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Fala Huberto Rohden:
O milagre é contra as Leis da Natureza?
— O senhor
acredita em milagres?
— Por que não?
— Mas o milagre é uma exceção das
leis da natureza, e a ciência provou que isto é impossível; as leis são
constantes e imutáveis.
— Perfeitamente, as leis naturais
são constantes e imutáveis, concordo plenamente; mas nego redondamente que
milagre seja uma exceção dessas leis; afirmo que o milagre é a mais brilhante
confirmação das leis da natureza.
— Não compreendo essa sua
filosofia...
— Não compreende, como? O
Reverendo é “mestre em Israel”, e ignora estas coisas? Cada domingo, do alto do
púlpito, o sr. fala a seu rebanho sobre a vida de Jesus, e acha que o milagre é
incompatível com as leis da natureza? Ou o milagre não é de Deus – ou a natureza
não é Deus! Não é admissível que haja contradição nas obras de Deus...
— O que eu digo a meu rebanho são
as grandes verdades éticas contidas no Evangelho de Jesus Cristo; mas... quanto
aos milagres dele... confesso que me são antipáticos e evito falar neles...
— Fantástico! Pelo que vejo, o
Reverendo é ótimo discípulo de David Strauss, do Dr. Paulus, de Ernesto Renan,
ou de algum outro erudito analfabeto do espírito que desejaria ver os Evangelhos
“expurgados” dessa pedra de tropeço que são os milagres do Nazareno.
— Tem razão. Eu preferia um
Evangelho sem milagres, porque seria um Evangelho mais científico. Se
conseguíssemos expurgar o Evangelho desses numerosos milagres de que está
eivado, teríamos o mais grandioso documento da ética que já apareceu sobre a
face da terra.
— Maravilhoso! Mas não teríamos o
Cristianismo...
— Como não? Não está o
Cristianismo baseado sobre os Evangelhos?
— De forma alguma! O Evangelho
não é a base do Cristianismo! Quer dizer, o Evangelho como sistema doutrinário
de idéias, sem os milagres do Cristo, como o Reverendo o desejaria.
— Se não é o Evangelho, o que é
então a base do Cristianismo?
— O Cristo, e nada mais. O
Cristianismo não é outra coisa senão o próprio Cristo histórico, presente
através dos séculos, ele mesmo, o eterno Logos, que se fez carne e habita
entre nós, e está conosco todos os dias até a consumação dos séculos – isto é o
Cristianismo a 100%! “Cristo, o mesmo, ontem, hoje e para todo o sempre”. Mas
esse Cristo real é absolutamente inconcebível sem o milagre, porque o milagre o
revela como soberano de todas as forças da natureza, como “Filho do homem”, como
“o Filho Unigênito do Pai”. O Cristianismo não é um sistema de doutrinas éticas,
o Cristianismo é um fato objetivo, uma grandiosa realidade histórica,
permanente, é a mais estupenda invasão do mundo divino no mundo humano. Idéias e
doutrinas não dão forças – toda a força vem da realidade. O Cristianismo não é
uma idéia ética ou poética; o Cristianismo é a maior das realidades. Nunca
ninguém viveu jubilosamente nem morreu heroicamente por uma idéia – mas por uma
realidade, milhares e milhões têm vivido e morrido, em todos os tempos e
países...
Se Sócrates, Platão, Buda ou
outro gênio espiritual da humanidade tivessem escrito no Evangelho, tal qual o
possuímos, com todas as suas doutrinas éticas, não teríamos o Cristianismo. Mas,
se o Cristo tivesse aparecido como apareceu e não tivéssemos o Evangelho, ainda
assim teríamos o Cristianismo em toda a sua pureza, força e plenitude; porque o
Cristianismo é o Cristo permanentemente presente no mundo. Ora, o Cristo real
não é concebível sem o milagre.
— Por que não?
— Porque pelo milagre provou ele
[o Cristo] que é superior a todas as leis da natureza e que delas se pode servir
a bel-prazer, espontaneamente, sem a menor violência contra essas leis. O homem
meramente sensitivo é escravo das leis da natureza. O homem intelectual é
escravocrata da natureza, tratando-a como um tirano trata a seu escravo. Mas o
homem espiritual, racional, cósmico, o homem integral, o Cristo ou o homem
cristificado, não é nem escravo nem escravocrata da natureza – é amigo e aliado
da mesma, e por isto coopera pacificamente com a natureza, como amigo e aliado –
e isto é ser taumaturgo. O taumaturgo por força intrínseca prova que chegou o
fim da sua jornada, deixando de ser tanto escravo como escravocrata da natureza.
