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De
mitos e homens
A estória(?) narrada(?) no Finnegans Wake acontece em um
tempo mítico, antes que o Helvítico cometesse deuteronomia,
enquanto o Ildiot tenta repetir verbaten as palavras
do fodão.
As
duas referências dizem respeito ao fato de que Joyce gostava de
acusar T.S.Eliot (que morava na Suíça) de ter plagiado o Ulisses
em seu poema The wasteland. Já falei disso aqui nessa coluna.
Mas hoje o que me interessa é o objeto, preciso, que rendia uma
tal acusação.
Pois
as duas obras não têm muito em comum quanto à trama
ou à forma. Pra começo de conversa, se trata de um poema
(longo pra um poema, mas curto como obra), e de um romance muito
extenso. O que permitia que Joyce se sentisse lesado era, primeiro,
a tendência que Joyce sempre tivera de gostar de se sentir vitimizado
e, depois, o emprego, nos dois textos, de algo que ele realmente
iniciou no Ulisses: o dito método mítico, ou mitológico.
E
o próprio Eliot, em uma de suas conferências, quase que reconhecia
placidamente a procedência da acusação de Joyce, ao tomar tempo
para dela se defender, dizendo que o senhor Joyce não havia criado
um texto apenas, mas também um novo método, um novo estilo, e que
todo aquele que o seguisse nessa senda por ele aberta estaria muito
mais propriamente continuando seu trabalho que copiando-o.
E,
batizando os bovídeos, o que seria o tal negócio?
Nada
mais que o uso, como princípio estruturador do romance de Joyce,
de uma semi-herética comparação, levada a extremos, entre o dia
de um publicitário corno da Dublin de 1904 e a mítica viagem da
mitológica figura de Odisseu, de volta a sua casa depois de dez
anos de guerra. Para cada fato daquele 16 de junho na vida do senhor
Leopold Bloom, encontramos uma correpondência na Odisséia. Mas,
para citar apenas um exemplo, se Ulisses vaza o olho de um ciclope
com uma estaca ardente, nosso herói se limita a brandir um
charuto frente a um nacionalista irlandês radical (bastante caolho,
também). E a proposta do tal método era justamente essa: pela contraposição
do medíocre e do sagrado, fornecer (muito além de um princípio estruturador
para o romance), uma chave de leitura completamente diferente para
o cotidiano desses homens ordinários e, de outro lado, propiciar
a devida degradação do estatuto mítico estável dessas figuras sacralizadas.
Bloom
é tão importante quanto Ulisses.
E
não foi a toa que Joyce escolheu esse herói mítico. Ele se declarava
especialmente interessado em Odisseu pelo fato, precisamente, de
ele ser, já de saída, uma figura muito mais humana, e muito mais
humanizável que algumas outras. Ele estava mais próximo da vida
plena que a Joyce interessava: conhecia-se sua ascendência, sua
mulher, ele tinha um filho, um cachorro, uma vida profissional,
sentimental e mesmo extra-conjugal.
Ele
havia de ser o primeiro candidato ao destronamento.
*
Falei
lá em cima em heresia, em sacralização e dessacralização.
Porque
hoje me interessa o uso de um instrumental muito semelhante àquele
empregado por Joyce mas, agora, no meio religioso mesmo.
Pois
entre os pentecostais (de variadas denominações, mesmo entre os
católicos) existe uma tendência exacerbada de se buscar, na figura
de Jesus Cristo, esse preciso estatuto ambíguo entre o divino e
o antropológico. Ele é o Deus feito homem e, portanto, é um, homem
feito Deus.
Ou
não, pois é exatamente a escolha da primeira das duas alternativas
acima que possibilitou (além do próprio surgimento do catolicismo
como seita divergente do judaísmo com as características que o determinaram)
uma espécie de blindagem anti-dessacralização para a figura do Nazareno.
Se
um homem feito deus ou, mais ainda, se um dentre os deuses feito
homem, ele seria uma vítima possível do raciocínio joyceano, e haveria
de perder sua posição inquestionável. Mas, aos moldes de muitas
outras religiões, ele é O Deus hipostasiado, sem que a divindade
original perca em qualquer coisa e sem que, dessa forma, ele possa
em qualquer coisa se ver desautorizado.
*
Pois
a antropologização do deus cristão tem, afinal, limites. E da mesma
maneira que permite que, num culto pentecostal, idéias como Jesus
foi um homem como você circulem livremente, propiciando aos fiéis
um acesso incrivelmente direto à divindade, ela permite que essa
aproximação nunca possa ultrapassar os limites que poderiam começar
a borrar essa mesma divindade. Pois Jesus, o cristo, não teve filhos,
não teve esposa, não teve cachorro, sabemos muito pouco de sua atividade
profissional (na verdade sabemos quase nada de sua vida toda entre
a infância e os trinta anos de idade). E qualquer elaboração sobre
um desses temas é premiada com o anátema do sistema que cultua o
deus-homem.
*
Ulisses,
o mito, era muito mais plenamente humano do que a figura (que parecemos
saber ter tido uma existência histórica verificável) do Jesus de
Nazaré de Paulo e da igreja que se lhe seguiu.
Dessa
forma, o Verbo, feito Carne, escapa ao contágio da carne e ilude
a corrupção do verbo. E Joyce, o artífice, que corrompeu e degradou
o mito, não pôde mais que apenas desistir de Cristo.
*
Recomendações?
Leiam o Ulisses.
Leiam a Terra desolada (acho que é assim na tradução).
E leiam a tar da Bíblia.
Caetano
Waldrigues Galindo, 28, é professor de Filologia Românica e História
da Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná, e escreve
muito regularmente nessa coluna.
[email protected]
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