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Octomvrie
Custa-me de fato muitíssimo crer que algo professado por alguém
como eu tenha grandes chances de dar certo.
Em
vista disso, e de eu não gostar nem um pouco de me ver contrariado,
dei de tentar, durante toda o processo eleitoral, e tanto mais agora,
moderar a euforia que vejo quase tomar meu irmão e levar de cambulhada
minha cunhada.
Sabe
como? A gente se acostumou tanto a ser oposição que agora teme o
que mais desejou. Eu sou caboclissimamente desconfiado. Sei não..
Parece que vivemos dia de exultação. Mas, como já
deixei aqui dito antes, a presença do José Alencar (e do Sarney!)
está aí pra fazer meu ressaibo mais adequado.
Dia
desses meu irmão me fez lembrar daquele momento belíssimo do filme
Aprile, em que Nanni Moretti, depois de assitir pasmado a
um debate em que Berlusconi dava aulas de democracia a seu candidato
(Dalema, reage! Não deixa o justo o Berlusconi vir te falar de
democracia!, gritava ele para a tevê) sai à rua de motoneta
para comemorar a vitória de Dalema. Ele, como nós, nunca tinha conseguido
eleger seu candidato; estava cansado de votar e perder, dizia o
Rogerio.
Serra
não é Berlusconi. Apesar de ter representado o Dick Vigarista durante
toda a campanha e de anunciar aos quatro ventos que pretende fazê-lo
por mais quatro anos, Serra não é Berlusconi.
Serra só pode ser Berlusconi na medida em que ele represente uma
eventual camada socialmente dominante que, agora, se vê defrontada
com a possibilidade da mudança. E esse é precisamente o confronto
que nos interessa e que, vencido, nos emociona e nos compunge.
Só
que Dalema não fez o governo dos sonhos socialistas, por tudo o
que eu, todo desinformado, pude perceber daqui. E, pior, dia desses
estava Nanni Moretti, em carne e osso, berrando em praça pública
contra a decadência do PCI. E contra Berlusconi, sentado estável,
gordo e refestelado no poder.
Temos,
nós os derrotados, uma chance absolutamente inédita.
Mas Lula não é Deus, e andou empenhado em apagar qualquer possibilidade
de filiação (apesar do PL!). Não sei em que vai isso tudo dar. Mas
sei que, agora, com meu irmão e meu pai, tenho até vontade de gritar
na janela e sair a rua.
Mas
eu sou um merdinha alienado e cético. Meu irmão trabalha perto da
política; meu pai é filho de um comunista, e militou no PMDB em
um tempo em que isso significava algo à esquerda do possível: eles
podem, e devem, estar eufóricos. E vão à rua.
Eu
fico, e dou a esse texto o nome do mês das eleições, pra emular
o Moretti. Mas escrevo não no italiano celebrativo que ele talvez
merecesse, mas em Romeno. Pra lembrar uma outra terra, em que penso
com muita pena. Um povo que, há 13 anos, com a deposição e o assassinato
de Ceausescu, teve sua chance, ainda maior que a nossa, e que com
ela ainda não fez muito.
Um
povo que acaba de tomar uma paulada imensa em seus sonhos ao ver
negado seu ingresso à comunidade européia, que vem de aceitar a
gloriosa república de Malta.
Sei
lá. O que nos espera. Por enquanto é festa.
E merecida.
Caetano
Waldrigues Galindo, 28, é professor de Filologia Românica e História
da Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná, e escreve
muito regularmente nessa coluna.
[email protected]
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