O Cristo provou a sua plena maturidade humana e adultez espiritual pelo fato de
cooperar pacífica e espontaneamente com todas as leis da natureza. Nunca falhou.
O homem que domina a natureza apenas mentalmente possui um domínio parcial,
precário, incerto, porque violento, compulsório, e é por isso que muitas vezes
falha na sua mágica milagreira – mas o homem espiritual não pode falhar, porque
o seu domínio é absoluto e espontâneo.
Toda a confusão que reina nesse
setor vem do costume de identificarmos a natureza com aquele pequenino fragmento
da natureza por nós conhecido. Quando então uma força da parte desconhecida da
natureza invade subitamente a parte conhecida da mesma, temos a impressão de ter
acontecido algo fora ou até contra as leis da natureza. Permita-me uma
comparação ilustrativa:
Um criança de escola primária lê
sofrivelmente o seu primeiro livro de abc e chama aquilo de “literatura
da humanidade”. Para essa criança, os dramas de Shakespeare, a Divina Comédia
de Dante, o Fausto de Goethe, o Paraíso Perdido de Milton, os
Lusíadas de Camões, etc não fazem parte da literatura mundial, porque não
estão contidos no livro de abc que a criança apelida de literatura da
humanidade.
Outro símile: um menino de seis
ou sete anos aprendeu a tabuada, que representa para ele “a matemática como
tal”. Qualquer dia, cai-lhe nas mãos uma obra de matemática avançada, digamos
Relatividade ou a Teoria do Campo Unificado, de Einstein, ou alguma
obra de Copérnico, Kepler, Galileu e Newton, que representam altos planos da
ciência dos números – mas, para o nosso cachopinho de calças curtas, tudo aquilo
está fora do reino da matemática.
É assim que identificam a
natureza com a fraçãozinha que dela conhecem e constroem a sua filosofia sobre
esse pequeno fragmento.
Os milagres de Jesus e dos seus
discípulos, de todos os tempos e países, ultrapassaram grandemente as fronteiras
do abc e da tabuada da nossa ciência material, que certa gente
convencionou chamar “a natureza”, mas não ultrapassam as fronteiras da Natureza
Absoluta, isto é, da Realidade Universal, porque essa Natureza ou Realidade é o
próprio Deus, o Infinito, o Absoluto, o Todo, a Alma e Essência do Universo,
para além de que nada existe, porque o Todo abrange tudo o que é real: Deus não
está fora do mundo, não está sentado por detrás do universo, assim como um
motorista está sentado atrás do motor que dirige. Deus está dentro da natureza,
dentro de cada átomo e de cada astro, dentro de cada pirilampo e de cada
relâmpago, dentro de cada pedra, planta, inseto, ave, peixe, animal, homem e
anjo, assim como a Vida está dentro de cada ser vivo. A transcendência de Deus
não exclui a sua imanência, e a imanência não contradiz a transcendência. Os
dualistas, como são quase todos os teólogos ocidentais, admitem a transcendência
de Deus, mas negam, ou pelo menos ignoram, a sua imanência. Os panteístas
orientais admitem a imanência de Deus em todas as coisas, mas negam ou ignoram
muitas vezes a transcendência, identificando Deus com todas as coisas. O
verdadeiro monoteísmo, porém – que é o Cristianismo genuíno e integral –, sabe
que Deus é ao mesmo tempo transcendente ao universo e imanente em cada fenômeno
do mundo.
— Que, pois, acontece quando
alguém realiza um milagre?
— Acontece o seguinte: o
taumaturgo aplica uma lei natural que está para além das fronteiras do mundo
material, digamos da física e da química de laboratório, mas não está fora da
Natureza absoluta e total, porque fora dela nada está.
— Que é que existe para além das
forças materiais da natureza?
— Existem as forças mentais
e as forças espirituais (estas últimas chamam, em boa filosofia,
racionais, uma vez que Deus mesmo é a Razão, o eterno Logos, pelo
qual foram feitas todas as coisas). Mas tanto o material como o mental e o
espiritual (ou racional) fazem parte da natureza.
Permita-me mais uma ilustração
tirada do reino da nossa ciência material:
Alguém nunca viu água senão em
estado sólido de gelo, água congelada. Que conceito formaria ele de água?
