Chico Xavier / Emmanuel
Desde o martírio de Estevão, agravara-se
em Jerusalém o movimento de perseguição a todos os discípulos
ou simpatizantes do “Caminho”. Como se fora tocado de
verdadeira alucinação, ao substituir Gamaliel nas funções
religiosas mais importantes da Cidade, Saulo de Tarso
deixava-se fascinar por sugestões de fanatismo cruel.
Impiedosas devassas foram ordenadas a respeito de todas as
famílias que revelassem inclinação e simpatia pelas ideias do
Messias Nazareno. A igreja modesta, onde a bondade de Pedro
prosseguia socorrendo os mais desgraçados, era rigorosamente
guardada por soldados, com ordem de impedir as prédicas que
representavam o brando consolo dos infelizes.
Obcecado pela ideia de resguardar o patrimônio farisaico, o
moço tarsense entregava-se aos maiores desmandos e tiranias.
Homens de bem foram expulsos da cidade por meras suspeitas.
Operários honestos e até mães de família eram interpelados em
escandalosos processos públicos, que o perseguidor fazia
questão de movimentar. Iniciou-se um êxodo de grandes
proporções, como Jerusalém de há muito não via. A cidade
começou a despovoar-se de trabalhadores. O “Caminho” havia
seduzido para as suas doces consolações a alma do povo,
cansada na incompreensão e no sacrifício.
Livre das prestigiosas advertências de Gamaliel, que se
retirara para o deserto, e sem a carinhosa assistência de
Abigail, que lhe facultava generosas inspirações, o futuro
rabino parecia um louco, em cujo peito o coração estivesse
ressequido. Debalde, mulheres indefesas suplicavam-lhe
piedade; inutilmente, crianças misérrimas pediram complacência
para os pais, abandonados como prisioneiros infelizes.
O moço de Tarso parecia dominado por uma indiferença
criminosa. As rogativas mais sinceras encontravam no seu
espírito um rochedo áspero.
Incapaz de compreender as circunstâncias que lhe haviam
modificado os planos e esperanças da vida, imputava o
insucesso dos seus sonhos de mocidade àquele Cristo que não
conseguira entender. Odiá-lo-ia enquanto vivesse. Não sendo
possível encontrá-lo para uma vingança direta, persegui-lo-ia
na pessoa dos seus caudatários, através de todos os caminhos.
A seu ver, era ele, o carpinteiro anônimo, o causador dos seus
fracassos em relação ao amor de Abigail, agora envenenado no
seu coração impulsivo por sentimentos estranhos, que, dia a
dia, cavavam profundos abismos entre sua figura inolvidável e
as lembranças que lhe eram mais carinhosas. Não mais voltara à
casa de Zacarias, e, embora os amigos da estrada de Jope
instassem por suas notícias, mantinha-se irredutível no
círculo do seu egoísmo sufocante. De vez em quando, sentia-se
premido por uma saudade singular. Experimentava imensa falta
da ternura de Abigail, cuja lembrança nunca mais se lhe havia
apartado da alma enrijecida e ansiosa. Mulher alguma poderia
substituí-la no carinho do seu coração. Entre angústias
extremas, recordava a agonia de Estevão, sua invejável paz de
consciência, as palavras de amor e de perdão; em seguida, via
a noiva genuflexa, implorando-lhe amparo com um clarão de
generosidade nos olhos súplices. Jamais esqueceria aquela
prece angustiada e comovedora, que ela fizera ao abraçar o
irmão nos derradeiros instantes de vida. Não obstante a
perseguição cruel que o transformara em mola central de todas
as atividades contra a igreja humilde do “Caminho”, Saulo
sentia que as necessidades espirituais se multiplicavam no
espírito sedento de consolação.
Oito meses de lutas incessantes passaram sobre a morte de
Estevão, quando o moço tarsense, capitulando ante a saudade e
o amor que lhe dominavam a alma, resolveu rever a paisagem
florida da estrada de Jope, onde por certo reconquistaria o
afeto de Abigail, de maneira a reorganizarem todos os projetos
de um futuro ditoso.
Tomou o carro minúsculo com o coração opresso. Quantas
hesitações não vencera para retornar à antiga situação,
humilhando a vaidade de homem convencionalista e inflexível! A
luz crepuscular enchia a Natureza de reflexos de ouro
fulgurante. Aquele céu muito azul, a verdura agreste, as
brisas caridosas da tarde, eram os mesmos. Sentia-se reviver.
