2.3. As discrepâncias nos dados de Marshall e Sanow apontadas por Maarten van Maanen [1]

Em recente publicação, Maarten  van Maanen, autor norte americano, informa que a ênfase dada por Marshall e Sanow aos casos de incapacitação imediata e aos casos em que esta incapacitação ocorreu com apenas um tiro no torso do oponente devem ser encaradas com reserva. "Não entraram na tabulação dos casos aqueles em que o primeiro impacto no torso não incapacitou o oponente, bem como não há referências aos disparados adicionais efetuados até este cair". [2]

Para o autor, estes dados simplesmente teriam sido ignorados, não tendo sido incluídos sequer em um outro grupo de análise. Marshall e Sanow consideraram apenas os casos em que houve parada imediata com um só tiro no torso, e as falhas subseqüentes são considerados falhas nesta parada com apenas um tiro. Mesmo os casos em que há mais de um disparo no torso foram meramente ignorados. Esta observação foi feita ainda em 1992, mas nenhuma correção foi apresentada. [3]

Outro argumento do autor para a controvérsia sobre os estudos de Marshall e Sanow pode ser visto na tabela a seguir. Em 1988, os autores computaram um total de 3.024 casos nos quais ocorreu o fenômeno do "one-shot stop"; em 1992, um total de 6.136 casos; em 1996 um total de 20.742 casos. "Assim, o número de casos incluídos no trabalho foi de 14.606 entre 1992 e 1996, uma média de 10 casos por dia, 365 dias por ano. Isto sem contar aqueles casos em que, analisados, foram descartados para a pesquisa" [4] .

Marshall informa ele mesmo que casos apropriados para a inclusão na pesquisa foram "... extremamente difíceis de obter. Para cada cinqüenta tiroteios que eu tomava conhecimento, poderia obter dados suficientes em dez para incluir neste estudo" [5] . "Dez casos para análise por dia. Peritos que avaliam tiroteios para testemunho em tribunal nos EUA gastam muito mais do que um dia na análise de cada caso. Fica difícil aceitar uma quantidade tão grande de dados coletados em tão pouco tempo". [6]  

O argumento de Maanen, apresentado na tabela a seguir, utiliza as três publicações de Marshall e Sanow já mencionadas. Em cada uma destas publicações, o tipo específico de munição é listado juntamente com o número total de ocorrência do "stopping power", das quais uma porcentagem é calculada. Em cada publicação seguinte foi aumentado o número de casos, o que resultou em um total novo e em uma nova porcentagem.

"Isto significa que, se totais diferentes são determinados em cada publicação, o aumento em número de ocorrências do 'stopping power' pode ser calculado simplesmente subtraindo o valor anteriormente publicado. O mesmo pode ser feito então para a terceira publicação. O primeiro conjunto de dados é de eventos até 1988, o segundo de 1988 a 1992 e o terceiro de 1992 a 1996. Cada conjunto de dados suplementou o conjunto prévio sem qualquer sobreposição ou contagem dupla de casos, e cada conjunto de dados tem suas próprias porcentagens de 'one-shot stop'".

Um das diferenças notáveis nas publicações de Marshall e Sanow apontada por Maanen é que a maioria das munições parece ter obtido melhores resultados com o passar do tempo. "Este resultado em e de si mesmo não é necessariamente um problema. Uma preocupação mais séria é o fato que, num total de 251 combinações de calibre/carga, 8 mostram 100% de efetividade". [7]

Tabela 1 - Número total de casos [8]

Calibre

"Petersen's Handguns"

(novembro de
1988)

"Handgun
Stopping
Power"

(1992)

"Street
Stoppers"


(
1996)

.380 ACP

124

327

534

.38 Special

1177

1571

3469

9mm Parabellum

328

1230

2347

.357 Magnum

640

1349

1527

.40 S&W

 

 

327

10mm

 

 

112

.41 Magnum

73

183

218

.44 Special

73

134

197

.44 Magnum

203

242

298

.45 ACP

217

744

1019

.45 Long Colt

123

199

200

Total de casos

3024

6136

20742

Total de aumento

 

3112

14606

Média por ano

 

778

3652

Média por dia

 

2

10

Fonte: Maanen: op. cit

Para Maanen, o que também não pode ser explicado é o fato que outras 16 combinações de calibre/carga ou mostram um poder de parada maior do que 100%, ou números negativos (tabela 2):

"Estes números negativos significam menos casos informados do que os apresentados como efetivos, e está em contradição total a tudo aquilo que Marshall e Sanow reivindicaram ao desenvolver o banco de dados. Se este 'banco de dados' é real, por que foram descartados casos, e qual foi o critério para selecionar aqueles que seriam descartados? Nenhuma referência a esta manipulação nos dados foi feita pelos autores. Qualquer tipo de reavaliação posterior dos resultados é uma violação clara de qualquer forma de pesquisa porque é uma forma de falsificar os dados". [9]

Tabela 2 - Dados falsos/errados em Marshall e Sanow [10]

