Chico Xavier / Emmanuel
Outras vezes, solicitava ao ex-pescador
todos os informes possíveis sobre Estevão, regozijando-se com
as lembranças de Abigail, embora guardasse avaramente os
pormenores do seu romance da mocidade. Inteirou-se, então, dos
pesados trabalhos do pregador do Evangelho quando no
cativeiro; da sua dedicação a um patrício de nome Sérgio
Paulo; da fuga em miserável estado de saúde, no porto
palestinense; do ingresso na igreja do “Caminho” como
indigente, das primeiras noções do Evangelho e consequente
iluminação em Cristo Jesus. Encantava-se, ouvindo as
narrativas simples e amorosas de Pedro, que revelava sua
veneração ao mártir evitando melindrá-lo na sua condição de
verdugo repeso.
Logo que pôde levantar-se da cama, foi ouvir as pregações
naquele mesmo recinto onde insultara o irmão de Abigail, pela
primeira vez. Os expositores do Evangelho eram, mais
frequentemente, Pedro e Tiago. O primeiro falava com profunda
prudência, embora se valesse de maravilhosas expressões
simbólicas. O segundo, entretanto, parecia torturado pela
influência judaizante. Tiago dava a impressão de reingresso na
maioria dos ouvintes, nos regulamentos farisaicos. Suas
preleções fugiam ao padrão de liberdade e de amor em Jesus
Cristo. Revelava-se encarcerado nas concepções estreitas do
judaísmo dominante. Longos períodos de seus discursos
referiam-se às carnes impuras, às obrigações para com a Lei,
aos imperativos da circuncisão. A assembleia também parecia
modificada. A igreja assemelhava-se muito mais a uma sinagoga
comum. Israelitas, em atitude solene, consultavam pergaminhos
e papiros que continham as prescrições de Moisés.
Saulo procurou, em vão, a figura impressionante dos sofredores
e aleijados que vira no recinto, quando ali esteve pela
primeira vez. Curiosíssimo, notou que Simão Pedro atendia-os
numa sala contígua, com grande bondade.
Aproximou-se mais e pôde observar que, enquanto a pregação
reproduzia a cena exata das sinagogas, os aflitos se sucediam
ininterruptamente na sala humilde do ex-pescador de Cafarnaum.
Alguns saíam conduzindo bilhas de remédio, outros levavam
azeite e pão.
Saulo impressionou-se. A igreja do “Caminho” parecia muito
mudada.
Faltava-lhe alguma coisa. O ambiente geral era de asfixia de
todas as ideias do Nazareno. Não mais encontrou ali a grande
vibração de fraternidade e de unificação de princípios pela
independência espiritual. Depois de aturadas reflexões, tudo
atribuía à falta de Estevão. Morto este, extinguira-se o
esforço do Evangelho livre; pois fora ele o fermento divino da
renovação. Somente agora se capacitava da grandeza da sua
elevada tarefa.
Quis pedir a palavra, falar como em Damasco, zurzir os erros
de interpretação, sacudir a poeira que se adensava sobre o
imenso e sagrado idealismo do Cristo, mas lembrou as
ponderações de Pedro e calou-se. Não era justo, por enquanto,
verberar o procedimento de outrem, quando não dera obras de si
mesmo, por testemunhar a própria renovação. Se tentasse falar,
podia ouvir, talvez, reprimendas justas. Além disso, notava
que os conhecidos de outros tempos, frequentadores agora da
igreja do “Caminho”, sem abandonar, de modo algum, seus
princípios errôneos, olhavam-no de soslaio, sem dissimular
desprezo, considerando-o em perturbação mental. No entanto,
era com esforço supremo que sopitava o desejo de terçar armas,
mesmo ali, para restauração da verdade pura.
Após a primeira reunião, procurou oportunidade de estar a sós
com o ex-pescador de Cafarnaum, a fim de se inteirar das
inovações observadas.
— A tempestade que desabou sobre nós – explicou Pedro
generosamente, sem qualquer alusão ao seu procedimento de
outrora – levou-me a sérias meditações. Desde a primeira
diligência do Sinédrio nesta casa, notei que Tiago sofrera
profundas transformações. Entregou-se a uma vida de grande
ascetismo e rigoroso cumprimento da Lei de Moisés.
Pensei muito na mudança das suas atitudes, mas, por outro
lado, considerei que ele não é mau. É companheiro zeloso,
dedicado e leal. Calei-me para mais tarde concluir que tudo
tem uma razão de ser. Quando as perseguições apertaram o cerco
a atitude de Tiago, embora pouco louvável, quanto à liberdade
do Evangelho, teve seu lado benéfico. Os delegados mais
truculentos respeitaram-lhe o devocionismo moisaico e suas
amizades sinceras no judaísmo nos permitiram a manutenção do
patrimônio do Cristo. Eu e João tivemos horas angustiosas, na
consideração desses problemas. Estaríamos sendo insinceros,
falsearíamos a verdade?
Ansiosamente rogamos a inspiração do Mestre. Com o auxílio de
sua divina luz, chegamos a criteriosas conclusões. Seria justo
lutar a videira ainda tenra com a figueira brava? Se fôssemos
atender ao impulso pessoal de combater os inimigos da
independência do Evangelho, esqueceríamos fatalmente, a obra
coletiva. Não é lícito que o timoneiro, por testemunhar a
excelência de conhecimentos náuticos, atire o barco contra os
rochedos, com prejuízo de vida para quantos confiaram no seu
esforço. Consideramos, assim, que as dificuldades eram muitas
e precisávamos, enquanto mínima fosse a nossa possibilidade de
ação, conservar a árvore do Evangelho ainda tenra, para
aqueles que viessem depois de nós.
Além do mais, Jesus ensinou que só conseguimos elevados
objetivos neste mundo, cedendo alguma coisa de nós mesmos. Por
intermédio de Tiago, o farisaísmo acede em caminhar conosco.
Pois bem: consoante os ensinamentos do Mestre, caminharemos as
milhas possíveis. E julgo mesmo que, se Jesus assim nos
ensinou, é porque na marcha temos a oportunidade de ensinar
alguma coisa e revelar quem somos. Enquanto Saulo o
contemplava com redobrada admiração pelos judiciosos conceitos
emitidos, o Apóstolo re matava:
— Isso passa! A obra é do Cristo. Se fosse nossa, falharia por
certo, mas nós não passamos de simples e imperfeitos
cooperadores.
