Apêndice II "Wound Profiles" - Diagramas de lesões por projéteis [1]
Já estudamos os efeitos primários dos projéteis de arma de fogo: em resumo, estes se traduzem nas ações direta (cavidade permanente) e indireta (cavidade temporária).
Segundo o "Emergency War Surgery NATO Handbook - Part I: Types of Wounds and Injuries - Chapter II: Missile-Caused Wounds" [2] , fica aparente na observação dos dados de ferimentos de arma de fogo, que a velocidade e a massa de um projétil determinam o potencial para rompimento do tecido humano. O documento cita que:
"...um projétil no calibre .308 (7,62 OTAN) na configuração "soft point" que passe pelo tecido suave da coxa humana, poderia resultar em uma ferida de saída de até 13 cm em diâmetro, com grande perda de tecido. O mesmo potencial lesivo está disponível no 7.62 OTAN "full metal jacket", projétil de uso militar, mas a lesão de saída não excedeu a 2 cm em sua dimensão maior."
Pelos dados fornecidos, se alguém apresentasse uma ferida de tiro na coxa (orifícios de entrada e saída menores que 1 cm de diâmetro), causada por uma projétil calibre .22 "long rifle", o tratamento cirúrgico seria mínimo. O mesmo provavelmente se aplicaria a uma ferida de projétil .38 SPL ou do 45 ACP. Porém, se a lesão fosse provocada por um projétil de rifle M-16 a vítima sofreria perda de grande parte do tecido ao longo do ferimento, e possivelmente de vários centímetros de tecido em todos os lados do canal de ferida. Comparando o perfil dos primeiros 12 cm de penetração de um projétil de M-16 com o de outros exemplos apresentados julga-se improvável que o projétil cause rompimento de tecido maior do que o projétil .22 LR. A razão para isto é que o projétil 5,56 OTAN (do M-16) não se fragmenta ou muda a trajetória nos primeiros 12 cm em tecido macio, nem desenvolve uma cavidade temporária muito significante antes dos 12 cm de penetração.
O projétil - ou fragmento deste -, destrói o tecido por pressão, perfurando um orifício (ação direta). Este orifício - ou canal de ferida - é a "cavidade permanente". A área da seção da cavidade permanente projétil é comparável à área do projétil, suas dimensões sendo, grosso modo, a mesma para todos os tecidos suaves.
Os diagramas a seguir apresentam um resumo das características dos projéteis comumente encontrados em armas leves, disparados em gelatina balística especialmente preparada para simular tecido humano vivo. É interessante observar que alguns dos projéteis descritos não deformaram ou fragmentam ao atravessar tecidos moles, não havendo lesões secundárias. A deformação de projétil, sua fragmentação e rotação, quando houver, aumenta o grau resultante de rompimento de tecidos. As ilustrações baseiam-se nos perfis de lesão ("wound profiles") de Martin Fackler, já discutidos anteriormente. [3]
A onda de choque ("sonic shock wave") e a cavidade temporária ("temporary cavity"). Diagrama do projétil atravessando através do tecido, mostrando a cavidade temporária e a cavidade permanente ("permanent cavity") deixada em seu trajeto.
.45 ACP - Full Metal Jacket, uso militar. Este projétil não tomba, permanecendo seu eixo ao longo do trajeto, em tecidos moles. O fato de não guinar, somado à grande massa do projétil, resulta numa penetração profunda. O rompimento dos tecidos por esmagamento permanece quase constante ao longo do caminho. A extensão da cavidade temporária é máxima perto do ponto de entrada, e diminui gradualmente com a penetração; porém com este tipo de projétil e sua baixa velocidade, a cavidade temporária é muito pequena.
Diagrama de lesão provocada por projétil de pistola .45 ACP. Esta foi a munição padrão do exército dos EUA (e do brasileiro também) até recentemente. O projétil ogival e totalmente encamisado ("full-metal-cased bullet") dificilmente deforma, mas penetra profundamente nos tecidos.
.22 "Long Rifle" - Cartucho de fogo circular, comumente usado, gira em 90 graus na metade de seu caminho nos tecidos. O rompimento de tecidos por esmagamento aumenta com o ângulo da rotação, alcançando seu ponto máximo quando o projétil está deslocando lateralmente: neste caso há aumento na extensão da cavidade temporária com o aumento do ângulo de rotação (este fenômeno é válido para qualquer projétil oblongo que gire em seu eixo). Mesmo no ponto máximo do giro, a cavidade temporária produzida é muito pequena para somar-se às lesões detectáveis.
