2.2. O alvo humano
Com exceção de disparos que atinjam o cérebro ou a seção superior da coluna vertebral, o conceito de uma incapacitação imediata que possa ser reproduzida de maneira confiável por um disparo de arma curta que atinja o torso do oponente é um mito. [1] O corpo humano é uma máquina complexa e resistente. Uma grande variedade de fatores psicológicos, físicos e fisiológicos estão presentes em lesões de projéteis, e todos se referem a uma probabilidade de incapacitação, não à sua certeza. Porém, com exceção da localização do impacto no alvo e da quantidade de tecido destruída, nenhum dos demais fatores está ao alcance do policial.
Fisiologicamente, um oponente só pode ser parado de modo confiável e imediato por um tiro que atinja o cérebro ou a porção superior da coluna. Em fracassando este golpe para o sistema nervoso central, uma hemorragia volumosa no coração ou nos principais vasos do tórax pode causar colapso circulatório, e este é o único outro modo para forçar a incapacitação deste adversário, e ainda assim, isto leva tempo. Por exemplo, há oxigênio suficiente dentro do cérebro para apoiar uma ação voluntária durante 10 ou 15 segundos depois de o coração ser completamente destruído. [2]
De fato, fatores fisiológicos podem representar um papel relativamente secundário quando se trata de obter uma rápida incapacitação. Com exceção dos citados disparos que comprometam o sistema nervoso central, não há nenhuma razão fisiológica para um indivíduo ser incapacitado, até mesmo por um ferimento fatal, até que a perda de sangue seja suficiente para baixar a pressão sanguínea, privando o cérebro de oxigênio. Os efeitos de dor, que poderiam contribuir para a incapacitação, são comumente manifestados somente depois de algum tempo, não tendo nenhum efeito sério nas lesões por projéteis.
Ao ser encurralado em uma situação de alto risco à vida, o corpo humano desencadeia reações de sobrevivência, como a bem documentada síndrome de "fugir ou lutar". A dor é irrelevante para a sobrevivência e até é suprimida depois de algum tempo. Para ser um fator importante na lesão, a dor primeiro deve ser percebida, para em seguida causar uma resposta emocional. Em muitos indivíduos, é ignorada e até mesmo, quando percebida, provoca a raiva e o aumento da resistência, nunca a rendição.
Fatores psicológicos, por sua vez, são provavelmente os mais importantes elementos para uma rápida incapacitação num disparo que atinja o tórax do oponente. A consciência do dano (freqüentemente retardada pela supressão da dor); o medo do dano físico, da morte, da perda de sangue, ou da dor; a intimidação pela arma ou pela idéia de ser atingido por um disparo; noções preconcebidas que as pessoas fazem de possíveis reações a lesões por armas de fogo; ou o simples desejo de desistir ou morrer podem provocar rápida incapacitação, mesmo com pequenos ferimentos à bala. Entretanto, os mesmos fatores psicológicos também podem ser a causa principal do fracasso na incapacitação de um oponente.
A lesão pelo projétil pode passar desapercebida, e assim não ser incentivo algum para forçar uma reação. Rusticidade, instinto de sobrevivência ou emoções fortes como a ira ou o ódio podem manter um indivíduo gravemente ferido lutando, como é comum observar no campo de batalha e mesmo nas ruas. Os efeitos de substâncias químicas também podem ser incentivos poderosos, que previnem ou retardam a incapacitação. Uma descarga de adrenalina, por si só, pode ser suficiente para fazer um adversário mortalmente ferido continuar lutando. Estimulantes, anestésicos, analgésicos ou tranqüilizantes podem prevenir a incapacitação suprimindo a dor, a consciência do dano, ou eliminando qualquer preocupação do oponente em de ferir. Drogas como cocaína, o PCP e a heroína, são disassociativos por natureza: um de seus efeitos é que o indivíduo "existe" fora de seu corpo. Ele vê e experimenta o que acontece a seu corpo, mas como um observador externo, que pode estar inalterado e por isto continua usando o corpo como uma ferramenta para lutar e resistir.