Sonhos e esperanças continuavam, também, intangíveis. E
refletia na melhor maneira de reaver a dedicação da mulher
escolhida, sem humilhação para sua vaidade. Contar-lhe-ia sua
desesperação, diria das suas insônias, da continuidade do
imenso amor que nenhuma circunstância conseguira destruir.
Embora mantivesse firme o propósito de omitir toda e qualquer
alusão ao carpinteiro de Nazaré, falaria a Abigail do remorso
por não lhe haver estendido mãos amigas no instante em que
todas as esperanças de sua alma feminina se haviam abalado,
ante o imprevisto da morte dolorosa do irmão, em
circunstâncias tão amargas.
Esclareceria os detalhes de seus sentimentos. Havia de
referir-se à recordação indelével da sua prece angustiosa e
ardente, quando Estevão penetrava os umbrais da morte.
Atraí-la-ia ao coração que jamais a esquecera, beijar-lhe-ia
os cabelos, formularia novos projetos de amor e felicidade.
Mergulhado em tais pensamentos, atingiu a porta de entrada,
identificando as roseiras em flor.
O coração batia-lhe descompassado, quando Zacarias surgiu com
grande surpresa. Um abraço demorado assinalou o reencontro.
Abigail foi objeto de sua primeira interrogação.
Com estranheza notou que Zacarias entristeceu.
— Pensei que algum de teus amigos já te houvesse levado a
desagradável notícia – começou dizendo, enquanto o jovem
buscava ouvi-lo ansioso. — Abigail, há mais de quatro meses,
adoeceu dos pulmões e, para falar com franqueza, não temos
nenhuma esperança.
Saulo fizera-se lívido.
— Logo depois que voltou precipitadamente de Jerusalém, esteve
mais de um mês entre a vida e a morte. Em vão nos esforçamos,
eu e Ruth, para restituir-lhe o viço e as cores da juventude.
A pobrezinha entrou a definhar e, em pouco tempo, acamou-se
abatida. Solicitei tua presença, com ansiedade, a fim de
resolvermos o possível em seu benefício, mas não apareceste.
Parecia-me que um ambiente novo lhe proporcionaria o
restabelecimento da saúde, mas, faltaram-me os recursos para
uma iniciativa mais ampla, tal como se impunha.
— Mas, Abigail fez alguma queixa a meu respeito? — perguntou
Saulo, aflito.
— De modo algum. Aliás, o regresso inesperado de Jerusalém, a
enfermidade súbita e teu injustificável afastamento desta casa
eram de molde a causar-nos dúvidas e receios; mas logo se
verificaram melhoras positivas, após o período mais agudo da
febre, e ela nos tranquilizou a respeito. Explicou a
necessidade da tua ausência, disse estar ciente dos teus
muitos afazeres e encargos políticos; referiu-se com gratidão
ao acolhimento que lhe dispensaram teus parentes e, quando
Ruth, para confortá-la, qualifica de ingrato o teu
procedimento, Abigail é sempre a primeira a defender-te.
Saulo quis dizer alguma coisa, enquanto Zacarias fazia uma
pausa, mas nada lhe ocorreu à mente. A emoção que lhe causava
a nobreza espiritual da noiva amada, paralisava-lhe as ideias.
— Apesar do seu esforço para tranquilizar-nos – continuava o
marido de Ruth, – temos a impressão de que nossa filha adotiva
se encontra dominada por desgostos profundos, que procura
ocultar. Enquanto podia andar, visitava os pessegueiros, à
mesma hora em que costumava fazê-lo contigo. A princípio,
minha mulher surpreendeu-a chorando, nas sombras da noite;
mas, em vão procuramos sondar a causa de seus íntimos
padecimentos. O único motivo que alegava era justamente o da
enfermidade, que começava a minar-lhe o organismo. Mais tarde
estagiou uma semana, por aqui, um pobre velho chamado Ananias.
Deu-se então um fato estranho: Abigail encontrou-o em casa dos
nossos rendeiros e, todas as tardes, detinha-se a ouvi-lo
horas a fio, manifestando daí para cá muita fortaleza
espiritual. Ao despedir-se, o pobre mendigo deu-lhe como
lembrança alguns pergaminhos com os ensinamentos do famoso
carpinteiro de Nazaré…
— Do carpinteiro? – atalhou Saulo evidentemente contrariado. –
E depois?
— Tornou-se dedicada leitora do chamado Evangelho dos
galileus.