Caliber and Load

1988 Data

1992 Data

1996 Data

1988 to 1992 Data

1992 to 1996 Data

s

h

o

t

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.380 ACP

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fed 90gr JHP

22

13

59

94

60

64

109

75

69

72

47

65

15

15

100

.38 Special, +P, +P+, 4" b.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

WW 158gr LHP +P

82

53

65

112

85

76

302

235

78

30

32

107

190

150

79

Rem 158gr LHP +P

58

37

64

62

44

71

143

100

70

4

7

175

81

56

69

Rem 125gr JHP +P

28

17

61

17

14

82

106

77

73

-11

-3

 

89

63

71

Fed 158gr RNL

109

60

55

112

65

58

456

231

51

3

8

167

344

166

48

.357 Magnum

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fed 110gr JHP

39

32

82

63

57

90

204

184

90

24

25

104

141

127

90

.45 ACP

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fed 230gr HSHP

 

 

 

43

38

88

71

67

94

43

38

88

28

29

104

CCI 200gr JHP

46

34

74

62

53

85

111

98

88

16

19

119

49

45

92

.44 Magnum

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

RP 240gr SWC Medium

40

28

70

53

39

74

55

42

76

13

11

85

2

3

150

 

Obviamente, combinações de calibre/carga que mostrem uma "porcentagem de parada de um só tiro" de 100% ou mais não parecem realistas. Em Marshall e Sanow, por exemplo, a munição Winchester 9mm 115 "grains" +P+, em 1988, mostra 79% de poder de parada, enquanto o segundo conjunto de dados (1992 menos 1988) mostra uma efetividade de 100% em 22 casos observados. "Não só isto sugere que a efetividade deste tipo de munições tenha aumentado 21% repentinamente, mas que tenha chegado bem perto da perfeição". [11]

Outro "salto milagroso para a perfeição" apontado por Maanen nos dados de Marshall e Sanow pode ser visto com a munição Federal .380 ACP 90 "grains" JHP, que têm um aumento súbito de 65% para 100% de efetividade entre o segundo e terceiro conjunto de dados, e uma diferença de 41% entre o primeiro e o terceiro conjunto de dados. "Qualquer um que alguma vez tenha testado quaisquer dos .380 ACP JHP em gelatina balística sabe como é fraco o desempenho desta munição. Assim, se este desempenho fraco consegue efetividade de 100% em casos de "one-shot stop", então por que munições como o .357 Magnum, o .45 ACP ou o .44 Magnum não estão mostrando os mesmos resultados?" [12]

Uma análise mais detalhada dos dados das tabelas de Marshall e sanow mostra, por exemplo, a munição CCI .45 ACP 200 "grains" JHP, que de 74% de efetividade em 1988, no conjunto de dados de 1988 a 1992 mostra 19 paradas em 16 casos, uma efetividade de 119%. Uma efetividade maior do que 100% é, obviamente, impossível. As tabelas mostram mais oito combinações de calibre/carga nas quais o impossível índice de efetividade maior do que 100% foi produzido. Esta percentagem de poder de parada maior que 100% ou números de negativos (mostrando tiroteios desaparecendo misteriosamente) demonstram, para Maanen, que o banco de dados de Marshall e Sanow não é o que os autores afirmam ser. Especificamente:

- Marshall e Sanow reivindicaram ter colecionado continuamente com o passar do tempo dados de tiroteios para o banco; isto faz com que a coleta de dados de calibres e combinações de carga mais recentes seja impossível, mas oito destas condições existem no banco de dados;

- Marshall e Sanow apresentam oito combinações específicas de calibre e carga em que é mostrada uma efetividade impossível, maior do que 100%. 

Com a apresentação de sua análise, Maanen demonstra que Marshall e Sanow não utilizam nenhum método científico em seus estudos, onde falta, também, clareza na apresentação dos dados. Para o autor, há fortes indícios de manipulação nos dados apresentados por Evan Marshall e Edwin Sanow em suas publicações. [13]  


[1] Maarten van Maanen - "Discrepancies in the Marshall & Sanow Data Base: An Evaluation Over Time"; Wound Ballistics Review, 4(2); p. 9-13; 1999.

[2] Maanen, op. cit.

[3] Maanen, op. cit.

[4] Fackler, ML: "Police Handgun Ammunition Selection." Wound Ballistics Review, 1992; 1(3): 36.

[5] Marshall, EP; Sanow, EJ: Handgun Stopping Power: The Definitive Study. Paladin Press, Boulder, Colorado, 1992: 43.

[6] Maanen, op. cit

[7] Maarten van Maanen - "Discrepancies in the Marshall & Sanow Data Base: An Evaluation Over Time"; Wound Ballistics Review, 4(2); p. 9-13; 1999.

[8] Maanen, op cit.

[9] Maanen, op cit.

[10] Maanen, op cit. As tabelas do autor com os dados completos podem ser baixadas do site www.firearmstactical.com.

[11] Maarten van Maanen - "Discrepancies in the Marshall & Sanow Data Base: An Evaluation Over Time"; Wound Ballistics Review, 4(2); p. 9-13; 1999.

[12] Maanen, op cit.

[13] Maanen, op cit.


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