"Papai está ao leme..."
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Ricardo B. Ivanov 2007

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Huberto Rohden foi um grande pensador, e em sua jornada aqui na terra pôde vivenciar vários momentos incríveis, que ele gentilmente contribuiu conosco, através de suas dezenas de livros, orientadores, arrebatadores e poéticos.

A história que Rohden conta-nos em sua autobiografia é real. Real e fantástica.

"Papai está ao leme..."

Fala Huberto Rohden:

"(...) No dia seguinte, madrugada da Páscoa, fomos colhidos no golfo de Biscaia, por uma tempestade que zomba de toda descrição e que, por um triz, no entender dos passageiros, teria dado conosco nas profundezas do mar. Logo ao clarear do dia percebemos que as 16000 toneladas do nosso Weser corcoveavam doidamente sobre movediças montanhas d'água, ou desciam, gorgolejantes, a enormes vales líquidos, ora empinando a quilha às nuvens, ora erguendo hélices e leme fora d'água e sacudindo ruidosamente aquele monstro de ferro, feito ridícula casquinha de noz, à mercê dos elementos em fúria. Os uivos sinistros da procela, o fero bramido das vagas brancas, o agudo sibilar da ventania através de mastros e cordames, os roncos cavos das chaminés, o soturno ranger das máquinas do porão com pressão máxima - tudo isto convertia num inferno macabro a nossa ilha flutuante.

Como são frágeis, em face das potências da Natureza, as mais possantes obras da técnica humana!

Desde pequeno, sempre gostei de tempestades, de chuvas torrenciais, de relâmpagos e trovões... Algo de grandioso despertava dentro de mim, no meio das grandiosidades da Natureza... Que estranha afinidade haveria entre o microcosmo do meu Eu humano e o macrocosmo desse estupendo Universo?... "Gefaehrlich leben" (viver perigosamente), disse Nietzsche, é a mais fascinante essência da vida humana, o inebriante elixir duma existência intensamente vivida...

Para melhor apreciar o grandioso espetáculo, subi à ponte de comando - mas logo fui apanhado por uma catadupa salgada, que me arrojou ao interior da casinha do piloto, defendida por maciças paredes de vidro.

No meio da quase total deserção dos passageiros, que se refugiavam às cabines, encontrei no convés um garotinho de 5 a 6 anos, a contemplar tranqüilamente a tormenta desfeita e trauteando, a meia-voz, um Liedchen (canção); de vez em quando dirigia pilhérias ao mar, como se se tratasse de um garotinho travesso. Perguntei-lhe se não tinha medo dessa enorme barulhada.

"Nein - respondeu o menino em tom marcial - Papa ist am Steuer" (não, papai está ao leme).

Era filho do primeiro piloto.

Pareceu-me que essa criança, calma e tranqüila no meio da procela, fosse a personificação da fé e confiança do homem que, por entre as tempestades da vida, confia integralmente na Providência de Deus. Para esse cachopinho, o pai era onipotente; nada podiam ventos e mares contra ele; ao lado do pai sentia-se ele perfeitamente seguro; podia até cantar, despreocupado, e desafiar os elementos adversos. "Papai está ao leme", era para esse menino a mais completa profissão de fé num poder invencível. "Homens de pouca fé!" é esta a mais freqüente censura que Jesus faz a seus discípulos. A fé é o caminho para todas as grandezas. A falta de fé é caminho aberto para todas as falências. "Se não vos tornardes como crianças, não entrareis no reino dos céus".

Quantas vezes não eclipsa a ingênua sabedoria dos simples a orgulhosa ciência dos eruditos! O sábio sabe que nada sabe - o ignorante ignora a sua própria ignorância... Sempre é preferível saber a sua insipiência a ignorar a sua ignorância... Nunca aprendemos melhor do que quando estamos convencidos de que o nosso saber é uma fração infinitesimal do nosso não-saber...

Ao anoitecer do domingo da Páscoa foi se acalmando, aos poucos, a tempestade. Surgiram das suas catacumbas alguns dos passageiros, ainda com os olhos cheios de estupor e com o rosto amarelo a refletir o enjôo. Nada tinham visto do grandioso drama cantado pela terrífica liturgia dessa vasta e libérrima Natureza de Deus. Não lho permitiam os nervos, esses tiranos da vida humana...

Quando, finalmente, a derradeira retaguarda da procela entregou as armas e desmaiou no seio das águas escuras, dissiparam-se também os espessos nevoeiros que toldavam o espaço, e apareceram no céu algumas estrelas, contemplando tranqüilamente o nosso pequenino planeta perdido na intérmina vastidão do cosmos...

"Papai está ao leme"...

Extraído de: "Por um Ideal", Huberto Rohden, vol. 01, Editora Martin Claret.

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