4. A prática do FBI norte americano
Um dos eventos mais significativos em termos de análise real do emprego de armas e munições (em especial armas curtas utilizadas pela polícia) ocorreu em 1986, em Miami, na Flórida (EUA), e que seria conhecido mais tarde como o "Miami Shootout", O incidente iria mudar de vez a concepção do uso policial de armas curtas. Basicamente, o que ocorreu foi que agentes do FBI americano atiraram em dois assaltantes de banco, por terem resistido à prisão. A munição utilizada como padrão foi a Winchester Silvertip 9 mm Parabellum de 115 grains [1] , que trabalhou exatamente como foi projetada, exceto por não ter penetrado o suficiente no alvo. Um dos oponentes, por exemplo, foi atingido de lado, e a Silvertip penetrou por seu braço, vindo a parar, quase completamente expandida, no pulmão direito do atingido, não alcançando seu coração. O suspeito, infelizmente, conseguiu ainda matar dois agentes do FBI, e ferir outros cinco.
Na tentativa de colocar a culpa não na falta de treinamento ou mesmo da atuação tecnicamente errada dos agentes, o FBI concluiu que a munição utilizada foi a responsável pelo insucesso da ação policial. Os projéteis da munição 9mm Parabellum Silvertip não teriam penetrado o suficiente, e assim, não teriam tido a chance de causar o esperado efeito de incapacitação imediata.
Hoje se sabe que não foi justo acusar a Silvertip pelos problemas que houve. O projétil, devido às circunstâncias da ocorrência, teve que penetrar primeiro no braço do oponente, e ainda assim entrou em seu tórax. Se a Silvertip tivesse sido projetada para ter maior poder de penetração, poderia ter alcançado com facilidade o coração.
Este incidente foi encaminhado para o "Weapons Advisory Committee" do FBI, em setembro de 1987, que conduziu uma avaliação das várias armas semi-automáticas utilizadas pelo órgão. Os analistas logo perceberam que a tarefa era tão grande e complexa que seriam necessárias opiniões externas. Assim sendo, o FBI convidou vários peritos reconhecidos em várias disciplinas relacionadas, para participar de um "workshop" de três dias, o conhecido Seminário sobre Ferimentos Balísticos, na Academia do FBI. [2]
Após os trabalhos, os peritos convidados, em resumo, chegaram às seguintes conclusões:
(1) Exceto para disparos que atinjam o sistema nervoso central, um fenômeno garantido e reproduzível de poder de parada não é possível com projéteis de arma de fogo. O fenômeno da incapacitação imediata vai depender do estado físico, emocional, psicológico e mental do indivíduo atingido, e também pode ser influenciado pela presença de narcóticos, álcool ou adrenalina no sangue. Até mesmo quando o coração é totalmente destruído por um disparo, o indivíduo ainda terá bastante oxigênio no cérebro para uma ação voluntária e completa durante 10 a 15 segundos;
(2) A cavidade temporária em tecido humano causada por projéteis de arma de fogo, não têm nenhum efeito na destruição de órgãos, podendo auxiliar no caso de um canal permanente já comprometido por fragmentos, quando poderá haver ruptura em estruturas próximas a este canal permanente. Fora isso, os órgão vitais serão comprometidos apenas se atingidos diretamente pelo projétil. Os peritos concordaram que era vital um projétil ter certa profundidade na penetração para poder alcançar órgãos vitais;
(3) O chamado Índice Relativo de Incapacitação (RII) é uma medida extremamente pobre, pois depende muito da cavidade temporária causada pelo projétil. Nem todos os peritos concordaram totalmente em todos estes pontos, e foi estabelecido como fato que a cavidade temporária desempenha algum papel importante na incapacitação, seu papel ainda tem que ser definido claramente;
(4) Considerados dois projéteis com penetração igual, o maior causará mais ruptura nos tecidos e maior hemorragia (considerada a causa primária da incapacitação). Para penetrar de modo confiável músculos, gordura, ossos, roupas, etc., um projétil deve ser capaz de penetrar, no mínimo, 12 polegadas em tecido humano. Os peritos concordaram que aquela penetração ocorre em função da massa e do desenho do projétil, e não velocidade, e que o receio da superpenetração é, em grande parte, exagerado, a não ser quando da utilização de projéteis FMJ.
Edwin Sanow, em recente artigo citado por Duncan MacPherson [3] , afirma que a profundidade de penetração mínima de 12 polegadas para que um projétil seja efetivo, estabelecida pelo FBI, é totalmente arbitrária. Sanow considera uma penetração de 8 a 12 polegadas também perfeitamente aceitável. Entretanto, esta profundidade de 12 polegadas foi tida como padrão porquê os testes do FBI demonstraram ser esta a profundidade média necessária para um projétil alcançar estruturas vitais dentro do corpo. Esta profundidade pode ser necessária quando, por exemplo, "o projétil tem de atravessar tecido não crítico, como o braço esquerdo estendido de um assaltante que com a mão direita aponta a arma para o policial, ou para tiros que atinjam o oponente por um ângulo incomum, ou mesmo os que tenham de atravessar uma grossa camada de gordura em um indivíduo corpulento". [4] Esta é a razão de o FBI ter especificado 12 polegadas como critério de penetração mínima, embora saibam que uma penetração de oito polegadas é normalmente adequada;
(5) O fator isolado mais importante, quando se avalia a efetividade de qualquer calibre, é a penetração. Dadas iguais penetrações, um projétil maior romperá mais tecido e acelerará a perda de sangue. Porém, os peritos não puderam afirmar que o .45 ACP causasse dano significativamente maior que os 9mm. Três dos oito peritos recomendaram o .45 ACP em vez dos 9mm. Quatro afirmaram que isso não fazia nenhuma diferença, quando a penetração fosse igual. Um dos peritos recomendou o 9mm sobre o .45 ACP, baseado nas melhorias esperadas para o calibre, fruto das pesquisas militares então desenvolvidas;
(6) Devido ao fato incontestável de que nenhum projétil é 100% efetivo em 100% das vezes, os agentes deveriam continuar atirando enquanto o oponente apresentasse risco à vida. Vários peritos recomendaram um aumento na capacidade dos carregadores (maior número de tiros disponível);
(7) Já que a expansão é necessária, apesar de não totalmente explicada, todo projétil de arma de fogo deve expandir para funcionar corretamente;
(8) A percepção do agente que usa a arma é determinante. Se o agente acredita na arma e na munição, então ele tende a atirar melhor com aquele conjunto arma/munição.
Os resultados do seminário, endossados pelas maiores autoridades em ferimentos por arma de fogo dos EUA, são as opiniões mais corretas sobre a efetividade de munições para uso policial.
Alguns estudos, entretanto, procuraram resultados não na ciência, mas no resultado das ruas, em confrontos em que houve a incapacitação do oponente. Estes estudos, cujo principal expoente é o trabalho dos norte-americanos Evan Marshall e Edwin Sanow, serão alvo de nossa atenção a partir de agora.
[1] Um "grain" equivale a 0,0648 de grama; 7000 "grains" equivalem a um libra de peso. Utiliza-se esta unidade de medida, em virtude do baixo peso que apresentam as cargas de projeção e os projéteis.
[2] "Wound Ballistic Workshop", realizado em setembro de 1987 na Academia do FBI, em Quantico, Virgínia (EUA). Este seminário é realizado regularmente até hoje.
[3] MacPherson, Duncan: "Sanow Strikes (Out) Again". Publicado na "Wound Ballistics Review", 3(1), p. 32-35; 1997.
[4] MacPherson, Duncan: op. cit.