Edição de 16.09 a 22.09.2002



:: COLUNISTAS ::

André Tezza Consentino
Bob Marochi
Caetano Galindo
Rosiane C. de Freitas
Rogerio W. Galindo



A redenção

Dessa vez parece que vai. Não vai? Que Lula chega Lá. Dá quase já pra falar em otimismo. Mas, como manda a boa-sorte, nunca não é tão simples assim. E a própria eleição eventual de Lula tem, hoje, motivos pra deixar gente que sempre votou nele com uma infestação de pulgas atrás da orelha. Afinal, estamos em outras companhias, e votar na legenda do PT, mês que vem, ajuda a eleger a bancada do deus do PL. Mas, isso, é assunto pra outra semana.

Nesta, falemos do Garotinho. Afinal, a séria ascensão do homem agora na reta final não deve, não pode ser esquecida. Pois estamos falando não tanto assim de um homem, um particular político populista e nocivo. Na verdade, às vezes acho que são essas mesmas características de Garotinho que o impedem de ser um perigo maior ainda nessa eleição, coisa que conseguiria se encarnasse mais ortodoxamente o figurino que o salvaria: o do político evangélico, ou, mais precisamente, do pregador neopentecostal. Pois é essa figura, não importa se personificada nele ou em outro, que pode e deve dar mais trabalho na próxima eleição. E na próxima.

O neopentecostalismo, se entendido como tento mais pra frente, é certamente o movimento religioso que mais cresce no Brasil e, por uma sua característica central, é intrinsecamente um movimento talhado para "tomar o poder" temporal, político. Pois nomeemos os cordeiros: evangélicos, que para a maioria dos católicos são simplesmente todos os cismáticos pós-luteranos, dividem-se em centenas, milhares de "denominações", com dogmáticas diversas e posturas por vezes opostas. Lutero, ele mesmo um anti-cismático que pretendia reformar, por dentro, a igreja romana, ficaria atordoado com a profusão de novas igrejas que pipoca, semanalmente, em todo o mundo (com o Brasil em lugar de destaque). Pois a própria apostasia luterana, negando a primazia incontestável do bispo de roma, trazia em si o germe do estabelecimento de um movimento paralelo que nunca poderia contar com qualquer estabilidade superimposta. A reforma era uma cisão contra a mononomia de roma: não podia ser diferente.

Dentre eles, os que mais sobressaem hoje são os que juntam a algumas características de todo o movimento reformado inicial (anabatismo, recusa do culto aos santos e da mariolatria) um tipo de misticismo exacerbado e violento, com implicações teológicas radicais (um deus tremendamente diferente do Javé do Antigo Testamento e cada vez mais próximo da figura de Jesus dos Evangelhos que nomeiam o movimento e, mais do que isso, cada vez mais próximo da figura do Jesus revelado. A iminência da epifania, senão da parúsia.).
Defino, para uso pessoal, o neopentecostalismo como mais uma maneira do que uma característica dessas denominações; uma maneira, no fim, de requentar o proselitismo paulino em tudo o que ele tinha de veemente, populista e eficaz. Em alguns sentidos, mais católicos dos que os católicos (Igreja Universal, por exemplo, é uma mera tradução de Ecclesia Catholica), eles buscam reavivar uma chama que definiu o primeiro cristianismo, especialmente depois de pentecostes (o chamado ao apostolado) e depois de Paulo de Tarso (o chamado a uma atitude política).

Como o pai da reforma, o agostiniano Lutero, os neopentecostais provocaram uma contra-reforma. Mas exatamente na proporção em que seu cisma é mais silencioso que o alemão, foi ela também para-oficial, tomando forma no vigor da reação católica carismática (pe. Marcelo Rossi). Mas estes ainda não são uma força política, e talvez jamais sejam, pela própria natureza do catolicismo moderno: uma religião algo apráxica e de muita passividade.

Pois mesmo o protestantismo histórico já trazia elementos que propiciavam uma participação política mais atenta, mais ativa e mais conseqüente. O espírito luterano, e talvez principalmente o calvinista, muito cedo constiruíram uma ética social diversa da católica, como os sociólogos logo perceberam: uma postura em que a busca da salvação da alma não era incompatível com uma preocupação efetiva com a melhoria das condições de vida, financeiras e sociais. O protestantismo não tinha pruridos de buscar a redenção do indivíduo ainda em vida, ainda nessa mera terra de passagem, nesse vale de lágrimas católico. Pois se a igreja católica tem uma importante atividade pastoral comunitária no Brasil de hoje, por exemplo, ela ainda se dirige de uns a outros, de menos a mais necessitados; a ética protestante permite ainda que a ajuda seja para mim mesmo e também para aqueles mais próximos socialmente de mim mesmo.

O católico, mesmo que socialmente ativo, se sente sempre agindo sobre o outro, necessitado: o evangélico, mais fraternal, forma grupos sociais coesos de pares que, eles sim, tratando também de si mesmos, podem agir sobre o outro e, mais do que ajudá-lo, cooptá-lo.

Todas essas características se unem e se intensificam na maneira neopentecostal: todas elas tomam uma roupagem mais agressiva e mais imediatista. Face armada, de dentes à mostra do evangelismo, estivessem eles submetidos à norma inquebrantável de um só senhor, como os católicos, e seriam sua Companhia de Jesus.
H
á que ser diferente o proselitismo em uma instituição que conta dois milênios de história e em uma igreja fundada semana passada, tendo em vista o objetivo de repetir Edir Macedo e cobrir o mundo em dez anos. Eles trabalham na terra. Com pressa. E, para isso, precisam oferecer bens de consumo mais imediatos: a salvação da alma é o objetivo final, mas não há nada de mal em fazer com que o lapso de tempo daqui até o chamado de Deus transcorra da melhor maneira possível, livre de drogas, de doenças, de carestia, de sofrimento.

E o quê, senão essas mesmas coisas, uma população, a se crer nos programas eleitorais, espera de seus representantes políticos?
Talvez, além do personalismo e da inconsistência da figura de Garotinho, a única coisa que ainda os impeça de buscar com afinco o Palácio do Planalto seja a incapacidade momentânea de trasformar essas ofertas, esses objetivos (muito adequados para o legislativo, como a quantidade de pastores candidatos parece atestar), em um plano de estado coerente, precisamente o passo em que as religiões sistematicamente meteram os pés pelas mãos, no curtíssimo ou no longo prazo, causando mais dor que bem-estar a seu povo e, ou, aos vizinhos.
Porque fora isso, camaradas, restam as promessas de um mundo melhor, somadas à formação de um eleitorado cativo, tão auto-centrado que prefere comprar sapatos de um irmão. E, mais do que isso, um eleitorado que, ao que parece, só tende a continuar crescendo.

Caetano Waldrigues Galindo, 28, é professor de Filologia Românica e História da Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná, e escreve muito regularmente nessa coluna.

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