Evidentemente, para esse homem, água é uma massa sólida. Algum dia, ele vê água
em estado líquido, e nega que isto seja água natural. Para ele, essa água
líquida está fora das leis da natureza da água porque a solidez é, para esse
homem, atributo necessário da água.
Imagine-se o espanto desse homem
se, algum dia, visse água em estado de vapor suspenso no ar! Será que ele
aceitaria como água também essa substância vaporosa? Não seria isto contra as
leis da natureza, contra a lei da gravitação, andar a água assim suspensa no
vácuo?
E se alguém passasse uma corrente
elétrica por um litro de água comum, e a água se transformasse paulatinamente em
dois gases invisíveis, H2 (hidrogênio) e O2 (oxigênio), e
se o cientista dissesse a esse homem ignorante que essa água em forma de H2
e de O2 é altamente inflamável, será que nosso ingênuo conhecedor de
água sólida aceitaria a combinação de H2 e O2 como água
real e autêntica? Não, diria ele: a água apaga o fogo, e você quer fazer-me crer
que a água alimenta o fogo? Que seja um composto de dois elementos combustíveis
e até altamente inflamável? Não, não admito semelhante coisa como científica e
natural!...
E se esse ingênuo conhecedor de
água congelada soubesse que o próprio hidrogênio e oxigênio podem ser
desintegrados por um ciclotron ao ponto de resultar uma energia ainda mil vezes
mais sutil e poderosa do que todos os estados anteriores dessa água?
Gelo, água, vapor, gás, energia
nuclear – a mesma substância em cinco estados diversos, e tanto mais poderosos
quanto menos materiais, dotados de propriedades e modos de agir diametralmente
opostos – será que isto é ciência natural?
Talvez que não seja ciência lá
nos planos ínfimos do abc, mas é ciência cá nos planos superiores da
universidade do espírito.
Do mesmo modo, o milagre é
anticientífico para os analfabetos ou semi-alfabetizados do grande Livro da
Natureza, mas para os universitários da razão e do espírito é o milagre a mais
brilhante confirmação das leis da natureza, porque revela essa natureza como
infinitamente ampliada.
Que é que podemos fazer com um
litro de água? Aplicado a uma rodinha giratória, dessas que as crianças fazem
para brincar, pode um litro d’água imprimir a essa rodinha duas ou três voltas
ao redor do eixo, e nada mais; expirou a força motriz dum litro d’água.
Com a mesma quantidade de água,
evaporada e aplicada aos pistões de uma locomotiva, posso mover essa máquina a
certa distância.
Se transformar esse litro d’água
em H2 e O2, posso fazer explodir até um grande rochedo.
Ainda com o mesmo litro d’água,
desintegrada em prótons e eléctrons pelo bombardeio atômico com nêutrons, posso
obter a energia suficiente para mover um avião quadrimotor ao redor do globo, e
ainda sobrará água na volta.
Ora, assim como antigamente o
homem só sabia utilizar as forças periféricas da água, e agora lança mão da
energia central da mesma, sem ultrapassar nem contradizer as leis da natureza,
da mesma forma se serve o taumaturgo, mental ou espiritual, de forças naturais
desconhecidas e inatingidas pelo homem comum, conhecedor apenas de forças
materiais.
O que o Cristo fez, todo o homem
cristificado o pode fazer, como afirmou explicitamente o taumaturgo da Galiléia:
“As mesmas obras que eu faço vós as fareis, e as fareis maiores”. “Nada é
impossível àquele que tem fé”.
Trata-se simplesmente de libertar
dentro de nós forças profundas e poderosas que, até hoje, no homem comum, não
foram libertadas. E, para libertar essas forças irresistíveis, deve o homem,
antes de tudo, crer na existência real das mesmas, e, depois, viver a perfeita
harmonia com sua fé. A fé e a vivência, a fé vivida intensamente, despertarão e
libertarão as forças profundas que dormem, reais porém incógnitas, na alma de
todo o homem.
Pode a oração modificar as Leis da Natureza?
Muitos pensam que sim. Outros
duvidam ou negam. Estes últimos, naturalmente, não oram e declaram com ares de
sabidos: Não adianta orar, pois as leis da natureza são imutáveis; o que deve
acontecer acontecerá infalivelmente... A oração é filha da ignorância e da
superstição...
Exemplifiquemos. Aqui está um
doente desenganado pela medicina humana. Os melhores médicos são unânimes em
afirmar que ele vai morrer em breve, de um colapso cardíaco, de tuberculose, de
câncer, ou outra moléstia fatal.