Saulo guardou a lição e recolheu-se pensativo. Pedro
parecia-lhe muito maior agora, no seu foro íntimo. Aquela
serenidade, aquele poder de compreensão dos fatos mínimos,
davam-lhe ideia da sua profunda iluminação espiritual.
De saúde refeita, antes de qualquer deliberação sobre o novo
caminho a tomar, o moço tarsense desejou rever Jerusalém num
impulso natural de afeição aos lugares que lhe sugeriam tantas
lembranças cariciosas. Visitou o Templo, experimentando o
contraste das emoções. Não se animou a penetrar no Sinédrio,
mas procurou, ansioso, a Sinagoga dos cilicianos, onde
presumia reencontrar as amizades nobres e afáveis de outros
tempos.
Entretanto, mesmo ali onde se reuniam os conterrâneos
residentes em Jerusalém, foi recebido friamente. Ninguém o
convidou ao labor da palavra.
Apenas alguns conhecidos de sua família apertaram-lhe a mão
secamente, evitando-lhe a companhia, de modo ostensivo.
Os mais irônicos, terminados os serviços religiosos,
dirigiram-lhe perguntas, com sorrisos escarninhos. Sua
conversão às portas de Damasco era glosada com ditérios
acerados e deprimentes.
— Não seria algum sortilégio dos feiticeiros do “Caminho”? –
diziam uns.
— Não seria Demétrio que se vestira de Cristo e lhe
deslumbrara os olhos doentes e fatigados? – interrogavam
outros.
Percebeu as ironias de que estava sendo objeto. Tratavam-no
como demente. Foi aí que, sem sopitar a impulsividade do
coração honesto, subiu ousadamente num estrado e falou com
orgulho:
— Irmãos da Cilícia, estais enganados. Não estou louco. Não
buscais arguir-me porque eu vos conheço e sei medir a
hipocrisia farisaica.
Estabeleceu-se luta imediata. Velhos amigos vociferavam
impropérios. Os mais ponderados cercaram-no como se o fizessem
a um doente e pediram-lhe que se calasse. Saulo precisou fazer
um esforço heroico para conter a indignação. A custo,
conseguiu dominar-se e retirou-se. Em plena via pública,
sentia-se assaltado por ideias escaldantes. Não seria melhor
combater abertamente, pregar a verdade sem consideração pelas
máscaras religiosas que enchiam a cidade? Aos seus olhos, era
justo refletir na guerra declarada aos erros farisaicos. E se,
ao contrário das ponderações de Pedro, assumisse em Jerusalém
a chefia de um movimento mais vasto, a favor do Nazareno? Não
tivera a coragem de perseguir-lhe os discípulos, quando os
doutores do Sinédrio eram todos complacentes? Por que não
assumir, agora, a atitude da reparação, encabeçando um
movimento em contrário? Havia de encontrar alguns amigos que
se lhe associassem ao esforço ardente. Com esse gesto,
auxiliaria o próprio irmão na sua tarefa dignificante em prol
dos necessitados.
Fascinado com tais perspectivas, penetrou no Templo famoso.
Recordou os dias mais recuados da infância e da primeira
juventude. O movimento popular no recinto já lhe não
despertava o interesse de outrora. Instintivamente,
aproximou-se do local onde Estevão sucumbira. Lembrou a cena
dolorosa, detalhe por detalhe. Penosa angústia assomava-lhe ao
coração. Orou com fervor ao Cristo. Entrou na sala onde
estivera a sós com Abigail, a ouvir as últimas palavras do
mártir do Evangelho. Compreendia, enfim, a grandeza daquela
alma que o perdoara in extremis. Cada palavra do moribundo
ressoava-lhe agora, estranhamente, nos ouvidos. A elevação de
Estevão fascinava-o. O pregador do “Caminho” havia-se imolado
por Jesus! Por que não fazê-lo também? Era justo ficar em
Jerusalém, seguir-lhe os passos heroicos, para que a lição do
Mestre fosse compreendida. Na recordação do passado, o moço
tarsense mergulhava-se em preces fervorosas. Suplicava a
inspiração do Cristo para seus novos caminhos. Foi aí que o
convertido de Damasco, exteriorizando as faculdades
espirituais, fruto das penosas disciplinas, observou que um
vulto luminoso surgia inopinadamente a seu lado, falando-lhe
com inefável ternura:
— Retira-te de Jerusalém, porque os antigos companheiros não
aceitarão, por enquanto, o testemunho!
Sob o pálio de Jesus, Estevão seguia-lhe os passos na senda do
discipulado, embora a posição transcendental de sua
assistência invisível.
Saulo, naturalmente, cuidou que era o próprio Cristo o autor
da carinhosa advertência e, fundamente impressionado, demandou
a igreja do “Caminho”, informando a Simão Pedro o que
ocorrera.
— Entretanto – acabou dizendo ao generoso Apóstolo que o ouvia
admirado, – não devo ocultar que tencionava agitar a opinião
religiosa da cidade, defender a causa do Mestre, restabelecer
a verdade em sua feição Integral.
Enquanto o ex-pescador escutava em silêncio, como a reforçar a
resposta, o novo discípulo continuava:
— Estevão não se entregou ao sacrifício? Sinto que nos falta
aqui uma coragem igual à do mártir, sucumbido às pedradas da
minha ignorância.
— Não, Saulo – replicou Pedro com firmeza, – não seria
razoável pensar assim. Tenho maior experiência da vida, embora
não tenha cabedais de inteligência semelhantes aos teus.
Está escrito que o discípulo não poderá ser maior que o
mestre. Aqui mesmo, em Jerusalém, vimos Judas cair numa cilada
igual a esta. Nos dias angustiosos do Calvário, em que o
Senhor provou a excelência e a divindade do seu amor e, nós, o
amargo testemunho da exígua fé, condenamos o infortunado
companheiro. Alguns irmãos nossos mantêm, até o presente, a
opinião dos primeiros dias; mas, em contacto com a realidade
do mundo, cheguei à conclusão de que Judas foi mais infeliz
que perverso. Ele não acreditava na validade das obras sem
dinheiro, não aceitava outro poder que não fosse o dos
príncipes do mundo. Estava sempre inquieto pelo triunfo
imediato das ideias do Cristo. Muitas vezes, vimo-lo altercar,
impaciente, pela construção do Reino de Jesus, adstrito aos
princípios políticos do mundo. O Mestre sorria e fingia não
entender as insinuações, como quem estava senhor do seu divino
programa. Judas, antes do apostolado, era negociante. Estava
habituado a vender a mercadoria e receber o pagamento
imediato. Julgo, nas meditações de agora, que ele não pôde
compreender o Evangelho de outra forma, ignorando que Deus é
um credor cheio de misericórdia, que espera generosamente a
todos nós, que não passamos de míseros devedores.