.38 SPL - Projétil ogival, como o do .45 ACP militar e o .22 LR, produz efeito quase somente pela ruptura por esmagamento dos tecido. Embora ainda muito pequeno para mostrar uma extensão observável do efeito, sua cavidade temporária é de diâmetro 20% maior do que a do .22 LR, apesar de sua velocidade ser cerca de 40% menor.
Diagrama da penetração de projétil calibre .22 "Long Rifle". Freqüentemente seu projétil sólido ogival, em testes realizados, guinou em até 90 graus em até a metade de seu percurso, causando lesão também com sua base.
Projétil de chumbo, ogival, no calibre .38 SPL.
Sete em dez destes projéteis, em testes realizados pela
marinha dos EUA, guinaram em 90° e percorreram seu trajeto com a
base para frente, como mostra o diagrama. Três tiros guinaram
aproximadamente em 80°, então voltaram à posição
inicial, permanecendo assim pelo restante do trajeto.
9 mm Parbellum - Este projétil é bastante utilizado em pistolas e submetralhadoras; sendo um projétil totalmente encamisado, produz um perfil que se assemelha ao dos .38 SPL, mas o máximo da cavidade temporária é aproximadamente 2 cm maior em diâmetro, e mostrará alguma extensão (divisões radiais) em tecidos menos elásticos, mais suscetíveis como o do fígado.
7.62 OTAN FMC - FMC é a abreviatura para "full-metal-cased" (o mesmo que FMJ, "full-metal-jacket", totalmente jaquetado). Isto se refere ao metal mais duro que cobre o núcleo de chumbo do projétil. O FMJ militar apresenta o comportamento característico não frangível (nem deformável) em tecido mole. Gira em 90° e, depois de tomar a posição com a base à frente, continua o resto de seu caminho com pequeno ou nenhum giro. Tal rotação se dá devido a seu recuado centro de massa. A rotação dada à bala pelo cano da arma é suficiente para estabilizá-lo no ar, mas não em tecido, onde a pressão excede em valor os efeitos de rotação. O rompimento de tecido nos primeiros 15-18 cm de penetração quando o projétil ainda está viajando estabilizado é mínimo. Em 20-35 cm, porém, ele gira, e uma grande cavidade temporária é produzida. Se o caminho do projétil é tal que esta cavidade temporária ocorre no fígado, por exemplo, é provável que esta quantia de rompimento de tecido torne a sobrevivência impossível.
AK-47 - o fuzil de assalto russo dispara um prrojétil FMJ que viaja estabilizado em 25-27 cm em tecido mole, quando começa a girar. As lesões deste projétil são bem conhecidas a cirurgiões que serviram no Vietnã, e foram documentadas durante aquele conflito.
AK-74 - Nova geração do calibre russo para o rifle de assalto leve, segue o exemplo dado pelos EUA com os M-16. O projétil FMJ do cartucho desta arma possui uma jaqueta de aço revestida com cobre, como no projétil de seu predecessor, o AK-47. Entretanto, uma característica de projeto sem igual dos AK-74 é o espaço de ar (aproximadamente 5 mm) dentro da jaqueta, na ogiva do projétil. A idéia de que este espaço de ar causaria deformação do projétil e sua fragmentação no impacto provou ser infundada, mas o espaço serve para colocar o centro de massa em sua metade posterior. O projétil gira depois de aproximadamente sete centímetros de penetração em tecido mole, assegurando um rompimento em extensão e aumento da cavidade temporária. A saída típica do projétil em tecido mole (coxa, por exemplo, 12 cm de espessura) é estrelada, com pele divida medindo cerca de 9x13 cm. A divisão de músculo subjacente está aproximadamente em metade daquele tamanho. O padrão da ilustração a seguir foi verificado em 4/5 dos disparos efetuados nos testes realizados pela marinha dos EUA. O projétil alcança 90° de giro e continua a 180° com a base à frente, em um ciclo. Se há um ou dois ciclos de giro, isto não influencia o ponto de relevância clínica principal - a distância que o projétil percorre estabilizado à frente antes de girar.
