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Muito se fala
em meditação atualmente. Muito se fala, mas pouco se
diz... Uns dizem que é pensar numa única coisa; outros
dizem que é cochilar; outros que é simplesmente
não-pensar.
Neste antigo opúsculo, Huberto Rohden, que conheceu Paramahansa Yogananda no
Golden Lotus Temple, Estados Unidos, dá-nos as diretivas para uma meditação
verdadeira. Felizes daqueles que meditam verdadeiramente!...

Fala Huberto Rohden:
Que é cosmo-meditação?
Há alguns decênios que milhares de pessoas, aqui no ocidente, praticam
meditação, que, outrora, era restrita ao oriente ou a alguns conventos de frades
e freiras.
Hoje em dia, milhares de pessoas de
todas as condições de vida – negociantes, industriais, advogados, médicos,
estudantes, pessoas tidas por inteiramente profanas – fazem ou tentam fazer a
sua hora de meditação, de manhã cedo ou à noite.
É que muitos descobriram que há, nos
profundos redutos dessa prática, algo que não tem nome, mas que tem sabor de
tranqüilidade, de paz, de felicidade.
Acontece, todavia, que quase todos
acham difícil esse exercício; muitos desanimam depois de algum período; outros
continuam com árdua persistência, esperando melhores frutos para o futuro. Por
vezes, um só lampejo de inefável beatitude os anima a prosseguirem.
Uma senhora católica que, há
decênios, faz ou tenta fazer meditação, disse-me que nunca conseguiu meia hora
de verdadeira concentração, e duvida seriamente que jamais uma pessoa o tenha
conseguido, mesmo daquelas que fazem retiros espirituais de diversos dias.
Respondi àquela senhora que lhe dou
plena razão, em virtude duma premissa falsa que ela e muitos outros tomam por
ponto de partida. Tentei explicar-lhe essa premissa falsa, mas não garanto que o
tenha conseguido. O erro em que quase todas as pessoas baseiam a sua meditação é
tão inveterado, tem tantos séculos de existência, que é dificílimo erradicá-lo.
É como esse asfalto duríssimo das ruas das nossa cidades; que esforço, que
barulho infernal quando uma dessas máquinas de compressão atmosférica procura
romper essa camada de asfalto, pedra e cimento! Coitados dos moradores da
vizinhança que não conseguem dormir noites seguidas com tamanho barulho.
Falarei das minhas experiências
pessoais; mas, como a nossa educação dentro do ambiente cristão é mais ou menos
a mesma, com pouca diferença, julgo ser válido para os outros o que digo de mim
mesmo.
Nos colégios, nas igrejas e nos
institutos de educação, fomos quase todos convidados a fazer a nossa meditação
diária. Por via de regra o diretor espiritual propunha três pontos para a
meditação, além de um prelúdio e duma peroração. Os pontos de meditação se
referiam, quase sempre, a trechos bíblicos, sobretudo do Evangelho, por vezes
também à vida dos santos.
Quer dizer que a tal meditação
consistia em pensar, analisar e estudar o sentido exato, esmiuçando o respectivo
tópico e aplicando-o à sua vida pessoal.
É inegável que esse processo é muito
útil para o estudo e a compreensão profunda de um texto dos livros sacros.
E, se esta luz de compreensão
profunda melhorasse realmente a vida do meditante, a meditação seria o meio
ideal para auto-realização e santificação do homem.
Infelizmente, porém, é inaceitável
que o homem se torne melhor pela simples compreensão intelectual de uma verdade.
Pode um homem ter 100% de compreensão analítica de todos os textos do Evangelho,
ou até da Bíblia inteira, e continuar a ser um homem 100% profano.
Não se trata absolutamente de
entender, de inteligir, de analisar o sentido das palavras. Já dizia Paulo de
Tarso que a “letra mata”, a inteligência da letra mata o espírito se além dessa
letra mortífera não vier o espírito vivificante – e esse espírito não vem
da letra.
Este espírito vivificante não é
produto duma meditação meramente analítica.
Não negamos que o estudo da letra
possa servir de condição preliminar sobre a qual se possa projetar a
espiritualidade. Negamos, porém, que essas análises mentais possam ser a causa
do advento do espírito.
Mais ainda, em muitíssimos casos
essas análises mentais do texto sacro são verdadeiros empecilhos que impedem o
advento do espírito de Deus. Inúmeras pessoas se contentam com essa acrobacia
mental, que não permite ouvir a voz de Deus. Não permitem que Deus lhes fale
porque eles não se calam – e onde o homem fala Deus se cala.