Talvez amasse profundamente o Messias, contudo, a inquietação
Fê-lo perder na oportunidade sagrada. Tão-só pelo desejo de
apressar a vitória, engendrou a tragédia da cruz, com a sua
falta de vigilância.
Saulo ouvia assombrado aquelas considerações justas e o
bondoso Apóstolo continuava:
— Deus é a Providência de todos. Ninguém está esquecido. Para
que ajuízes melhor da situação, admitamos que fosses mais
feliz que Judas.
Figuremos tua vitória pessoal no feito.
Concedamos que pudesses atrair para o Mestre toda a cidade. E
depois?
Deverias e poderias responder por todos os que aderissem ao
teu esforço? A verdade é que poderias atrair, nunca, porém,
converter. Como não te fosse possível atender a todos, em
particular, acabarias execrado pela mesma forma.
Se Jesus, que tudo pode neste mundo sob a égide do Pai, espera
com paciência a conversão do mundo, por que não poderemos
esperar, de nossa parte? A melhor posição da vida é a do
equilíbrio. Não é justo desejar fazer nem menos, nem mais do
que nos compete, mesmo porque o Mestre sentenciou que a cada
dia bastam os seus trabalhos.
O convertido de Damasco estava surpreso a mais não poder.
Simão apresentava argumentos irretorquíveis. Sua inspiração
assombrava-o. – À vista do que ocorreu – prosseguiu o
ex-pescador serenamente, – importa que te vás logo que caia a
noite. A luta iniciada na Sinagoga dos cilícios é muito mais
importante que os atritos de Damasco. É possível que amanhã
procurem encarcerar-te. Além disso, a advertência recebida no
Templo não é de molde a procrastinarmos providências
indispensáveis.
Saulo concordou de boamente com o alvitre. Poucas vezes na
vida escutara observações tão sensatas.
— Pretendes voltar à Cilícia? – disse Pedro com inflexão
paternal. – Já não tenho mais aonde ir – respondeu com
resignado sorriso.
—Pois bem, partirás para Cesareia. Temos ali amigos sinceros
que te poderão auxiliar.
O programa de Simão Pedro foi rigorosamente cumprido. À noite,
quando Jerusalém se envolvia em grande silêncio, um cavaleiro
humilde transpunha as portas da cidade, na direção dos
caminhos que conduziam ao grande porto palestinense.
Torturado pelas apreensões constantes da sua nova vida, chegou
a Cesareia decidido a não se deter ali muito tempo. Entregou
as cartas de Pedro que o recomendavam aos amigos fiéis.
Recebido com simpatia por todos, não teve dificuldades em
retomar o caminho da cidade natal.
Dirigindo-se agora para o cenário da infância, sentia-se
extremamente comovido com as mínimas recordações. Aqui, um
acidente do caminho a sugerir cariciosas lembranças; ali, um
grupo de árvores envelhecidas a despertarem especial atenção.
Várias vezes, passou por caravanas de camelos que lhe faziam
relembrar as iniciativas paternas. Tão intensa lhe fora a vida
espiritual nos últimos anos, tão grandes as transformações,
que a vida do lar se lhe figurava um sonho bom, de há muito
desvanecido. Através de Alexandre, recebera as primeiras
notícias de casa. Lamentava a partida de sua mãe, justamente
quando tinha maior necessidade da sua compreensão afetuosa;
mas entregava a Jesus os seus cuidados, nesse particular. Do
velho pai não era razoável esperar um entendimento mais justo.
Espírito formalista, radicado ao farisaísmo de maneira
integral, certo não aprovaria a sua conduta.
Atingiu as primeiras ruas de Tarso, de alma opressa. As
recordações sucediam-se ininterruptas.
Batendo à porta do lar paterno, pela fisionomia indiferente
dos servos compreendeu como voltava transformado. Os dois
criados mais antigos não o reconheceram. Guardou silêncio e
esperou. Ao fim de longa espera, o genitor foi recebê-lo. O
velho Isaac amparando-se ao cajado, nas adiantadas expressões
de um reumatismo pertinaz, não dissimulou um gesto largo de
espanto. É que reconhecera de pronto o filho.
— Meu filho!… – disse com voz enérgica, procurando dominar a
emoção – será possível que os olhos me enganem?
Saulo abraçou-o afetuosamente, dirigindo-se ambos para o
interior.
Isaac sentou-se e, buscando penetrar o íntimo do filho, com o
olhar percuciente interrogou em tom de censura:
— Será que estás mesmo curado?
Para o rapaz, tal pergunta era mais um golpe desferido na sua
sensibilidade afetiva.
Sentia-se cansado, derrotado, desiludido; necessitava de
alento para recomeçar a existência num idealismo maior e até o
pai o reprovava com perguntas absurdas! Ansioso de
compreensão, retrucou de maneira comovedora:
— Meu pai, por piedade, acolhei-me!… Não estive doente, mas
sou agora necessitado pelo espírito! Sinto que não poderei
reiniciar minha carreira na vida sem algum repouso!…
Estendei-me vossas mãos!…
Conhecendo a austeridade paterna e a extensão das próprias
necessidades naquela hora difícil do seu caminho, o ex-doutor
de Jerusalém humilhou-se inteiramente, pondo na voz toda a
fadiga que se lhe represava no coração.
O ancião israelita contemplou-o firme, solene, e sentenciou
sem compaixão:
— Não estiveste doente? Que significa então a triste comédia
de Damasco? Os filhos podem ser ingratos e conseguem esquecer,
mas os pais, se nunca os retiram do pensamento, sabem sentir
melhor a crueldade do seu proceder… Não te doeria ver-nos
vencidos e humilhados com a vergonha que lançaste sobre nossa
casa? Ralada de desgostos, tua mãe encontrou lenitivo na
morte; mas, eu? Acreditas-me insensível à tua deserção? Se
resisti, foi porque guardava a esperança de buscar Jeová,
supondo que tudo não passasse de mal-entendido, que uma
perturbação mental houvesse atirado contigo na incompreensão e
nas críticas injustificáveis do mundo!… Criei-te com todo o
desvelo que um pai, da nossa raça, costuma dedicar ao único
filho varão… Sintetizavas gloriosas promessas para nossa
estirpe.
