1. Efeitos dos projéteis

1.1. Generalidades

Quando escrevemos no passado sobre este assunto [1], nossos conhecimentos a respeito do tema eram, de certa forma, bastante restritos. Como no Brasil não possuímos nenhum estudo sério (não necessariamente científico) sobre o poder de parada de armas e munições, nossas pesquisas foram baseadas, quase que totalmente, nos poucos dados que eram trazidos de colegas que tiveram acesso às pesquisas norte-americanas sobre o fenômeno do "stopping power". Vale dizer que, à época, poucos contestavam (e poucos o fazem ainda hoje) os dados coletados sobre tiroteios e resultados apresentados por Marshall e Sanow, que eram a principal fonte. Aqui também fomos influenciados pela "base de dados" de Marshall e pelos resultados apresentados por diferentes munições de arma de fogo. Hoje sabemos que a validade dos trabalhos de Marshall é relativa, e que as tabelas de efetividade apresentadas não tem valor preditivo algum, sendo apenas uma coleção de dados de confronto armado.

Hoje temos uma visão mais crítica sobre aqueles dados, bem como acesso mais amplo a outras fontes de informação. Trabalhos de vários autores (sobre os efeitos lesivos de projéteis de arma de fogo e as teorias publicadas [2] sobre o fenômeno da incapacitação imediata) possibilitam trazer à tona aspectos bastante interessantes nesta discussão. Sabe-se hoje muito mais sobre os mecanismos de incapacitação de um alvo humano por projéteis de arma de fogo do que se tinha conhecimento há oito ou dez anos.

Não existe, ainda, um consenso sobre quais as munições mais efetivas para uso policial, nem critérios bem definidos sobre como fazer esta escolha. O que existem são, de um lado, cientistas e laboratórios forenses que apontam o resultado de pesquisas sérias na área, e, de outro, estudiosos (nem sempre bem intencionados ou com a isenção necessária) que tabularam dados de eventos onde houve a troca de tiros entre policiais e oponentes na vida real, às vezes sem a utilização de critérios muito claros para a apresentação de seus resultados.

O que pode ser afirmado com absoluta certeza é que o alvo humano é algo extremamente complexo, que pode não responder da forma desejada ao impacto de projéteis de arma de fogo, continuando a oferecer risco à vida do policial mesmo depois de atingido várias vezes em zonas letais de seu corpo, ou, por outro lado, cessar a agressão imediatamente após receber o impacto de projéteis ou mesmo de fragmentos em áreas menos importantes, simplesmente devido a fatores psicológicos como a predisposição para morrer.

O termo poder de parada ("stopping power") deve ser utilizado de forma cautelosa. Ele traz consigo a idéia de uma unidade de medida para classificação de munições conforme sua efetividade, o que os estudos atuais mostram não ser correto. Preferimos utilizar a noção de incapacitação imediata, pois expressa claramente a idéia não de uma unidade de medida, mas de um objetivo a ser atingido quando do uso de munições de arma de fogo.

Para compreender as diferentes pesquisas e seus resultados, de forma a tomar decisões acertadas em confrontos armados, e o tão desejado fenômeno da incapacitação imediata do oponente, estudaremos diversas teorias atualmente defendidas de forma quase religiosa por seus criadores. Ao final, apresentaremos alguns critérios que devem ser levados em conta na hora de escolher um determinado conjunto arma/munição para uso policial.

Por enquanto, é necessário conhecer alguns dos princípios da física que regem o tiro, antes de o projétil atingir o alvo e após sua penetração no alvo humano.


[1] Sobre o tema, nosso livro "Tiro de Combate Policial, uma abordagem técnica" (1999) traz algumas informações úteis.

[2] A Internet é uma fonte muito útil em pesquisas sobre o assunto. A bibliografia consultada, que apresentamos ao final deste trabalho, informa alguns sites de consulta obrigatória sobre o tema.


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