Consideramos a conveniência de afastá-la de semelhante
novidade espiritual, mas Ruth ponderou ser essa, agora, a sua
única distração. Com efeito, desde que começou a falar no
discutido Jesus Nazareno, observamos que Abigail se enchera de
profundas consolações. E o fato é que não mais a vimos chorar,
embora se lhe não apagasse do semblante abatido a dolorosa
expressão de amargura e melancolia. Sua conversação, daí por
diante, parece haver adquirido inspirações diferentes. A dor
transformou-se-lhe em confortadora expressão de alegria
íntima.
E fala a teu respeito com um amor cada vez mais puro. Dá
impressão de haver descoberto nos misteriosos escaninhos da
alma, a energia de uma vida nova.
Depois de um suspiro, Zacarias terminava:
— E, contudo, a mudança não alterou a marcha da enfermidade
que a devora devagarinho. Dia a dia, vemo-la inclinar-se para
o túmulo, como flor que tomba do hastil ao sopro do vento
forte.
Saulo experimentava indisfarçável angústia. Penosa emoção
revolvia-lhe a alma generosa e sensível. Como definir-se?
Esmagavam-lhe o espírito amargurosas interrogações.
Quem era, afinal, aquele Jesus que o topava em toda parte? O
interesse de Abigail pelo Evangelho perseguido revelava a
vitória do carpinteiro nazareno a contrastar os próprios
sonhos da sua mocidade.
— Mas, Zacarias – perguntou irritadiço o doutor de Tarso, –
por que não impediste semelhante contacto? Esses velhos
feiticeiros percorrem as estradas disseminando a confusão.
Surpreende-me essa condescendência, porquanto nossa fidelidade
à Lei não admite, ou, pelo menos, nunca deverá admitir
transigências.
O interpelado recebeu a recriminação com serenidade e
acentuou:
—Antes de tudo, importa considerar que pedi em vão o socorro
da tua presença, para orientar-me. E, além do mais, quem teria
coragem de sonegar o remédio ao doente amado?
Desde que lhe vi a resignação santificada, fiz o propósito de
não me referir aos seus novos pontos de vista em matéria de
crença religiosa.
E como Saulo estivesse engolfado em profundas cismas, sem
saber o que responder, o bom homem rematou:
—Vem comigo, verás com os próprios olhos!...
O rapaz seguiu-lhe os passos, cambaleando. As ideias
baralhavam-se-lhe no cérebro dolorido. Aquelas notícias
inesperadas envenenavam-lhe o coração.
Reclinada no leito, assistida pela afeição maternal de Ruth, a
moça de Corinto estampava no rosto um profundo abatimento.
Muito magra, a epiderme adquirira a cor do marfim, mas o olhar
lúcido denotava absoluta calma espiritual. Carinhosa
serenidade estampava-se-lhe na fisionomia entristecida.
De vez em quando, renovava-se a dispneia com prolongada
aflição, voltando-se então para a janela aberta, como se dali
esperasse remédio ao seu cansaço, através das brisas frescas
que chegavam do seio generoso da Natureza.
Ao vê-la, Saulo não dissimulou o seu espanto. A jovem, por sua
vez, recebendo a jubilosa surpresa, tomou-se de sincera e
transbordante alegria.
Saudações afetuosas se trocaram entre ambos, enquanto os olhos
traduziam a saudade angustiosa com que haviam esperado aquele
momento.
O futuro rabino acariciou-lhe as mãos mimosas, que pareciam
agora modeladas em cera translúcida. Falaram da esperança que
os alentara, constante, antes do reencontro. Notando que eles
desejavam ficar sós, para confidenciar mais à vontade,
Zacarias e Ruth retiraram-se discretamente.
— Abigail! – exclamou Saulo comovidíssimo, logo que se viram a
sós – abdiquei o meu orgulho e a minha vaidade de homem
público para vir até aqui, perguntar se me perdoaste, se me
não esqueceste!
— Esquecer-te? – respondeu ela de olhos úmidos. Por mais rude
e longa que seja a estação de sol ardente, a folha do deserto
não poderá esquecer a chuva benéfica que lhe deu vida. Não me
fales, igualmente, em perdão, pois acaso poderá alguém
perdoar-se a si mesmo?
E nós, Saulo, pertencemo-nos um ao outro para a eternidade.
Não me disseste, muitas vezes, que eu era o coração do teu
cérebro?
Ouvindo o timbre caricioso daquela voz amada, o jovem de Tarso
comovia-se nas entranhas do próprio ser arrebatado e ardente.
Aquela humildade e aquele tom de ternura penetravam-lhe o
coração, reconquistando-lhe o discernimento para o caminho
reto.