Sacrifiquei-me por ti, cumulei-te de afagos, não poupei
esforços para que pudesses contar com os mestres mais sábios,
cuidei da tua mocidade, enchi-te com a ternura do coração e é
desse modo que retribuis as dedicações e os carinhos do lar?
Saulo podia enfrentar muitos homens armados, sem abdicar a
coragem desassombrada que lhe assinalava as atitudes. Podia
verberar o procedimento condenável dos outros, ocupar a mais
perigosa tribuna para o exame das hipocrisias humanas, mas,
diante daquele velhinho que não mais podia renovar a fé, e
considerando a amplitude dos seus sagrados sentimentos
paternais, não reagiu e começou a chorar.
— Choras? – continuou o ancião com grande secura. – Mas eu
nunca te dei exemplos de covardia! Lutei com heroísmo nos dias
mais difíceis, para que nada te faltasse. Tua fraqueza moral é
filha do perjúrio, da traição. Tuas lágrimas vêm do remorso
inelutável!
Como enveredaste, assim, pelo caminho da mentira execrável?
Com que fim engendraste a cena de Damasco para repudiar os
princípios que te alimentaram do berço? Como abandonar a
situação brilhante do rabino de quem tanto esperávamos, para
arvorar-se em companheiro de homens desclassificados, que
nunca tiveram a tradição amorosa de um lar?
Ante as acusações injustas, o moço tarsense soluçava, talvez
pela primeira vez na vida.
— Quando soube que ias desposar uma jovem sem pais conhecidos
– prosseguia o velho implacável, – surpreendi-me e esperei que
te pronunciasses diretamente. Mas tarde, Dalila e o marido
eram compelidos a deixar Jerusalém precipitadamente, ralados
de vergonha com a ordem de prisão que a Sinagoga de Damasco
requisitava contra ti. Várias vezes conjeturei se não seria
essa criatura inferior, que elegeste, a causa de tamanhos
desastres morais. Há mais de três anos levanto-me diariamente
para refletir no teu criminoso proceder em detrimento dos mais
sagrados deveres!
Ao ouvir aqueles conceitos injustos à pessoa de Abigail, o
rapaz cobrou ânimo e murmurou com humildade:
— Meu pai, essa criatura era uma santa! Deus não a quis neste
mundo!
Talvez, se ela ainda vivesse, teria eu o cérebro mais
equilibrado para harmonizar a minha nova vida.
O pai não gostou da resposta, embora a objeção fosse feita em
tom de obediência e carinho.
— Nova vida? – glosou irritado – que queres com isso dizer?
Saulo enxugou as lágrimas e respondeu resignado: – Quero dizer
que o episódio de Damasco não foi ilusão e que Jesus reformou
minha vida.
— Não poderias ver em tudo isso rematada loucura? – continuou
o pai com espanto.
Impossível! Como abandonar o amor da família, as tradições
veneráveis do teu nome, as esperanças sagradas dos teus, para
seguir um carpinteiro desconhecido?
Saulo compreendeu o sofrimento moral do genitor quando assim
se exprimia. Teve ímpetos de atirar-se-lhe nos braços
amorosos; falar-lhe do Cristo, proporcionar-lhe entendimento
real da situação. Mas, prevendo simultaneamente a dificuldade
de se fazer compreendido, observava-o resignado, enquanto ele
prosseguia de olhos úmidos, revelando a mágoa e a cólera que o
dominavam.
— Como pode ser isso? Se a doutrina malfadada do carpinteiro
de Nazaré impõe criminosa indiferença pelos laços mais santos
da vida, como negar-lhe nocividade e bastardia? Será justo
preferir um aventureiro, que morreu entre malfeitores, ao pai
digno e trabalhador que envelheceu no serviço honesto de Deus?
— Mas, pai – dizia o moço em voz súplice, – o Cristo é o
Salvador prometido!…
Isaac pareceu agravar a própria fúria.
— Blasfemas? – gritou. – Não temes insultar a Providência
Divina? As esperanças de Israel não poderiam repousar numa
fronte que se esvaiu no sangue do castigo, entre ladrões!…
Estás louco! Exijo a reconsideração de tuas atitudes.
Enquanto fazia uma pausa, o convertido objetou:
— É certo que meu passado está cheio de culpas quando não
hesitei em perseguir as expressões da verdade; mas, de três
anos a esta parte, não me recordo de ato algum que necessite
reconsideração.
O ancião pareceu atingir o auge da cólera e exclamou áspero:
— Sinto que as palavras generosas não quadram à tua razão
perturbada.
Vejo que tenho esperado em vão, para não morrer odiando
alguém.
Infelizmente, sou obrigado a reconhecer nas tuas atuais
decisões um louco, ou um criminoso vulgar. Portanto, para que
nossas atitudes se definam, peço-te que escolhas em
definitivo, entre mim e o desprezível carpinteiro!
A voz paternal, ao enunciar semelhante intimativa, era
abafada, vacilante, evidenciando profundo sofrimento. Saulo
compreendeu e, em vão, procurava um argumento conciliador. A
incompreensão do pai angustiava-o. Nunca refletiu tanto e tão
intensamente no ensino de Jesus sobre os laços de família.
Sentia-se estreitamente ligado ao generoso velhinho, queria
ampará-lo na sua rigidez intelectual, abrandar-lhe a feição
tirânica, mas compreendia as barreiras que se antepunham aos
seus desejos sinceros. Sabia com que severidade fora formado o
seu próprio caráter. Prejulgando a inutilidade dos apelos
afetivos, murmurou entre humilde e ansioso:
— Meu pai, ambos precisamos de Jesus!…
O velho, inflexível, endereçou-lhe um olhar austero e retrucou
com aspereza:
— Tua escolha está feita! Nada tens a fazer nesta casa!…
O velhinho estava trêmulo. Via-se-lhe o esforço espiritual
para tomar aquela decisão.
Criado nas concepções intransigentes da Lei de Moisés, Isaac
sofria como pai; entretanto, expulsava o filho depositário de
tantas esperanças, como se cumprisse um dever. O coração
amoroso sugeria-lhe piedade, mas o raciocínio do homem,
encarcerado nos dogmas implacáveis da raça, abafava-lhe o
impulso natural.
Saulo contemplou-o em atitude silenciosa e suplicante. O lar
era a derradeira esperança que ainda lhe restava. Não queria
crer na última perda.
Cravou no ancião os olhos quase lacrimosos e, depois de longo
minuto de expectação, implorou num gesto comovedor que lhe não
era habitual:
— Falta-me tudo, meu pai. Estou cansado e doente! Não tenho
dinheiro algum, necessito da piedade alheia.
