Não há, atualmente, nenhum estudo científico sobre resultados de confrontos armados em andamento, o que é lamentável, pois grande quantidade destes dados está disponível (e novos dados estão sendo gerados diariamente). Há, sim, alguns trabalhos sendo promovidos, porém, a maioria apresenta resultados controversos. Conclusões são tomadas baseando-se em amostras tão pequenas que acabam não tendo sentido. O autor de um destes trabalhos, por exemplo, exalta as virtudes de sua munição favorita porque registrou dez casos de incapacitação imediata em pessoas atingidas com aquela munição. Ele define, sem critério científico algum, a incapacitação imediata como sendo aquela que ocorre em um indivíduo atingido por apenas um tiro no torso, que caia imediatamente ou, no máximo, em um raio de três metros do local onde foi atingido.
Noções pré-concebidas constituem a base das suposições nas quais são os incidentes são classificados. Incidentes são seletivamente somados ao "banco de dados" sem nenhuma indicação de quantos podem ter sido ignorados, e por quais motivos. Não há nenhuma correlação nestes estudos entre acertos de disparos, resultados, e a localização dos impactos em órgãos vitais. [1]
Estes "estudos" são alardeados como sendo melhores e mais válidos do que o trabalho feito por investigadores treinados, cirurgiões e laboratórios forenses. Eles desacreditam materiais de laboratório e reivindicam que a "rua" é o real laboratório, e que os resultados práticos registrados por eles são a real medida de efetividade dos calibres - como interpretado por eles, é claro. Ainda, os dados coletados nas ruas são registrados a esmo, sem nenhum método científico e controle, sem sequer uma tentativa de comparação com métodos mais fidedignos como relatórios forenses. "Casos são selecionados de forma completamente subjetiva (quantos eventos não são incluídos porque não se ajustam às suposições feitas?). O número de casos citado não possui nenhum sentido estatístico, e as suposições decorrentes destas informações e de sua interpretação são baseadas em mitos, como o choque neurogênico e o choque hidrostático, a transferência de energia ou a metodologia da cavidade temporária apresentada em trabalhos controversos como o RII". [2]
O que ocorre na vida real é que algumas pessoas são mais predispostas que outras a cair quando atingidas por projéteis de arma de fogo. Este fenômeno independe do calibre, tipo de projétil ou da colocação do impacto no alvo, e está além do controle do atirador, só podendo ser comprovado no ato, nunca previsto. Exige apenas dois fatores: um tiro e a cognição deste tiro por parte do alvo. Faltando qualquer um dos dois, as pessoas não serão forçadas a cair. Havendo esta predisposição, a escolha do calibre e configuração do projétil são praticamente irrelevantes. Grande número de pessoas cai quando atingidas por projéteis de arma de fogo, e os fatores desta incapacitação possuem origem psicológica. Milhares de livros, filmes e programas de televisão educam a população no sentido de que, quando atingidas por projéteis, espera-se que as pessoas caiam.
O problema ocorre justamente com aquele indivíduo que não está predisposto a cair, ou com aquele que simplesmente não é informado de ter sido atingido pelo disparo do policial, em virtude de álcool, adrenalina, narcóticos, ou pelo simples fato de que, na maioria dos casos de dano de grande intensidade, o corpo suprime a dor por um determinado período de tempo. E em não havendo dor, não há nenhum efeito fisiológico na lesão por projétil que possa alertar uma pessoa sobre ter sido ferida. A grande possibilidade de o oponente não cessar a agressão em um confronto armado e a razão por se buscar uma munição melhor em termos de incapacitação para uso policial. E como forçar o oponente a cessar a agressão utilizando a arma de coldre?
Os fatores que conduzem à incapacitação de um alvo humano são muitos, e variáveis. A destruição causada um projétil de arma curta é muito pequena se comparada à massa e complexidade do alvo humano. A menos que o tecido destruído seja localizado dentro das áreas críticas do sistema nervoso central, o impacto é fisiologicamente insuficiente para forçar a incapacitação em um alvo pouco disposto a ser incapacitado. Pode até ser letal, certamente, mas não há certeza da incapacitação. Pesquisas indicam que mais pessoas nos EUA foram mortas por munições no calibre .22 LR do que por todos os outros calibres combinados, o que, em uma analise baseada apenas em número de eventos, indicaria o calibre para uso policial ou defensivo, o que sabemos não ser verdade.
Há um grande problema na avaliação de calibres feita com base na análise de um pequeno número de incidentes. Por exemplo - e como foi feito por alguns autores - se registrarmos vários tiroteios nos quais apenas um disparo tenha atingido o agressor causando a incapacitação imediata e a porcentagem destes eventos fosse calculada, teríamos uma listagem aparentemente válida da efetividade da munição empregada. Porém, se uma grande parcela dos oponentes nos casos relacionados é predisposta a cair, como vimos, o calibre e a configuração do projétil são irrelevantes. Qual porcentagem destas incapacitações foi determinada por condições psicológicas do opoente? Quantos destes oponentes não estiveram dispostos a cair? Quantas falhas na incapacitação por múltiplos disparos ocorreram? O que causou os eventos com e sem sucesso? Quantas falhas foram registradas em impactos que atingiram órgãos vitais, e quantos funcionaram como esperado? Qual o número real da amostra? Como os casos foram registrados? Que verificações foram feitas para validar a informação? Como as verificações podem ser conferidas através de uma investigação independente? Devido do número elevado de variáveis do alvo humano, e até mesmo em situações de tiro em geral, cem eventos são um número estatisticamente insignificante. Da mesma forma que é provável que a incapacitção ocorra em dez casos, os mesmos dez casos podem ocorrer num universo de mil eventos. Quantidades muito grandes de amostra são absolutamente necessárias.