Entretanto, na manhã seguinte,
esse homem condenado à morte pela ciência humana se levanta de perfeita saúde e
continua a viver por anos e decênios. Nem vestígio de lesão cardíaca,
tuberculose, câncer ou outra moléstia.
Casos desses, como todos sabem,
não são fictícios. São e têm sido reais através de todos os séculos.
Que foi que aconteceu?
A ciência encolhe os ombros,
perplexa, ignorante, tecendo mil hipóteses em torno do caso, sem acerta com a
verdadeira explicação.
Os homens religiosos falam em
milagre, quer dizer, no entender deles, houve uma intervenção divina,
sobrenatural, para além das forças da natureza.
Entretanto, nem estes nem aqueles
têm razão. Nem as forças materiais da ciência, nem as forças sobrenaturais
curaram esse organismo. Ele foi curado em virtude de forças inteiramente
naturais, mas que ultrapassam o âmbito da matéria; porquanto a natureza não é
toda material; ela é material no seu plano ínfimo, mental no seu plano médio, e
espiritual no seu plano superior – tudo isto, porém, é natural, perfeitamente
natural. O recurso a uma ordem sobrenatural não passa de um refúgio da nossa
ignorância. O que chamamos sobrenatural é apenas aquela zona do natural que fica
para além da zona por nós atingida. Um milhão de anos antes da nossa era, teria
sido sobrenatural quase tudo o que hoje em dia é natural para a nossa ciência e
técnica, como aviões, submarinos, rádio, radar, televisão, etc. Quanto mais o
homem se mentaliza e espiritualiza, mais se naturaliza, o que equivale a dizer
que se des-sobrenaturaliza cada vez mais. Para o homem plenamente espiritual,
tudo é natural, nada é sobrenatural. Para Jesus, todos os milagres eram
naturais.
Que aconteceu, pois, com o nosso
doente gravemente enfermo e desenganado pela medicina material?
Aconteceu um milagre*, mas dentro
das leis da natureza. Algum homem – talvez o próprio doente – orou. “E a oração
de fé salvou o doente”, como escrevia, quase vinte séculos atrás, um dos
iniciados nos mistérios do mundo espiritual, o apóstolo Tiago, que vira os
milagres de Jesus.
Mas, como pode a oração, essa
coisa invisível e imaterial, produzir um efeito material, e talvez instantâneo?
Pode uma causa vaga e incerta, como a oração da fé, produzir um efeito certo e
concreto, como o de restaurar em pouco tempo milhões e bilhões de células
orgânicas destruídas pela moléstia? Não está isto em flagrante contradição com
as leis da natureza, que são férreas e imutáveis?
Meu ingênuo materialista! Saia do
seu livro de abc! Ultrapasse a sua tabuada! Matricule-se na universidade
da natureza! Se a natureza fosse aquele soldadinho de chumbo ou aquela
bonequinha de celulóide com que os cientistas de jardim de infância se divertem
e que pomposamente apelidam de “natureza”, é claro que não haveria nenhuma
explicação natural para uma cura como esta. Se a oração da fé operasse apenas
com elementos vagos e incertos, fracos, quase irreais, não se explicaria um
efeito tão grande e palpável como a cura de uma moléstia materialmente
incurável, porquanto a boa lógica nos proíbe de admitirmos um efeito maior que
sua causa. Ora, se aqui temos um efeito estupendamente grande, não é lógico
concluir que a causa deve ser pelo menos tão grande e poderosa como o efeito? A
invisibilidade da causa em nada afeta a sua realidade e força, a não ser que
algum ignorante erudito identifique visibilidade com realidade. A
própria ciência dos nossos dias nos proíbe terminantemente de fazermos essa
infeliz identificação; todo cidadão da Era Atômica sabe que visibilidade e
realidade estão na razão inversa, quer dizer que tanto mais real é uma coisa
quanto menos visível, tanto menos real quanto mais visível. A matéria é
fartamente visível, mas é pouco real, e por isto mesmo fraca; a energia é menos
visível, e por isto mais real e mais poderosa; a energia nuclear é em si
totalmente imperceptível, e todos sabemos quão real e poderosa ela é. A mais
imperceptível de todas as coisas reais, no plano físico, é a luz, a luz cósmica,
absoluta, e é precisamente a luz que, segundo Einstein, é a realíssima
realidade, a base e origem de todas as demais energias e matérias do Universo.