E acentuando a queixa dolorosa:
— Também vós me expulsais?
Isaac sentiu que a rogativa lhe vibrava no mais íntimo do
coração. Mas, julgando talvez que a energia era mais eficiente
que a ternura, no caso, respondeu secamente:
— Corrige as tuas impressões, porque ninguém te expulsou.
Foste tu que votaste os amigos e os afetos mais puros ao
supremo abandono!… Tens necessidades? É justo que peças ao
carpinteiro as providências acertadas…
Ele que fez tamanhos absurdos, terá poder bastante para
valer-te.
Imensa dor represou-se no espírito do ex-rabino. As alusões ao
Cristo doíam-lhe muito mais que as reprimendas diretas que
recebera. Sem conseguir refrear a própria angústia, sentiu que
lágrimas ardentes rolavam-lhe nas faces queimadas pelo sol do
deserto. Nunca experimentara pranto assim amargo.
Nem mesmo na cegueira angustiosa, consequente à visão de
Jesus, chorara tão penosamente. Não obstante esquecido numa
pensão sem-nome, cego e acabrunhado, sentia a proteção do
Mestre que o convocara ao seu divino serviço.
Guardava a impressão de estar mais perto do Cristo.
Regozijava-se nas dores mais acerbas, pelo fato de haver
recebido, às portas de Damasco, o seu apelo glorioso e direto.
Mas, depois de tudo, procurava, em vão, apoio nos homens para
iniciar a sagrada tarefa.
Os mais amigos recomendavam-lhe a distância. Por último, ali
estava o pai, velho e abastado, a recusar-lhe a mão no
instante mais doloroso da vida.
Expulsava-o. Manifestava aversão por suas ideias
regeneradoras. Não lhe tolerava a condição de amigo do Cristo.
No pranto que lhe borbulhava dos olhos, recordou-se, porém, de
Ananias. Quando todos o abandonavam em Damasco, surgira o
mensageiro do Mestre, restituindo-lhe o bom ânimo.
Seu pai falara-lhe, ironicamente, dos poderes do Senhor. Sim,
Jesus não lhe faltaria com os recursos indispensáveis.
Lançando ao genitor um olhar inolvidável, disse humildemente:
— Então, adeus, meu pai!… Dizeis bem, porque estou certo de
que o Messias não me abandonará!
A passos indecisos, aproximou-se da porta de saída. Vagou o
olhar nevoado de pranto pelos antigos adornos da sala. A
poltrona de sua mãe estava na posição habitual. Recordou o
tempo em que os olhos maternos liam para ele as primeiras
noções da Lei. Julgou divisar-lhe a sombra a lhe acenar com
amoroso sorriso. Jamais experimentara tamanho vácuo no
coração.
Estava só. Teve receio de si mesmo, porquanto, jamais se vira
em tais conjunturas.
Depois da meditação dolorosa, retirou-se em silêncio. Olhou,
indiferente, o movimento da rua, como alguém que houvesse
perdido todo o interesse de viver.
Não dera ainda muitos passos, no seu incerto destino, quando
ouviu chamarem-no com insistência.
Deteve-se à espera e verificou tratar-se de velho servidor do
pai, que corria ao seu encalço.
Em poucos instantes, o criado entregava-lhe uma bolsa pesada,
exclamando em tom amistoso:
— Vosso pai manda este dinheiro como lembrança.
Saulo experimentou no íntimo a revolta do “homem velho”.
Imaginou invocar a própria dignidade para devolver a dádiva
humilhante. Assim procedendo ensinaria ao pai que era filho e
não mendigo. Dar-lhe-ia uma lição, mostraria o valor próprio,
mas considerou, ao mesmo tempo, que as provações rigorosas
talvez se verificassem com assentimento de Jesus, para que seu
coração ainda voluntarioso aprendesse a verdadeira humildade.
Sentiu que havia vencido muitos tropeços; que se havia
mostrado superior em Damasco e em Jerusalém; que dominara as
hostilidades do deserto; que suportara a ingratidão dos climas
e as canseiras dolorosas; mas, que o Mestre agora lhe sugeria
a luta consigo mesmo, para que o “homem do mundo” deixasse de
existir, ensejando o renascimento do coração enérgico, mas
amoroso e terno, do discípulo. Seria, talvez, a maior de todas
as batalhas. Assim compreendeu, num relance, e buscando
vencer-se a si mesmo, tomou a bolsa com resignado sorriso,
guardou-a humildemente entre as dobras da túnica, saudou o
servo com expressões de agradecimento e disse, esforçando-se
por evidenciar alegria:
— Sinésio, conte a meu pai o contentamento que me causou com a
sua carinhosa oferta e diga-lhe que rogo a Deus que o ajude.
Seguindo o curso incerto de sua nova situação, viu na atitude
paterna o reflexo dos antigos hábitos do judaísmo. Como pai,
Isaac não queria parecer ingrato e inflexível, procurando
ampará-lo; mas como fariseu nunca lhe suportaria a renovação
das ideias.
Com ar indiferente, tomou leve refeição em modesta locanda.
Entretanto, não conseguia tolerar o movimento das ruas. Tinha
sede de meditação e silêncio. Precisava ouvir a consciência e
o coração, antes de assentar os novos planos de vida. Procurou
afastar-se da cidade. Como eremita anônimo, buscou o campo
agreste. Depois de muito caminhar sem destino, atingiu os
arredores do Tauro. Começava o cortejo das sombras tristes da
tarde.
Exausto de fadiga, descansou junto de uma das inumeráveis
cavernas abandonadas.
Muito ao longe, Tarso repousava entre arvoredos. As auras
vespertinas vibravam no ambiente, sem perturbar a placidez das
coisas. Mergulhado na quietude da Natureza, Saulo recuou
mentalmente ao dia da sua radical transformação. Lembrou o
abandono na pensão de Judas, a indiferença de Sadoc à sua
amizade. Rememorou a primeira reunião de Damasco, na qual
suportara tantos apupos, ironias e sarcasmos. Demandara
Palmira, ansioso pela assistência de Gamaliel, a fim de
penetrar a causa do Cristo, mas o nobre mestre lhe aconselhara
o insulamento no deserto. Recordou as duras dificuldades do
tear e a carência de recursos de toda a espécie, no oásis
solitário. Naqueles dias silenciosos e longos, jamais pudera
esquecer a noiva morta, lutando por erguer-se,
espiritualmente, acima dos sonhos desmoronados. Por mais que
estudasse o Evangelho, intimamente experimentava singular
remorso pelo sacrifício de Estevão, que, a seu ver, fora a
pedra tumular do seu noivado futuroso. Suas noites estavam
cheias de infinitas angústias. Às vezes, em pesadelos
dolorosos, sentia-se de novo em Jerusalém, assinando sentenças
iníquas. As vítimas da grande perseguição acusavam-no,
olhando-o assustadas, como se a sua fisionomia fosse a de um
monstro. A esperança no Cristo reanimava-lhe o espírito
resoluto. Depois de provas ásperas, deixara a solidão para
regressar à vida social. Novamente em Damasco, a sinagoga o
recebeu com ameaças. Os amigos de outros tempos, com profunda
ironia, lançavam-lhe epítetos cruéis. Foi-lhe necessário fugir
como criminoso comum, saltando muros pela calada da noite.
