2. Efeitos dos projéteis de arma de fogo em alvo humano
Neste ponto iniciam as controvérsias sobre a efetividade de determinadas munições. Se os princípios da física referentes ao disparo da arma estão mais do que fundamentados, os efeitos do projétil em alvo humano dependem de fatores fisiológicos e psicológicos que ainda são motivos de grande discussão entre os autores especializados em armas e munições.
A localização do impacto do projétil no corpo do oponente é um importante componente na efetividade de armas e munições na atividade policial. Porém, considerações sobre o calibre da munição empregada são igualmente importantes e não podem ser ignoradas. Por exemplo, é bem provável que projéteis de qualquer calibre, que atinjam algum componente do sistema nervoso central do agressor, produzam a incapacitação imediata. Até mesmo um projétil no calibre .22 "Long Rifle" que penetre a caixa craniana do oponente e atinja o cérebro poderá causar o fenômeno.
Obviamente, isto não significa que policiais devam utilizar armas no calibre .22 LR, nem que devam treinar para acertar a cabeça do oponente como alvo primário. A realidade do emprego de armas na atividade policial proíbe tal procedimento. É muito difícil que o policial, no "stress" de um confronto armado, tenha a oportunidade de efetuar um disparo cuidadosamente direcionado à cabeça do agressor. Os confrontos armados caracterizam-se pela súbita necessidade do uso da arma, pela rápida movimentação do policial e do adversário, por limitadas e parciais oportunidades de enquadramento de miras, por luz pobre e obstáculos imprevistos, e pelo "stress" de uma situação onde há grande risco à vida. O treinamento policial, portanto, deve ser orientado para que o policial dispare no chamado "centro de massa", na zona central do corpo do oponente. Um disparo correto é aquele que atinge o centro do corpo do adversário, independente de sua anatomia ou ângulo.
Estudos de caso feitos a partir da ocorrência de confrontos armados onde houve somente o emprego da arma de coldre, sugerem claramente que, não importa o número de disparos efetuados, na maioria das vezes apenas um ou dois chegam atingir o tórax do oponente da maneira correta. Isto se explica pela natureza destes incidentes e pela extrema dificuldade em disparar uma arma, com precisão, sob tais condições. A probabilidade de múltiplos impactos contra um mesmo alvo não é muito grande.
Os projéteis de arma de fogo irão provocar efeitos diversos no alvo humano. De modo geral, estes efeitos podem ser divididos em:
(1) Efeitos primários: como efeitos primários temos a chamada ação direta, provocada pelo impacto do projétil contra os tecidos do corpo, e a ação indireta, que dependerá de fatores fisiológicos ou psicológicos do oponente atingido;
(2) Efeitos secundários: são efeitos permanentes, pesquisáveis no corpo humano atingido por projéteis de armas de fogo (orlas e zonas, e lesões típicas dos tiros à queima-roupa). Estes efeitos não tem nenhuma relação com o poder de incapacitação do projétil, estando restrito, seu estudo, à medicina legal e às práticas forenses.
2.1. Efeitos primários
Ambas as ações - direta e indireta - são responsáveis em maior ou menor grau, pelos efeitos primários dos projéteis em alvo humano, e pelo fenômeno da incapacitação imediata.
A ação direta manifesta-se pelos chamados mecanismos de martelo e cunha, provocados pelo impacto do projétil, que empurra e rasga os tecidos, deslocando-os.
A ação indireta é causada por fatores que serão vistos mais adiante. Vale dizer que a ação indireta é o ponto de maior controvérsia entre diferentes autores. Pertencem à ação indireta do projétil as teorias de incapacitação que valorizam a cavidade temporária produzida pelo intenso choque do projétil no alvo, por exemplo, hoje muito discutidas.
