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Ricardo B. Ivanov 2007

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O Evangelho do Cristo, a Bhagavad Gita e o Tao Te Ching são os três grandes livros da humanidade.

Quem consegue absorver e vivenciar os ensinamentos contidos nele, este sim descobriu a felicidade.

Fala Lao-Tsé:

Vemos Tao como nós somos e não como ele é

O Universo não tem preferências,

Todas as coisas lhe são iguais.

Assim, o sábio não conhece preferências,

Como os homens as conhecem.

O Universo é como o fole de uma forja,

Que, embora vazio, fornece força,

E tanto mais alimenta a chama quanto mais o acionamos.

Quanto mais falamos no Universo,

Menos o compreendemos.

O melhor é auscultá-lo em silêncio.

 

Desinteresse, caminho da prosperidade

 

Eternos são o céu e a terra,

Porque não são auto-existentes,

Porque radicam em algo

Além deles mesmos.

Esta é a razão da sua eternidade.

Assim é o sábio,

Quando não é ego-vivente,

Quando não se interessa por si mesmo.

É por isso que se realiza.

Não cuida do seu ego,

E por isto o seu Eu prospera.

É esta a reta ordem cósmica:

Somente o desinteressado se auto-realiza.

 

A sabedoria da não-violência

 

Vida verdadeira é como a água:

Em silêncio se adapta ao nível inferior,

Que os homens desprezam.

Não se opõe a nada,

Serve a tudo.

Não exige nada,

Porque sua origem é da Fonte Imortal.

O homem realizado não tem desejos de dentro,

Nem tem exigências de fora.

Ele é prestativo em se dar

E sincero em falar,

Suave no conduzir,

Poderoso no agir.

Age com serenidade.

Por isto é incontaminável.

 

A atuação do invisível no visível

 

Trinta raios convergentes no centro

Tem uma roda,

Mas somente os vácuos entre os raios

É que facultam seu movimento.1

O oleiro faz um vaso, manipulado a argila,

Mas é o oco do vaso que lhe dá utilidade.

Paredes são massas com portas e janelas,

Mas somente o vácuo entre as massas

Lhes dá utilidade --

Assim são as coisas físicas,

Que parecem ser o principal,

Mas o seu valor está no metafísico.

 

1 Lao-Tsé se refere, provavelmente, à roda de um moinho de vento, que não funcionaria se não houvesse interstícios entre as palhetas, por onde passa o vento (Nota do Tradutor).

 

Através dos visíveis rumo ao invisível

 

O excesso de luz cega a vista.

O excesso de som ensurdece o ouvido.

Condimentos em demasia estragam o gosto.

O ímpeto das paixões perturba o coração.

A cobiça do impossível destrói a ética.

Por isto, o sábio em sua alma

Determina a medida para cada coisa.

Todas as coisas visíveis lhe são apenas

Setas que apontam para o Invisível.

 

A paz nasce da mansuetude

 

O chefe de Estado que obedece ao Tao

Não tenta dominar com violência,

Porque sabe que toda a violência

Recai sobre o próprio violento.

Nos campos de batalha,

Só medram espinhos e cardos.

Guerras geram angústias e miséria.

Por isso, o sábio vive sem armas,

Nem obriga ninguém com violência,

Não conhece ambição nem glória,

Não alimenta presunção alguma,

Nem aspira ao poder.

Faz o que deve fazer,

Mas sem forçar ninguém.

Ele conhece o ritmo da evolução,

Sabe que tudo falha

Quando contradiz as leis da vida,

Porque todas as ilusões

Depressa se dissipam.

 

Sapiência suprema

 

Inteligente é quem outros conhece;

Sapiente é quem se conhece a si mesmo.

Forte é quem outros vence;

Poderoso é quem se domina a si mesmo.

Ativo é quem muito trabalha,

Rico é quem vive contente.

Firme é quem vive em seu posto,

Eterno é quem supera a morte.

 

O profano, o iniciado, o realizado

 

Quem desperta em si

As forças criadoras da vida

Realiza a sua íntima essência.

E nela permanece, intangível,

Criando paz e silenciosa maturidade.

Músicas e peças teatrais

Aliciam os transeuntes profanos,

Mas quem se interessa por Tao?...

Não basta ver para enxergá-lo.

Não basta ouvir para compreendê-lo.

Mas quem sabe auscultá-lo,

Esse descobre a plenitude de Tao.

 

A sabedoria parece estultice

 

O verdadeiro sábio,

Quando conhece Tao,

Procura realizá-lo em si.

Quem ainda vacila, incerto,

Na sabedoria, só de vez em quando

Segue o caminho certo.

Quem apenas fala em sabedoria

Não a toma a sério.

Se Tao não lhe parecesse absurdo,

Não seria Tao.

Por isto disse o poeta:

"Quem é iluminado por dentro

Parece escuro aos olhos do mundo.

Quem progride interiormente

Parece ser um retrógrado.

Quem é auto-realizado

Parece um homem imprestável.

Quem segue a luz interna

Parece uma negação para o mundo.

Quem se conserva puro

Parece um bobo e simplório.

Quem é paciente e tolerante

Parece um sujeito sem caráter.

Quem vive de acordo com seu Eu espiritual

Passa por um homem enigmático".

(...)

 

A riqueza do ser e a pobreza do ter

 

Que vale mais:

Meu nome de família ou meu Ser?

Que é mais meu:

Minhas posses externas ou meu íntimo Ser?

Que me é mais importante:

Meus lucros ou minhas perdas?

Quem prende seu coração a algo

Está preso.

Quem deseja possuir tesouros

É um pobre possesso.

Quem vive satisfeito

É feliz com os satisfeitos.

Quem respeita os seus limites

Não corre perigo.

Isto gera verdadeira serenidade.

De dentro vem o que por fora se revela.

 

A serenidade do sábio

 

Quem sabe cala.

Quem fala não sabe.

O sábio vive calado,

Voltado para dentro de si;

Mitiga o que é agudo,

Deslinda o que é emaranhado,

Suaviza o que é violento,

Nivela-se com o que é singelo.

Assim conscientiza ele a Realidade.

Unifica-se com o grande Uno,

Mantém-se eqüidistante de simpatia e antipatia,

Indiferente a lucro e perda

Acima de louvor e vitupério.

É nisto que ele vê a verdadeira nobreza.

 

Ignorar sua ignorância

 

Quem conhece a sua ignorância

Revela a mais alta sapiência.

Quem ignora a sua ignorância

Vive na mais profunda ilusão.

Não sucumbe à ilusão

Quem conhece a ilusão como ilusão.

O sábio conhece o seu não-saber,

E essa consciência do não-saber

O preserva de toda a ilusão.

 

Sabedoria pelo desapego

 

Palavras verdadeiras não são lisonjeiras.

Palavras lisonjeiras não são verdadeiras.

O homem de bem não fala muito.

Quem fala muito não é homem de bem.

Homens sábios não são eruditos,

Homens eruditos não são sábios.

Quem trilha o caminho da perfeição

Não acumula tesouros.

Riqueza é para o sábio

O que ele faz pelos outros.

Quanto mais ele dá aos outros,

Tanto mais rico se torna.

Assim como de Tao brota a vida,

Assim age o sábio

Sem ferir ninguém.

Extraído de: "Tao Te Ching - O livro que revela Deus", Lao-Tsé, Editora Martin Claret.

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