Guardando, entre as suas, as mãos pálidas da noiva, exclamou
com um lampejo de alegria nos olhos:
— Por que dizes que “eras o coração”, se ainda és e sê-lo-ás
para sempre?
Deus abençoará nossas esperanças. Realizaremos nosso ideal.
Voltei para levar-te comigo.
Teremos um lar, serás nele a rainha!…
Dominada por indefinível alegria, a noiva, que o contemplava
com lágrimas, murmurou:
— Desconfio, Saulo, que os lares da Terra não foram feitos
para nós!…
Deus sabe quanto desejei, ardentemente, ser a mãe carinhosa de
teus filhos; como conservei o ideal acima de todas as
circunstâncias, para aformosear tua existência com o meu
carinho! Desde menina, em Corinto, vi mulheres que
desbaratavam os tesouros do Céu, simbolizados no amor do
esposo e dos filhinhos; e pensei que o Senhor me concederia o
mesmo patrimônio de esperanças divinas, pois aguardava as
bênçãos do santuário doméstico para glorificá-lo de todo o
coração. Para exaltá-lo, idealizei a vida do homem amado, que
me auxiliaria a erguer o altar da prole; e, assim que me
chegaste, organizei vastos planos de uma vida santa e
venturosa, na qual pudéssemos honrar a Deus.
Saulo escutava comovido. Nunca lhe observara tamanha largueza
de raciocínio e lucidez, naquele tom de ternura tranquila.
Mas o Céu – prosseguiu resignada – retirou-me as
possibilidades de semelhante ventura na Terra. Nos meus
primeiros dias de solidão, visitava os lugares ermos, como a
procurar-te, requisitando o socorro do teu afeto. Os
pessegueiros de nossa predileção pareciam dizer que nunca mais
voltarias; a noite amiga aconselhava-me a esquecer; o luar,
que me ensinaste a bem-querer, agravava as minhas recordações
e amortecia as minhas esperanças.
Da peregrinação de cada noite, voltava com lágrimas nos olhos,
filhas do desespero do coração. Embalde procurava tua palavra
confortadora. Sentia-me profundamente só. Para lembrar e
seguir tuas advertências, recordava que me chamaste a atenção,
à última vez que nos encontramos, para a amizade de Zacarias e
de Ruth. É verdade que não tenho outros amigos mais fiéis e
generosos que eles; entretanto, não lhes poderia ser mais
pesada na vida, além do que sou. Evitei, então, confiar-lhes
minhas angústias. Nos primeiros meses da tua ausência,
amarguei sem consolo a minha grande desdita. Foi quando surgiu
aqui um velhinho respeitável, chamado Ananias, que me deu a
conhecer as luzes sagradas da nova revelação. Conheci a
história do Cristo, o Filho de Deus Vivo; devorei o seu
Evangelho de redenção, edifiquei-me nos seus exemplos. Desde
essa hora, compreendi-te melhor, conhecendo a minha própria
situação.
Súbito acesso de tosse cortou-lhe a narrativa.
As palavras da noiva caíam-lhe no coração como gotas de fel.
Nunca experimentara dor moral tão aguda. Verificando a
sinceridade natural, o carinho doce daquelas confissões,
sentia-se pungido de acerbos remorsos. Como pudera abandonar,
assim, a escolhida de sua alma, olvidando-lhe a fidelidade e o
amor? Onde encontrara tamanha dureza de espírito para esquecer
deveres tão sagrados? Agora, vinha encontrá-la exânime,
desiludida de realizar na Terra os sonhos da juventude. Além
de tudo, o carpinteiro odiado parecia tomar-lhe o lugar no
coração da noiva adorada. Naquele momento, não experimentava
apenas o desejo de lhe arrasar a doutrina e os adeptos, mas
sentia ciúmes dele na alma caprichosa. De que poderes podia
dispor o nazareno obscuro e martirizado na cruz, para
conquistar os sentimentos mais puros da noiva carinhosa?
— Abigail – disse comovido, – abandona as ideias tristes que
poderiam envenenar os sonhos de nossa mocidade. Não te
entregues a ilusões.
Renovemos nossas esperanças. Breve estarás restabelecida. Sei
que me perdoaste a morte de teu irmão, e minha família te
receberá em Tarso com júbilos sinceros! Seremos felizes, muito
felizes!...
Seus olhos pareciam pairar numa região de sonhos deliciosos,
procurando reavivar no coração amado os seus projetos de
felicidade terrena.