O projétil, ao atravessar o corpo humano, provoca dois tipos básicos de lesões. O primeiro é conhecido como canal de ferida permanente, que é o ferimento provocado pelo projétil ao romper os tecidos. O segundo é denominado cavidade temporária, produzida pelo intenso choque do projétil na massa líquida dos tecidos. [1]
Para JOSSELSON [2] , há quatro componentes em um ferimento por projétil de arma de fogo (nem todos se referem ao mecanismo de incapacitação, mas cada um deles deve ser considerado). São eles:
(1) Penetração. O tipo de tecido pelo qual o projétil passa, e quais estruturas são rompidas ou destruídas;
(2) Cavidade permanente. O volume de espaço que era ocupado por tecido e que foi destruído pela passagem do projétil. Ocorre em função da penetração e da área frontal do projétil. É o canal que permanece após a passagem do projétil;
(3) Cavidade temporária. A expansão da cavidade permanente, estirada devido à transferência de energia cinética durante a passagem do projétil;
(4) Fragmentação. Pedaços de projétil ou fragmentos secundários de ossos que são impelidos além da cavidade permanente e podem cortar tecido muscular, vasos, etc. [3]
Projéteis de arma de fogo incapacitam um alvo humano de duas maneiras: ou danificam o sistema nervoso central, ou causam perda maciça de sangue (o chamado "choque hipovolêmico"). Quanto mais extensos forem os componentes da lesão (penetração, cavidades permanente e temporária, fragmentação), ou maiores forem os danos ao sistema nervoso e a perda de sangue, maior será a probabilidade de ocorrer a incapacitação imediata.
A cavidade temporária é mais difícil de ser observada, pois consiste em uma grande abertura dos tecidos moles poucos instantes após o choque do projétil, que permanece assim apenas por frações de segundo, devido à elasticidade dos tecidos do corpo humano.
Já o canal de ferida permanente é de fácil observação, pois permanece no corpo após cessarem os efeitos da cavidade temporária.
A fragmentação não estará necessariamente presente em todo ferimento de projétil de arma de fogo. Pode ou não existir, e, quando ocorre, pode ser considerada um efeito secundário [4] .
A onda de choque ("sonic shock wave") e a cavidade temporária ("temporary cavity"). Diagrama do projétil atravessando através do tecido, mostrando a cavidade temporária e a cavidade permanente ("permanent cavity") deixada em seu trajeto.
Diagrama de lesão provocada por projétil de pistola .45 ACP. Esta foi a munição padrão do exército dos EUA (e do brasileiro também) até recentemente. O projétil ogival e totalmente encamisado ("full-metal-cased bullet") dificilmente deforma, mas penetra profundamente nos tecidos.
Bloco de gelatina balística atingida por projétil ("slugs") do calibre 12. Observe a intensa cavidade temporária (ação indireta do projétil sobre o alvo) devida à expansão da gelatina causada pelo impacto do projétil. Fenômeno semelhante pode ser observado nos tecidos moles do corpo humano, quando atingidos por projéteis de arma de fogo.
Blocos de gelatina balística atingidos por projéteis de arma curta. Na imagem superior, a cavidade temporária causada pelo impacto de um projétil ponta oca comum. Na inferior, a cavidade temporária de um projétil "glaser safety slug", fragmentável (rasa cavidade permanente devido à pouca penetração).
Bloco de gelatina balística atingido por múltiplos balins de cartucho de caça. Não há mais cavidade temporária, mas é possível observar os canais de ferida permanente (ação direta do projétil), que marcam o trajeto dos fragmentos no interior do alvo.
Cavidade temporária provocada por um projétil ogival de chumbo, no calibre .38 SPL, 158 "grains". Projéteis ogivais não expansivos provocam baixa cavidade temporária no alvo, mas produzem uma penetração maior.
Todas as lesões por arma de fogo combinarão os componentes de penetração, cavidade permanente e cavidade temporária em maior ou menos grau. Por outro lado, a fragmentação não acontece de modo confiável com armas curtas devido às velocidades relativamente baixas dos projéteis disparados deste tipo de arma. A fragmentação só acontece de modo confiável em projéteis de alta velocidade (velocidade de impacto superior a 2000 fps, pouco mais de 600 m/s) na configuração "soft-point" ou "hollow-point". [5] Em impactos deste tipo, a cavidade permanente é estirada tanto e tão rapidamente que a destruição ocorre em tecidos que cercam o canal de ferida permanente que já foram debilitados pelos fragmentos do projétil e de ossos. [6] O fenômeno pode aumentar significativamente os danos em lesões de projéteis de fuzil [7] .