As forças mentais e espirituais
são, por sua natureza, invisíveis; são energias, e não matérias. A força
espiritual tem íntima afinidade com a luz, a maior das forças que a ciência
conhece. Se essa força imaterial for aplicada a um objeto material, como um
organismo doente, quem não vê o tremendo impacto que ela poderá exercer sobre o
mesmo? Todo o segredo está em como aplicar essa força imaterial, a oração da fé,
ao corpo material. Entretanto, há numerosos casos em que essa aplicação se
verificou, com os resultados chamados milagres.
Que faz então o homem que ora com
fé?
Aplica à parte material do mundo,
ou do corpo, uma força espiritual; aplica o mais forte ao menos forte, e este,
naturalmente, cederá àquele. Assenta a alavanca num ponto de apoio situado para
além das fronteiras da matéria, executa um movimento – e desloca do seu lugar o
peso enorme da moléstia física, peso que nenhum médico poderia deslocar, porque
não tinha o ponto de apoio fora da matéria onde assentar a alavanca. O essencial
é encontrar esse ponto de apoio fora da matéria. Contam que o velho matemático
grego, Arquimedes, exclamou um dia: “Dai-me um ponto de apoio fora do mundo – e
deslocarei o Universo do seu eixo!” Referia-se ele à conhecida lei da alavanca.
Todo mecânico sabe que, por exemplo, com a alavanca de um metro aplicada de modo
que, digamos, 90 centímetros fiquem do lado do movente e apenas 10 do lado do
peso a ser movido, a força de suspensão é multiplicada automaticamente pelo
quadrado da diferença que há entre as duas partes da alavanca, relativamente ao
ponto de apoio. E se o mecânico construiu um sistema de alavancas concatenadas,
de maneira que a parte menor de uma alavanca pegue cada vez na parte maior da
outra, pode ele multiplicar indefinidamente a força da alavanca, podendo até
mover com um só dedo o Pão de Açúcar, o Corcovado ou outro peso qualquer –
suposto, naturalmente, que suas alavancas tenham um ponto de apoio fora do plano
do peso a ser movido.
Ora, o que o homem que ora com fé
faz não é outra coisa senão assentar a alavanca num fulcro situado fora do
movediço areal das coisas materiais, em permanente fluxo e refluxo. Se consegue
esse ponto de apoio imóvel, suspenderá e deslocará da sua base o grande peso do
mal que o aflige.
Mas todo o mistério está em
descobrir de fato esse ponto de apoio. Só um homem que nas regiões imateriais da
natureza se sinta perfeitamente “em casa” é que poderá com infalível acerto
aplicar a sua alavanca. É o que acontecia com aquele profeta de Nazaré. Não
consta que tenha falhado uma só vez em suas curas milagrosas. Acertou 100%,
porque esse invisível mundo espiritual era para ele tão real como o mundo
visível da matéria, e as leis que governam o mundo invisível eram para Jesus
matematicamente certas e meridianamente claras. Com efeito, as leis do mundo
espiritual agem com a mesma precisão matemática como as leis da física, da
química, da eletricidade, da eletrônica, da atômica, ou de outro departamento
qualquer do plano material.
É para muita estranheza que os
homens pensantes não se interessem seriamente por descobrir a matemática e
geometria do mundo espiritual, quando o conhecimento e a aplicação dessas leis
derrotariam os piores inimigos tradicionais da humanidade. Jesus nunca esteve
doente, porque conhecia essas leis e vivia em perfeita harmonia com elas.
Permitiu, durante algum tempo, que forças adversas vindas de fora deste o
pudessem ferir – mais tarde também se tornou invulnerável neste setor – mas
nunca nasceu dentro do seu próprio corpo uma força negativa que o fizesse
sofrer.
A saúde é natural, a moléstia é
desnatural. Ninguém procura explicar o que é natural, todos querem explicar o
que é desnatural. Por que é que sofro isto ou aquilo? O primeiro pensamento é o
de um castigo infligido por algum ser invisível, algum Deus vingador. Castigo
por quê? Por mal cometido, algum pecado. Mas, se eu não tenho consciência de
pecado algum, como dizia Jô: O meu pecado deve ter sido cometido, então, numa
existência anterior cuja memória não persiste na minha encarnação atual. Mas, o
que mais importa não é saber por que sofro, mas sim para quê. A
causa do meu sofrimento é misteriosa, mas a finalidade do meu sofrimento
é clara. Sofro para evolver, ou para me libertar de alguma impureza. Se criei a
causa, posso também aboli-la.
