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O Evangelho do Cristo, a
Bhagavad Gita e o Tao Te Ching são os três grandes
livros da humanidade.
Quem consegue absorver e
vivenciar os ensinamentos contidos nele, este sim
descobriu a felicidade.
Fala
Lao-Tsé:
Vemos Tao como nós somos e não como
ele é
O Universo não tem preferências,
Todas as coisas lhe são iguais.
Assim, o sábio não conhece
preferências,
Como os homens as conhecem.
O Universo é como o fole de uma forja,
Que, embora vazio, fornece força,
E tanto mais alimenta a chama quanto
mais o acionamos.
Quanto mais falamos no Universo,
Menos o compreendemos.
O melhor é auscultá-lo em silêncio.
Desinteresse, caminho da prosperidade
Eternos são o céu e a terra,
Porque não são auto-existentes,
Porque radicam em algo
Além deles mesmos.
Esta é a razão da sua eternidade.
Assim é o sábio,
Quando não é ego-vivente,
Quando não se interessa por si mesmo.
É por isso que se realiza.
Não cuida do seu ego,
E por isto o seu Eu prospera.
É esta a reta ordem cósmica:
Somente o desinteressado se auto-realiza.
A sabedoria da não-violência
Vida verdadeira é como a água:
Em silêncio se adapta ao nível inferior,
Que os homens desprezam.
Não se opõe a nada,
Serve a tudo.
Não exige nada,
Porque sua origem é da Fonte Imortal.
O homem realizado não tem desejos de dentro,
Nem tem exigências de fora.
Ele é prestativo em se dar
E sincero em falar,
Suave no conduzir,
Poderoso no agir.
Age com serenidade.
Por isto é incontaminável.
A atuação do invisível no visível
Trinta raios convergentes no centro
Tem uma roda,
Mas somente os vácuos entre os raios
É que facultam seu movimento.1
O oleiro faz um vaso, manipulado a argila,
Mas é o oco do vaso que lhe dá utilidade.
Paredes são massas com portas e janelas,
Mas somente o vácuo entre as massas
Lhes dá utilidade --
Assim são as coisas físicas,
Que parecem ser o principal,
Mas o seu valor está no metafísico.
1 Lao-Tsé se refere,
provavelmente, à roda de um moinho de vento, que não funcionaria se não houvesse
interstícios entre as palhetas, por onde passa o vento (Nota do Tradutor).
Através dos visíveis rumo ao invisível
O excesso de luz cega a vista.
O excesso de som ensurdece o ouvido.
Condimentos em demasia estragam o gosto.
O ímpeto das paixões perturba o coração.
A cobiça do impossível destrói a ética.
Por isto, o sábio em sua alma
Determina a medida para cada coisa.
Todas as coisas visíveis lhe são apenas
Setas que apontam para o Invisível.
A paz nasce da mansuetude
O chefe de Estado que obedece ao Tao
Não tenta dominar com violência,
Porque sabe que toda a violência
Recai sobre o próprio violento.
Nos campos de batalha,
Só medram espinhos e cardos.
Guerras geram angústias e miséria.
Por isso, o sábio vive sem armas,
Nem obriga ninguém com violência,
Não conhece ambição nem glória,
Não alimenta presunção alguma,
Nem aspira ao poder.
Faz o que deve fazer,
Mas sem forçar ninguém.
Ele conhece o ritmo da evolução,
Sabe que tudo falha
Quando contradiz as leis da vida,
Porque todas as ilusões
Depressa se dissipam.
Sapiência suprema
Inteligente é quem outros conhece;
Sapiente é quem se conhece a si mesmo.
Forte é quem outros vence;
Poderoso é quem se domina a si mesmo.
Ativo é quem muito trabalha,
Rico é quem vive contente.
Firme é quem vive em seu posto,
Eterno é quem supera a morte.
O profano, o iniciado, o realizado
Quem desperta em si
As forças criadoras da vida
Realiza a sua íntima essência.
E nela permanece, intangível,
Criando paz e silenciosa maturidade.
Músicas e peças teatrais
Aliciam os transeuntes profanos,
Mas quem se interessa por Tao?...
Não basta ver para enxergá-lo.
Não basta ouvir para compreendê-lo.
Mas quem sabe auscultá-lo,
Esse descobre a plenitude de Tao.
A sabedoria parece estultice
O verdadeiro sábio,
Quando conhece Tao,
Procura realizá-lo em si.
Quem ainda vacila, incerto,
Na sabedoria, só de vez em quando
Segue o caminho certo.
Quem apenas fala em sabedoria
Não a toma a sério.
Se Tao não lhe parecesse absurdo,
Não seria Tao.
Por isto disse o poeta:
"Quem é iluminado por dentro
Parece escuro aos olhos do mundo.
Quem progride interiormente
Parece ser um retrógrado.
Quem é auto-realizado
Parece um homem imprestável.
Quem segue a luz interna
Parece uma negação para o mundo.
Quem se conserva puro
Parece um bobo e simplório.
Quem é paciente e tolerante
Parece um sujeito sem caráter.
Quem vive de acordo com seu Eu espiritual
Passa por um homem enigmático".
(...)
A riqueza do ser e a pobreza do ter
Que vale mais:
Meu nome de família ou meu Ser?
Que é mais meu:
Minhas posses externas ou meu íntimo Ser?
Que me é mais importante:
Meus lucros ou minhas perdas?
Quem prende seu coração a algo
Está preso.
Quem deseja possuir tesouros
É um pobre possesso.
Quem vive satisfeito
É feliz com os satisfeitos.
Quem respeita os seus limites
Não corre perigo.
Isto gera verdadeira serenidade.
De dentro vem o que por fora se revela.
A serenidade do sábio
Quem sabe cala.
Quem fala não sabe.
O sábio vive calado,
Voltado para dentro de si;
Mitiga o que é agudo,
Deslinda o que é emaranhado,
Suaviza o que é violento,
Nivela-se com o que é singelo.
Assim conscientiza ele a Realidade.
Unifica-se com o grande Uno,
Mantém-se eqüidistante de simpatia e antipatia,
Indiferente a lucro e perda
Acima de louvor e vitupério.
É nisto que ele vê a verdadeira nobreza.
Ignorar sua ignorância
Quem conhece a sua ignorância
Revela a mais alta sapiência.
Quem ignora a sua ignorância
Vive na mais profunda ilusão.
Não sucumbe à ilusão
Quem conhece a ilusão como ilusão.
O sábio conhece o seu não-saber,
E essa consciência do não-saber
O preserva de toda a ilusão.
Sabedoria pelo desapego
Palavras verdadeiras não são lisonjeiras.
Palavras lisonjeiras não são verdadeiras.
O homem de bem não fala muito.
Quem fala muito não é homem de bem.
Homens sábios não são eruditos,
Homens eruditos não são sábios.
Quem trilha o caminho da perfeição
Não acumula tesouros.
Riqueza é para o sábio
O que ele faz pelos outros.
Quanto mais ele dá aos outros,
Tanto mais rico se torna.
Assim como de Tao brota a vida,
Assim age o sábio
Sem ferir ninguém.
Extraído de:
"Tao Te Ching - O livro que revela Deus", Lao-Tsé, Editora Martin
Claret. |