Apêndice I - Marshal e Sanow e a "realidade das ruas"
1. Generalidades
Este apêndice não pretende ser apenas uma crítica à teoria do "one shot stopping power" apresentada por Evan Marshall e Edwin Sanow, mas um exame de sua metodologia e dos erros inerentes a seu trabalho. Durante muito tempo, esta foi a única fonte que chegava nosso país sobre efeitos de projéteis de arma de fogo, e como está baseada em conceitos errados, é importante sabermos lidar com os dados apresentados pelos autores.
Há alguns anos, diferentes autores que escrevem sobre armas e munições nos EUA começaram a publicar, na imprensa especializada, números e porcentagens da efetividade de munições de arma de fogo, resultado da análise de confrontos armados reais. A primeira tabulação organizada do desempenho munições nas ruas foi apresentada por Evan Marshall em maio de 1987, em artigo publicado na revista norte americana "Petersen's Handguns", no qual o autor apresentava o resultado do emprego real de tipos diferentes de munições. [1] Este artigo foi tido imediatamente por muitos como a resposta decisiva para todas as discussões sobre efetividade de projéteis. As porcentagens apresentadas foram aceitas quase sem contestação.
Em novembro de 1988, a mesma revista publicou uma atualização naqueles dados anteriormente tabulados [2] listando, além do número de casos de emprego real de determinado tipo de munição, também o número de vezes em que houve a ocorrência do "stopping power": a parada do agressor no primeiro tiro.
Em 1992, Evan Marshall e Edwin Sanow publicaram um livro no qual apresentavam novos números [3] , publicação que foi seguida de outra, em 1996 [4] .
Marshall e Sanow afirmam ter viajado por todos os Estados Unidos e por alguns países da Europa, buscando subsídios - inclusive nos resultados das necropsias - para sua pesquisa. A análise dos casos reais mostrou, para os autores, que projéteis mais leves, portanto com maior velocidade, e a configuração desses projéteis (essencialmente em ponta oca) tem melhor desempenho a produção do fenômeno conhecido como "one-shot stop" (a incapacitação imediata provocada por apenas um impacto de projétil no tórax). Com base nos dados colhidos, os autores atribuíram a determinado tipo de munição um índice preditivo de incapacitação. Segundo o trabalho publicado por Marshall e Sanow, se nos dados colhidos foram relatados 100 casos de disparos com determinado calibre e em 50 destes casos o atacante foi posto fora de combate com um único tiro no torso, o poder de parada desse projétil seria de 50%.
Os resultados dos dados tabulados indicaram, segundo os autores, que os projéteis leves e mais velozes teriam um potencial para o "one-shot stop" maior do que os mais pesados, mesmo com a mesma configuração (ponta oca, por exemplo). Esta, entretanto, é uma das conclusões do trabalho de Marshall e Sanow que tem sido refutada por inúmeros especialistas no mundo todo. As conclusões desses autores geraram mais polêmica, sendo recebidas com descrédito pelos que se baseavam nos estudos anteriores, que projéteis mais pesados, viajando a velocidades menores, possuem maior penetração, e, portanto, poderão causar maiores danos nos tecidos humanos atingidos, possuindo maior poder de incapacitação.
Mesmo defendendo projéteis leves e de alta velocidade, Marshall e Sanow reconheceram a importância da penetração do projétil em alvo humano. Um projétil com pouca penetração não atingirá a zonas vitais para a ocorrência da incapacitação imediata, parando em roupas grossas ou mesmo em ossos ou outros obstáculos. Por outro lado, um projétil com alta penetração poderá transfixar o corpo do agressor, não transferindo energia ao alvo. [5] Diversos especialistas estabelecem como padrão ideal de penetração a profundidade de 10 a 12 polegadas em corpo humano. O projétil, preferencialmente, não deverá transfixar o alvo, e sim, deter-se nele para uma eficiente transmissão de toda a sua energia cinética aos tecidos. [6]
Os autores definem o "stopping power" (ou "poder de parada") como sendo a capacidade de um projétil, em seu impacto, fazer com que a pessoa atingida entre em colapso imediatamente (ou, no máximo, em dois segundos) antes de fazer algum disparo ou expressar qualquer reação de ataque ou fuga; a vítima/oponente, quando atingido, também não poderia deslocar a mais de três metros do local onde fora atingida, antes de entrar em colapso. Marshall e Sanow decidiram registrar os casos em que este fenômeno ocorreu, na forma de porcentagens. Por exemplo, a munição Federal .357 Magnum JHP de 125 grains (1453 fps) teve um total (quando publicado) de 462 tiroteios registrados, dos quais 448 resultaram em incapacitação imediata do oponente/vítima. Isto significava, para Marshall e Sanow, que um único tiro com aquele projétil/calibre resultaria em uma parada instantânea em 97% das vezes.