Se o homem, quer desta quer
daquela filosofia, conseguisse ascender a regiões superiores, ultrapassando a
zona da matéria e invadindo os domínios do espírito, desapareceria todo o
problema e toda a problemática do sofrimento – porque desapareceria o próprio
sofrimento compulsório.
Assim como a pecabilidade
gerou a passibilidade, do mesmo modo a impecabilidade produz
necessariamente a impassibilidade. O erro na zona espiritual se chama
pecado, o erro na zona material se chama sofrimento. Sendo aquele a
causa deste, é lógico que o efeito (sofrimento, passibilidade) não pode ser
definitivamente abolido sem a abolição da causa (pecado, pecabilidade). Apenas
em caráter transitório, intermitente, esporádico, é o sofrimento abolido no
plano do pecado; mas, para a abolição permanente, radical e definitiva do
sofrimento, requer-se a destruição radical e permanente do pecado e da própria
pecabilidade.
Com o despontar da inteligência
começou o mundo a pecabilidade, que, não raro, acaba em pecado. “Espinhos e
abrolhos”, “trabalhos no suor do seu rosto”, “parto por entre dores” são as
conseqüências das intelectualização do homem e da mulher, porque a zona do
intelecto é a zona da pecabilidade. Onde não há intelecto não há o “conhecimento
do bem e do mal”, não há oscilação entre a luz e as trevas, entre o positivo e o
negativo. Quando o homem comeu “do fruto da árvore do conhecimento”, quando o
homem sensitivo do Éden se tornou o homem intelectivo da serpente, entrou ele na
zona da pecabilidade, e pecabilidade quer dizer passibilidade compulsória.
Para se libertar do sofrimento, é
necessário que o homem se liberte da pecabilidade e do pecado. De que modo?
Perdendo a inteligência, essa gloriosa conquista da humanidade post-edênica? Não
pela perda desse dom divino, mas pela integração da inteligência na razão, isto
é, no espírito.
Quando o homem, egresso do Éden e
ingresso no domínio da serpente, gemia oprimido de dores e sofrimentos, percebeu
ele, nas íntimas profundezas da sua natureza, uma voz que lhe dizia: “De dentro
de tua própria estirpe nascerá alguém que esmagará a cabeça da serpente”.
É esta a primeira voz longínqua
da redenção do homem. São estes os primeiros albores do dia que há de nascer
após as trevas e penumbras da humanidade pecadora e sofredora de hoje.
Que poder é esse que nascerá das
profundezas da própria natureza humana e sujeitará a seu domínio a própria
inteligência?
É o poder da Razão, do Espírito
divino latente no homem. Um dia, esse espírito acordará – e já acordou
plenamente, pelo menos num representante da humanidade, no “filho do homem”, no
homem por excelência.
Que é que fará acordar no homem
pecador e sofredor de hoje esse espírito divino, a Razão, o eterno Logos,
seu verdadeiro Eu divino?
A oração, a freqüente e intensa
submersão no oceano da divindade, a comunhão com Deus, o permanente “andar na
presença de Deus”.
Que é orar? Um ato ou uma atitude?
“É necessário orar sempre, e
nunca deixar de orar”.
Estas palavras de Jesus são para
o homem profano o maior dos enigmas – ou então o maior dos absurdos. Como posso
orar sempre, se tenho de trabalhar? Se cumprisse essa ordem de Jesus deveria
desistir de todos os meus trabalhos profissionais, descuidar-me da família, dos
deveres sociais, da ciência, da arte e de tudo que faz da vida humana uma
existência possível e digna. O cristianismo, como se vê, não é compatível com
uma vida normalmente humana.
Assim dizem e pensam os
analfabetos do mundo espiritual.
Por quê?
Porque ignoram completamente o
que seja “orar”.
“Orar” é, para o homem comum,
proferir certas fórmulas, em certos tempos, em certos lugares, sobretudo aos
domingos, numa determinada igreja.
“Orar”, no sentido de Jesus e de
todos os gênios espirituais, não é um ato, mas sim uma atitude, embora essa
atitude interna, permanente, se manifeste, de vez em quando, em atos externos,
transitórios. A íntima essência da oração, porém, é uma atitude, isto é, um modo
de ser, uma espécie de vida, a saúde, a alegria, o amor, que são estados ou
atitudes do ser humano, e não apenas atos externos.
