Einstein - O Enigma do Universo
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Ricardo B. Ivanov 2007

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Albert Einstein é, talvez, a maior personalidade da ciência no século XX e, quiçá, ao longo dos tempos. As suas contribuições no campo da Física foram tão grandes que não se poderia conceber, talvez, o atual mundo moderno se este judeu-alemão, de cabelos revoltos, não tivesse passado pela face da terra.

O título desta página é uma alusão ao magnífico livro escrito pelo Prof. Huberto Rohden, sobre a vida de Einstein. Rohden teve o privilégio de conviver com Einstein em Princeton, nos Estados Unidos, onde pôde colher informações e construir os alicerces da Filosofia Univérsica.

Einstein estava a frente de seu tempo. Quanta imaginação! Quanta sabedoria! Antes de relacionar os textos escritos pelo célebre físico-matemático judeu-alemão, coloco as felizes palavras do filósofo-professor brasileiro Huberto Rohden.

Fala Huberto Rohden:

Os anos de 1945 a 1946 passei na Universidade de Princeton, Estados Unidos, aceitando uma bolsa de estudos para "Pesquisas Científicas", oferecida por essa Universidade.

Quase nada sabia eu, até essa data, do maior matemático do século - e talvez de todos os tempos - que lançou as bases para a Era Atômica. Nem mesmo sabia da sua presença em Princeton, pequena cidade derramada no meio de vasto descampado, a uma hora de trem de New York. Cerca de um mês após minha chegada a Princeton, passando um dia pela Mercer Street, meu companheiro mostrou-me um sobradinho modesto em pleno bosque e quase totalmente coberto de trepadeiras, dizendo que lá morava Albert Einstein.

Mais tarde, em companhia de outro brasileiro, consegui uma rápida visita a esse homem solitário e taciturno. Cabeleira desgrenhada, barba por fazer, sapatos sem meias, todo envolto em um vasto manto cinzento, com olhar longínquo de esfinge em pleno deserto - lá estava esse homem cujo corpo ainda vivia na terra, mas cuja mente habitava nas mais remotas plagas do cosmos, ou no centro invisível dos átomos.

(...)

Fala Albert Einstein:

A religiosidade da pesquisa

O espírito científico, fortemente armado com seu método, não existe sem a religiosidade cósmica. Ela se distingue da crença das multidões ingênuas que consideram Deus um Ser de quem esperam benignidade e do qual temem o castigo - uma espécie de sentimento exaltado da mesma natureza que os laços do filho com o pai - um ser com quem também estabelecem relações pessoais, por respeitosas que sejam.

Mas o sábio, bem convencido da lei de causalidade de qualquer acontecimento, decifra o futuro e o passado submetidos às mesmas regras de necessidade e determinismo. A moral não lhe suscita problemas com os deuses, mas simplesmente com os homens. Sua religiosidade consiste em espantar-se, em extasiar-se diante da harmonia, das leis da natureza, revelando uma inteligência tão superior que todos os pensamentos humanos e todo seu empenho não podem desvendar, diante dela, a não ser seu nada irrisório. Este sentimento desenvolve a regra dominante de sua vida, de sua coragem, na medida em que supera a servidão dos desejos egoístas. Indubitavelmente, este sentimento se compara àquele que animou os espíritos criadores religiosos em todos os tempos.

O valor do homem

O valor do homem é determinado, em primeira linha, pelo grau e pelo sentido em que ele se libertou do seu ego.

O que, a meu ver, há de propriamente valioso na vivência humana, não é o Estado, mas sim o indivíduo humano, dotado de sentimento e creatividade. O rebanho humano como tal permanece embotado no seu pensar e sentir.

Qual o sentido da vida?

Tem um sentido a minha vida? A vida de um homem tem sentido? Posso responder a tais perguntas se tenho espírito religioso. Mas, "fazer tais perguntas tem sentido"? Respondo: "Aquele que considera sua vida e a dos outros sem qualquer sentido é fundamentalmente infeliz, pois não tem motivo algum para viver".

Como julgar um homem?

De acordo com uma única regra determino o autêntico valor de um homem: em que grau e com que finalidade o homem se libertou de seu eu?

Para quê as riquezas?

Todas as riquezas do mundo, ainda mesmo nas mãos de um homem inteiramente devotado à idéia do progresso, jamais trarão o menor desenvolvimento moral para a humanidade. Somente seres humanos excepcionais e irrepreensíveis suscitam idéias generosas e ações elevadas. Mas o dinheiro polui tudo e degrada sem piedade a pessoa humana. Não posso comparar a generosidade de um Moisés, de um Jesus ou de um Gandhi com a generosidade de uma Fundação Carnegie qualquer.

A experiência cósmica

Impressão de um assombro desse tipo experimentei eu, sendo criança de uns quatro ou cinco anos, quando meu pai me mostrou uma bússola. O fato daquele ponteiro comportar-se de maneira tão determinada não se casava com a natureza dos acontecimentos possíveis de localizarem no mundo inconsciente dos conceitos (efeito relacionado com o "contato direto"). Lembro - ou, pelo menos, creio lembrar - que essa experiência produziu em mim uma impressão profunda e duradoura. Devia existir algo oculto por detrás das coisas. O que a pessoa vê desde sempre não causa impressão desse tipo: ela não se preocupa com a queda dos corpos, com o vento ou com a lua, ou com o fato de a lua não tombar, nem com as diferenças entre matéria viva e não-viva.

