Edição de 13.10 a 19.10.2002



:: COLUNISTAS ::

André Tezza Consentino
Bob Marochi
Caetano Galindo
Rosiane C. de Freitas
Rogerio W. Galindo



De mitos e homens

A estória(?) narrada(?) no Finnegans Wake acontece em um tempo mítico, antes que o Helvítico cometesse deuteronomia, enquanto o Ildiot tenta repetir verbaten as palavras do fodão.

As duas referências dizem respeito ao fato de que Joyce gostava de acusar T.S.Eliot (que morava na Suíça) de ter plagiado o Ulisses em seu poema The wasteland. Já falei disso aqui nessa coluna. Mas hoje o que me interessa é o objeto, preciso, que rendia uma tal acusação.

Pois as duas obras não têm muito em comum quanto à trama ou à forma. Pra começo de conversa, se trata de um poema (longo pra um poema, mas curto como obra), e de um romance muito extenso. O que permitia que Joyce se sentisse lesado era, primeiro, a tendência que Joyce sempre tivera de gostar de se sentir vitimizado e, depois, o emprego, nos dois textos, de algo que ele realmente iniciou no Ulisses: o dito método mítico, ou mitológico.

E o próprio Eliot, em uma de suas conferências, quase que reconhecia placidamente a procedência da acusação de Joyce, ao tomar tempo para dela se defender, dizendo que o senhor Joyce não havia criado um texto apenas, mas também um novo método, um novo estilo, e que todo aquele que o seguisse nessa senda por ele aberta estaria muito mais propriamente continuando seu trabalho que copiando-o.

E, batizando os bovídeos, o que seria o tal negócio?

Nada mais que o uso, como princípio estruturador do romance de Joyce, de uma semi-herética comparação, levada a extremos, entre o dia de um publicitário corno da Dublin de 1904 e a mítica viagem da mitológica figura de Odisseu, de volta a sua casa depois de dez anos de guerra. Para cada fato daquele 16 de junho na vida do senhor Leopold Bloom, encontramos uma correpondência na Odisséia. Mas, para citar apenas um exemplo, se Ulisses vaza o olho de um ciclope com uma estaca ardente, nosso herói se limita a brandir um charuto frente a um nacionalista irlandês radical (bastante caolho, também). E a proposta do tal método era justamente essa: pela contraposição do medíocre e do sagrado, fornecer (muito além de um princípio estruturador para o romance), uma chave de leitura completamente diferente para o cotidiano desses homens ordinários e, de outro lado, propiciar a devida degradação do estatuto mítico estável dessas figuras sacralizadas.

Bloom é tão importante quanto Ulisses.

E não foi a toa que Joyce escolheu esse herói mítico. Ele se declarava especialmente interessado em Odisseu pelo fato, precisamente, de ele ser, já de saída, uma figura muito mais humana, e muito mais humanizável que algumas outras. Ele estava mais próximo da vida plena que a Joyce interessava: conhecia-se sua ascendência, sua mulher, ele tinha um filho, um cachorro, uma vida profissional, sentimental e mesmo extra-conjugal.

Ele havia de ser o primeiro candidato ao destronamento.

*

Falei lá em cima em heresia, em sacralização e dessacralização.

Porque hoje me interessa o uso de um instrumental muito semelhante àquele empregado por Joyce mas, agora, no meio religioso mesmo.

Pois entre os pentecostais (de variadas denominações, mesmo entre os católicos) existe uma tendência exacerbada de se buscar, na figura de Jesus Cristo, esse preciso estatuto ambíguo entre o divino e o antropológico. Ele é o Deus feito homem e, portanto, é um, homem feito Deus.

Ou não, pois é exatamente a escolha da primeira das duas alternativas acima que possibilitou (além do próprio surgimento do catolicismo como seita divergente do judaísmo com as características que o determinaram) uma espécie de blindagem anti-dessacralização para a figura do Nazareno.

Se um homem feito deus ou, mais ainda, se um dentre os deuses feito homem, ele seria uma vítima possível do raciocínio joyceano, e haveria de perder sua posição inquestionável. Mas, aos moldes de muitas outras religiões, ele é O Deus hipostasiado, sem que a divindade original perca em qualquer coisa e sem que, dessa forma, ele possa em qualquer coisa se ver desautorizado.

*

Pois a antropologização do deus cristão tem, afinal, limites. E da mesma maneira que permite que, num culto pentecostal, idéias como Jesus foi um homem como você circulem livremente, propiciando aos fiéis um acesso incrivelmente direto à divindade, ela permite que essa aproximação nunca possa ultrapassar os limites que poderiam começar a borrar essa mesma divindade. Pois Jesus, o cristo, não teve filhos, não teve esposa, não teve cachorro, sabemos muito pouco de sua atividade profissional (na verdade sabemos quase nada de sua vida toda entre a infância e os trinta anos de idade). E qualquer elaboração sobre um desses temas é premiada com o anátema do sistema que cultua o deus-homem.

*

Ulisses, o mito, era muito mais plenamente humano do que a figura (que parecemos saber ter tido uma existência histórica verificável) do Jesus de Nazaré de Paulo e da igreja que se lhe seguiu.

Dessa forma, o Verbo, feito Carne, escapa ao contágio da carne e ilude a corrupção do verbo. E Joyce, o artífice, que corrompeu e degradou o mito, não pôde mais que apenas desistir de Cristo.

*

Recomendações?
Leiam o Ulisses.
Leiam a Terra desolada (acho que é assim na tradução).
E leiam a tar da Bíblia.

Caetano Waldrigues Galindo, 28, é professor de Filologia Românica e História da Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná, e escreve muito regularmente nessa coluna.

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