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Santo Agostinho deixou-nos
uma vasta obra literária. O Bispo de Hipona (atual
cidade de Annaba, na Argélia) faz
reflexões sobre os mais variados assuntos, sejam de caráter social do homem,
sejam de caráter interno e pessoal.
Em sua obra "Confissões", um solilóquio (por vezes em forma de colóquios)
estende-se por vários e vários capítulos e "livros", onde Santo Agostinho
mergulha e aventura-se nas mais profundas e desconhecidas águas, e traz à tona
os tesouros lá encontrados.
Alguns fragmentos estão aqui expostos. Para uma maior e mais completa
compreensão dos fragmentos, sugere-se que se leia a obra completa, onde se pode
acompanhar todo o traçado e a trajetória de mergulho que Santo Agostinho
estabelece. Trajetória esta que pode servir de guia e exemplo a muitos homens.

Fala-nos Santo Agostinho:
Capítulo XVII - Deus e a Memória
Grande é o poder da memória! E ela
tem algo de terrível, meu Deus, em sua complexidade infinita e profunda. E isto
é o espírito, e isto sou eu mesmo. Que sou, pois, meu Deus? Qual a minha
natureza? Vida vária e multiforme, de amplidão imensa. Eis-me em minha memória,
em seus campos, antros, inumeráveis cavernas, tudo isso infinitamente cheio de
toda espécie de coisas, também inumeráveis. Umas gravadas em imagens, como os
corpos; outras, como as ciências, aí estão presentes por si mesmas; outras ainda
aí estão sob a forma de não sei que noções e sinais, como os afetos da alma, que
a memória conserva quando a alma já não os sente, embora tudo o que está na
memória esteja também no espírito. Percorro em todas as direções este mundo
interior, vou de um lado para outro, e nele me aprofundo o mais possível, sem
encontrar-lhe os limites, tão grande é a vida que reside no homem mortal!
Que hei de fazer, pois, meu Deus,
minha verdadeira vida? Ultrapassarei também esta faculdade que se chama memória?
Ultrapassá-la-ei para chegar a ti, doce luz? Que dizes? Subindo em espírito a
ti, que estás acima de mim, ultrapassarei também esta minha força, que se chama
memória, pois quero atingir-te onde és acessível, e unir-me a ti por onde possa
fazê-lo. Também os animais e as aves têm memória, porque de outro modo não
voltariam a seus ninhos e tocas, nem fariam outras coisas habituais, e nem mesmo
poderiam adquirir hábitos sem a memória. Passarei, pois, além da memória para
chegar àquele que me separou dos animais e me fez mais sábio que as aves do céu.
Passarei além da memória, mas onde te hei de achar, ó Deus verdadeiramente bom,
suavidade segura? Onde te hei de encontrar? Se te encontro sem minha memória,
estou esquecido de ti, e se não me lembro de ti, como te poderei encontrar?
Capítulo
XXIV - Deus e a Memória
Eis como esquadrinhei minha memória em tua procura, Senhor; não me foi possível
encontrar-te fora dela. Nada encontrei de ti que não fosse lembrança, e nunca me
esqueci de ti desde que te conheci. Onde encontrei a verdade, aí encontrei a meu
Deus, que é a própria verdade; e desde que aprendi a conhecer a verdade, nunca
mais a esqueci. Por isso, desde que te conheço, permaneces em minha memória. É
lá que te encontro quando me lembro de ti e quando sou feliz em ti. Estas são as
santas delícias que me deste em tua misericórdia, olhando para minha pobreza.
Capítulo XXVI - Onde encontrar Deus?
Onde, então, te encontrei, para te conhecer? Não estavas ainda em minha memória
antes de eu te conhecer. Onde, então, te encontrei, para te conhecer, senão em
ti mesmo, acima de mim? No entanto, aí não existe espaço. Quer nos afastemos de
ti, quer nos aproximemos, aí não existe espaço algum. Ó Verdade, por toda parte
assistes aos que te consultam, e respondes ao mesmo tempo a todas essas diversas
consultas. Tuas respostas são claras, mas nem para todos. Os homens te consultam
sobre o que querem, mas nem sempre ouvem as respostas que querem. Teu servo fiel
é o que não pensa em ouvir de ti a resposta que quer, mas em querer a resposta
que lhe dás.
Capítulo XXVIII - A Vida do Homem
Quando me unir a ti com todo meu ser, não sentirei mais dor ou fadiga; minha
vida, cheia de ti, será então a verdadeira vida. Alivias aqueles que enches de
ti; mas, como ainda não estou cheio de ti, sou um peso para mim mesmo. Minhas
alegrias, que deveriam ser choradas, lutam com minhas tristezas que deveriam
alegrar-me, e ignoro de que lado está a vitória.
Ai de mim, Senhor, tem piedade de mim! As tristezas do meu mal lutam com minhas
santas alegrias, e eu não sei de que lado está a vitória. Ai de mim! Senhor, tem
piedade de mim! Eis minhas feridas: eu não as escondo. Tu és o médico, eu o
enfermo; és misericordioso, e eu, miserável. Não é contínua tentação a vida do
homem sobre a terra? Quem quer aborrecimentos e dificuldades? Mandas que os
suportemos, e não que os amemos. Ninguém ama o que tolera, ainda que goste de o
tolerar; e mesmo que alguém se alegre em tolerar, preferiria nada ter que
suportar. Na adversidade, desejo a prosperidade, e na prosperidade temo a
adversidade. Entre estes dois extremos, qual será o termo médio onde a vida
humana não seja tentação?
Ai das prosperidades do século, onde se receia a adversidade e a alegria é
corrompida! Ai das adversidades do século, uma, duas, três vezes ai! Pelo desejo
da prosperidade, por ser dura a adversidade, e pelo temor que vença a nossa
paciência! A vida do homem sobre a terra não é pois uma contínua tentação?
Capítulo XXIX - Esperança em Deus
Só na grandeza da Tua misericórdia coloco toda minha esperança. Dai-me o que me
ordenas e ordena-me o que quiserdes. Mandas que sejamos castos. "Sabendo, diz um
sábio, que ninguém pode ser casto se Deus não lhe der este dom, já é sabedoria
saber de quem procede este dom". A continência reúne os elementos de nossa
pessoa, reconduz-nos à unidade que perdemos dispersando-nos por tantas
creaturas. Pouco te ama quem te ama juntamente com alguma creatura, e não a ama
por tua causa.
Ó amor, que sempre ardes e jamais te extingues! Ó caridade, meu Deus,
inflama-me! Ordena-me a continência? Dá-me o que mandas, e ordena o que
quiseres!
Extraído de: "Confissões - Livro Décimo",
Santo Agostinho, Editora Martin Claret. |