Aos doze anos de idade, experimentei uma segunda sensação de assombro, de natureza inteiramente diversa - deveu-se a um livrinho de geometria euclidiana plana, que me veio às mãos no começo de um ano letivo. Ali figuravam asserções como, por exemplo, as referentes às intersecções das três alturas de um triângulo em um determinado ponto que - embora de modo algum evidentes - podiam ser demonstradas com tal segurança que se colocavam para além de qualquer dúvida. Essa clareza e certeza causaram-me uma sensação indescritível. E não me perturbou o fato de o axioma ter de ser aceito sem prova. Bastava-me poder construir demonstrações a partir de proposições cuja validade não parecia discutível. Lembro que um tio me falou do teorema de Pitágoras antes que o sagrado livrinho me caísse nas mãos. Depois de muito esforço, consegui "demonstrar" o teorema, com base na similaridade de triângulos; ao fazê-lo, pareceu-me "evidente" que as relações entre os lados dos triângulos-retângulos estariam completamente determinadas por um dos ângulos agudos. Só o que não se apresentava como igualmente evidente parecia-me exigir demonstração. Os objetos com que lida a geometria não se afiguravam diferentes dos objetos da percepção sensorial, "que podem ser vistos e tocados". Essa primitiva idéia - provavelmente presente na base da conhecida problemática levantada por Kant relativamente à possibilidade de juízos sintéticos a priori - apoiava-se, obviamente, no fato de que a relação dos conceitos geométricos para com os objetos da experiência direta (barras rígidas, intervalo finito, etc) estava, inconscientemente, em mim.

O que é pensar?

Que é, precisamente, "pensar"? Quando recebidas impressões sensoriais, quadros de memória emergem, isto ainda não é "pensar". É quando esses quadros se acomodam em séries, cada um dos elementos reclamando o outro, isso também ainda não é "pensar". Quando, porém, um quadro se apresenta em muitas dessas séries, então - precisamente por força dessa manifestação repetida - torna-se ele um elemento de ordenação das mesmas séries, no sentido de que une séries que, por si, não mantêm ligação. Esse elemento se transforma em instrumento, em conceito. Entendo que a passagem da livre associação, ou do "sonhar", para o pensar se caracteriza pelo papel mais ou menos dominante que desempenha o "conceito". Não é de maneira alguma necessário que o conceito apareça preso a um signo sensorialmente cognoscível e possível de reprodução (palavra); todavia, quando isso ocorre, o pensamento se torna, por esse meio, comunicável.

Com que direito - perguntará o leitor - em tão problemático terreno, esse homem trata dessa maneira descuidosa e primitiva as idéias, sem fazer sequer o mínimo esforço para evidenciar alguma coisa? Minha defesa: todo nosso pensamento tem a natureza de livre jogo com os conceitos; justificação desse jogo está na medida em que, ajudados por ele, possamos alcançar perspectiva que se alteie sobre a experiência. O conceito de "verdade" não pode ser aplicado a essa estrutura; a meu ver, esse conceito só pode colocar-se em pauta quando já se encontra a nosso dispor uma concordância ampla (convenção) concernente aos elementos e regras do jogo... De minha parte, não duvido de que o pensamento opere, em grande parte, sem recurso a signos (palavras) e seja, em grau considerável, inconsciente. De outra forma, como se explicaria que, por vezes, "conjeturamos" espontaneamente a propósito de alguma experiência? Esse "conjeturar" ocorre, ao que parece, quando uma experiência entra em conflito com um mundo de conceitos que em nós já se acha sedimentado. Sempre que esse conflito é sentido penosa e intensamente, ocorre uma reação que atinge nosso mundo mental de maneira decisiva. O desenvolvimento desse mundo mental é, em certo sentido, um contínuo vôo de imaginação brotado do "conjeturar".

Palavras lapidares de Einstein

1. Não existe nenhum caminho lógico para o descobrimento das leis elementares - o único caminho é o da intuição.

2. Do mundo dos fatos não conduz nenhum caminho para o mundo dos valores - estes vêm de outra região.

3. O princípio creador reside na Matemática; a sua certeza é absoluta, enquanto se trata de matemática abstrata, mas diminui na razão direta da sua concretização.

4. Deus é a Lei e o Legislador do Universo.

5. O homem erudito é um descobridor de fatos que já existem - mas o homem bom é um creador de valores que não existiam, e que ele faz existir.

6. Saber que existe algo insondável, sentir a presença de algo profundamente racional, radiantemente belo, algo que compreendemos apenas em forma rudimentar - é esta a experiência que constitui a atitude genuinamente religiosa. Neste sentido, e neste sentido somente, eu pertenço aos homens profundamente religiosos.

7. Gerações vindouras dificilmente acreditarão que tenha passado pela face da terra, em carne e osso, um homem como Mahatma Gandhi.

8. Penso 99 vezes e nada descubro; deixo de pensar, mergulho em profundo silêncio - e eis que a verdade me é revelada.

9. A maioria de nós prefere olhar para fora e não para dentro de si próprio.

10. A mente avança até o ponto onde pode chegar; mas depois passa para uma dimensão superior, sem saber como lá chegou. Todas as grandes descobertas realizaram esse salto.

11. A coisa mais bela que o homem pode experimentar é o mistério. É esta a emoção que está na raiz de toda ciência e arte. O homem que desconhece esse encanto, incapaz de sentir admiração e estupefação, esse já está, por assim dizer, morto, e tem os olhos extintos.

Extraído de: "Einstein - O Enigma do Universo", Huberto Rohden, Editora Martin Claret.

 

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