Uma vez que as velocidades mais altas em projéteis disparados de armas curtas geralmente não excedem a 426-457 metros por segundo (1400-1500 fps) na boca do cano da arma, uma fragmentação confiável com projétil de arma curta somente poderia ser alcançada com a construção de um projétil tão fragmentável que eliminaria qualquer penetração razoável. Infelizmente, tal projétil fragmentará muito rápido para penetrar órgãos vitais. O melhor exemplo é a "Glaser Safety Slug", um projétil desenhado para fragmentar no impacto contra o alvo e que gera uma intensa, porém rasa, cavidade temporária. O médico norte americano Martin L. Fackler, uma das maiores autoridades mundiais sobre ferimentos de projéteis de armas de fogo da atualidade, quando questionado sobre o tempo estimado de sobrevivência de um indivíduo que fosse atingido no abdômen por um projétil "Glaser" respondeu, "... aproximadamente três dias, e a causa mortis seria peritonite". [8]
Nos casos em que a fragmentação ocorre em ferimentos de arma curta, os fragmentos do projétil são encontrados geralmente dentro de um centímetro ao redor da cavidade permanente. Como observa DiMaio [9] , "... a velocidade de projéteis de pistola, até mesmo nas novas munições de alta velocidade, é insuficiente para causar a dispersão de fragmentos de chumbo observada com o uso de projéteis de fuzil".
Dos fatores já relacionados, diversos autores têm dado demasiada importância à cavidade temporária, como fator essencial para a ocorrência da incapacitação imediata . [10] De fato, historicamente a cavidade temporária tem sido considerada como mecanismo principal da efetividade das lesões por arma de fogo.
O exemplo mais notável é a criação do Índice Relativo de Incapacitção ("Relative Incapacitation Index", ou RII), resultado de um estudo da efetividade de armas patrocinado pela LEAA - "Law Enforcement Assistance Administation" (EUA). A partir deste estudo foi feita a suposição de que quanto maior a cavidade temporária, maior o efeito incapacitante do projétil. Esta suposição estava baseada em uma suposição anteriormente feita, de que o tecido atingido pela cavidade temporária seria danificado ou destruído [11] . Este estudo também ajudou a disseminar a idéia de uma unidade de medida para a efetividade de munições.
No estudo da LEAA, virtualmente todo tipo de munição de arma curta disponível para uso policial foi testado. A cavidade temporária foi medida, e as munições foram classificadas com base nos resultados. A profundidade de penetração e a cavidade permanente foram simplesmente ignoradas. O resultado, de acordo com o RII, é que um projétil que cause uma grande cavidade temporária, mesmo que rasa, é melhor (em termos de incapacitação) que um projétil que cause uma cavidade temporária menor, mas tenha penetração profunda. Tais conclusões ignoram os fatores anteriormente vistos, da "penetração" e da "cavidade permanente". Considerando que os órgãos vitais são localizados profundamente dentro do corpo, deveria ser óbvio que ignorar a penetração e a cavidade permanente é ignorar os únicos meios comprovados de danificar ou romper estes órgãos vitais.
A cavidade temporária é causada pelo tecido que é estirado além da cavidade permanente, e neste estiramento nenhum tecido é danificado seriamente. A cavidade temporária é apenas um espaço temporário: aquele mesmo espaço desaparece tão logo o tecido retorne à a sua configuração original.
Freqüentemente os médicos legistas não podem distinguir o rasto de ferida causado por um projétil de ponta oca (grande cavidade temporária) daquele causado por um projétil sólido (cavidade temporária muito pequena). Não há nenhuma diferença física nas lesões. Se não há nenhuma fragmentação, danos remotos devido à cavidade temporária podem ser pequenos até em lesões por projéteis de alta velocidade, como os de fuzis [12] .
Mesmo os especialistas que defendem a importância da cavidade temporária concordam que esta não é um grande componente na efetividade de lesões de projéteis:
"No caso de projéteis de baixa velocidade, como por exemplo, projétil de pistola, este produz um caminho direto de destruição com muito pequena extensão lateral dentro dos tecidos circunvizinhos. Apenas uma pequena cavidade temporária é produzida. Para causar danos significantes para uma estrutura, um projétil de pistola tem que golpear aquela estrutura diretamente. A quantidade de energia cinética perdida (transferida) nos tecidos por um projétil de pistola é insuficiente para causar os danos produzidos por um projétil de rifle de alta velocidade". [13]
O motivo disto é que a maioria dos tecidos no alvo humano é elástico por natureza. Músculos, vasos sanguíneos, pulmões, intestinos, todos são capazes de suportar um estiramento significativo com danos mínimos. Estudos mostraram que a velocidade externa dos tecidos nos quais se forma a cavidade temporária não são maiores do que um décimo da velocidade do projétil. [14] Estes valores estão dentro dos limites de elasticidade de tecidos como músculos, vasos sanguíneos e pulmões. Somente tecidos não elásticos como o fígado, ou os tecidos extremamente friáveis do cérebro, mostrariam danos significantes devido à cavidade temporária. [15]
O rompimento de tecidos causado por um projétil de arma curta é limitado a dois mecanismos, a ação direta e a ação indireta, já vistos [16] . Das duas, a ação direta é a mais importante na lesão provocada pelo projétil. Para causar danos significantes para alguma estrutura dentro do corpo com uma arma de fogo, o projétil tem que penetrar esta estrutura. A cavidade temporária não tem nenhum efeito confiável em tecidos elásticos. Esta cavidade não é nada mais do que a extensão dos tecidos, geralmente não maior que dez vezes o diâmetro do projétil (considerados aqui apenas projéteis de armas curtas), havendo apenas um pequeno dano residual aos tecidos elásticos, se houver. [17]
[1] O corpo humano possui cerca de 60% de sua massa composta por líquidos, o que torna bastante compreensível existência da cavidade temporária causada pelo impacto de um projétil.
