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Zuínglio
Ao mesmo tempo em que a Reforma seguia adiante na Alemanha, ela também
se iniciava na Suíça, sob o comando de Ulrico Zuínglio.
De modo diferente de Lutero, esse sacerdote nunca foi monge e tampouco
experimentou uma conversão intrincada. Sua conversão foi
um processo intelectual lento, no qual ele passou a entender as Escrituras
e a perceber como a Igreja Católica estava distante delas.
Durante os dez anos de serviço como pároco em Glarus, na
Suíça, Zuínglio atuou, em duas ocasiões, como
capelão de alguns jovens mercenários suíços.
O que viu fez com que fosse contra a prática dos rapazes, que vendiam
seus serviços de guerreiros, e, portanto, posicionou-se publicamente
contra essa prática. Para Zuínglio, esse pequeno incidente
foi apenas o começo de uma carreira que abrangeria tanto a reforma
política quanto religiosa.
Serviu como sacerdote em Einsiedeln de 1516 a 1518. Por ter sido muito
influenciado por Erasmo, Zuínglio aprofundou-se no estudo do Novo
Testamento grego daquele grande erudito. Sua pregação começou
a ter cunho mais evangélico.
No primeiro dia do ano de 1519, Zuínglio se tornou pastor da principal
igreja de Zurique. Ao chegar, anunciou que, em vez de seguir os textos
prescritos no lecionário, pregaria sobre o evangelho de Mateus.
Isso foi praticamente um ato de desafio à igreja, embora, naquele
momento, ele não tivesse intenção alguma de se separar
de Roma.
No mesmo ano, a peste chegou a Zurique, e quase um terço da população
da cidade foi vitimada. Zuínglio fez de tudo para ministrar ao
povo, até que ele mesmo contraiu a doença. Os três
meses que levou para se recuperar lhe ensinaram lições sobre
a dependência que devemos ter de Deus, algo que mudou sua vida completamente.
Zuínglio continuou a pregar que encontrava na Bíblia, mesmo
quando o ensino era diferente dos rituais e das doutrinas da igreja. Essa
situação chegou a seu ápice em 1522, quando alguns
de seus paroquianos desafiaram as regras da igreja sobre comer carne durante
a Quaresma. Zuínglio os apoiou pregando um sermão sobre
a liberdade.
O governo civil de Zurique aceitou a paz, mas, ao fazê-lo, terminou
por tomar a igreja nas próprias mãos. Logo no começo
do ano seguinte, eles promoveram um debate público sobre assuntos
de fé e de doutrina, em que a idéia de Zuínglio prevaleceu.
Em 29 de janeiro de 1523, o conselho da cidade decretou: "Que o sr.
Ulrico Zuínglio continue e prossiga, como antes, com a proclamação
do santo evangelho e da pura e santa Escritura de acordo com sua capacidade".
No decorrer de dois anos, os debates continuaram e as reformas se expandiram:
sacerdotes e freiras poderiam se casar, imagens foram removidas das igrejas
e, para firmar a ruptura final com a Igreja Católica, a missa foi
substituída por um culto simples no qual a maior ênfase era
dada à pregação.
Zuínglio enfrentou oposição não apenas da
Igreja Católica, mas também dos anabatistas — grupo
mais radical de reformistas — que queriam ver as reformas em Zurique
acontecer de forma mais rápida. Embora muitos reformadores concordassem
entre si no sentido de que desejavam a fé mais bíblica,
eles, muitas vezes, diferiam quanto ao real significado dessa fé
mais bíblica e de como alcançá-la.
Em 1529, Filipe, o landgrave de Hesse, reuniu Lutero e Zuínglio.
Filipe queria que o movimento reformado fosse coeso com relação
à questão militar, política e espiritual. Para esse
fim, trouxe os dois homens a Marbur-go. Das quinze questões doutrinárias
que discutiram, Zuínglio e Lutero concordaram em catorze. A eucaristia
foi o ponto de discórdia: Zuínglio via esse ato como o recebimento
"espiritual" do corpo de Cristo, ao passo que Lutero o via em
termos mais concretos. O encontro que objetivava a união dos dois
grupos protestantes resultou, na verdade, em uma ruptura ainda maior.
O movimento reformista de Zuínglio se espalhou principalmente na
porção alemã da Suíça, chegando, finalmente,
a Genebra, de língua francesa, e pavimentando o caminho para o
trabalho de Calvino naquela região. Entretanto, Zuínglio
ainda enfrentava a oposição católica nos cantões
rurais, o que terminou por levá-lo a uma batalha. O clérigo,
que pregou contra os mercenários, uniu-se às tropas de Zurique
como soldado, empunhando armas, e morreu em 11 de outubro de 1531, na
Batalha de Kappel. Seu corpo foi esquartejado e desonrado por seus inimigos.
Essa foi apenas uma parte da série de lutas religiosas que seriam
travadas nos cem anos que se seguiram.
A Reforma na Suíça despontou independente por completo
do movimento na Alemanha, apesar de se haver manifestado simultaneamente,
sob a orientação de Ulrico Zuínglio, o qual, em 1517,
atacou "a remissão de pecados", que muitos procuravam
por meio de peregrinações a um altar da Virgem de Einsieldn.
No ano de 1522, Zuínglio rompeu definitivamente com Roma. A Reforma
foi então formalmente estabelecida em Zurique, e dentro em breve
tornou-se um movimento mais radical do que na Alemanha. Entretanto, o
progresso desse movimento foi prejudicado por uma guerra civil entre cantões
católico-romanos e protestantes, na qual Zuínglio morreu
em 1531. Apesar de tudo, a reforma continuou a sua marcha, e mais tarde
teve como dirigente João Calvino, o maior teólogo da igreja,
depois de Agostinho; sua obra, "Instituições da Religião
Cristã", publicada em 1536, quando Calvino tinha apenas vinte
e sete anos, tornou-se regra da doutrina protestante.
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