É necessário, diz o Mestre, que o
homem crie dentro de si essa atmosfera permanente de oração e viva nesse
ambiente, como quem vive em plena luz solar. A luz solar não impede ninguém de
trabalhar; pelo contrário, favorece o trabalho, dá saúde, bem-estar, alegria,
felicidade, e mata os miasmas que poderiam destruir a saúde. A oração permanente
de que Jesus fala é, pois, uma espécie de constante luminosidade interior, ou
uma consciência espiritual que envolve e penetra todos os nossos trabalhos
diários, cingindo tudo de um como que invisível halo, duma auréola de beleza,
leveza e poesia.
Embora a oração seja
essencialmente uma atitude permanente, contudo ela não pode prescindir de atos
individuais, assídua e intensamente repetidos. A atitude é uma espécie de
estratificação subterrânea que se formou dos resíduos inconscientes de numerosos
atos conscientes que, por assim dizer, desceram da superfície do Ego para as
profundezas do Eu, e ali se depositaram até formar essa vasta camada do hábito
permanente, que chamamos atitude.
Uma vez que essa camada
subconsciente – ou, melhor, superconsciência – adquiriu suficiente volume, dela
irradiam invisíveis energias rumo à superfície do Ego consciente, que, a partir
daí, age, mesmo sem o saber, em virtude dessa zona superconsciente do seu ser.
Daí a grande necessidade da formação de atitudes ou hábitos positivos, bons, e o
perigo da criação de hábitos negativos, maus.
A fim de formar essa atitude
permanente, deve o homem ter uma hora certa, cada dia, para se abismar
completamente no mundo espiritual. Essa hora de oração, meditação ou comunhão
com Deus é absolutamente indispensável para a saúde e a vida da alma. Durante a
meditação deve o nosso Eu espiritual estar, fixa e intensamente, focalizado em
Deus e no mundo divino, sem divagar pelo mundo dos sentimentos ou dos
pensamentos. É o que Jesus chama “retirar-se para o seu cubículo, fechar a porta
atrás de si e orar a sós com Deus”. Nessa hora espiritual, a alma se torna como
que uma aguda lâmina, uma chama de intensíssima vibração, sem irrequietos
bruxuleios, que seriam sinal de baixa freqüência ou pouca intensidade. Para
facilitar essa focalização imóvel, muitas pessoas servem-se de palavras como
estas, internamente proferidas: “Eu e o Pai somos um”, “O Pai está em mim e eu
estou no Pai”, “O Cristo vive em mim”, “Eu sou a luz do mundo”, etc.
Quanto mais diuturna e intensa
for essa focalização da consciência espiritual, tanto maior a abundância de luz
e força que a alma recebe, porquanto a medida do recebimento depende do grau de
receptividade, e essa prática eleva e intensifica grandemente a receptividade da
alma.
Terminada a meditação, ou oração
meditada, volta o homem a seus afazeres cotidianos, mas sem perder o contato
interno com o mundo espiritual, que passará a espiritualizar o seu mundo
material, não só sem prejuízo, mas até com real vantagem desse mesmo mundo
material.
Saúde quer dizer integração do
indivíduo no Todo.
Doença é integração deficiente do
indivíduo no Todo.
Morte é falta total de
integração, ou seja, separação mortífera.
No plano material, essa
integração do indivíduo no Todo maior é feita constantemente de dois modos: pela
alimentação e pela respiração. Cerca de três vezes por dia, de
oito em oito horas, o organismo humano normal se põe em contato mais direto com
o Todo, o Universo, o Mundo circunjacente, mediante a ingestão e assimilação de
novas energias armazenadas nos alimentos que toma, energias essas que a ciência
denomina significativamente “calorias”. Caloria vem de calor. De fato, todas as
energias que recebemos pela alimentação provêm da luz solar. Toda comida é filha
do sol.
Cerca de 15 vezes por minuto, em
estado de repouso normal, recebe o nosso organismo, além disto, energias
cósmicas por meio da respiração, o que perfaz cerca de 900 in- e ex-alações por
hora, ou 21.600 por dia. O oxigênio inalado é o vínculo que põe o organismo
individual em contato direto com o vasto oceano das energias do Universo,
contato renovado umas 21.600 vezes por dia, mesmo durante o sono.
Sem esse permanente e sempre
renovado contato entre o corpo individual e as energias do Universo não há vida
nem saúde.
