Edição de 04.11 a 10.11.2002



:: COLUNISTAS ::

André Tezza Consentino
Bob Marochi
Caetano Galindo
Rosiane C. de Freitas
Rogerio W. Galindo



Octomvrie

Custa-me de fato muitíssimo crer que algo professado por alguém como eu tenha grandes chances de dar certo.

Em vista disso, e de eu não gostar nem um pouco de me ver contrariado, dei de tentar, durante toda o processo eleitoral, e tanto mais agora, moderar a euforia que vejo quase tomar meu irmão e levar de cambulhada minha cunhada.

Sabe como? A gente se acostumou tanto a ser oposição que agora teme o que mais desejou. Eu sou caboclissimamente desconfiado. Sei não.. Parece que vivemos dia de exultação. Mas, como já deixei aqui dito antes, a presença do José Alencar (e do Sarney!) está aí pra fazer meu ressaibo mais adequado.

Dia desses meu irmão me fez lembrar daquele momento belíssimo do filme Aprile, em que Nanni Moretti, depois de assitir pasmado a um debate em que Berlusconi dava aulas de democracia a seu candidato (Dalema, reage! Não deixa o justo o Berlusconi vir te falar de democracia!, gritava ele para a tevê) sai à rua de motoneta para comemorar a vitória de Dalema. Ele, como nós, nunca tinha conseguido eleger seu candidato; estava cansado de votar e perder, dizia o Rogerio.

Serra não é Berlusconi. Apesar de ter representado o Dick Vigarista durante toda a campanha e de anunciar aos quatro ventos que pretende fazê-lo por mais quatro anos, Serra não é Berlusconi.
Serra só pode ser Berlusconi na medida em que ele represente uma eventual camada socialmente dominante que, agora, se vê defrontada com a possibilidade da mudança. E esse é precisamente o confronto que nos interessa e que, vencido, nos emociona e nos compunge.

Só que Dalema não fez o governo dos sonhos socialistas, por tudo o que eu, todo desinformado, pude perceber daqui. E, pior, dia desses estava Nanni Moretti, em carne e osso, berrando em praça pública contra a decadência do PCI. E contra Berlusconi, sentado estável, gordo e refestelado no poder.

Temos, nós os derrotados, uma chance absolutamente inédita.
Mas Lula não é Deus, e andou empenhado em apagar qualquer possibilidade de filiação (apesar do PL!). Não sei em que vai isso tudo dar. Mas sei que, agora, com meu irmão e meu pai, tenho até vontade de gritar na janela e sair a rua.

Mas eu sou um merdinha alienado e cético. Meu irmão trabalha perto da política; meu pai é filho de um comunista, e militou no PMDB em um tempo em que isso significava algo à esquerda do possível: eles podem, e devem, estar eufóricos. E vão à rua.

Eu fico, e dou a esse texto o nome do mês das eleições, pra emular o Moretti. Mas escrevo não no italiano celebrativo que ele talvez merecesse, mas em Romeno. Pra lembrar uma outra terra, em que penso com muita pena. Um povo que, há 13 anos, com a deposição e o assassinato de Ceausescu, teve sua chance, ainda maior que a nossa, e que com ela ainda não fez muito.

Um povo que acaba de tomar uma paulada imensa em seus sonhos ao ver negado seu ingresso à comunidade européia, que vem de aceitar a gloriosa república de Malta.

Sei lá. O que nos espera. Por enquanto é festa.
E merecida.

Caetano Waldrigues Galindo, 28, é professor de Filologia Românica e História da Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná, e escreve muito regularmente nessa coluna.

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