Ela, porém, misturando sorrisos e lágrimas, acrescentava:
— Francamente, querido, eu também desejaria reviver!… Ser tua,
entretecer teus sonhos de juventude, inventar estrelas para o
céu da tua existência; tudo isso constitui meu ideal de
mulher!... Ah! se pudesse, buscaria os teus parentes com amor,
haveria de conquistá-los para o meu coração, ao preço de um
grande afeto; mas, pressinto que os planos de Deus são
diferentes, no que concerne aos nossos destinos. Jesus
chamou-me para a sua família espiritual…
— Ai de mim! – exclamou Saulo cortando-lhe a palavra – em toda
parte, topo expressões do carpinteiro de Nazaré! Que flagelo!
Não repitas semelhante coisa. Deus não seria justo se te
sequestrasse ao meu afeto. – Quem poderia, então, como esse
Cristo, interpor-se aos nossos votos?
Mas Abigail fixou-o com um gesto súplice e falou:
— Saulo, de que nos valeria a desesperação? Não será melhor
inclinarmo-nos com paciência aos sagrados desígnios? Não
alimentemos dúvidas prejudiciais. Este leito é de meditação e
de morte, O sangue, várias vezes, já me golfou prenunciando o
fim. Mas nós cremos em Deus e sabemos que esse fim é apenas
corporal. Nossa alma não morrerá, amar-nos-emos eternamente...
— Não concordo – respondia ele extremamente aflito, – essas
presunções são fruto de ensinamentos absurdos, quais os desse
fanático nazareno que morreu na cruz, entre a humilhação e a
covardia. Nunca assim foste, melancólica e desalentada;
somente os sortilégios galileus podiam convencer-te de tais
absurdos funestos. Mas, procura raciocinar por ti mesma! Que
te deu o crucificado senão tristeza e desolação?
— Enganas-te, Saulo! Não me sinto desanimada, embora convicta
da impossibilidade de minha ventura terrena. Jesus não foi um
mestre vulgar de sortilégios, foi o Messias dispensador de
consolação e vida. Sua influência renovou-me as forças,
saturou-me de bom ânimo e verdadeira compreensão dos desígnios
supremos. Seu Evangelho de perdão e amor é o tesouro divino
dos sofredores e deserdados do mundo.
O jovem não conseguia dissimular a irritação que lhe vagava na
alma.
— Sempre o mesmo refrão – disse confuso – invariavelmente a
afirmativa de ter vindo para os infelizes, para os doentes e
infortunados. Mas, as tribos de Israel não se compõem apenas
de criaturas dessa espécie. E os homens valorosos do povo
escolhido? E as famílias de tradições respeitáveis?
Estariam fora da influência do Salvador?
— Tenho lido os ensinamentos de Jesus – respondeu a moça com
firmeza – e suponho compreender as tuas objeções. O Cristo,
cumprindo a sagrada palavra dos profetas, revela-nos que a
vida é um conjunto de nobres preocupações da alma, a fim de
que marchemos para Deus pelos caminhos retos. Não podemos
conceber o Criador como juiz ocioso e isolado, senão como Pai
desvelado no benefício de seus filhos. Os homens valorosos a
que te referes, os forros de enfermidades e sofrimentos, na
posse das bênçãos reais de Deus, deviam ser filhos laboriosos,
preocupados com o rendimento da tarefa que foram chamados a
cumprir, a prol da felicidade de seus irmãos. Mas, no mundo,
temos contra nossas tendências superiores o inimigo que se
instala em nosso próprio coração. O egoísmo ataca a saúde, o
ciúme prejudica o mandato divino, como a ferrugem e a traça
que inutilizam nossas vestes e instrumentos, quando nos
descuidamos. São poucos os que se recordam da proteção divina,
nos dias alegres da fartura, como raríssimos os que trabalham
à revelia do aguilhão. Isso demonstra que o Cristo é um
roteiro para todos, constituindo-se em consolo para os que
choram e orientação para as almas criteriosas, chamadas por
Deus a contribuir nas santas preocupações do bem.
Saulo estava impressionado com aquela clareza de raciocínio.
Mas a conversação exigira da enferma maior esforço e
consequente fadiga. A respiração tornara-se difícil, e não
tardou que o sangue lhe borbotasse do peito em prolongada
hemoptise. Aquele sofrimento, adornado de ternura e humildade,
comovia e exasperava profundamente o noivo. Compreendeu que
seria impiedoso atacar perante a noiva aquele Jesus que lhe
cumpria perseguir até ao fim. Não queria crer que a sua
Abigail estivesse nas vésperas da morte.