O maior equívoco que inutiliza a
meditação é que o homem julgue dever falar a Deus em vez de permitir que Deus
fale com ele. Que coisa pode a nossa pobre vacuidade humana dizer à Infinita
Plenitude de Deus? Nada recebem das águas vivas do espírito de Deus os que de
antemão obstruíram todos os canais pelos quais as águas da fonte poderiam fluir.
Muitos fazem da meditação uma
interminável ladainha de pedidos: lembram a Deus que têm falta disto, falta
daquilo, falta de saúde, de bons negócios, de um emprego rendoso, etc. Outros
chegam ao ponto de fazer negociatas com Deus: prometem rezar tantos terços,
mandar dizer tantas missas, dar tantas esmolas, se Deus lhes fizer a vontade –
seja feita a minha vontade assim na terra como no céu.
Corroboram até com palavras do Divino
Mestre as suas meditações: “Pedi e recebereis – tudo que pedirdes ao Pai em meu
nome ele vo-lo dará”.
Esquecem-se das outras palavras do
Mestre: “Vosso Pai celeste sabe que de tudo isto haveis mister – antes mesmo de
lho pedirdes”.
* * *
A palavras “meditação” é totalmente
ilusória. Nada há em que meditar, se por meditar se entende pensar, investigar,
analisar. É exatamente o contrário que o homem deve fazer: não meditar em nada,
não pensar em nada. Esta arte de não pensar é a mais difícil de todas as artes –
mas é também o segredo de toda a felicidade. Homem! Não penses nada, não queiras
nada, não fales nada, não faças nada – e o que depois disto sobrar de ti isto é
Deus. Naturalmente, um Deus pleniconsciente.
O homem que pratica a arte de não
pensar, que suspende toda e qualquer atividade do seu ego humano, mas fica
plenamente consciente do seu Eu divino, esse homem sabe o que quer dizer
meditar. Reduzir a zero tudo o que é do seu ego humano e elevar a 100% tudo o
que é do seu Eu divino, isto é meditar. Morrer espontaneamente, antes de ser
morto compulsoriamente, como aliás afirmam todos os que praticavam essa arte
divina da cosmo-meditação; Jesus, Paulo de Tarso, Francisco de Assis, etc.
Mas... agora vem o escolho em que
muitos naufragam: o transe, a auto-hipnose, a passividade total. Conserva-te
100% consciente e vigil. Reduze a zero todo ego-consciente e mantém a 100 o teu
Eu-consciente.
O transe nada resolve porque é total
passividade, quando a meditação é a mais alta atividade.
O chamado estado de samadhi,
êxtase, satori, terceiro céu, é um estado altamente vigil, poderíamos
dizer, é uma dormência vigilante. É um sono ultraconsciente. É o ocaso dos
sentidos e da mente e a alvorada do espírito.
É neste estado passivo-ativo que Deus
fala ao homem, que a alma do Universo fala à alma do nosso ego, que o “homem
morre e o Cristo vive”, que a “semente morre e a planta produz muito fruto”.
O Universo nunca é só Uno nem só
Verso – é sempre Uni-verso.
A Terra também nunca é só noite nem
só dia – ela é sempre dia-noite.
O átomo nunca é só próton nem só
elétron – ele é sempre próton-elétron.
No estado atual de evolução do homem,
a quase totalidade dos seres humanos é 100% ego e 0% Eu. Uns pouquíssimos, os
místicos, inverteram o processo, tornando-se 100% Eu e 0% ego. Mas não é este o
estado perfeito da meditação, embora para muitos esse estado de Eu sem ego seja
o caminho para a arte suprema da cosmo-meditação.
Meditar quer dizer medear,
servir de intermediário, de traço de união entre dois estados de consciência. O
homem que vive simultaneamente no ego e no Eu está em cosmo-meditação.
Primeiro o homem é ego-pensante.
Depois se torno cosmo-pensado.
E por fim é cosmo-pensante.
Neste estado, o homem sabe e sente o
que quer dizer: “Eu e o Pai somos um... as obras que eu faço não sou eu que as
faço... É o Pai que em mim está que faz as obras... de mim mesmo eu nada posso
fazer...”
A natureza toda se acha em estado
permanente de cosmo-meditação, mas em estado do inconsciente. E, por se achar em
estado de cosmo-meditação, a natureza é permanentemente bela, perfeita, feliz.
