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Race
with the devil
Você
sabe o que é correr contra o diabo? Ou bater-se com um fantasma?
Tentar vencê-lo?
Tudo isso viu-se na pacata metrópole de Curitiba, na semana que
se foi. (Este texto não é uma resenha)
Praeambula:
Nigel North é um violonista inglês interessado em reconstrução arqueológica.
A quem não é do ramo: o acima é palavrório por nomear aqueles que
acreditam que música antiga deve ser feita em instrumentos, e condições,
antigos; ou o mais próximos. Tudo coisa muito séria, gente toda
muito sorumbática. De vezes dá na trave, e é mais nada que o resto.
De outras sai bonito; como tudo.
Tocando as Variações sobre um tema de Mozart de Fernando
Sor é uma grandeza. Antes dele nunca tinha imaginado que essa música
tão sovina convencional friinha e saltitante pudesse ser algo mais
que documento do estado de decomposição do neolítico musical.
A prova
de que um elo na corrente pode salvar ao menos a aparência. Música
fraca de um compositor menoríssimo, instrumento pouco privilegiado
por tradição e recursos. Um intérprete, a mão de um geninho, e tudo
anda liso e belo.
Meu
colega Luís, que respeita januário e que eu respeito sobejo, acha
que essa é uma vantajona da música pop: que um arranjo bom, um bom
intérprete, mesmo uma produção talentosa podem salvar uma canção.
QED, talvez nem não seja só lá.
E eu olhei, e achei que isso era bom. Quem nunca ficou ouvindo uma
merda no rádio só porque tinha um som de bateria diferente e legal
que atire a primeira pedra. E eu já sei que tu não é músico, coisa
safada.
E agora
para algo completamente diferente: Otezto! Arnaldo Antunes tocou
quinta no Canal da Música. Foi legal; o cara é bom de palco e, como
autor, quando acerta acerta mesmo. Erra feio também, mas a imagem
geral é muito boa.
Das
coisas bonitas que ele fez, contudo, duas se destacam. Pois o home
saiu dos Titãs bem a tempo e, depois disso, se fez acompanhar de
muito bons músicos. Incluindo um daquele tipo lá de cima, que tudo
o que toca faz em oiro virar.
(Nota de interruptor: meu maumor me faz não poder deixar de dizer
que, na hora em que largou aquela que vinha se firmando como a melhor
banda do Brasil, que tocou em seus primeiros discos, e foi-se meter
com o Carlinhos Brown.. Quem viu, viu no que deu.)
Viu-se
um show bacana, no fim das contas, no Canal. Mas o que me ficou
foi uma sensação de brochada. O que eu vi ali foi um agon.
A batalha de um tal pobre Chico Salem contra a sombra longa de seu
Edgar Scandurra, o melhor guitarrista de rock do Brasil, no achar
de qualquer um que valha a pena de se achar.
O homem até que tentou, sabe? E no meio tempo desfiou todo o arsenal
de biquinhos e carantonhas do rock star. E era bem apessoado o gajo.
Mas a nota amarga da ausência dominou o show todo. Especialmente
porque a coisa era em trio, mais ou menos o quarteto de cordas da
música pop: muita responsabilidade e muita possibilidade de êxito
momentoso e fracasso vergonhoso.
Caberia ao guitarrista, nessa situação, carregar o caminhão de encher
toda a cozinha com tudo o que estava no disco, e que no disco tinha
sido devidamente scandurrado. Cumpre ser criativo em sonoridades,
padrões ritmícos e harmônicos. Cabe evitar a comparação com o disco,
muito mais instrumentado, e impor uma marca. Tudo o que aquele que
é, ao mesmo tempo, o pior letrista do mundo, sabe fazer como o dianho,
com sua guitarrinha invertida: canhoto como o dianho.
Quer duvidar? Ouça a melancolicamente ruim Entre seus rins,
que a fraca banda que é o Ira! de hoje lançou recentemente. Ao menos
os guitarristas sei que ouvem apesar.
E chiquinho
sucumbiu. Tentando enfrentar a presença do pai-de-todos, seu-vizinho
quis mesmo contrariá-lo em suas escolhas. E não rolou.
--Mas
e, Caetaninho querido, o que é que você queria com toda essa litania?
-- cf: parágrafo monumental conclusivo, que não se faz esperar
mais.
Pois
que a derrota de chiquinho nos há de encher de esperança, meus caros
irmãos em Santa Cecília. Haveremos de restar cheios de fé na presença
do gênio (e por que haveríamos de recear o emprego de tão ubíquo
e desgastado termo justo quando é mais justo?); cheios de ímpeto
como só a constatação de sua presença nos faz; cheios de alegria
ao confirmar que aqui, ao menos aqui, na terra abençoada por Orfeu
e bonita por natureza divina, a presença de um homem, de apenas
um homem, pode transformar o medíocre em belo, o belo em sublime.
Chegar a deus sendo só homem.
Sabe
como?
Cantemos.
Caetano
Waldrigues Galindo, 28, é professor de Filologia Românica e História
da Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná, e escreve
muito regularmente nessa coluna.
[email protected]
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