Fatores psicológicos como depósito de energia, "momentum" ou transferência de energia, tamanho de cavidade temporária ou cálculos como o RII, são irrelevantes ou errôneos. O impacto do projétil no corpo do oponente não é maior do que a energia sentida no recuo da arma. A diferença entre a massa do projétil e a massa do alvo é muito grande.
Muitos autores referem o poder de nocautear ("knock-down power") atribuído a projéteis de armas curtas, que implicaria na habilidade de um projétil em mover seu alvo. Isto é o chamado "momentum" do projétil, o ponto de transferência máximo de energia. É esta transferência de energia que fará o alvo se mover em resposta ao impacto recebido. Como cita Goddard:
"... Isaac Newton provou isto matematicamente no Séc XVII, e Benjamim Robins observou o fenômeno experimentalmente pela invenção e uso do pêndulo balístico, para determinar velocidade medida na boca do cano da arma pelo movimento de pêndulo". [3]
Goddard demonstrou a falácia do "knock-down power", calculando a altura (e velocidades resultantes) da qual dois pesos, um de uma libra e um de dez libras, devem ser derrubados para igualar o impulso de um projétil 9 mm a um de.45 ACP, a velocidades de boca. Os resultados foram reveladores: para igualar o impacto de um 9 mm, o peso de uma libra deve ser derrubado de uma altura de 5.96 pés, e deve alcançar uma velocidade de 19.6 fps. Para igualar o impacto de um .45 ACP, o um peso de uma libra precisa de uma velocidade de 27.1 fps e deve ser derrubado de uma altura de 11.4 pés. O peso de dez libras iguala o impacto de um projétil de 9 mm quando derrubado de uma altura de 0.72 polegadas (a velocidade atingida é 1.96 fps), e iguala o impacto do .45 quando derrubado se 1.37 polegadas (alcançando uma velocidade de 2.71 fps). [4]
Um projétil de arma curta simplesmente não tem energia suficiente para nocautear um homem. Se o tivesse, então esta energia seria aplicada igualmente contra o atirador, que também seria derrubado. Esta é uma regra da física conhecida por centenas de anos. [5]
A quantidade de energia depositada no corpo do oponente por um projétil de arma curta é aproximadamente igual à energia transferida por uma bola de baseball. [6] O dano aos tecidos é o único vínculo físico com a incapacitação imediata. O alvo humano só pode ser incapacitado de maneira confiável pela ruptura ou destruição do cérebro e da porção superior da coluna vertebral. Sem isso, a incapacitação está sujeita a uma série de variáveis que estão além do controle do atirador. A incapacitação se torna um evento ocasional, não necessariamente imediato. Se os fatores psicológicos que podem contribuir para a incapacitação estão presentes, até mesmo uma ferida secundária pode provocar a incapacitação imediata. Se eles não estão presentes, a incapacitação pode demorar significativamente para acontecer, até mesmo em lesões graves e mortais.
Os resultados de campo, tão exaltados nos últimos anos como representantes fiéis da efetividade de projéteis, são na verdade uma coleção de reações individuais por parte de cada pessoa atingida, analisadas e informadas através de porcentagens. Entretanto, nenhum indivíduo responde como uma porcentagem, mas através de fenômenos que não podem ser antecipados com certeza absoluta, mas que podem fornecer dados enganosos na predição do desempenho de munições.
[1] Esta também é uma das conclusões do seminário do FBI referido anteriormente.
[2] Idem.
[3] Goddard, Stanley, em "Some Issues for Consideration in Choosing Between 9mm and .45ACP Handguns", em apresentação feita no FBI (EUA) em 1988.
[4] Goddard, Staley, op. cit.
[5] Sir Isaac Newton, em "Principia Mathematica". Publicada em 1687, nesta obra são estabelecidas as "Leis de Movimento de Newton". A segunda lei de Newton estabelece que um corpo modificará sua velocidade proporcionalmente à força que age sobre ele. Em termos simples, para cada ação haverá uma reação de igual intensidade, porém em sentido contrário. A aceleração ocorrerá, é claro, na proporção inversa à massa do corpo. Por exemplo, a mesma força agindo sobre um corpo de massa duas vezes maior, produzirá exatamente a metade da aceleração.
[6] Douglas, Lindsay, op. cit.