Depois, buscara Jerusalém, na esperança de fazer-se
compreendido. Contudo, Alexandre, em cujo espírito culto
pretendia encontrar melhor entendimento, recebera-o como
visionário e mentiroso. Extremamente fatigado, batera à porta
da igreja do “Caminho”, mas fora obrigado a recolher-se a uma
reles hospedaria, por força das suspeitas justas dos Apóstolos
da Galileia. Doente e abatido, fora levado à presença de Simão
Pedro, que lhe ministrara lições de alta prudência e excessiva
bondade, mas, a exemplo de Gamaliel, aconselhara-lhe prévio
recolhimento, discrição, aprendizado em suma. Embalde
procurava um meio de harmonizar as circunstâncias, de maneira
a cooperar na obra do Evangelho e todas as portas pareciam
fechadas ao seu esforço. Afinal, dirigira-se a Tarso, ansioso
do amparo familiar para reiniciar a vida. A atitude paterna só
lhe agravara as desilusões.
Repelindo-o, o genitor lançava-o num abismo. Agora começava a
compreender que, reencetar a existência, não era volver à
atividade do ninho antigo, mas principiar, do fundo d'alma, o
esforço interior, alijar o passado nos mínimos resquícios, ser
outro homem enfim.
Compreendia a nova situação, mas não pôde impedir as lágrimas
que lhe afloravam copiosas.
Quando deu acordo de si, a noite havia fechado de todo. O céu
oriental resplandecia de estrelas. Ventos suaves sopravam de
longe, refrescando-lhe a fronte incandescida. Acomodou-se como
pôde, entre as pedras agrestes, sem coragem de eximir-se ao
silêncio da Natureza amiga. Não obstante prosseguir no curso
de suas amargas reflexões, sentia-se mais calmo. Confiou ao
Mestre as preocupações acerbas, pediu o remédio da sua
misericórdia e procurou manter-se em repouso. Após a prece
ardente, cessou de chorar, figurando-se-lhe que uma força
superior e invisível lhe balsamizava as chagas da alma
opressa.
Breve, em doce quietude do cérebro dolorido, sentiu que o sono
começava a empolgá-lo.
Suavíssima sensação de repouso proporcionava-lhe grande
alívio. Estaria dormindo?
Tinha a impressão de haver penetrado uma região de sonhos
deliciosos.
Sentia-se ágil e feliz. Tinha a impressão de que fora
arrebatado a uma campina tocada de luz primaveril, isenta e
longe deste mundo. Flores brilhantes, como feitas de névoa
colorida, desabrochavam ao longo de estradas maravilhosas,
rasgadas na região banhada de claridades indefiníveis.
Tudo lhe falava de um mundo diferente. Aos seus ouvidos toavam
harmonias suaves, dando ideia de cavatinas executadas ao
longe, em harpas e alaúdes divinos. Desejava identificar a
paisagem, definir-lhe os contornos, enriquecer observações,
mas um sentimento profundo de paz deslumbrava-o inteiramente.
Devia ter penetrado um reino maravilhoso, porquanto os
portentos espirituais que se patenteavam a seus olhos excediam
todo entendimento. (Mais tarde, na 2ª Epístola aos Coríntios,
capítulo 12, versículos de 2 a 4, Saulo afirmava: “Conheço um
homem em Cristo que há 14 anos (se no corpo não sei, se fora
do corpo não sei; Deus o sabe) foi arrebatado até ao terceiro
céu. E sei que o tal homem foi arrebatado ao paraíso e ouviu
palavras inefáveis, de que ao homem não é lícito falar”. Dessa
gloriosa experiência o Apóstolo dos gentios extraiu novas
conclusões sobre suas ideias notáveis, referentemente ao corpo
espiritual. (Nota de Emmanuel).
Mal não havia despertado desse deslumbramento, quando se
sentiu presa de novas surpresas com a aproximação de alguém
que pisava de leve, acercando-se de mansinho. Mais alguns
instantes, viu Estevão e Abigail à sua frente, jovens e
formosos, envergando vestes tão brilhantes e tão alvas que
mais se assemelhavam a peplos de neve translúcida.
Incapaz de traduzir as sagradas comoções de sua alma, Saulo de
Tarso ajoelhou-se e começou a chorar.
Os dois irmãos, que voltavam a encorajá-lo, aproximaram-se com
generoso sorriso.
— Levanta-te, Saulo! Disse Estevão com profunda bondade.
— Que é isso? Choras? Perguntou Abigail em tom blandicioso.
Estarias desalentado quando a tarefa apenas começa?
O moço tarsense, agora de pé, desatou em pranto convulsivo.
Aquelas lágrimas não eram somente um desabafo do coração
abandonado no mundo.
Traduziam um júbilo infinito, uma gratidão imensa a Jesus,
sempre pródigo de proteção e benefícios. Quis aproximar-se,
oscular as mãos de Estevão, rogar perdão para o nefando
passado, mas foi o mártir do “Caminho” que, na luz de sua
ressurreição gloriosa, aproximou-se do ex-rabino e o abraçou
efusivamente, como se o fizesse a um irmão amado. Depois,
beijando-lhe a fronte, murmurou com ternura:
— Saulo, não te detenhas no passado! Quem haverá, no mundo,
isento de erros? Só Jesus foi puro!…
O ex-discípulo de Gamaliel sentia-se mergulhado em verdadeiro
oceano de venturas.
Queria falar das suas alegrias infindas, agradecer tamanhas
dádivas, mas indômita emoção lhe selava os lábios e confundia
o coração. Amparado por Estevão, que lhe sorria em silêncio,
viu Abigail mais formosa que nunca, recordando-lhe as flores
da primavera na casa humilde do caminho de Jope.
