2. Interpretações e críticas ao trabalho de Marshall e Sanow

Como dissemos anteriormente, ainda estamos à espera de um trabalho sério que tabule o resultado de confrontos armados de forma científica. Os dados estão sendo gerados dia-a-dia, mas, quando colhidos, normalmente são organizados e interpretados de modo subjetivo, sem obediência a qualquer metodologia científica reconhecida.

Os dados apresentados por Marshall e Sanow rendem até hoje discussões acaloradas. Diversos autores informam erros e incongruências graves em seus dados, alegando inclusive uma possível ligação com empresas fabricantes de novas munições de alta velocidade como base para os dados fornecidos, que valorizam este tipo de projétil.

Principalmente a imprensa especializada em armas e munições nos EUA tem reforçado a idéia de que os dados apresentados por Marshall e Sanow são revestidos de uma cientificidade que é bastante duvidosa. Acreditamos que, como já ocorreu com diversos outros autores antes deles, os dados fornecidos podem ter sido trabalhados para provar o argumento defendido, da maior efetividade das novas munições "fora de série", leves e de alta velocidade, em detrimento dos projéteis subsônicos mais pesados. Como argumenta ELLIS (1996), as pessoas tendem a desenvolver preferência por determinado tipo de munição, desprezando os demais.   [1]

Ellis identifica também conceitos errados no trabalho de Marshall e Sanow, muitas vezes difundidos pelos referidos autores de revistas de armas de fogo, principalmente nos EUA. Entre as principais controvérsias, Ellis afirma que as declarações referindo-se aos estudos de Marshall são equivocadas:

"... esta declaração é enganada. Para que um estudo seja científico, tem que seguir o método científico, o que significa declarar uma hipótese formalmente, construir uma experiência para testar aquela hipótese, administrar a experiência e apresentar os resultados para revisão e contestação por outros investigadores. Marshall não fez nenhum destas coisas. Ele apenas coleta informações e as tabula. No senso estrito da palavra, não há nada de científico sobre o trabalho de Marshall, nem poderia haver. Administrar uma experiência onde são disparados tiros de teste em seres humanos (freqüentemente com resultado morte) não é algo que possa (ou deva) sido feito. Nem tal experiência teria algum valor real incontestável: condições de laboratório nem sempre reproduzem as condições de campo".

Outra declaração enganosa, para o autor, é feita ao se afirmar que tais estudos não são científicos:

"... esta declaração, enquanto verdadeira, também está enganada. O problema é que assume que toda a informação deva ser obtida por experiência para ser válida ou útil. Nós não precisamos conduzir uma experiência para determinar que o fogo é quente, ou que ser atingido por um projétil é ruim para nossa saúde. Nem uma informação obtida de uma experiência científica é necessariamente válida ou útil".

Ellis ainda refere em seu texto que qualquer referência aos dados de Marshall e Sanow como sendo "estatísticos" também não podem ser considerados corretos:

"Qualquer referência às informações de Marshall como 'estatísticas' é enganosa. As 'estatísticas' de Marshall são, na verdade, a proporção de pessoas que cessaram uma conduta agressiva ao serem atingidas uma vez por projétil de arma de fogo no torso, expressada como uma porcentagem. Cada caso no estudo de Marshall teve só dois resultados possíveis: ou parou ou não parou o agressor. Eventos que têm só dois resultados não são satisfatórios para estudo estatístico, pois não podem ter nenhuma das medidas estatísticas habituais de tendência central (como média ou moda), ou de variação (como discrepância ou desvio padrão)."

O autor acaba por reconhecer que qualquer indicação que este ou aquele calibre seja efetivo em determinado número de vezes é também uma afirmação duvidosa:

"... esta declaração é muito enganada. A informação de Marshall é histórica, não preditiva. Indica o que aconteceu no lugar onde aconteceu." [2]

Na verdade, nem os dados de Marshall, nem quaisquer outros, podem ser usados para predizer um único resultado no futuro. Até mesmo se assumirmos que os dados de Marshall têm valor preditivo, não se pode predizer resultados individuais.

Marshall e Sanow defendem que tão importante quanto a arma e o calibre utilizados, o ponto atingido no alvo e a possibilidade de múltiplos disparos garantem a ocorrência do "stopping power", apesar de estes critérios não terem sido levados em conta na coleta dos dados, como veremos adiante (o melhor conjunto arma/munição do mundo de nada servirá se o usuário errar o tiro ou não conseguir repeti-lo pelo excessivo recuo da arma).

Outra condicionante na ocorrência do "stopping power", para Marshall e Sanow, é a expansão do projétil, que, afirmam, necessariamente deverá ocorrer. O fator expansão provou, atualmente, não ser tão importante quanto a penetração, apesar de os especialistas reconhecerem que a expansão tem alguma importância além do aumento das lesões permanentes, ainda não bem documentada. Além do mais, armas curtas costumam apresentar problemas na expansão de projéteis tipo ponta oca: atingir altas velocidades em um cano de arma longa, como um fuzil, é relativamente simples, mas para que isto ocorra em projéteis disparados de armas curtas é necessário um projétil especialmente construído para este fim (nos dados  apresentados, os maiores índices de incapacitação ocorrem com a utilização de projéteis especiais ou no emprego de armas longas (fuzis).

Diversos autores tem dedicado tempo e esforço no sentido de dirimir as dúvidas provocadas pelas declarações de Marshall e Sanow em seus livros e nos artigos publicados. Mais do que simplesmente criticar, são apresentadas evidências científicas, por renomados especialistas, de que os dados "definitivos" sobre o "one-shot stop" podem não ser tão definitivos assim.


[1] Ellis, Kyrie. "Misconceptions and Limitations", em http://www.firearmstactical.com

[2] Ellis, Kyrie, op. cit.


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