Edição de 19.8 a 25.8.2002



:: COLUNISTAS ::

André Tezza Consentino
Bob Marochi
Caetano Galindo
Rosiane C. de Freitas
Rogerio W. Galindo



Race with the devil

Você sabe o que é correr contra o diabo? Ou bater-se com um fantasma? Tentar vencê-lo?
Tudo isso viu-se na pacata metrópole de Curitiba, na semana que se foi. (Este texto não é uma resenha)

Praeambula:
Nigel North é um violonista inglês interessado em reconstrução arqueológica.
A quem não é do ramo: o acima é palavrório por nomear aqueles que acreditam que música antiga deve ser feita em instrumentos, e condições, antigos; ou o mais próximos. Tudo coisa muito séria, gente toda muito sorumbática. De vezes dá na trave, e é mais nada que o resto. De outras sai bonito; como tudo.
Tocando as Variações sobre um tema de Mozart de Fernando Sor é uma grandeza. Antes dele nunca tinha imaginado que essa música tão sovina convencional friinha e saltitante pudesse ser algo mais que documento do estado de decomposição do neolítico musical.

A prova de que um elo na corrente pode salvar ao menos a aparência. Música fraca de um compositor menoríssimo, instrumento pouco privilegiado por tradição e recursos. Um intérprete, a mão de um geninho, e tudo anda liso e belo.

Meu colega Luís, que respeita januário e que eu respeito sobejo, acha que essa é uma vantajona da música pop: que um arranjo bom, um bom intérprete, mesmo uma produção talentosa podem salvar uma canção. QED, talvez nem não seja só lá.
E eu olhei, e achei que isso era bom. Quem nunca ficou ouvindo uma merda no rádio só porque tinha um som de bateria diferente e legal que atire a primeira pedra. E eu já sei que tu não é músico, coisa safada.

E agora para algo completamente diferente: Otezto! Arnaldo Antunes tocou quinta no Canal da Música. Foi legal; o cara é bom de palco e, como autor, quando acerta acerta mesmo. Erra feio também, mas a imagem geral é muito boa.
Das coisas bonitas que ele fez, contudo, duas se destacam. Pois o home saiu dos Titãs bem a tempo e, depois disso, se fez acompanhar de muito bons músicos. Incluindo um daquele tipo lá de cima, que tudo o que toca faz em oiro virar.
(Nota de interruptor: meu maumor me faz não poder deixar de dizer que, na hora em que largou aquela que vinha se firmando como a melhor banda do Brasil, que tocou em seus primeiros discos, e foi-se meter com o Carlinhos Brown.. Quem viu, viu no que deu.)

Viu-se um show bacana, no fim das contas, no Canal. Mas o que me ficou foi uma sensação de brochada. O que eu vi ali foi um agon. A batalha de um tal pobre Chico Salem contra a sombra longa de seu Edgar Scandurra, o melhor guitarrista de rock do Brasil, no achar de qualquer um que valha a pena de se achar.
O homem até que tentou, sabe? E no meio tempo desfiou todo o arsenal de biquinhos e carantonhas do rock star. E era bem apessoado o gajo. Mas a nota amarga da ausência dominou o show todo. Especialmente porque a coisa era em trio, mais ou menos o quarteto de cordas da música pop: muita responsabilidade e muita possibilidade de êxito momentoso e fracasso vergonhoso.
Caberia ao guitarrista, nessa situação, carregar o caminhão de encher toda a cozinha com tudo o que estava no disco, e que no disco tinha sido devidamente scandurrado. Cumpre ser criativo em sonoridades, padrões ritmícos e harmônicos. Cabe evitar a comparação com o disco, muito mais instrumentado, e impor uma marca. Tudo o que aquele que é, ao mesmo tempo, o pior letrista do mundo, sabe fazer como o dianho, com sua guitarrinha invertida: canhoto como o dianho.
Quer duvidar? Ouça a melancolicamente ruim Entre seus rins, que a fraca banda que é o Ira! de hoje lançou recentemente. Ao menos os guitarristas sei que ouvem apesar.

E chiquinho sucumbiu. Tentando enfrentar a presença do pai-de-todos, seu-vizinho quis mesmo contrariá-lo em suas escolhas. E não rolou.

--Mas e, Caetaninho querido, o que é que você queria com toda essa litania?
-- cf: parágrafo monumental conclusivo, que não se faz esperar mais.

Pois que a derrota de chiquinho nos há de encher de esperança, meus caros irmãos em Santa Cecília. Haveremos de restar cheios de fé na presença do gênio (e por que haveríamos de recear o emprego de tão ubíquo e desgastado termo justo quando é mais justo?); cheios de ímpeto como só a constatação de sua presença nos faz; cheios de alegria ao confirmar que aqui, ao menos aqui, na terra abençoada por Orfeu e bonita por natureza divina, a presença de um homem, de apenas um homem, pode transformar o medíocre em belo, o belo em sublime. Chegar a deus sendo só homem.

Sabe como?

Cantemos.

Caetano Waldrigues Galindo, 28, é professor de Filologia Românica e História da Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná, e escreve muito regularmente nessa coluna.

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