Não pôde furtar-se às reflexões do homem, esquecer os sonhos
desfeitos, lembrando-os, acima de tudo, naquele glorioso
minuto da sua vida. Pensou no lar que poderia ter constituído;
no carinho com que a jovem de Corinto lhe cuidaria dos filhos
afetuosos; no amor insubstituível que sua dedicação lhe
poderia dar. Mas, compreendendo-lhe os mais íntimos
pensamentos, a noiva espiritual aproximou-se, tomou-lhe a
destra calejada nos labores rudes do deserto e falou
comovidamente:
— Nunca nos faltará um lar… Tê-lo-emos no coração de quantos
vierem à nossa estrada.
Quanto aos filhos, temos a família imensa que Jesus nos legou
em sua misericórdia… Os filhos do Calvário são nossos também…
Eles estão em toda parte, esperando a herança do Salvador.
O moço tarsense entendeu a carinhosa advertência, arquivando-a
no imo do coração.
— Não te entregues ao desalento, continuou Abigail, generosa e
solícita; nossos antepassados conheceram o Deus dos Exércitos,
que era o dono dos triunfos sangrentos, do ouro e da prata do
mundo; nós, porém, conhecemos o Pai, que é o Senhor de nosso
coração.
A Lei nos destacava a fé, pela riqueza das dádivas materiais
nos sacrifícios; mas o Evangelho nos conhece pela confiança
inesgotável e pela fé ativa ao serviço do Todo Poderoso. É
preciso ser fiel a Deus, Saulo! Ainda que o mundo inteiro se
voltasse contra ti, possuirias o tesouro inesgotável do
coração fiel. A paz triunfante do Cristo é a da alma
laboriosa, que obedece e confia… Não tornes a recalcitrar
contra os aguilhões. Esvazia-te dos pensamentos do mundo.
Quando hajas esgotado a derradeira gota da posca dos enganos
terrenos, Jesus encherá teu espírito de claridades imortais!…
Experimentando infindo consolo, Saulo chegava a perturbar-se
pela incapacidade de articular uma frase. As exortações de
Abigail calar-lhe-iam para sempre. Nunca mais permitiria que o
desânimo se apossasse dele.
Enorme esperança represava-se, agora, em seu íntimo.
Trabalharia para o Cristo em todos os lugares e
circunstâncias. O Mestre sacrificara-se por todos os homens.
Dedicar-lhe a existência representava um nobre dever. Enquanto
formulava estes pensamentos, recordou a dificuldade de
harmonizar-se com as criaturas.
Encontraria lutas. Lembrou a promessa de Jesus, de que estaria
presente onde houvesse irmãos reunidos em seu nome. Mas tudo
lhe pareceu subitamente difícil naquela rápida operação
intelectual. As sinagogas combatiam-se entre si. A própria
igreja de Jerusalém tendia, novamente, às influências
judaizantes. Foi aí que Abigail respondeu, de novo, aos seus
apelos íntimos, exclamando com infinito carinho:
— Reclamas companheiros concordes contigo nas edificações
evangélicas. Mas é preciso lembrar que Jesus não os teve. Os
apóstolos não puderam concordar com o Mestre senão com o
auxílio do Céu, depois da Ressurreição e do Pentecostes. Os
mais amados dormiam, enquanto Ele, agoniado, orava no horto.
Uns negaram-no, outros fugiram na hora decisiva.
Concorda com Jesus e trabalha. O caminho para Deus está
subdividido em verdadeira infinidade de planos. O espírito
passará sozinho de uma esfera para outra. Toda elevação é
difícil, mas somente aí encontramos a vitória real.
Recorda a “porta estreita” das lições evangélicas e caminha.
Quando seja oportuno, Jesus chamará ao teu labor os que possam
concordar contigo, em seu nome. Dedica-te ao Mestre em todos
os instantes de tua vida. Serve-o com energia e ternura, como
quem sabe que a realização espiritual reclama o concurso de
todos os sentimentos que enobreçam a alma.
Saulo estava enlevado. Não poderia traduzir as sensações
cariciosas que lhe represavam no coração tomado de inefável
contentamento. Esperanças novas bafejavam-lhe a alma. Em sua
retina espiritual desdobrava-se radioso futuro. Quis mover-se,
agradecer a dádiva sublime, mas a emoção privava-o de qualquer
manifestação afetiva. Entretanto, pairava-lhe no espírito uma
grande interrogação. Que fazer, doravante, para triunfar? Como
completar as noções sagradas que lhe competia exemplificar
praticamente, sem anotação de sacrifícios?
Deixando perceber que lhe ouvia as mais secretas
interpelações, Abigail adiantou-se, sempre carinhosa:
— Saulo, para certeza da vitória no escabroso caminho,
lembra-te de que é preciso dar: Jesus deu ao mundo quanto
possuía e, acima de tudo, deu-nos a compreensão intuitiva das
nossas fraquezas, para tolerarmos as misérias humanas…
O moço tarsense notou que Estevão, nesse ínterim, se despedia,
endereçando-lhe um olhar fraterno.
Abigail, por sua vez, apertava-lhe as mãos com imensa ternura.
O ex-rabino desejaria prolongar a deliciosa visão para o resto
da vida, manter-se junto dela para sempre; contudo, a entidade
querida esboçava um gesto de amoroso adeus. Esforçou-se,
então, por catalogar apressadamente suas necessidades
espirituais, desejoso de ouvi-la relativamente aos problemas
que o defrontavam. Ansioso de aproveitar as mínimas parcelas
daquele glorioso, fugaz minuto, Saulo alinhava mentalmente
grande número de perguntas. Que fazer para adquirir a
compreensão perfeita dos desígnios do Cristo?
— Ama, respondeu Abigail espontaneamente.
Mas, como proceder de modo a enriquecermos na virtude divina?
Jesus aconselha o amor aos próprios inimigos. Entretanto,
considerava quão difícil devia ser semelhante realização.
Penoso testemunhar dedicação, sem o real entendimento dos
outros. Como fazer para que a alma alcançasse tão elevada
expressão de esforço com Jesus Cristo?
— Trabalha, esclareceu a noiva amada, sorrindo bondosamente.
Abigail tinha razão. Era necessário realizar a obra de
aperfeiçoamento interior. Desejava ardentemente fazê-lo. Para
isso insulara-se no deserto, por mais de mil dias
consecutivos.
Todavia, voltando ao ambiente do esforço coletivo, em
cooperação com antigos companheiros, acalentava sadias
esperanças que se converteram em dolorosas perplexidades.
