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O
muito que há em um
Uma das coisas que me sempre mais encantam é encontrar no mesmo,
tanto melhor se mais estreito, variação por vezes muita. Quem conhece
sabe ver. Sempre soube.
Poesia,
pra quem está de fora, é coisa fácil de estereotipar, de imaginar
monótona e monocórdia. Pra quem lê, quem se encantou, isso é mais
tolo que pensar que japonês é tudo igual. Mas aqui a área é grande
pra deriva.
Tome-se
campo mais modesto, linhas fortes demarcadas.
Um soneto é um soneto, é um soneto, é um soneto. Não é?
Pois não. O mundo mesmo numa medida tão justa oferece muito campo
para o vário. Trocam-se as temáticas, cambiam-se os modelos formais
(sonetos italianos, ingleses..) muda-se o registro, altera-se a
pretensão, e temos um mundo de diferenças entre Camões, Gonzaga,
Vinícius e Paulo Henriques Britto.
Vamos
a coisa mais familiarável.
Música pop, outra daquelas que pra quem não estima, desconhece e
muito estranha, é toda igual: canções, zinhas, com refrão, falando
amor, em três minutos, muita pose. Aí você compara Radiohead, Morphine,
Cake, Cartola e Chico Buarque. Todos sublimes, todos dentro de limites
muito similares, todos completos diferentes. Graças a Deus, não
é?
Hoje
quero falar de cantoras de Jazz.
Ouvi no rádio, Educativa, um programinha intitulado The Best Jazz
Vocals, que confrontava as meninas todas, lado a ladas.
Pois vamos a elas, e à celebração do que é diverso.
Sarah
Vaughan.
Talvez o mais próximo do que se imagine por aí seja uma cantora
de jazz: muito suingue, delicadeza total, capacidades vocais praticamente
inquestionáveis. A menina (quando nova é que era insuperável) tinha
uma extensão incrível, ia do mais grave ao mais agudo como quem
brincava em um piano, uma afinação incorrigível e, não bastasse
tudo isso, improvisava em vocalise (sem palavras, só melodia: uma
técnica que ela praticamente definiu, e que em jazz se chama scat
singing) em nível digno de se comparar com boa parte das feronas
instrumentistas.
Baixem da internet, pra comprovar, uma gravação que pra mim é devocional,
da dita cantando a maravilhosa September song, que Woody Allen já
declarou ser a maior canção americana de todos os tempos.
Em tempo, a própria Sarah já foi eleita cantora do século em votações
que contavam mesmo com cantoras líricas.
Daí
Billie Holiday. A deusa. Lady Day, na clássica expressão de Lester
Young. Aquela que é, de primeira, exatamente o contrário do que
se poderia esperar (ao menos foi assim comigo que, pivete, fui lá
conferir a tal grande cantora, esperando encontar Ella ou Sarah).
Voz ruim, que se quebrou mais e mais com o tempo, problemas de afinação,
que pioraram com o tempo, algum maneirismo, que se exacerbou com
o tempo. Uma cantora insuperável, que melhorou muito com o tempo
(!) e que teria provavelmente rompido todos os limites de musicalidade
se não tivesse morrido cedo (diga não às drogas.). Muito menos musical
que Sarah Vaughan, ela era contudo, dentro de todos seus limites,
a cantora que todos queriam ser. Cada palavra, cada nota, cada acento
colocado três milissegundos antes ou depois do tempo fazem dela
a primeira, a maior, e fazem de todo mortal um infeliz, se não souber
apreciá-la.
O U2 já gravou uma música sobre ela. Frank Sinatra já quebrou a
mão na cara de um sujeito que (suprema heresia) insistia em tagarelar
enquanto ela cantava num boteco. Na internet? É dificílimo escolher
uma só dica. Idiossincrasia minha, fiquem com uma versão de My man.
E chorem horrores.
(Peculiaridade: além de todos aqueles aleijões que ela transformou
em ouro, ela ainda se dava mesmo bem era com canções de medianas
a medíocres. Vá entender o que é o gênio..)
Dinah
Washington.
Força. Sensualidade. Um vibrato velocíssimo (vibrato é aquele efeito
tremido nas notas sustentadas por mais tempo que faz, por exemplo,
o gogó do Caetano Veloso parecer estar tendo um treco). Como Billie
Holiday, ela era eminentemente uma cantora de blues. Mas as semelhanças
param por aí, pois Billie seria B.B.King, e Dinah, Stevie Ray Vaughan.
Ela se entregou muito mais ao pop, e a tudo que nele havia de negro.
Tinha um estilo mais palatável para a música popular. Cantava com
toda a energia que Billie não tinha, e com toda fúria que faltava
a Sarah Vaughan.
Confiram aí sua gravação de Come rain or come shine, que põe mesmo
Lady Day no chinelo. (Minha referência do coração é uma gravação
ao vivo em que, no momento em que ela explode no verso days may
be cloudy or sunny, um sujeito grita como que incitando um toureiro.
Eu faria o mesmo.
Em tempo: o verso em questão não tem peculiar importância na economia
geral da letra. Billie Holiday, que dizia as letras como poucos,
não se teria permitido tal extravagância.)
Todas
três gravaram e regravaram as mesma músicas, vezes e vezes. E pode-se
encontrar uma mesma canção na voz das três. De novo o mesmo que
se diferencia.
Por
que não meto aqui Ella Fitzgerald, como qualquer bom cristão?
Pois o que é de gosto é regalo da vida, diz dona Iracema, que me
pôs no mundo.
E,
só de sacanagem, fecho esse tributo à variedade com uma cantora
praticamente desconhecida. (Isso porque há tempos já louvei bastante
Björk Guthmundsdottir, Dinah Washington elevada à enésima potência.)
Lisa
Ekdahl.
Voz de criancinha, muita delicadeza e muita safadeza. Contida e
precisa, tímida e muito ousada.
Chequem aí sua versão de My heart belongs to daddy. Cousa lindíssima.
P.S.
À nova safra.
Não, não gosto de Diana Krall, nem das congêneres que conheci.
Estou virando um velho chato.
Caetano
Waldrigues Galindo, 28, é professor de Filologia Românica e História
da Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná, e escreve
muito regularmente nessa coluna.
[email protected]
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