Efeitos dos Projéteis de Arma de Fogo em Alvo Humano: O Poder de Parada e Incapacitação

Por João Alexandre Voss de Oliveira - Cap QOEM (357mag at via-rs.net)

Instrutor de Tiro Policial

"The selection of effective handgun ammunition for law enforcement is a critical and complex issue. It is critical because of that which is at stake when an officer is required to use his handgun to protect his own life or that of another. It is complex because of the target, a human being, is amazingly endurable and capable of sustaining phenomenal punishment while persisting in a determined course of action. The issue is made even more complex by the dearth of credible research and the wealth of uninformed opinion regarding what is commonly referred to as 'stopping power'."

John C. Hall

Chefe da Unidade de Treinamento em Armas de Fogo

Academia Nacional do FBI, EUA

Introdução

Os motivos pelos quais um policial leva consigo uma arma de fogo parecem bastante óbvios a todos nós. Infelizmente, ainda não foram desenvolvidos equipamentos e técnicas capazes de proteger a vida de maneira tão eficaz do que uma arma de fogo em mãos treinadas. Talvez no futuro, as pesquisas na área de equipamentos não letais (ou menos letais, como preferem alguns) nos permita abolir de vez as armas de fogo na atividade policial, mas hoje, ainda não podemos dispensá-las.

Da mesma forma, os efeitos dos projéteis de arma de fogo em alvo humano, as reações que os agressores apresentam quando atingidos pelos disparos efetuados pelo policial, podem parecer óbvios. Entretanto, poucos policiais são capazes de descrevê-los. Se utilizar uma arma de fogo parece algo violento, o estudo das lesões que elas causam, para alguns, parece mais estranho e mórbido ainda.

Por que o interesse por esta área de estudo? E por que o policial deve ter um bom conhecimento dos efeitos lesivos das armas de fogo? Primeiro porque é uma área do conhecimento humano que envolve diversas disciplinas, mais especificamente áreas da física e da biologia. Depois, a atividade de polícia deve ser desempenhada por pessoas com conhecimento completo do potencial lesivo que levam consigo, como representantes do monopólio da violência exercida pelo Estado.

Os efeitos lesivos de projéteis de arma de fogo e o fenômeno da incapacitação imediata têm sido alvo de estudos por vários especialistas em todo o mundo, já há vários anos, mas poucos autores apresentam nestes estudos informações que possam ser úteis às polícias, para a tomada de decisões corretas ao estabelecerem critérios de escolha de armas e munições realmente efetivas para a atividade policial.

O problema da incapacitação imediata [1] se torna ainda mais crítico quando consideramos o uso de armas curtas. A arma de coldre é a arma primária do policial, a arma que ele deve ter disponível sempre que precisar. Seu propósito é aplicar a força letal para proteger a vida do policial e a de outros. Quando um policial dispara sua arma de fogo, o faz com a intenção explícita de incapacitar seu oponente de forma imediata, para fazer cessar qualquer ameaça à vida. A incapacitação imediata é a meta do policial, e é também a razão subjacente para decisões relativas a armas, munição, calibres e treinamento. Iremos observar, entretanto, que em se tratando de armas curtas, é muito difícil obter-se como resultado a incapacitação imediata do agressor, por motivos diversos, fenômeno este, entretanto, facilmente produzido com o uso de um fuzil, por exemplo. Mas um fuzil não pode ser a arma de coldre do policial, de forma que é preciso utilizar um conjunto arma/munição que possibilite produzir, pelo maior número de vezes possível, a incapacitação imediata do oponente.

O conceito de incapacitação imediata geralmente é sujeito a teorias contraditórias, interpretações errôneas amplamente difundidas pela literatura especializada e opiniões diversas, distorcidas por experiências pessoais, apesar de ser crítico para a análise e seleção de armas, munições e calibres para uso policial.

O assunto é ainda mais complexo pela carência de pesquisa confiável e pela riqueza de opiniões desinformadas sobre tal fenômeno, comumente chamado de "stopping power". Por exemplo Shawn Dodson, escritor norte-americano, em recente artigo denominado "Reality of the Street? A Practical Analysis of Offender Gunshot Wound Reaction for Law Enforcement", [2] cita que existem " ... fatores principais que influenciam a reação de um oponente atingido por um disparo de arma de fogo: (a) seu estado mental; (b) fatores que afetem o desempenho terminal de um projétil no alvo primário, como a penetração, a expansão e a transferência de energia, e (c) o trauma fisiológico produzido pelo rompimento de tecidos pelo projétil." A opinião de Dodson, endossada por diversos autores, é fruto de pesquisas recentes na área de balística terminal, porém, algum destes componentes são simplesmente ignorados por outros autores, que valorizam fatores nem sempre possíveis de serem comprovados de maneira clara pela ciência.

O que pretendemos com este ensaio é apresentar uma visão - o mais atualizada possível - sobre os estudos desenvolvidos referentes aos efeitos dos projéteis de arma de fogo em alvo humano, fazendo que possamos compreender o fenômeno da incapacitação imediata - objetivo final do uso de armas de fogo pela polícia. Isso permitirá a seleção e o uso mais criterioso do armamento letal (e mesmo das futuras tecnologias menos letais) que faz parte do arsenal das polícias para o desenvolvimento de suas atividades.


Sumário

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Parte I - Balística terminal e o efeito dos projéteis em alvo humano

 

Efeitos dos projéteis / Generalidades / Balística / Balística interior / Balística Exterior / A trajetória do projétil / Velocidade dos projéteis / Alcance dos projéteis / Balística Terminal / Efeitos dos projéteis de arma de fogo em alvo humano / O alvo humano / A análise de confrontos armados

Parte II - Poder de Parada - Origem, evolução e estudos atuais

Generalidades / O conceito de incapacitação imediata / Origem / Estudos sobre a incapacitação de projéteis de arma de fogo / Os experimentos de Thompson e LaGarde / Julian S. Hatcher / Chamberlin o os testes com cabras / Martin L. Fackler / Outros estudos sobre efeitos de projéteis / Poder de parada no Brasil / A prática do FBI norte americano

Parte III - Considerações finais sobre os efeitos lesivos de projéteis de arma de fogo

Incapacitação imediata: uma meta difícil / Critérios para a seleção de munições para uso policial / Penetração mínima requerida / Expansão controlada / Diâmetro não expandido do projétil / Superpenetração e transfixação do alvo / Conclusões

Referências Bibliográficas

Apêndice I - Marshall e Sanow e a "realidade" das ruas

Generalidades / Interpretações e críticas ao trabalho de Marshall e Sanow / As críticas de Roberts e Wolberg / A teoria do "choque neurogênico" / As porcentagens de incapacitação / Predizendo o "stopping power" / Profundidade de penetração / Mais enganos sobre a performance de projéteis / Conclusões de Roberts e Wolberg / Martin Fackler: críticas ao livro "Street Stoppers --The Latest Handgun Stopping Power Street Results" / Problemas conceituais em "Street Stoppers" / Comentários sobre capítulos específicos do livro / Conclusões de Fackler / As discrepâncias nos dados de Marshall e Sanow apontadas por Maarten van Maanen / Tabelas de efetividade de Marshall e Sanow / Comentários finais sobre Marshall e Sanow

Apêndice II "Wound Profiles" - Diagramas de lesões por projéteis

 


[1] A "incapacitação imediata" é definida como a súbita inabilidade física ou mental para oferecer risco à vida, para o policial ou para terceiros. 

[2] O artigo pode ser lido na íntegra em http://www.firearmstactical.com.


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