Que providências adotar contra o desânimo destruidor?
— Espera, disse ela ainda, num gesto de terna solicitude, como
quem desejava esclarecer que a alma deve estar pronta a
atender ao programa divino, em qualquer circunstância, extreme
de caprichos pessoais.
Ouvindo-a, Saulo considerou que a esperança fora sempre a
companheira dos seus dias mais ásperos. Saberia aguardar o
porvir com as bênçãos do Altíssimo. Confiaria na sua
misericórdia. Não desdenharia as oportunidades do serviço
redentor. Mas… os homens? Em toda parte medrava a confusão nos
espíritos. Reconhecia que, de fato, a concordância geral em
torno dos ensinamentos do Mestre Divino representava uma das
realizações mais difíceis, no desdobramento do Evangelho; mas,
além disso, as criaturas pareciam igualmente desinteressadas
da verdade e da luz. Os israelitas agarravam-se à Lei de
Moisés, intensificando o regime das hipocrisias farisaicas; os
seguidores do “Caminho” aproximavam -se novamente das
sinagogas, fugiam dos gentios, submetiam-se, rigorosamente,
aos processos da circuncisão.
Onde a liberdade do Cristo? Onde as vastas esperanças que o
seu amor trouxera à Humanidade inteira, sem exclusão dos
filhos de outras raças?
Concordavam em que se fazia indispensável amar, trabalhar,
esperar; entretanto, como agir no âmbito de forças tão
heterogêneas? Como conciliar as grandiosas lições do Evangelho
com a indiferença dos homens?
Abigail apertou-lhe as mãos com mais ternura, a indicar as
despedidas, e acentuou docemente:
— Perdoa!…
Em seguida, seu vulto luminoso pareceu diluir-se como se fosse
feito de fragmentos de aurora.
Empolgado pela maravilhosa revelação, Saulo viu-se só, sem
saber como coordenar as expressões do próprio deslumbramento.
Na região, que se coroava de claridades infinitas, sentiam-se
vibrações de misteriosa beleza. Aos seus ouvidos continuavam
chegando ecos longínquos de sublimes harmonias siderais, que
pareciam traduzir mensagens de amor, oriundas de sóis
distantes… Ajoelhou-se e orou! Agradeceu ao Senhor a maravilha
das suas bênçãos. Daí a instantes, como se energias
imponderáveis o reconduzissem ao ambiente da Terra, sentiu-se
no leito rústico, improvisado entre as pedras.
Incapaz de esclarecer o prodigioso fenômeno, Saulo de Tarso
contemplou os céus, embevecido.
O infinito azul do firmamento não era um abismo em cujo fundo
brilhavam estrelas… Aos seus olhos, o espaço adquiria nova
significação; devia estar cheio de expressões de vida, que ao
homem comum não era dado compreender.
Haveria corpos celestes, como os havia terrestres. A criatura
não estava abandonada, em particular, pelos poderes supremos
da Criação. A bondade de Deus excedia a toda a inteligência
humana. Os que se haviam libertado da carne voltavam do plano
espiritual por confortar os que permaneciam a distância.
Para Estevão, ele fora verdugo cruel; para Abigail, noivo
ingrato.
Entretanto, permitia o Senhor que ambos regressassem à
paisagem caliginosa do mundo, reanimando-lhe o coração.
A existência planetária alcançava novo sentido nas suas
elucubrações profundas.
Ninguém estaria abandonado, Os homens mais miseráveis teriam
no céu quem os acompanhasse com desvelada dedicação. Por mais
duras que fossem as experiências humanas, a vida, agora,
assumia nova feição de harmonia e beleza eternas.
A Natureza estava calma. O luar esplendia no alto em vibrações
de encanto indefinível.
De quando em quando, o vento sussurrava de leve, espalhando
mensagens misteriosas.
Lufadas cariciosas acalmavam a fronte do pensador, que se
embevecia na recordação imediata de suas maravilhosas visões
do mundo invisível.
Experimentando uma paz até então desconhecida, acreditou que
renascia, naquele momento, para uma existência muito diversa.
Singular serenidade tocava-lhe o espírito. Uma compreensão
diferente felicitava-o para o reinício da jornada no mundo.
Guardaria o lema de Abigail, para sempre. O amor, o trabalho,
a esperança e o perdão seriam seus companheiros inseparáveis.
Cheio de dedicação por todos os seres, aguardaria as
oportunidades que Jesus lhe concedesse, abstendo-se de
provocar situações, e, nesse passo, saberia tolerar a
ignorância ou a fraqueza alheias, ciente de que também ele
carregava um passado condenável, que, nada obstante, merecera
a compaixão do Cristo.
Somente muito depois, quando as brisas leves da madrugada
anunciavam o dia, o ex-doutor da Lei conseguiu conciliar o
sono. Quando despertou, era manhã alta. Muito ao longe, Tarso
havia retomado o seu movimento habitual.
Ergueu-se encorajado como nunca. O colóquio espiritual com
Estevão e Abigail renovara-lhe as energias. Lembrou,
instintivamente, a bolsa que o pai lhe havia mandado.
Retirou-a para calcular as possibilidades financeiras de que
podia dispor para novos cometimentos. A dádiva paterna fora
abundante e generosa.
Contudo, não conseguia atinar, de pronto, com a decisão
preferível.
Depois de muito refletir,
decidiu adquirir um tear. Seria o recomeço da luta.
A fim de consolidar as novas disposições interiores, julgou
útil exercer em Tarso o mister de tecelão, visto que ali, na
terra do seu berço, se ostentara como intelectual de valor e
aplaudido atleta.
Dentro em pouco, era reconhecido pelos conterrâneos como
humilde tapeceiro.
A notícia teve desagradável repercussão no lar antigo,
motivando a mudança do velho Isaac, que, após deserdá-lo
ostensivamente, transferiu-se para uma de suas propriedades à
margem do Eufrates, onde esperou a morte junto de uma filha,
incapaz de compreender o primogênito muito amado.
Assim, durante três anos, o solitário tecelão das vizinhanças
do Tauro exemplificou a humildade e o trabalho, esperando
devotadamente que Jesus o convocasse ao testemunho.
Kardec e amigos
Jesus Cristo
Chico Xavier
..."Recordemos que o
Espiritismo nos solicita uma espécie permanente de caridade:
a caridade de sua própria divulgação" Emmanuel
Abigail, doente
Emmanuel e Chico Xavier
Aparição de Jesus