[2] Josselson, A. (MD), do Instituo de Patologia da Forças Armadas, Centro Médico Walter Reed (exército dos EUA), em preleção a alunos da Academia Nacional do FBI, 1982-1983.
[3] Fackler, M.L. e Malinowski, J.A.: "The wound profile: a visual method for quantifying gunshot wound components", publicado no "Journal of Trauma", número 25, p. 522-529, 1985.
[4] Fackler, M.L. (MD): "Missile caused wounds", Instituto de Pesquisas Letterman do Exército dos EUA, Presídio de São Francisco, Califórnia, EUA. Relatório 231, Abril de 1987.
[5] Josselson, A. (MD), op. cit.
[6] Fackler, M.L., Surinchak, J.S. e Malinowski, J.A.: "Bullet fragmentation: a major cause of tissue disruption", publicado no "Journal of Trauma" número 24, p. 35-39, 1984.
[7] Fackler demonstrou, em experiências com projéteis fragmentáveis de fuzil, a existência de danos a uma distância de até nove centímetros a partir da cavidade permanente. Segundo o autor, estes danos secundários não são observáveis em ferimentos por projéteis de armas curtas.
[8] Fackler, M.L.: "Bullet performance misconceptions" publicado na "International Defense Review", volume 3, p. 369-370, em 1987.
[9] DiMaio, V.J.M.: "Gunshot Wounds", Elsevier Science Publishing Company, New York, NY, 1987, p. 47.
[10] Lindsay, Douglas, MD: "The Idolatry of Velocity, or Lies, Damn Lies, and Ballistics", no "Journal of Trauma" número 20, p. 1068-1069, 1980.
[11] Bruchey, W.J., Frank, D.E.: "Police Handgun Ammunition Incapacitation Effects", publicado na "National Institute of Justice Report", p. 100-83. Washington, D.C., U.S. Government Printing Office, 1984.
[12] Fackler, M.L., Surinchak, J.S., Malinowski, J.A.; et.al.: "Bullet Fragmentation: A Major Cause of Tissue Disruption", publicado no "Journal of Trauma" número 24, p. 35-39, 1984.
[13] DiMaio, V.J.M.: "Gunshot Wounds", publicado pela "Elsevier Science Publishing Company", New York, NY, 1987.
[14] Fackler, M.L., Surinchak, J.S., Malinowski, J.A., op cit.
[15] Fackler, M.L., MD: "Ballistic Injury", em "Annals of Emergency Medicine", nr 15, p.12, 1986.
[16] "Wound Ballistic Workshop: '9mm vs. .45 Auto'", realizado em setembro de 1987 na Academia do FBI, em Quantico, (EUA). Uma das conclusões do seminário foi a de que o rompimento dos tecidos se dá, primeiro, pelo denominado "mecanismo de esmagamento", que provoca o canal que o projétil faz para atravessar o tecido (cavidade permanente), e depois, pelo denominado "mecanismo de extensão", representado pela cavidade temporária formada pelos tecidos que são direcionados externamente em uma direção radial, para longe do caminho da bala. Dos dois, o "mecanismo de esmagamento", resultado da penetração e da cavidade permanente, é o único mecanismo que danifica tecidos em um disparo de arma de fogo.
[17] Esta afirmação pode ser vista em Fackler, M.L., MD: "Ballistic Injury", em "Annals of Emergency Medicine: 15, p. 12, 1986; em Fackler, M.L., Malinowski, J.A.: "The Wound Profile: A Visual Method for Quantifying Gunshot Wound Components", no "Journal of Trauma", 25, p. 522-529, 1985 e em Lindsay, Douglas, MD: "The Idolatry of Velocity, or Lies, Damn Lies, and Ballistics", no "Journal of Trauma: 20, p. 1068-1069, 1980.