Diagrama de trajetória do projétil 7.62 OTAN, FMJ. Esta era a munição padrão do fuzil do Exército norte-americano até a adoção dos M-16 nos anos 60. Ainda é usada por diversos Exércitos. Depois de aproximadamente 16 cm de penetração, este projétil guina com a base para frente (90°) e assim permanece. Uma grande cavidade temporária é formada no ponto de guinada máximo.
AK 47, FMJ. Esta era a munição do rifle padrão usado pelas forças comunistas no Vietnã, e é ainda amplamente usado hoje ao longo do mundo. O trajeto longo pelo tecido, antes da guinada (aproximadamente 25 cm) explica a experiência clínica que muitas feridas desta arma se assemelham a ferimentos causados por projéteis de baixa velocidade.
AK 74. Esta é a contribuição russa à nova geração de rifles de assalto de calibre menor. O projétil não deforma ou fragmenta em tecido suave, mas gira depois de aproximadamente 7 cm de penetração. Apesar da jaqueta completa, o projétil possui espaço com ar em sua ogiva. Ao atingir tecidos moles, o chumbo no interior do projétil avança, preenchendo o espaço na frente do projétil, fazendo-o girar. Radiografias de projéteis recuperados mostram que esta deformação interna produz um projétil assimétrico, o que pode explicar a curva incomum de perto de 90° que fez pelo trajeto em sua parte final.
.357 Magnum JSP ("jacketed-soft-point", encamisado, ponta macia) - O projétil "soft-point&quoot; e o "hollow-point" (ponta-oca) tem sua ogiva "expandida" no impacto. Esta expansão, na qual na forma final o projétil se assemelha a um cogumelo, resulta em um aumento do diâmetro do projétil (basicamente aumento em dobro na superfície frontal), permitindo um esmagamento quatro vezes maior. Esta conversão da bala para uma forma não aerodinâmica, causa a cavidade temporária, como no giro dos projéteis vistos anteriormente. O máximo de cavidade temporária produzida pelo projétil expandindo acontece a uma profundidade de penetração de poucos centímetros, dependendo de sua velocidade.
Este projétil é de uso típico dos organismos policiais. Sua expansão diminui a probabilidade de que o projétil perfure o alvo, ferindo algum inocente.
.357 Magnum "jacketed soft-point". Projétil utilizado pela maioria dos organismos policiais dos EUA e em diferentes partes do mundo.
7.62 SP - (SP é a abreviação para "soft-point") Funciona de forma similar ao projétil .357 Magnum anteriormente descrito. A mudança na construção do projétil, entretanto, causa rompimento maciço de tecidos, ainda mais se o compararmos ao projétil 7,62 OTAN (FMJ). Sua expansão acontece no impacto, como visto com o .357 Magnum; porém, o esmagamento no tecido resultante da expansão do projétil responde por só uma pequena parte da cavidade permanente. Como o projétil expande, alguns pedaços rompem e fazem seus próprios caminhos separados. Estes fragmentos de bala penetram até 9 cm perpendicularmente ao caminho do projétil. A cavidade temporária seguinte estira o músculo que foi debilitado através das perfurações múltiplas. Os caminhos dos fragmentos agem aumentando seus efeitos, possibilitando o rompimento de pedaços do músculo. Desta sinergia resultam as maciças lesões nos tecidos mostradas na ilustração a seguir. O 7.62 SP é um popular cartucho de caça nos EUA.
7.62 "soft point". A fragmentação deste projétil é responsável em grande parte pelo volumoso dano aos tecidos, se o compararmos com o projétil militar padrão FMJ do mesmo calibre.
.22 CAL FMC, tipo M-193 (5,56 OTAN) - Este é o projétil M-193 do fuzil M-16A1. A grande cavidade permanente mostrada no perfil (ilustração a seguir) foi observada por muitos médicos que serviram no Vietnã, mas o mecanismo de rompimento de tecido não estava claro até que a importância da fragmentação da bala, como uma das causas de rompimento de tecido, foi descartada. Este projétil FMJ, como outros deste tipo, causa pequeno rompimento de tecido no tempo em que permanece estabilizado em seu trajeto. Sua distância comum de viajem com a ogiva à frente é de aproximadamente 12 cm, depois dos quais gira 90°, aplaina, e rompe-se devido a pequenas fraturas (entalhes ao redor do projétil na metade de seu corpo). Os fragmentos resultantes retêm aproximadamente 60% do peso original do projétil. Muitos fragmentos penetram em até 7 cm perpendicularmente ao trajeto do projétil. A extensão de cavidade temporária, seu efeito aumentado pela perfuração e as lesões múltiplas nos músculos através de fragmentos, são causas do aumento na cavidade permanente, separando pedaços de músculo. O grau de fragmentação do projétil diminui com o aumento da distância de tiro, quando há, também, diminuição na velocidade. À uma distância de 80 metros, o projétil parte-se pela metade e forma dois fragmentos grandes. A alcances maiores do que 180 metros, este projétil não fragmenta, sua capacidade de lesão e mecanismo de funcionamento fica similar ao dos AK-74.