Preferia encarar o futuro com otimismo. Restabelecida,
fá-la-ia voltar aos seus antigos pontos de vista. Não
toleraria a intromissão do Cristo no santuário doméstico. No
esforço introspectivo, entretanto, concluiu que precisava dar
uma trégua aos seus pensamentos antagônicos, para cogitar dos
problemas essenciais da sua própria tranquilidade. A jovem
enferma, após a crise que durara minutos longos e tristes,
tinha os grandes olhos serenos e lúcidos.
Contemplando-a naquela doce atitude de suprema resignação,
Saulo de Tarso experimentou enternecedoras comoções íntimas.
Seu temperamento arrebatado entregava-se facilmente às
impressões extremadas.
Aproximando-se mais da noiva amada, tinha os olhos úmidos.
Desejou acariciá-la como se o fizesse a uma criança.
— Abigail – murmurou ternamente, – não falemos mais de ideias
religiosas. Perdoa-me! Recordemos nosso porvir de flores,
esqueçamos tudo para consolidar as melhores esperanças.
E as palavras lhe borbulhavam ardentes de emoção. O carinho
que evidenciavam era sintoma do arrependimento e das
aspirações nobres e sinceras que lhe trabalhavam, agora, no
espírito angustiado. Entretanto, como se fora presa de
singular abatimento depois do esforço despendido, a jovem de
Corinto estava lânguida, receando prosseguir no colóquio, em
virtude dos acessos de tosse que a ameaçavam frequentemente. O
noivo, preocupado, compreendeu a situação e, apertando-lhe as
mãos transparentes, beijou-as enternecido.
— Precisas repousar – disse com inflexão carinhosa, – não te
preocupes por minha causa. Dar-te-ei de minhas próprias
forças. Breve estarás restabelecida.
E, depois de envolvê-la num olhar cheio de gratidão e infinita
ternura, rematava:
— Voltarei a ver-te todas as noites que possa afastar-me de
Jerusalém, e logo que puderes voltaremos a ver o luar, lá no
jardim, para que a Natureza abençoe os nossos sonhos, sob as
vistas de Deus.
— Sim, Saulo – disse pausadamente, – Jesus nos concederá o
melhor.
De qualquer modo, no entanto, estarás no meu coração, sempre,
sempre...
O doutor da Lei ia despedir-se, mas refletiu que a noiva nada
lhe dissera com referência ao irmão. A generosidade daquele
silêncio impressionava-o.
Preferia ser acusado, discutir o feito com as suas penosas
circunstâncias, para que também se justificasse. Mas, em vez
de reprimendas, encontrava carícias, em vez de exprobrações,
uma tranquilidade generosa, com que a meiga jovem sabia
ocultar as profundas feridas que lhe iam n'alma.
— Abigail – exclamou algo hesitante, – antes de partir,
quisera saber francamente se me desculpaste pela morte de
Estevão. Nunca mais pude falar-te das contingências que me
levaram a tão triste desfecho; no entanto, estou convicto de
que tua bondade olvidou minha falta.
— Por que te recordas disso? – respondeu-lhe esforçando-se por
manter a voz firme e clara. – Minh'alma está agora tranquila.
Jeziel está com o Cristo e morreu legando-te um pensamento
amistoso. Que poderia eu reclamar de minha parte, se Deus tem
sido tão misericordioso para comigo? Ainda agora, estou
agradecendo ao Pai justo, de todo o coração, a dádiva da tua
presença nesta casa. Há muito vinha pedindo ao Céu não me
deixasse morrer sem te rever e ouvir...
Saulo calculou a extensão daquela generosidade espontânea e
teve os olhos úmidos. Despediu-se. A noite fresca estava
repleta de sugestões para o seu espírito. Nunca meditara nos
insondáveis desígnios do Eterno, como naquele momento em que
recebera tão profundas lições de humildade e amor, da mulher
amada. Experimentava na alma opressa o embate de duas forças
antagônicas, que lutavam entre si para a posse do seu coração
generoso e impulsivo.
Não compreendia Deus senão como um senhor poderoso e
inflexível. À sua vontade soberana, dobrar-se-iam todas as
preocupações humanas. Mas começava a perquirir o motivo de
suas dolorosas inquietudes. Por que não encontrava, em parte
alguma, a paz anelada ardentemente? E, todavia, aquela gente
miserável do “Caminho” entregava-se às algemas do cárcere,
sorridente e tranquila. Homens enfermos e valetudinários,
isentos de qualquer esperança do mundo, suportavam-lhe as
perseguições com louvores no coração. O próprio Estevão, cuja
morte lhe servira de exemplo inesquecível, abençoara-o pelos
sofrimentos recebidos por amor ao carpinteiro de Nazaré.
