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A
redenção
Dessa
vez parece que vai. Não vai? Que Lula chega Lá. Dá quase já pra
falar em otimismo. Mas, como manda a boa-sorte, nunca não é tão
simples assim. E a própria eleição eventual de Lula tem, hoje, motivos
pra deixar gente que sempre votou nele com uma infestação de pulgas
atrás da orelha. Afinal, estamos em outras companhias, e votar na
legenda do PT, mês que vem, ajuda a eleger a bancada do deus do
PL. Mas, isso, é assunto pra outra semana.
Nesta,
falemos do Garotinho. Afinal, a séria ascensão do homem agora na
reta final não deve, não pode ser esquecida. Pois estamos falando
não tanto assim de um homem, um particular político populista e
nocivo. Na verdade, às vezes acho que são essas mesmas características
de Garotinho que o impedem de ser um perigo maior ainda nessa eleição,
coisa que conseguiria se encarnasse mais ortodoxamente o figurino
que o salvaria: o do político evangélico, ou, mais precisamente,
do pregador neopentecostal. Pois é essa figura, não importa se personificada
nele ou em outro, que pode e deve dar mais trabalho na próxima eleição.
E na próxima.
O
neopentecostalismo, se entendido como tento mais pra frente, é certamente
o movimento religioso que mais cresce no Brasil e, por uma sua característica
central, é intrinsecamente um movimento talhado para "tomar o poder"
temporal, político. Pois nomeemos os cordeiros: evangélicos, que
para a maioria dos católicos são simplesmente todos os cismáticos
pós-luteranos, dividem-se em centenas, milhares de "denominações",
com dogmáticas diversas e posturas por vezes opostas. Lutero, ele
mesmo um anti-cismático que pretendia reformar, por dentro, a igreja
romana, ficaria atordoado com a profusão de novas igrejas que pipoca,
semanalmente, em todo o mundo (com o Brasil em lugar de destaque).
Pois a própria apostasia luterana, negando a primazia incontestável
do bispo de roma, trazia em si o germe do estabelecimento de um
movimento paralelo que nunca poderia contar com qualquer estabilidade
superimposta. A reforma era uma cisão contra a mononomia de roma:
não podia ser diferente.
Dentre
eles, os que mais sobressaem hoje são os que juntam a algumas características
de todo o movimento reformado inicial (anabatismo, recusa do culto
aos santos e da mariolatria) um tipo de misticismo exacerbado e
violento, com implicações teológicas radicais (um deus tremendamente
diferente do Javé do Antigo Testamento e cada vez mais próximo da
figura de Jesus dos Evangelhos que nomeiam o movimento e, mais do
que isso, cada vez mais próximo da figura do Jesus revelado. A iminência
da epifania, senão da parúsia.).
Defino, para uso pessoal, o neopentecostalismo como mais uma maneira
do que uma característica dessas denominações; uma maneira, no fim,
de requentar o proselitismo paulino em tudo o que ele tinha de veemente,
populista e eficaz. Em alguns sentidos, mais católicos dos que os
católicos (Igreja Universal, por exemplo, é uma mera tradução de
Ecclesia Catholica), eles buscam reavivar uma chama que definiu
o primeiro cristianismo, especialmente depois de pentecostes (o
chamado ao apostolado) e depois de Paulo de Tarso (o chamado a uma
atitude política).
Como
o pai da reforma, o agostiniano Lutero, os neopentecostais provocaram
uma contra-reforma. Mas exatamente na proporção em que seu cisma
é mais silencioso que o alemão, foi ela também para-oficial, tomando
forma no vigor da reação católica carismática (pe. Marcelo Rossi).
Mas estes ainda não são uma força política, e talvez jamais sejam,
pela própria natureza do catolicismo moderno: uma religião algo
apráxica e de muita passividade.
Pois
mesmo o protestantismo histórico já trazia elementos que propiciavam
uma participação política mais atenta, mais ativa e mais conseqüente.
O espírito luterano, e talvez principalmente o calvinista, muito
cedo constiruíram uma ética social diversa da católica, como
os sociólogos logo perceberam: uma postura em que a busca da salvação
da alma não era incompatível com uma preocupação efetiva com a melhoria
das condições de vida, financeiras e sociais. O protestantismo não
tinha pruridos de buscar a redenção do indivíduo ainda em
vida, ainda nessa mera terra de passagem, nesse vale de lágrimas
católico. Pois se a igreja católica tem uma importante atividade
pastoral comunitária no Brasil de hoje, por exemplo, ela ainda se
dirige de uns a outros, de menos a mais necessitados; a ética protestante
permite ainda que a ajuda seja para mim mesmo e também para
aqueles mais próximos socialmente de mim mesmo.
O
católico, mesmo que socialmente ativo, se sente sempre agindo sobre
o outro, necessitado: o evangélico, mais fraternal, forma grupos
sociais coesos de pares que, eles sim, tratando também de
si mesmos, podem agir sobre o outro e, mais do que ajudá-lo, cooptá-lo.
Todas
essas características se unem e se intensificam na maneira
neopentecostal: todas elas tomam uma roupagem mais agressiva e mais
imediatista. Face armada, de dentes à mostra do evangelismo,
estivessem eles submetidos à norma inquebrantável de um só senhor,
como os católicos, e seriam sua Companhia de Jesus.
Há
que ser diferente o proselitismo em uma instituição que conta dois
milênios de história e em uma igreja fundada semana passada, tendo
em vista o objetivo de repetir Edir Macedo e cobrir o mundo em dez
anos. Eles trabalham na terra. Com pressa. E, para isso, precisam
oferecer bens de consumo mais imediatos: a salvação da alma
é o objetivo final, mas não há nada de mal em fazer com que o lapso
de tempo daqui até o chamado de Deus transcorra da melhor maneira
possível, livre de drogas, de doenças, de carestia, de sofrimento.
E
o quê, senão essas mesmas coisas, uma população, a se crer nos programas
eleitorais, espera de seus representantes políticos?
Talvez, além do personalismo e da inconsistência da figura de Garotinho,
a única coisa que ainda os impeça de buscar com afinco o Palácio
do Planalto seja a incapacidade momentânea de trasformar essas ofertas,
esses objetivos (muito adequados para o legislativo, como a quantidade
de pastores candidatos parece atestar), em um plano de estado coerente,
precisamente o passo em que as religiões sistematicamente meteram
os pés pelas mãos, no curtíssimo ou no longo prazo, causando mais
dor que bem-estar a seu povo e, ou, aos vizinhos.
Porque fora isso, camaradas, restam as promessas de um mundo
melhor, somadas à formação de um eleitorado cativo, tão auto-centrado
que prefere comprar sapatos de um irmão. E, mais do que isso,
um eleitorado que, ao que parece, só tende a continuar crescendo.
Caetano
Waldrigues Galindo, 28, é professor de Filologia Românica e História
da Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná, e escreve
muito regularmente nessa coluna.
[email protected]
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