de relatos de abduções por alienígenas, ou de fenômenos
telecinéticos ou telepáticos continuam resistindo, intestados, no
sistema de crenças de algumas pessoas. Coisas como a acupuntura,
por exemplo, estão em um estágio intermediário: já se verificou
e comprovou a existência de seus efeitos, mas ainda não sabemos
exatamente como ela funciona.
Cientistas,
céticos, não são pessoas mal-humoradas que negam tudo o que não
compreendem, como diriam os duendes. São apenas gente prudente que,
louca para acreditar em algo novo e diferente, pede apenas que se
lhes dê algo de concreto e, de momento, irrefutável: intelligo ut
credam, compreendo para crer, dizia o religioso Tomás de Aquino,
nada avesso ao maravilhoso e ao desconhecido, exatamente como biólogos,
físicos e médicos. Só não assinam cheque em branco.
*
O
astrofísico Carl Sagan dizia --ao contrário do que se possa pensar:
que a crença, digamos, na cromoterapia, ou em outras panacéias alternativas,
não afeta ninguém além de seus praticantes-- que ela tem sim um
potencial deletério. Porque quem acredita nisso tende a acreditar
também em outro tipo de informação não-provada. Reparem na recorrência
do tipo, entre os conhecidos..
Tudo
pode ser possível, especialmente como ocorrência isolada.
Sistemas de crenças novos, no entanto, têm de ser testados e testáveis.
Têm de se basear em algo mais que teorias conspiratórias e dados
singulares. O resto é religião.
E aí o resto é silêncio, no velório do Polaco.
Caetano
Waldrigues Galindo, 28, é professor de Filologia Românica e História
da Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná, e escreve
muito regularmente nessa coluna.
[email protected]
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