Aquelas criaturas desamparadas gozavam de uma tranquilidade
que ele desconhecia,
O quadro da noiva doente não lhe saía dos olhos. Abigail era
sensível e afetuosa, mas lembrava sua ansiedade feminina, a
intensidade de suas preocupações de mulher, quando,
eventualmente, não conseguia comparecer com pontualidade no
adorável recanto da estrada de Jope. Aquele Jesus desconhecido
proporcionara-lhe forças ao coração. Se era inconteste que a
enfermidade lhe extinguia a vida aos poucos, também evidente
era o rejuvenescimento das suas energias espirituais. A noiva
falara-lhe como que tocada de novas inspirações; aqueles olhos
pareciam contemplar interiormente a paisagem de outros mundos.
Essas reflexões não lhe deram ensejo à admiração da Natureza.
Reentrando em Jerusalém, guardou a impressão de que despertava
de um sonho. À sua frente desenhavam-se as linhas majestosas
do grande santuário.
O orgulho de raça falava-lhe mais forte ao espírito.
Era impossível conferir superioridade aos homens do “Caminho”.
Bastou a visão do Templo para que encontrasse em si mesmo os
esclarecimentos que desejava. A seu ver, a serenidade dos
discípulos do Cristo provinha, naturalmente, da ignorância que
lhes era apanágio. Geralmente, os que se afeiçoavam aos
galileus eram, apenas, criaturas que o mundo desclassificara
pela decadência física, pela educação falha, pelo supremo
abandono. O homem de responsabilidade, por certo, não poderia
encontrar a paz a preço tão vil. Figurara-se-lhe haver
resolvido o problema. Continuaria a luta. Contava com o breve
restabelecimento da noiva; logo que possível desposaria
Abigail e, com facilidade, dissuadi-la-ia dos fantasiosos quão
perigosos engodos daqueles ensinamentos condenados. Do âmbito
do seu lar, feliz, prosseguiria na perseguição de quantos
esquecessem a Lei, trocando-a por outros princípios.
Esses raciocínios lhe acalmaram, de certo modo, as
inquietações.
Mas, no dia seguinte, manhã alta, um mensageiro de Zacarias
golpeava-lhe a alma com uma notícia grave:
Abigail piorara, estava agonizante!
Incontinente, tomou o caminho de Jope, ansioso de arrebatar a
bem-amada ao perigo iminente.
Ruth e o marido estavam desolados. Desde a madrugada, a
enferma caíra em penosa prostração. Os vômitos de sangue
sucediam-se ininterruptos. Dir-se-ia que só esperava a visita
do noivo para morrer. Saulo escutou-os, lívido como cera.
Mudo, dirigiu-se para o quarto, onde o ar fresco penetrava
embalsamado, trazendo a mensagem das flores do pomar e do
jardim, que pareciam enviar despedidas às mãos delicadas e
carinhosas que lhes haviam dado a vida.
Abigail recebeu-o com um raio de infinita alegria nos olhos
translúcidos. O tom de marfim do semblante abatido
acentuara-se rapidamente. O peito arfava-lhe precípite, o
coração batia sem ritmo. Sua expressão geral evidenciava a
derradeira agonia. Saulo aproximou-se angustiado. Pela
primeira vez na vida, sentia-se trêmulo diante do
irremediável. Aquele olhar, aquela palidez de mármore, aquela
aflição tocada de angústia. anunciavam-lhe o desenlace.
Depois de inquiri-la, quanto à razão daquele abatimento
inesperado, tomou-lhe as mãos flácidas, banhadas do suor frio
dos moribundos.
— Como foi isso, Abigail? – dizia perturbado – ainda ontem,
deixei-te tão esperançado… Pedi sinceramente a Deus te curasse
para mim!…
Extremamente sensibilizados, Zacarias e sua mulher
afastaram-se.
Vendo que a noiva tinha imensa dificuldade em expor as últimas
ideias, Saulo ajoelhou-se a seu lado, cobriu-lhe as mãos de
beijos ardentes. A agonia dolorosa parecia-lhe o sofrimento
injustificável, que o céu houvera enviado a um anjo. Ele, que
trazia o espírito ressecado pela hermenêutica das leis
humanas, sentiu que chorava intensamente pela primeira vez.
