Edição de 30.09 a 06.10.2002



:: COLUNISTAS ::

André Tezza Consentino
Bob Marochi
Caetano Galindo
Rosiane C. de Freitas
Rogerio W. Galindo



Que passe o tempo

Nessa semana faço anos, sabe como?
Quase trinta, como gosto de dizer pra incomodar minha mãe. (Presentes e imêious de felicitações -que finalmente me convençam de que alguém lê essa coisa- podem ser encaminhados para a Redação)
Aí você começa a ficar mais bobo e a pensar no passado. Com isso, brindo-vos com duas reflexões de tempos idos.

Dia desses dona Biba, a senhora minha filha (coitada, ela não teve escolha, sabe?), me pediu que dissesse, enquanto no carro eu carregava a ditinha até a casa da senhora sua mãe lá dela:
Papai, o que é que existe hoje que não existia no seu tempo?
(Ela diz mesmo seu tempo. Minha filha já é menos curitiboca que eu. Existe esperança.)

Aí vou eu:
Telefones celulares, DVDs (a bem da verdade, nem VHS, quando eu tinha a idade dela), Cds, Computadores pessoais (laptop, então, nem pensar!), Internet, videogames (que eu vi surgir), filmes em computação gráfica (eu via animação de massinha!)..
E isso só pra ficar no campo geral da tecnologia do cotidiano, mais acessível e visível, e compreensível até pra uma menininha de quatro anos quase cinco.

Eu sei que todas, precisamente todas essas coisas estavam ou em estágios meio embrionários ou mesmo já em comercialização até em 73, quando eu nasci. Mas não é isso que me interessa. No meu mundo, o da classe mediazinha metropolitana brasileira, elas simplesmente não existiam.

Minha filha vive com grande familiaridade esse mundo todo. E com uma familiaridade tão grande que me faz ver de fato essa distância que, na verdade, existe entre essas coisas e o grosso do tempo da minha vida. Quando ela disse, recentemente, por exemplo, vamos ver o DVD do Shrek, aquilo me soou incômodo exatamente como me soam as referências que algumas pessoas fazem a autores famosos por seus nomes de batismo. Qual que é, guria? De onde essa intimidade toda? Senhor DVD, por favor!

Sem contar o pior de tudo, o mais envelhecedor:
no meu tempo eu não me imaginava respondendo isso tudo a minha filha!

Aí tem outra coisa. 1989.
Primeira eleição presidencial depois de anos de sufoco. Coisa e tal.
Eu, como os mais sagazes já haverão de ter percebido, completava dezesseis anos em 89. Estava (tenho de confessar) cursando o segundo ano do segundo grau no grande Positivo (grande merda), colégio onde fui parar com uma sensacional bolsa de estudos devida a minhas geniais habilidades musicais (meu tempo de bolsa lá foi o maior rendimento que a música me deu até hoje. Procês verem..).
Saindo da maravilhosa ETP (Escola Tia Paula, chamada em sigla por alguns de seus alunos com inexplicável vergonha de seu nome. Eles deverim era ter vergonha da camiseta, em que uma mão segurava um pintinho (sic!)), eu me sentia todinho deslocado naquela época. Mesmo porque eu adolescente era uma coisa que estaria deslocada em qualquer lugar, que não uma comunidade neo-punk ou um zoológico.

Não me ajudava em nada o fato de que naqueles dias eu andava com uma estrelinha vermelha no peito. Estrelinha de plástico, meio difícil de conseguir então.
Neguinho me olhava um pouco torto por causa dela. E vários (e esses eram os meus preferidos) me lembravam da verdade irrefutável:
Vai votar no Lula procê ver! Depois, quando ele mandar colocar duas famílias de operários na tua casa você não venha reclamar pra mim!

(Eles tinham casas. Nós morávamos de aluguel. A família deles era de proprietários de terras e de gentes. Um meu avô era neto de índios e, o outro, fundador do PCB.)

Hoje, depois de tudo, vejo lá na pesquisa do Datafolha que Lula está a 1 ponto percentual (metade da margem de erro..) de vencer as eleições no primeiro turno.

E eu fico aqui.. pensandim cos meus botão:
quantos daqueles meus colegas, que professavam voto em Ronaldo Caiado (alguém lembra dele?), não estarão por esses dias em algum boteco discutindo as benesses e mesmo a necessidade de uma possível administração petista vindoura. Quantos deles não arrotam hoje seu oposicionismo, seu anti-pós-neo-liberalismo e seu revolucionismo imediato, pensando em salvar seus bens e sua vida de uma série de administrações que, mesmo não pondo operários pra dormir em suas camas, diminuíram o número de quartos de suas casas.

E, apesar da mesquinharia vingativa, penso que isso é muito bom. Que houve a formação de um leitorado mais consciente e menos preconceituoso; mais informado e menos tabuizado, em nossa terrinha de Deus.

Mas aí eu olho pro lado e vejo José Alencar. E eu abro o ouvido e escuto Lula elogiando Médici. E a mãe do Sarney declarando voto em Lula.

E fico pensando se meu avô comunista não estaria hoje no PSTU, de que hoje rimos como riam do PT em 83..
E a desconfiança que herdei do meu avô bugre me faz imaginar se meu envelhecimento oficial do dia 5 não será a melhor coisa que vai-me acontecer em outubro..

Caetano Waldrigues Galindo, 28, é professor de Filologia Românica e História da Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná, e escreve muito regularmente nessa coluna.

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