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Que
passe o tempo
Nessa
semana faço anos, sabe como?
Quase trinta, como gosto de dizer pra incomodar minha mãe. (Presentes
e imêious de felicitações -que finalmente me convençam de que alguém
lê essa coisa- podem ser encaminhados para a Redação)
Aí você começa a ficar mais bobo e a pensar no passado. Com isso,
brindo-vos com duas reflexões de tempos idos.
Dia
desses dona Biba, a senhora minha filha (coitada, ela não teve escolha,
sabe?), me pediu que dissesse, enquanto no carro eu carregava a
ditinha até a casa da senhora sua mãe lá dela:
Papai, o que é que existe hoje que não existia no seu tempo?
(Ela diz mesmo seu tempo. Minha filha já é menos curitiboca
que eu. Existe esperança.)
Aí
vou eu:
Telefones celulares, DVDs (a bem da verdade, nem VHS, quando eu
tinha a idade dela), Cds, Computadores pessoais (laptop, então,
nem pensar!), Internet, videogames (que eu vi surgir), filmes em
computação gráfica (eu via animação de massinha!)..
E isso só pra ficar no campo geral da tecnologia do cotidiano, mais
acessível e visível, e compreensível até pra uma menininha de quatro
anos quase cinco.
Eu
sei que todas, precisamente todas essas coisas estavam ou em estágios
meio embrionários ou mesmo já em comercialização até em 73, quando
eu nasci. Mas não é isso que me interessa. No meu mundo, o da classe
mediazinha metropolitana brasileira, elas simplesmente não existiam.
Minha
filha vive com grande familiaridade esse mundo todo. E com uma familiaridade
tão grande que me faz ver de fato essa distância que, na verdade,
existe entre essas coisas e o grosso do tempo da minha vida. Quando
ela disse, recentemente, por exemplo, vamos ver o DVD do Shrek,
aquilo me soou incômodo exatamente como me soam as referências que
algumas pessoas fazem a autores famosos por seus nomes de batismo.
Qual que é, guria? De onde essa intimidade toda? Senhor DVD, por
favor!
Sem
contar o pior de tudo, o mais envelhecedor:
no meu tempo eu não me imaginava respondendo isso tudo a minha filha!
Aí
tem outra coisa. 1989.
Primeira eleição presidencial depois de anos de sufoco. Coisa e
tal.
Eu, como os mais sagazes já haverão de ter percebido, completava
dezesseis anos em 89. Estava (tenho de confessar) cursando o segundo
ano do segundo grau no grande Positivo (grande merda), colégio onde
fui parar com uma sensacional bolsa de estudos devida a minhas geniais
habilidades musicais (meu tempo de bolsa lá foi o maior rendimento
que a música me deu até hoje. Procês verem..).
Saindo da maravilhosa ETP (Escola Tia Paula, chamada em sigla por
alguns de seus alunos com inexplicável vergonha de seu nome. Eles
deverim era ter vergonha da camiseta, em que uma mão segurava um
pintinho (sic!)), eu me sentia todinho deslocado naquela época.
Mesmo porque eu adolescente era uma coisa que estaria deslocada
em qualquer lugar, que não uma comunidade neo-punk ou um zoológico.
Não
me ajudava em nada o fato de que naqueles dias eu andava com uma
estrelinha vermelha no peito. Estrelinha de plástico, meio difícil
de conseguir então.
Neguinho me olhava um pouco torto por causa dela. E vários (e esses
eram os meus preferidos) me lembravam da verdade irrefutável:
Vai votar no Lula procê ver! Depois, quando ele mandar colocar duas
famílias de operários na tua casa você não venha reclamar pra mim!
(Eles
tinham casas. Nós morávamos de aluguel. A família deles era de proprietários
de terras e de gentes. Um meu avô era neto de índios e, o outro,
fundador do PCB.)
Hoje,
depois de tudo, vejo lá na pesquisa do Datafolha que Lula está a
1 ponto percentual (metade da margem de erro..) de vencer as eleições
no primeiro turno.
E
eu fico aqui.. pensandim cos meus botão:
quantos daqueles meus colegas, que professavam voto em Ronaldo Caiado
(alguém lembra dele?), não estarão por esses dias em algum boteco
discutindo as benesses e mesmo a necessidade de uma possível administração
petista vindoura. Quantos deles não arrotam hoje seu oposicionismo,
seu anti-pós-neo-liberalismo e seu revolucionismo imediato, pensando
em salvar seus bens e sua vida de uma série de administrações que,
mesmo não pondo operários pra dormir em suas camas, diminuíram o
número de quartos de suas casas.
E,
apesar da mesquinharia vingativa, penso que isso é muito bom. Que
houve a formação de um leitorado mais consciente e menos preconceituoso;
mais informado e menos tabuizado, em nossa terrinha de Deus.
Mas
aí eu olho pro lado e vejo José Alencar. E eu abro o ouvido e escuto
Lula elogiando Médici. E a mãe do Sarney declarando voto em Lula.
E
fico pensando se meu avô comunista não estaria hoje no PSTU, de
que hoje rimos como riam do PT em 83..
E a desconfiança que herdei do meu avô bugre me faz imaginar se
meu envelhecimento oficial do dia 5 não será a melhor coisa que
vai-me acontecer em outubro..
Caetano
Waldrigues Galindo, 28, é professor de Filologia Românica e História
da Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná, e escreve
muito regularmente nessa coluna.
[email protected]
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