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Mestre Kim
Mestre Kim é um coreano, dono de duas lojas de roupas na rua José
Paulino, em São Paulo: a Ângela e uma epônima, Mestre Kim.
Sentadinho,
do balcão da Ângela comendava seu staff: composto quando eu conheci
a loja por Guêibi (Grabriela?) e Gê (melhor Ge, meu nome é muito
estranho). E falava animadamente com uma terceira menina que parecia
estar em algum tipo de quarentena. Não pude ouvir de que falavam.
Além
de mim e da Sandra, entraram na loja duas mulheres, um par de mãe
e filha, esta última levando uma espécie de lenço branco abandajado
em volta do pescoço. Como tivemos oportunidade de saber, tinha um
belo torcicolo e não conseguiu agüentar aquele colar ortopédico
rígido. De que servia o lenço, igualmente, não pude determinar.
Esperávamos
os quatro, eu e a Sandra no caixa e o par de mãe e filha aguardando
que a Gê voltasse do estoque com a "peça" que a mãe queria na numeração
correta e "no marrom", porque "no caramelo" ela não tinha gostado.
Mestre Kim, sobre um casaco que a Sandra comprava, me disse: antes
setanta nove corea múim barato. Ã-hãn.
Ficou
então preocupado com o estado do pescoço da moça que estava esperando
de pé e soltou alguns muxoxos em sua direção que, inequivocamente,
embora sua semântica permancesse a todos misteriosa, queriam dizer
que se sentasse. O que ela polidamente negou, mas parecendo não
ter muito bem entendido, o que já ia levar a uma nova onda de balbucios
do coreano, quando Guêibi interrompeu: êla não querê, Mestre Kim.
Eu falá sentá.
Queria
que meus alunos de lingüística estivessem lá para ouvir. O que essa
menina fez, e com probabilidade considerável faz o tempo todo, foi
formar uma espécie de pidgin em tempo real. Tudo aquilo que a gente
ensina na universidade sobre o intercâmbio (usualmente comercial)
entre culturas que se expressam em línguas muito diversas levando
à formação de uma língua de intercâmbio baseada na gramática "facilitada"
de uma delas estava lá: falta de preposições, achatamento da morfologia
verbal.. Sou capaz de apostar que, ouvindo por um dia todo a conversa
dos quatro, acabaria ouvindo vocábulos coreanos empregados pelas
meninas com grande naturalidade.
Curiosidade
1. O quadro aí de cima faria ver, na versão mais tradicional da
análise crioulística, a língua de Mestre Kim como a língua colonizada
e o português, língua local, como colonizante. Quem quiser, veja
um outro texto meu, bem velho, em que eu falava disso tudo.
Curiosidade
2. Na minha graduação, o grande mestre Mercer costumava dizer, falando
do destino das línguas dos imigrantes em terras brasílicas, que
ele estava intimamente associado à natureza da posição que eles
pretendiam ocupar na sociedade, quando chegavam. Assim, dizia, os
alemães mantiveram suas línguas (sim, mais de uma) porque em geral
vieram para cá, em fuga religiosa, destinados a formar colônias
e, conseqüentemente a reproduzir por aqui suas próprias estruturas
em menos escala. Queriam mais sair da Alemanha do que vir ao Brasil.
Já os árabes, que vieram como comerciantes (fazer a vida) precisavam
aprender a língua bem e rápido, e assim perderam mais facilmente
suas próprias línguas: era preciso saber falar a língua de quem
compraria na lojinha.
Isso
faz todo o sentido, mas vem sendo desmentido por levas como as de
chineses e coreanos que não param de chegar ao Sul do Brasil. Eles,
como Mestre Kim, não chegam como refugiados miseráveis. Usualmente,
já ao chegar são capazes de abrir um comerciozinho, freqüentemente
auxiliados por compatriotas já estabelecidos aqui. Eles formam,
assim, uma espécie de comunidade de comerciantes, uma curiosa entidade
de meio termo no que se refere à língua. Têm possibilidade, como
Mestre Kim, de contratar mão-de-obra que vai povoar suas lojas de
roupas (côlo, como disse um deles ao Rogério, é a preferência de
alguns dos chineses) ou seus restaurantes, e podem se manter fechados
em seus grupos, lendo jornais em suas línguas (como vi com um outro
deles) e conversando entre eles. Uma grande diferença em relação
àquela outra leva, que ainda hoje se vê esfregando o umbigo no balcão
da pastelaria. Mestre Kim pode nem mesmo estar na loja que levava
seu nome.
Mas,
amigos, o Brasil é um vírus. Bela probabilidade de recebermos convites
para o casamento de Kim Yun Neto e Geromentina de Souza.
Caetano
Waldrigues Galindo, 29, é professor de Filologia Românica e História
da Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná, e escreve
muito regularmente nessa coluna.
[email protected]
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