Ora, essa mesma lei do mundo
material vigora também no mundo espiritual: vida e saúde são permanente contato
entre o ser individual e o Ser Universal. O que, no plano material orgânico, é
feito por meio da assimilação e respiração, isto é feito, no plano espiritual,
por meio da oração ou permanente comunhão com Deus. Sem esse contato não há vida
e saúde espiritual. Onde cessa a assimilação ou respiração, sucumbe o indivíduo
por inanição ou asfixia – e onde cessa a oração, que é a assimilação e
respiração da alma, adoece e desfalece a alma por falta de elementos vitais.
Conhecedor dessa verdade, disse
Jesus: “É necessário orar sempre, e nunca deixar de orar”. A oração é as
calorias e o oxigênio do espírito.
Que idéia formaríamos de um homem
que dissesse: “Não posso respirar sempre porque tenho de trabalhar”? Ora, não
menos absurda é a atitude de um homem que julga não poder orar sempre porque tem
de exercer esta ou aquela profissão.
Existe uma relação íntima entre
corpo e alma, entre a parte material e espiritual do homem. E muitas vezes, se
não sempre, uma parte age sobre a outra, a saúde ou doença de uma afeta o
bem-estar ou mal-estar da outra parte. “Vai-te” e não tornes a pecar, para que
não te suceda coisa pior.
“Tem confiança, meu filho, os
teus pecados te são perdoados – levanta-te e anda!” – É com estas palavras que
Jesus afirma a estreita relação entre a moléstia material e moléstia moral
desses homens.
Entretanto, raras vezes chega a
saúde espiritual a atingir suficientemente perfeição para que possa, sem auxílio
externo, realizar a saúde material.
No Evangelho, aquele centurião de
Cafarnaum que, segundo Jesus, tinha uma fé maior do que outro qualquer em
Israel, não curou o seu servo doente; mas, em contato com o poderoso foco
espiritual de Jesus, essa fé foi grandemente potencializada – e deu-se a cura do
doente. Coisa análoga aconteceu com a mulher Cananéia, cuja fé no dizer de Jesus
era grande, mas só com o contato com a espiritualidade superior do Nazareno é
que conseguiu curar a filha atormentada por um mau espírito. Mesmo aquele outro
homem que, num só fôlego, se confessa crente e descrente – “creio, Senhor, ajuda
a minha incredulidade” – obtém a cura de um doente, porque o baixo potencial da
sua fé [foi] potencializado pelo contato com a elevada espiritualidade do
Mestre.
Um ímã de alta potência, atuando
sobre outro de baixa potência, potencializa este e capacita-o de realizar o que
ele, isoladamente, não poderia prestar.
Uma bateria de alta voltagem,
posta em contato – ou mesmo sem contato, por simples indução indireta – com
outra bateria de voltagem inferior, eleva a voltagem desta e lhe confere um
poder acima do que ela possuía por si mesma. Nunca uma bateria mais forte perde
energia pelo contato com uma bateria menos forte, mas sempre o mais
domina o menos, o positivo eleva o negativo, a plenitude
dá do seu à vacuidade, “a luz brilha nas trevas, e as trevas não a
extinguiram”...
Em resumo: o poder da oração não
está no orante, mas sim no mundo espiritual com o qual o orante se põe em
contato mediante a oração da fé. O orante não é fonte, senão apenas canal ou
veículo entre o mundo material e o mundo espiritual. Se esse canal é limpo,
idôneo, não obstruído, derivam espontaneamente, através dele, os fluidos
espirituais e atuam sobre o mundo material. E é por isto mesmo que “tudo é
possível àquele que tem fé”; “tudo o que pedirdes em meu nome, crede que o
recebereis”.
E acontece aquilo que se chama
“milagre”, isto é, a invasão do mundo espiritual no mundo material da natureza.
Dia virá em que o chamado
“milagre” passará a fazer parte integrante da ciência e vida normal do homem,
assim como, em nossos dias, a eletricidade, o magnetismo, a energia nuclear e
outras forças, outrora misteriosas e hoje conhecidas, fazem parte da vida do
homem do século vinte.
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* A própria palavra “milagre”
define bem o que é. A palavra latina miraculum, de que formamos
“milagre”, significa algo de que o homem se “admira”. Ora, o homem só se admira
de algo que ignora. Coisas conhecidas não são objetos de admiração ou espanto.
Quando um fenômeno de causa desconhecida acontece, o homem fica admirado,
estupefato. Se lhe conhecesse a causa, não se admiraria, não haveria
miraculum, milagre.
Extraído de:
"Porque sofremos", Huberto Rohden, Editora Martin Claret.
Este opúsculo encontra-se nos "textos complementares" da referida obra.
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