Lendo-lhe a sensibilidade através das lágrimas que lhe desciam
silenciosamente dos olhos, Abigail esboçou um gesto de carinho
com dificuldade infinita. Conhecia Saulo e comprovara-lhe a
rigidez do caráter. Aquele pranto revelava o calvário íntimo
do bem-amado, mas demonstrava, igualmente, o alvorecer de uma
vida nova para o seu espírito.
— Não chores Saulo, murmurou dificilmente, a morte não é o fim
de tudo…
— Quero-te comigo em toda a vida – replicou o rapaz desfeito
em lágrimas.
— E, contudo, é preciso morrer para vivermos verdadeiramente
acrescentava a agonizante, cortando as palavras com a
respiração opressa. – Jesus nos ensinou que a semente caindo
na terra fica só, mas se morrer dá muitos frutos!… Não te
rebeles contra os desígnios supremos que me arrebatam do teu
convívio material! Se nos uníssemos pelo matrimônio, talvez
tivéssemos muitas alegrias; teríamos um lar com os nossos
filhos; mas destruindo nossas esperanças de uma felicidade
passageira na Terra, Deus nos multiplica os sonhos generosos…
Enquanto esperarmos a união indissolúvel, auxiliar-te-ei de
onde estiver e te consagrarás ao Eterno, em esforços sublimes
e redentores…
Via-se que a agonizante movimentava recursos supremos para
pronunciar as derradeiras palavras.
— Quem te deu semelhantes ideias? – perguntou o jovem ralado
de angústia.
—Esta noite, depois que partiste, senti que alguém se
aproximava enchendo o quarto de luz… Era Jeziel que vinha
ver-me… Ao avistá-lo, lembrei-me de Jesus no inefável mistério
da sua ressurreição. Anunciou-me que Deus santificava os
nossos propósitos de ventura, mas que eu seria levada ainda
hoje à vida espiritual. Ensinou-me a quebrar o egoísmo de
minh'alma, encheu-me de bom ânimo e trouxe-me a grata nova de
que Jesus ama-te muito, tem esperanças em ti!… Refleti, então,
que seria útil entregar-me jubilosa às mãos da morte, pois,
quem sabe, se ficasse no mundo não perturbaria a missão que o
Salvador te destinou… Jeziel afirmou que nós te ajudaremos de
um plano mais alto! Por que, então, deixarei de ser tua
companheira?… Seguirei teus passos no caminho, levar-te-ei
onde se encontrem nossos irmãos do mundo, em abandono,
auxiliarei teus raciocínios a descobrir sempre a verdade!…
Ainda não aceitaste o Evangelho, mas Jesus é bom e terá algum
meio de nos unir os pensamentos na verdadeira compreensão!…
O esforço da moribunda havia sido imenso. A voz
extinguira-se-lhe na garganta. De seus olhos, profundamente
lúcidos, as lágrimas corriam abundantes.
— Abigail! Abigail! – gritava
Saulo desesperado.
Mas, após longos minutos de angustiosa ansiedade, ela dizia
num arranco supremo:
— Jeziel já veio… buscar-me…
Instintivamente, Saulo compreendeu que era chegado o momento
fatal. Em vão chamou pela moribunda, cujos olhos se empanavam;
debalde lhe beijou as mãos geladas, agora cobertas de um palor
de neve translúcida. Como louco, gritou por Zacarias e Ruth.
Esta, soluçante, desfeita em pranto, abraçou-se a Abigail que,
desde a morte do filho, resumia todo o seu tesouro maternal.
A agonizante fixou o olhar, respectivamente, em cada um, como
a evidenciar amoroso agradecimento. Depois… uma só lágrima
silenciosa foi o seu último adeus.
Do jardim próximo chegavam perfumes brandos; o céu crepuscular
tonalizava-se de nuvens aurifulgentes, enquanto os pássaros em
recolhida cruzavam os ares alegremente…
Pesada amargura abatera-se sobre a mansão da estrada de Jope.
Alara-se ao céu a filha dileta, a noiva amada, a amiga
carinhosa das flores e dos passarinhos.
Saulo de Tarso ali se deixou ficar mudo, estarrecido enquanto
Ruth, lavada em lágrimas, cobria de rosas a morta adorada, que
parecia dormir.
Kardec e amigos
Jesus Cristo
Chico Xavier
..."Recordemos que o
Espiritismo nos solicita uma espécie permanente de
caridade:
a caridade de sua própria divulgação" Emmanuel
Abigail, doente
Emmanuel e Chico Xavier
Aparição de Jesus