Edição de 07.04 a 13.04.2003



:: COLUNISTAS ::

André Tezza Consentino
Bob Marochi
Caetano Galindo
Rosiane C. de Freitas
Rogerio W. Galindo


Mestre Kim

Mestre Kim é um coreano, dono de duas lojas de roupas na rua José Paulino, em São Paulo: a Ângela e uma epônima, Mestre Kim.

Sentadinho, do balcão da Ângela comendava seu staff: composto quando eu conheci a loja por Guêibi (Grabriela?) e Gê (melhor Ge, meu nome é muito estranho). E falava animadamente com uma terceira menina que parecia estar em algum tipo de quarentena. Não pude ouvir de que falavam.

Além de mim e da Sandra, entraram na loja duas mulheres, um par de mãe e filha, esta última levando uma espécie de lenço branco abandajado em volta do pescoço. Como tivemos oportunidade de saber, tinha um belo torcicolo e não conseguiu agüentar aquele colar ortopédico rígido. De que servia o lenço, igualmente, não pude determinar.

Esperávamos os quatro, eu e a Sandra no caixa e o par de mãe e filha aguardando que a Gê voltasse do estoque com a "peça" que a mãe queria na numeração correta e "no marrom", porque "no caramelo" ela não tinha gostado. Mestre Kim, sobre um casaco que a Sandra comprava, me disse: antes setanta nove corea múim barato. Ã-hãn.

Ficou então preocupado com o estado do pescoço da moça que estava esperando de pé e soltou alguns muxoxos em sua direção que, inequivocamente, embora sua semântica permancesse a todos misteriosa, queriam dizer que se sentasse. O que ela polidamente negou, mas parecendo não ter muito bem entendido, o que já ia levar a uma nova onda de balbucios do coreano, quando Guêibi interrompeu: êla não querê, Mestre Kim. Eu falá sentá.

Queria que meus alunos de lingüística estivessem lá para ouvir. O que essa menina fez, e com probabilidade considerável faz o tempo todo, foi formar uma espécie de pidgin em tempo real. Tudo aquilo que a gente ensina na universidade sobre o intercâmbio (usualmente comercial) entre culturas que se expressam em línguas muito diversas levando à formação de uma língua de intercâmbio baseada na gramática "facilitada" de uma delas estava lá: falta de preposições, achatamento da morfologia verbal.. Sou capaz de apostar que, ouvindo por um dia todo a conversa dos quatro, acabaria ouvindo vocábulos coreanos empregados pelas meninas com grande naturalidade.

Curiosidade 1. O quadro aí de cima faria ver, na versão mais tradicional da análise crioulística, a língua de Mestre Kim como a língua colonizada e o português, língua local, como colonizante. Quem quiser, veja um outro texto meu, bem velho, em que eu falava disso tudo.

Curiosidade 2. Na minha graduação, o grande mestre Mercer costumava dizer, falando do destino das línguas dos imigrantes em terras brasílicas, que ele estava intimamente associado à natureza da posição que eles pretendiam ocupar na sociedade, quando chegavam. Assim, dizia, os alemães mantiveram suas línguas (sim, mais de uma) porque em geral vieram para cá, em fuga religiosa, destinados a formar colônias e, conseqüentemente a reproduzir por aqui suas próprias estruturas em menos escala. Queriam mais sair da Alemanha do que vir ao Brasil. Já os árabes, que vieram como comerciantes (fazer a vida) precisavam aprender a língua bem e rápido, e assim perderam mais facilmente suas próprias línguas: era preciso saber falar a língua de quem compraria na lojinha.

Isso faz todo o sentido, mas vem sendo desmentido por levas como as de chineses e coreanos que não param de chegar ao Sul do Brasil. Eles, como Mestre Kim, não chegam como refugiados miseráveis. Usualmente, já ao chegar são capazes de abrir um comerciozinho, freqüentemente auxiliados por compatriotas já estabelecidos aqui. Eles formam, assim, uma espécie de comunidade de comerciantes, uma curiosa entidade de meio termo no que se refere à língua. Têm possibilidade, como Mestre Kim, de contratar mão-de-obra que vai povoar suas lojas de roupas (côlo, como disse um deles ao Rogério, é a preferência de alguns dos chineses) ou seus restaurantes, e podem se manter fechados em seus grupos, lendo jornais em suas línguas (como vi com um outro deles) e conversando entre eles. Uma grande diferença em relação àquela outra leva, que ainda hoje se vê esfregando o umbigo no balcão da pastelaria. Mestre Kim pode nem mesmo estar na loja que levava seu nome.

Mas, amigos, o Brasil é um vírus. Bela probabilidade de recebermos convites para o casamento de Kim Yun Neto e Geromentina de Souza.

Caetano Waldrigues Galindo, 29, é professor de Filologia Românica e História da Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná, e escreve muito regularmente nessa coluna.

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