|
Henrique VIII
Ao contrário da reforma alemã, a reforma inglesa não
se originou da busca espiritual de um homem que queria conhecer a Deus
mais profundamente. Surgiu de uma combinação de desejo pessoal,
conveniência política e clima espiritual de uma nação.
A disposição da Inglaterra era de se afastar da Igreja Católica.
John Colet, pároco da Igreja de São Paulo, insistia na reforma
do clero e no retorno ao estudo da Bíblia. Um grupo de estudiosos
de Cambridge, que seguia os ensinamentos de Lutero, ficou conhecido por
"Pequena Alemanha". O clero, surpreso, não foi capaz
de deter a expansão da Reforma.
Contudo, o rei da Inglaterra, Henrique VIII, tinha pouco interesse em
mudanças no campo espiritual. Em 1521, atacou a idéia de
Lutero com relação aos sacramentos e recebeu do papa o título
de "Defensor da Fé". Seu interesse em questões
espirituais era mínimo.
Depois da morte de seu irmão, Henrique se casou com sua cunhada,
Catarina de Aragão. Eles não tiveram filhos, o que impedia
que Henrique de ter um sucessor ao trono. Atraído por Ana Bolena,
o rei procurou se livrar da esposa estéril, para conseguir outra
que pudesse lhe dar herdeiros. Com a justificativa de que não poderia
ter se casado com a viúva de seu irmão mais velho, citando
Levítico 20.21 como fundamento bíblico para sua posição,
pediu ao papa que lhe concedesse o divórcio.
O papa temia enfurecer o imperador do Sacro Império Romano, Carlos
V, sobrinho de Catarina, e terminou por impedir que o rei inglês
alcançasse seu intento.
Henrique, impaciente, decidiu nomear Tomás Cranmer para a posição
de arcebispo de Cantuária, e o novo arcebispo concedeu o divórcio
ao rei. Henrique, rapidamente, casou-se com Ana, e, no mesmo ano —
1533 — ela deu à luz uma criança, Elisabete.
Em 1534, o Parlamento inglês promulgou o Ato de Supremacia, declarando
que o rei era "o chefe supremo da Igreja da Inglaterra". Isso
não significava que o rei pretendia implementar mudanças
teológicas radicais na igreja. Ele simplesmente queria uma igreja
estatal sobre a qual o papa não tivesse autoridade. A lei que trouxe
uniformidade à nova igreja, o Estatuto dos seis artigos, mantinha
o celibato do clero, a confissão de pecados aos sacerdotes e as
missas particulares.
Contudo, é preciso destacar que Henrique acabou com os mosteiros,
que se tornaram símbolo do hedonismo e da imoralidade. O rei não
levou em conta a preocupação de muitos cristãos dedicados
com relação a esse assunto. Em vez disso, tomou as terras
da igreja. Depois de fechar os mosteiros, confiscou as propriedades e
colocou o dinheiro no tesouro real. As terras foram passadas aos nobres
em troca de lealdade ao rei.
Com o intuito de promover o nacionalismo inglês, Henrique ordenou
que a Bíblia em inglês fosse colocada em todas as igrejas.
Embora Henrique não tenha feito isso por razões de escrúpulo,
ele criou uma igreja que não era mais a Igreja Católica
Romana. Nos anos que se seguiram, a filha mais velha de Henrique, Maria,
tentaria levar a Inglaterra de volta ao catolicismo, mas isso não
durou muito tempo. Uma vez separada do papa, a Igreja da Inglaterra não
mais se juntou a ele. As sucessivas ondas de Reforma na Inglaterra foram
rápidas e tumultuadas. Como veremos nos capítulos a seguir,
essas ondas promoveram uma riqueza e uma diversidade de expressão
cristã, que, certamente, teriam deixado Henrique perplexo.
TOMÁS CRANMER
Tomás Cranmer pode ser considerado o dirigente da Reforma inglesa,
por sua posição como o primeiro protestante na direção
da igreja. Quando jovem, conquistou a simpatia do rei Henrique VIII, por
haver sugerido que se apelasse para as universidades da Europa, na questão
do divórcio do rei britânico. Cranmer prestou serviços
a Henrique VIII em várias embaixadas e foi nomeado bispo de Cantuária.
Apesar de progressista em suas idéias, era tímido e flexível,
exercendo sua influência moderadora na reforma da igreja, em lugar
de ser radical nesse sentido. Durante a menoridade do rei Eduardo VI,
Cranmer foi um dos regentes, e conseguiu fazer progredir a causa do protestantismo.
A contribuição mais importante de Cranmer foi sua obra como
um dos compiladores do Livro de Oração e como escritor de
quase todos os artigos de religião. Com a ascensão ao trono
da rainha Maria, foi destituído do arcebispado e encarcerado. Sob
o peso do sofrimento retratou-se de suas opiniões protestantes,
na esperança de salvar a vida, contudo foi condenado à morte
na fogueira. Antes de seu martírio, em 1556, renunciou à
retratação, e morreu corajosamente, colocando no fogo a
sua mão direita, a que havia assinado a retratação,
para que fosse a primeira a ser queimada.
|