O exemplo a seguir ilustra claramente como amostras pequenas podem ser erroneamente interpretadas pelo observador desavisado. Separemos cinco moedas: uma de um centavo, uma de 10, uma de 25, uma de cinqüenta centavos e uma de um real. Vamos arremessar cada uma delas para cima, uma por vez. Digamos que o resultado desejado ao arremessarmos cada moeda seja "cara", e a experiência se destine a provar, estatisticamente, que determinada moeda é a mais "efetiva", para apresentar mais resultados "cara" do que as outras. Ao jogarmos as moedas para cima, 100 vezes cada uma delas, a moeda de um centavo caiu 52 vezes da maneira desejada, a de 10 centavos, 87, a de 25 centavos 63, a de 50, 49, e a moeda de um real obteve como resultado 94 vezes a "cara" para cima. Poderíamos, então, apresentar a seguinte tabela de "efetividade" das moedas:
|
Tipo de Moeda |
Número de eventos |
Efetividade |
% |
|
1 centavo |
100 |
52 |
52% |
|
10 centavos |
100 |
87 |
87% |
|
25 centavos |
100 |
63 |
63% |
|
50 centavos |
100 |
49 |
49% |
|
1 real |
100 |
94 |
94% |
Pela simples observação da tabela, o leitor menos atento poderia facilmente concluir que a moeda mais "efetiva", quando se deseja o resultado "cara", é a moeda de um real. Entretanto, se as moedas fossem novamente jogadas, os resultados seriam totalmente diferentes. A conclusão de que um tipo específico de moeda é melhor para obter-se um resultado específico está obviamente errada, mas é um bom exemplo de como números pequenos conduzem a resultados estatísticos equivocados. A possibilidade de uma moeda jogada cair com uma ou outra face para cima é de 50%. Números maiores de eventos (cinco ou dez mil lances de moeda, por exemplo) mostrariam percentagens próximas a estes 50%.
No caso acima, apenas duas possibilidades de resultados estão presentes. Num alvo humano, o número de resultados possíveis é muito maior.
Embora nenhum cartucho tenha garantia de funcionar 100%, seguramente alguns incapacitarão oponentes mais freqüentemente que outros. A incidência de falhas de incapacitação irá variar conforme a severidade das lesões infligidas, em função da localização do impacto do projétil no corpo, profundidade de penetração e da quantidade de tecido destruído.
Para avaliar a efetividade de um tipo específico de calibre ou munição é preciso considerar quantas pessoas atingidas por ele não foram incapacitadas, e observar o local do corpo onde foram atingidas. Dos incidentes de sucesso e falha, é preciso analisar quantos agressores foram atingidos em órgãos vitais, em lugar de quantos foram mortos ou não, e relacionar tal contagem com o que os agressores fizeram quando foram atingidos (se caíram simplesmente, ou continuaram fazendo alguma coisa, como fugir ou continuar a agressão por alguns segundos). Só nos interessam, para fins de podermos estabelecer a efetividade da munição, casos em que o agressor caiu imediatamente Todas as outras reações são falhas em incapacitar, e demonstram a já referida capacidade de algumas pessoas em continuar agindo mesmo após sofrer grande trauma físico. Qualquer incidente de uso de armas de fogo é um evento sem igual, que não está sujeito a qualquer lei natural ou ordem física para que siga uma sucessão predeterminada de eventos ou termine em um resultado predeterminado.
Para uso policial, é necessário que o conjunto arma/munição torne o resultado incapacitação imediata mais provável do que a falha nesta incapacitação. A ciência quantificará a informação necessária para que se possa fazer a escolha correta da munição para que aquela efetividade seja obtida. O importante é que os resultados dos confrontos armados sejam organizados em função dos danos causados às estruturas vitais do corpo do oponente, e considerando o que este oponente fez imediatamente após ter sido atingido. Mesmo uma efetividade de somente 1%, não é insignificante, porque o oponente que está em confronto com o policial poderá estar nesta faixa de efetividade devido a fatores psicológicos, por exemplo.
[1] Fackler sugere um exercício interessante para demonstrar o problema da colocação do impacto em um alvo humano atingido no "center body of mass", que ilustra o tamanho reduzido da área de impacto do projétil em comparação à grande massa do alvo humano. Em um alvo de treinamento, basta traçar um desenho anatomicamente correto das estruturas internas (coração, vasos importantes, etc.) na parte de trás de um alvo, disparar 20 tiros no "centro de massa" pela frente e, então, contar quantos atingiram o coração, a aorta, a veia cava ou o fígado. E é a hemorragia maciça destas estruturas que aumentará a probabilidade da incapacitação do oponente.
[2] Patrick, Urey W., op. cit.