Edição de 30.03 a 06.04.2003



:: COLUNISTAS ::

André Tezza Consentino
Bob Marochi
Caetano Galindo
Rosiane C. de Freitas
Rogerio W. Galindo


Babel

Estamos de volta. !.
Comemoremos o retorno de Nosotros com algumas palavrinhas sobre Babel. Ando metido com tradutâncias, e minhas fiéis duas leitoras devem esperar (tristemente) me ouvir falar do assunto.

1.
O relato bíblico todo o mundo conhece. Jeová, enojado pela pretensão dos homens em construir uma torre que alcançasse o empíreo, desmancha seus planos semeando entre eles a discórdia. Impossibilitando o prosseguimento do plano.

Ora, vejamos. É pouco claro na bíblia se a língua teria sido um dom ativo de Deus a Adão em algum momento ou se, por assim dizer, ela veio como item de fábrica no boneco de argila. O fato é que no primeiro momento em que se pode presumir seu uso, Adão aparece dando nomes às bestas do mundo sem que uma intervenção clara do criador lhe tivesse proporcionado o dom da fala. Não se diz "e o senhor fez que Adão falasse e viu que isso era muito bom". Os animais são levados a ele e ele os nomeia; com uma espécie de dom inato chomskiano ele acha a marca distintiva herderiana de cada bicho e o rotula. (!).

Depois de um largo hiato bíblico, as línguas, ou a linguagem, voltam a ser tema principal apenas em Babel. Pois bem.

Havemos de convir que o Senhor teria a seu dispor todo tipo de armas para dirimir a soberba humanal, não é? Por que ele escolhe justo a língua? Por que ele tasca na humanidade aquilo que a cultura posterior se acostumaria a chamar "maldição de Babel"?

Isso parece dizer algo em favor da língua como maior instrumento intelectual humano, mesmo no texto bíblico. Afinal, não era intelectual o fruto proibido?..

2.
Aí eu estava lendo um textinho de um pintor chamado Frank Budgen, e me deparei com a seguinte frase:

It seems expedient that a number of men building a tower shall attach fixed meanings and logical relations to the words they use but when not actually working, the words become as free as their users and are able as willing to lay aside their union cards doff their overalls and dance. (Traduzir, agora, seria talvez contra-sensual?)

Cuscus! Parece verdade. A maldição de Babel é a apenas um impedimento para que a humanidade siga uma e toque una um projeto qualquer (é bem verdade que a "paz mundial" pode ser vista como um desse projetos, subseqüentemente inviabilizados). De resto, a maldição de Babel pode bem ser vista como bênção. Pois foi ela que proporcionou toda a diferença cultural e história entre os povos humanos. (Sei, há quem diga não ver aí vantagem alguma, especialmente na Casa Branca..).

Se você não estiver contruindo uma torre, não há necessidade de perfeita compreensão. Na verdade, o surgimento da incompreensão, ainda que seja o começo da guerra (Será? E caimabel?), é o começo de tudo o mais que é humano, demasiadamente humano. A possibilidade de comunicação ao invés de comunhão, de compreensão e equívocos ao invés de êxtase e contemplação praticamente nos institui como homens.

Se Jeová de alguma maneira, se não temeu, reconheceu o poder que tinham os homens monoglotas de se aproximar dele, ao instituir a confusio linguarum, ainda que nos amaldiçoando, nos criou humanos: presos uns aos outros e livres da união. Lamente-se. Ou transforme sua maldição em sua condição de vida. Essa é, em alguma medida, a escolha que a desunião e a incomunicabilidade nos impõem até hoje.

3.
Umberto Eco bem lembrou. Temos de tentar determinar a natureza do dom de pentecostes. Lembram? Quando línguas de fogo desceram sob os apóstolos permitindo que pudessem pregar em todo o mundo sendo compreendidos.

Se formos nos fiar por São Paulo (sempre desconfiável, e sempre normativo), acreditaríamos que eles receberam o dom que até hoje alguns reclamam possuir em cultos pentecostais, a dita glossolalia, capacidade de falar uma língua mística universal. Língua dos anjos, dizem alguns pentecos. Que não seria, enfim, nada mais que a língua pré-babélica.

Já nos atos dos apóstolos, parece ser descrita uma situação de xenoglossia, a capacidade de falar instantaneamente uma língua estrangeira qualquer.

E aí é que fica divertido. Se for essa nossa escolha de interpretação, temos ninguém menos que Iavé sacramentando a divisão babélica, usando-a a seu favor, ao invés de suprimi-la quando necessário.

Por receio de devolver aos homens a unilíngua?
Ainda penalizando-os por sua soberba?
Ou dando a seus escolhidos o dom de triunfar nas condições da "maldição" e de nela espalhar sua bênção?

Caetano Waldrigues Galindo, 28, é professor de Filologia Românica e História da Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná, e escreve muito regularmente nessa coluna.

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