Edição de 05.8 a 11.8.2002



:: COLUNISTAS ::

André Tezza Consentino
Bob Marochi
Caetano Galindo
Rosiane C. de Freitas
Rogerio W. Galindo



Scientia

Começo com uma estória.
A estória de Rubem Polaco, que Deus o tenha em sua santa e alta paz, caminhoneiro havido por todos, e sobretudo por si mesmo tido na conta de homem muito bonito. Ouvi a narrativa de sua morte incrível e dolorosa, acontecida há décadas, e a ouvi contada com uma riqueza e uma vivacidade que não tento repetir. Acaba que Rubem, batendo o caminhão que levava bobinas de papel, foi ejetado da cabine por sua carga que a esmagou, rolando por cima dela. Tudo isso para deixá-lo misteriosamente ileso, caído no chão, na estrada em aclive em frente ao caminhão. Protegido inexplicavelmente da passagem do rolo que destruíra seu carro, ele, levantando, viu descerem as bobinas pelo asfalto, rumo seu, e por elas foi esmagado contra a lataria do que restava da cabine. Destruído da barriga para baixo. Rubem Polaco, homem muito bonito, acabou-se. E acabou sua vida pedindo a um companheiro que o matasse com um tiro, que a dor era tanta. Só não atira no rosto, pedia, deixa inteiro pro velório.

*

Me faltam totalmente razões para desconfiar da veracidade da estória. Mesmo por quê, levando-se em conta o que conheço da filha do homem que me contou, ele deve ser ruim de mentira.

Acho que já andei falando por aqui, tem tempo, de um texto meu favorito. É do velho Pirandello, fez minha cabeça nos meus dezenove anos, e se chama Advertência sobre os Escrúpulos da Fantasia. Tem uma mensagem muito clara: tome cuidado com o que você cobra de maldita verossimilhança na literatura ou nas artes em geral; temos muito mais cuidado em observá-la e mantê-la nesses registros, do que a vida Real jamais teve. A vida, por ser real, se dá freqüentemente ao luxo da inverossimilhança.

O biólogo J.B.S. Haldane sintetizou em uma só frase, muito citada, o espírito de todo o texto de Pirandello, agora estendido definitivamente para além da literatura e da arte: O mundo não é apenas mais estranho do que imaginamos; é mais estranho do que podemos imaginar.

Essas idéias levam à consideração inequívoca de que é necessário manter olhos de ver e ouvidos de ouvir, abertos e dispostos a acreditar no inversossímil. Como no entanto essa prescrição pode vir a se fazer acompanhar da necessidade de ceticismo que em outro texto recente andei defendendo?

Esse balanço é exatamente a característica mais singular e mais delicada do que vocês podem ver descrito e citado como o "método científico". É assim mesmo que se faz ciência, esse conjunto de crenças organizado que, segundo os místicos e teóricos da Nova Era, nós, humanos pretensiosos, levamos a sério demais.
Pois se, ao contrário de se tratar de uma estória isolada e incrível, um fato estranho se transforma em regularidade, não é mais a disposição a crer no improvável que age, mas sim a necessidade de, um, a partir de agora verificar as fontes de informação e, dois, formalizar uma teoria coerente que explique a recorrência.

Assim, se nos últimos trinta anos, tivesse havido quatro dezenas de relatos de mortes de caminhoneiros exatamente iguais à de Rubem Polaco, não seria nada mais que razoável que nós primeiramente passássemos a desconfiar da veracidade das fontes, que poderiam ter-se contaminado pela narrativa inicial, gerando folclore, e, se verificada sua autenticidade, tentássemos descobrir o que é que havia na mecânica e na constituição desses caminhões que permitia e propiciava que tal fato ocorresse repetidamente. Só assim poderíamos, inclusive, salvar outras vidas.
Mas seria fundamental que as estórias fossem comprovadas como verdadeiras e, em seguida, que os acidentes fossem reproduzidos (crash tests) em condições controladas para que pudéssemos buscar entendê-los com esses nossos cérebros pernósticos, diria Paulo Coelho. Certo?

No entanto, décadas de relatos de abduções por alienígenas, ou de fenômenos telecinéticos ou telepáticos continuam resistindo, intestados, no sistema de crenças de algumas pessoas. Coisas como a acupuntura, por exemplo, estão em um estágio intermediário: já se verificou e comprovou a existência de seus efeitos, mas ainda não sabemos exatamente como ela funciona.

Cientistas, céticos, não são pessoas mal-humoradas que negam tudo o que não compreendem, como diriam os duendes. São apenas gente prudente que, louca para acreditar em algo novo e diferente, pede apenas que se lhes dê algo de concreto e, de momento, irrefutável: intelligo ut credam, compreendo para crer, dizia o religioso Tomás de Aquino, nada avesso ao maravilhoso e ao desconhecido, exatamente como biólogos, físicos e médicos. Só não assinam cheque em branco.

*

O astrofísico Carl Sagan dizia --ao contrário do que se possa pensar: que a crença, digamos, na cromoterapia, ou em outras panacéias alternativas, não afeta ninguém além de seus praticantes-- que ela tem sim um potencial deletério. Porque quem acredita nisso tende a acreditar também em outro tipo de informação não-provada. Reparem na recorrência do tipo, entre os conhecidos..

Tudo pode ser possível, especialmente como ocorrência isolada. Sistemas de crenças novos, no entanto, têm de ser testados e testáveis. Têm de se basear em algo mais que teorias conspiratórias e dados singulares. O resto é religião.
E aí o resto é silêncio, no velório do Polaco.

Caetano Waldrigues Galindo, 28, é professor de Filologia Românica e História da Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná, e escreve muito regularmente nessa coluna.

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