No mundo mineral, vegetal, animal (selvagem) tudo é harmonioso e belo, porque
seu estado é totalmente dominado pela Inteligência Cósmica, pela Consciência do
Pai, onde não existe desarmonia, deformidade, infelicidade.
A humanidade é pelo menos 90%
deformada, desarmonizada, infeliz, porque o pequeno grau de liberdade não
conseguiu ainda equilibrar a falta de segurança. Segurança e liberdade humana
são mutuamente exclusivas, quanto maior é a liberdade tanto menor é a segurança.
Na natureza a segurança é 100, a
liberdade 0. No homem os seus 10% de liberdade destruíram os 100% de segurança e
crearam esse desequilíbrio.
Quando um dia houver perfeita
segurança com perfeita liberdade então haverá uma humanidade cheia de beleza e
felicidade, muito superior ao estado que hoje observamos na natureza.
Será este o mundo do homem que passou
da ego-consciência para a cosmo-consciência.
Quando o homem ego-vácuo será
plenificado pela plenitude de Deus.
Para os principiantes na cosmo-meditação
Convém que o principiante, antes de
eclipsar qualquer pensamento, mantenha o único pensamento “luz”. Pense um foco
de luz, só luz. Pode até dizer e repetir muitas vezes luz, luz, luz.
Pouco a pouco em vez de pensar
luz, acabará visualizando essa luz, vendo-a na imaginação como um foco
luminoso. Continue a visualizar, a ver, a imaginar essa luz.
Depois de assim visualizar luz,
imaginar luz, passará a ter simplesmente a consciência luz. O processo
sucessivo se tornará num estado simultâneo de consciência luz.
Pouco a pouco, a consciência da luz
objetiva se transformará na consciência subjetiva: Eu sou luz,
eu sou luz, eu sou luz.
E, finalmente, o foco de luz se
expandirá num mar imenso de luz, num oceano de claridade, numa luz universal, na
luz cósmica. E esta luz cósmica incolor, o penetra e o envolve todo.
Desaparece totalmente a diferença
entre a luz e o Eu, porque a luz é Eu, e Eu sou a luz.
Nesse estado definitivo o homem nada
faz, nada pensa, nada quer, permite simplesmente que todo ele seja cosmo-feito,
cosmo-pensado, cosmo-vivido, cosmo-agido, cosmo-querido.
O homem se entrega deliciosamente,
sem reserva, à alma do Universo, a Deus, ao Pai, ao Infinito, ao Todo. O seu
pequeno existir de ontem se diluiu no grande Ser de hoje.
Tempo e espaço deixaram de existir.
O Eterno e o Infinito imperam
soberanos e únicos.
Neste estado, na linha divisória
entre dois mundos, alguns principiantes têm medo de se dissolverem no nada do
Infinito, na imensa vacuidade da Plenitude, medo de não poderem regressar da
Essência Universal para a sua Existência Individual.
Não dêem importância a esse medo de
dissolução.
Para que alguém possa deixar-se assim
absorver pela Luz Cósmica, deve escolher um lugar e um tempo em que nada e
ninguém possa cortar brutalmente essa integração cósmica.
Quanto tempo continuar esse “Eu e o
Pai somos um” tanto melhor. Jesus continuou nessa cosmo-consciência 40 dias e 40
noites ininterruptamente.
Esta consciência da unidade com o
Infinito modificará todos os finitos, transfigurará todas as coisas da vida
profana. A partir daí, nunca mais o homem poderá sentir-se realmente infeliz,
angustiado, abandonado; nunca mais poderá duvidar de si mesmo, de Deus e da sua
própria imortalidade, porque essa experiência é o renascimento pelo espírito e a
entrada no Reino de Deus aqui e agora e para todo o sempre.
Nada existe de
mais importante na vida humana do que esta
cosmo-experiência. Sem ela tudo é nulo e sem valor, com
ela tudo é valioso, cheio de luz, de força, de alegria e
felicidade.
O testamento do Cristo e sua terapia
(exorcismo)
Depois de te teres assim totalmente
identificado com a luz do mundo, que te envolve e te penetra, pára uns momentos
em profundo silêncio, auscultando a voz do Infinito. Depois dize, em voz alta,
vagarosa e firme:
“A mim me foi dado todo o poder no
céu e na terra (pausa). E como meu Pai me enviou, eu vos envio (pausa).