.22 CAL FMC, tipo M-855 - O projétil M-855 é ligeiramente mais pesado do que o projétil padrão, e é disparada do rifle de assalto M-16A2. Ela substituirá a M-193 padrão para as forças armadas norte-americanas eventualmente. O perfil de ferida é semelhante ao produzido pelos M-193, embora a ogiva geralmente não permaneça em um único pedaço. O tamanho da cavidade temporária e sua localização são basicamente os mesmos, e qualquer diferença em feridas causadas pelos dois não pode ser verificada.
Os projéteis da nova geração de fuzis de assalto (M-193, AK-74, M-855) são suscetíveis à deflexão e perturbação do vôo à frente por objetivos intermediários, como folhagens. Este não era o caso com a geração prévia de projéteis, maiores e mais lentos. Isto pode resultar em ângulos de giro grandes, com grande impacto e rompimento de tecidos.
5,56 OTAN (22 "full-metal-cased") - projétil M-193 disparado de um fuzil M-16. É o calibre padrão das forças armadas norte-americanas, embora hajam estudos para sua substituição por um fuzil moderno que utiliza o mesmo calibre e cartucho, mas com projétil um pouco mais longo e pesado (62 grains).
.224 "soft-point" (conhecido como o 223 Remington no meio civil) - Este projétil "soft-point&" de 50 grains é projetado para grande deformação e fragmentação. Para produzir o perfil de ferida mostrado na figura a seguir, foi disparado do fuzil M-16. A quantia e tipo de dano causados são aproximadamente iguais aos do projétil M-193 (M-16), mas a deformação e o rompimento do projétil maximizam a cavidade temporária, bem como sua grande profundidade de penetração.

Projétil .224 "soft-point". Este é um cartucho .22 de fogo central típico de caça (.224 milésimos de polegada de diâmetro) disparado do mesmo cartucho do M-16.
Projéteis múltiplos (balins) de espingarda, disparados de cartucho calibre 12, carregado com chumbo "#4 Buckshot" - Carregado com 27 bagos de chumbo do tipo "#4 Buckshot", o cartucho de espingarda calibre 12 causa esmagamento e rompimento maciço dos tecidos (na ilustração, disparado a 3 metros do alvo). A curta distância, o impacto no tecido deforma os balins e aumenta o tamanho original de 6 mm (de seção transversal) para aproximadamente 10 mm, com aumento concomitante em esmagamento de tecido ou tamanho do orifício de entrada. As 27 perfurações deste tamanho em uns 7-8 cm resultam em rompimento severo dos tecidos através de esmagamento direto, e extravasamento de sangue para o tecido entre os canais de ferida múltiplos.
Os perfis de ferida vistos nas ilustrações retratam a estimativa do rompimento de tecidos macios (moles) esperada a alcances pequenos (inferiores a 25 metros). Uma diminuição gradual na quantia de deformação do projétil, na fragmentação, e no tamanho máximo da cavidade temporária acontece com o aumento na distância e diminuição da velocidade do projétil.
Quando um osso é golpeado pelo projétil penetrante, o resultado é previsível e facilmente verificado em radiografia. A profundidade de penetração total será menor; porém o grau de rompimento de tecidos será maior devido à deformação do projétil aumentada e a criação de projéteis secundários (fragmentos de ossos).
Projéteis múltiplos de espingarda calibre 12, cartucho carregado com chumbo "#4 buckshot". Este cartucho é usado pelo exército dos EUA e organismos policiais em todo o mundo, em situações especiais. Além das lesões dos balins, há a possibilidade de lesão causada pela bucha pneumática, nos disparos muito próximos ao alvo.