A metodologia que Marshall e Sanow utilizaram para a seleção de eventos para inclusão em seus estudos, entretanto, é bastante controversa. Nos casos aprovados para a inclusão, o projétil deveria obrigatoriamente golpear o torso (excluindo a cabeça e pescoço) do oponente, além de múltiplos impactos terem sido descartados (para os autores interessavam os efeitos de um único projétil). Marshall e Sanow exigiram, ainda, um mínimo de cinco eventos de tiroteio onde uma combinação particular de carga/calibre ocorrera. Além disso os autores informam que, para a inclusão de determinado caso na pesquisa, foram consultados relatórios da polícia, dados sobre homicídios, resultados de autópsias e fotografias (entre outras fontes), além da verificação dos projéteis recuperados - ou pelo menos fotografias destes.
Com base nestes dados, os autores desenvolveram um método peculiar de cálculo do desempenho de projéteis, fazendo a correlação do resultado do desempenho de novos projéteis disparados somente em gelatina balística, com os resultados de projéteis conhecidos, disparados nos eventos reais e, posteriormente, também na gelatina balística. Marshall e Sanow propõem as seguintes razões para a efetividade de projéteis em seu estudo (mais adiante veremos que nem todas as razões propostas baseiam-se em dados científicos):
(1) Corte ou grave prejuízo no fornecimento de oxigênio levado pelo sangue para o cérebro, causado diretamente pelo projétil ou por fragmentos deste (ou de ossos). Marshall e Sanow propõem também que, em alguns casos, projéteis com energia muito alta (de fuzis ou armas de calibre magnum) podem causar um "choque hidrostático" forte o suficiente para estirar o tecido e resultar na ruptura de vasos (veremos que a suposição de que este choque teria alguma importância na incapacitação imediata de um oponente não possui base científica alguma);
(2) Lesões que atinjam o sistema nervoso central. Os autores reconhecem que a colocação de um tiro é mais efetiva na área de cabeça, especificamente dentro da abóbada craniana ou no próprio cérebro (qualquer projétil que destrua o cerebelo, por exemplo, garantirá colapso instantâneo). Entretanto, há dois problemas principais neste mecanismo. Primeiramente, a cabeça é a menor área móvel do alvo, e conseqüentemente a parte mais difícil para atingir. Secundariamente, os ossos do crânio são extremamente duros, e há muitos casos relatados onde pessoas foram atingidas na cabeça, e o projétil desviou para fora, causando apenas danos superficiais. Porém, uma vez que o projétil esteja dentro da abóbada craniana, destrói áreas importantes do cérebro. Marshall e Sanow propõem aqui, também, a teoria do "choque hidrostático" que, segundo afirmam, é muito mais perceptível na abóbada craniana do que no sistema vascular. Este controverso mecanismo é definido como a capacidade de a cavidade temporária causar danos remotamente ao canal de ferida permanente, o que provou não ser verdadeiro;
(2) Quebra de ossos e da estrutura de apoio de esqueleto. Para os autores, este seria o mecanismo mais provável de queda imediata, mas o menos provável em provocar uma parada imediata. Projéteis de quase todos os calibres possuem algum potencial para quebrar ossos; porém, até mesmo quando o osso do quadril é completamente destruído e o oponente cai, ele ainda é perfeitamente capaz de continuar atirando;
(3) Razões psicológicas. Aqui Marshall e Sanow reconhecem a importância de razões não apenas fisiológicas, mas também das psicológicas no mecanismo de incapacitação, como a "vontade de viver" do oponente;
(4) Choque neurológico ("Neural Shock"). Em seus estudos, Marshall e Sanow lançam as bases do controverso mecanismo de incapacitação atribuído a lesões remotas no sistema nervoso central causadas pela cavidade temporária gerada pelo forte impacto dos projéteis de alta velocidade. Os autores afirmam que órgãos como o fígado, o baço, os rins e especialmente o estômago seriam capazes de enviar impulsos de dor ao cérebro, indicando um severo dano ao corpo, caso em que o sistema nervoso central poderia ser funcionalmente desligado, resultando em perda de consciência dentro de um ou dois segundos. Tais afirmações não são endossadas por nenhum dado científico, não havendo evidência alguma de que impactos de projéteis possam causar danos secundários a outras estruturas senão às já comprometidas pelo canal de ferida permanente. A cavidade temporária não é capaz, fisiologicamente, de causar danos em quantidade suficiente para nocautear um ser humano. [7]
[1] Marshall, EP: "The Lethal Truth About Handgun Stopping Power," Petersen's Handguns, 1987; 1(1); p. 32-37, 85.
[2] Marshall, EP: "One-shot Stopping Power." Petersen's Handguns, 1988; 2(6): p. 24-29, 68-71.
[3] Marshall, EP; Sanow EJ: Handgun Stopping Power: The Definitive Study. Paladin Press, Boulder, Colorado, 1992.
[4] Marshall, EP; Sanow EJ: Street Stoppers: "The Latest Handgun Stopping Power Street Results". Paladin Press, Boulder, Colorado, 1996.
[5] Não se trata aqui da energia citada por alguns autores pra a ocorrência do "choque neurológico", que é em absoluto um mito, mas a energia cinética transformada em danos aos tecidos.
[6] Idem.
[7] Martin L. Fackler é um dos grandes críticos a esta teoria de Marshall e Sanow.