Ide, portanto, proclamai o Evangelho do Reino de Deus a todas as creaturas (relembra
em silêncio todas as creaturas do mundo mineral, vegetal, animal, astral,
elemental, mental e outras, às quais tens ordem de proclamar o Evangelho do
Cristo). Expulsai os maus espíritos (pausa, e repete em voz alta estas
mesmas palavras).
Curai todas as enfermidades que há
entre o povo (pausa e relembra determinadas pessoas doentes a que queiras
aplicar o poder do Cristo).
Porque eu estou convosco todos os
dias até à consumação dos séculos”.
Depois de uma pausa prolongada de
profundo silêncio lembra-te de que estas palavras do Cristo foram as suas
últimas palavras proferidas na terra no dia da Ascensão, a sua última vontade, o
seu testamento à humanidade, e que tu fazes parte desses embaixadores do Cristo,
a que foi dado o poder que o Mestre recebeu do Pai. Considera-te, pois, um canal
secundário ligado ao canal-mestre, através do qual fluem as águas vivas que saem
da Fonte do Infinito, uma vez que ninguém vai ao Pai a não ser pelo Cristo.
Lembra-te de que tu recebeste do
Mestre os mesmos poderes que ele recebeu do Pai, poderes que transmitiu a todos
os homens até a consumação dos séculos:
— proclamando a mensagem espiritual do Reino
de Deus,
— expulsando as forças negativas de toda a
espécie,
— curando todas as enfermidades pela
invocação do poder de Deus.
Repete, vagarosamente, estas palavras
de perfeita saúde e felicidade. Identifica-se totalmente com esta mensagem do
Cristo.
Tu és um dos embaixadores a quem foi
transmitido esse poder.
O Reino de Deus aqui e agora
Pela cosmo-meditação e pelo
cumprimento do testamento de Jesus, proclamando o Evangelho a todas as
creaturas, expulsando os maus espíritos e curando todas as enfermidades, pelo
poder do Cristo recebido do Pai – pode o homem realizar, pelo menos
inicialmente, o Reino de Deus sobre a face da terra.
Há homens conformistas, que
acham impossível abolir os males desta vida e se limitam a camuflá-los na medida
do possível, narcotizando-se com divertimentos e derivativos de toda a espécie.
Há também homens escapistas,
aguardando a abolição dos males só para depois da morte.
E há, finalmente, homens
transformistas, que despertam em si o Reino de Deus, que neles está,
transformando as circunstâncias pelo poder da sua substância. Esses homens sabem
afirmar a soberania da sua substância divina sobre todas as tiranias das
circunstâncias humanas; sabem que “o Reino do Cristo não jaz em alguma esfera
longínqua; o Reino de Deus não é condicionado por tempo e espaço. Muitos pensam
que a vida terrestre, com os seus sofrimentos e as suas angústias, seja um
estágio preliminar para a vida eterna, e que o homem deva suportar as misérias
desta vida até que soe a hora da libertação. Entretanto, o Reino dos Céus ficará
distante enquanto nós o considerarmos distante. E contudo, é agora mesmo que
vivemos no Reino de Deus, e não há nenhum outro mundo. Somente o nosso
consciente obscurecido é que nos torna cegos para as glórias do mundo
espiritual, no qual vivemos. O homem que tem a permanente consciência da
presença de Deus vive agora mesmo na harmonia do seu Reino, numa atitude interna
inatingível pelas vicissitudes dos fenômenos externos.
Não podemos descrever a um surdo as
belezas da música, nem podemos dar a um cego idéia das cores – e, da mesma
forma, não podemos fazer compreender as glórias do Reino de Cristo a um
incrédulo que não as tenha experimentado pessoalmente. Da cadeia e do alcance
dos seus próprios pensamentos, tece o homem, dia a dia, o seu céu e o seu
inferno. Céu e inferno não são estados futuros que nos esperem depois da morte.
A morte não modifica em nada o estado do homem, e os chamados mortos não estão
mais perto de Deus do que os vivos. A morte não representa a transição para um
estado perfeito. A disposição do espírito de um defunto continua a ser a mesma
após-morte que foi durante a vida terrestre. A revelação do Reino de Deus se dá
diariamente nas almas capazes de recebê-la, e cada pensamento espiritual acelera
o advento universal desse Reino”. (F. Sanders).
Extraído de:
"Saúde e Felicidade pela Cosmo-Meditação", texto integral do opúsculo
de Huberto Rohden, Editora Alvorada. |