4. Comentários finais sobre Marshall e Sanow
Já discorremos sobre a necessidade de Marshall e Sanow terem estabelecido critérios baseados na ciência para seus trabalhos, e de esclarecerem também quais casos deixaram de ser incluídos nas pesquisas, e por quais motivos. A própria definição de incapacitação imediata dada pelos autores é bastante controversa. O que os oponentes fizeram quando foram atingidos, já que eles consideraram que poderiam deslocar-se ainda por três metros no raio do local onde foram alvejados?
Há também, nas tabelas de Marshall e Sanow, incongruências preocupantes, como porcentagens de eficiência de 100% para algumas munições. Algumas tabelas mostram resultados de 100% de eficiência em calibres fracos, como o .380 ACP, resultados estes impossíveis, como sabemos. Além disso, dada a variedade dos fatores já estudados sobre a incapacitação de um alvo humano, como acreditar em resultados de 100% em vários eventos? Outras munições apresentam percentuais superiores a 100%, estes sim, impossíveis.
Portanto, acreditamos que o trabalho de Marshall e Sanow, que durante muito tempo foi considerado um estudo sério, mas que não resiste a uma verificação mais técnica, possui validade extremamente limitada, pois é apenas uma análise histórica de eventos estabelecidos com base em critérios subjetivos, jamais uma predição acerca do desempenho das munições incluídas em sua "base de dados", não servindo como referência técnica para a seleção de munições para uso policial/defensivo.
O trabalho de Marshall e Sanow, assim como todas as tentativas de criação de um "modelo" que permita predizer os efeitos dos projéteis de arma de fogo em alvo humano e a ocorrência da incapacitação imediata, têm se mostrado ineficiente dado à natureza extremamente complexa do ser humano, e aos inúmeros fatores fisiológicos e psicológicos que entram como componentes desta incapacitação.
O modelo de "stopping power" proposto por Marshall e Sanow em suas publicações é uma curva empírica ajustada dos "dados" atuais de confronto armado nos EUA. Criar o modelo de um processo físico sem uma clara compreensão dos princípios técnicos subjacentes envolvidos é um dos melhores modos de criar um modelo sem utilidade na vida real.