|
Huberto Rohden foi um grande
pensador, e em sua jornada aqui na terra pôde vivenciar
vários momentos incríveis, que ele gentilmente
contribuiu conosco, através de suas dezenas de livros,
orientadores, arrebatadores e poéticos.
A história que Rohden conta-nos em sua autobiografia é real. Real e fantástica.

Fala Huberto
Rohden:
"(...) No dia seguinte, madrugada da
Páscoa, fomos colhidos no golfo de Biscaia, por uma tempestade que zomba de toda
descrição e que, por um triz, no entender dos passageiros, teria dado conosco
nas profundezas do mar. Logo ao clarear do dia percebemos que as 16000 toneladas
do nosso Weser corcoveavam doidamente sobre movediças montanhas d'água, ou
desciam, gorgolejantes, a enormes vales líquidos, ora empinando a quilha às
nuvens, ora erguendo hélices e leme fora d'água e sacudindo ruidosamente aquele
monstro de ferro, feito ridícula casquinha de noz, à mercê dos elementos em
fúria. Os uivos sinistros da procela, o fero bramido das vagas brancas, o agudo
sibilar da ventania através de mastros e cordames, os roncos cavos das chaminés,
o soturno ranger das máquinas do porão com pressão máxima - tudo isto convertia
num inferno macabro a nossa ilha flutuante.
Como são frágeis, em face das
potências da Natureza, as mais possantes obras da técnica humana!
Desde pequeno, sempre gostei de
tempestades, de chuvas torrenciais, de relâmpagos e trovões... Algo de grandioso
despertava dentro de mim, no meio das grandiosidades da Natureza... Que estranha
afinidade haveria entre o microcosmo do meu Eu humano e o macrocosmo desse
estupendo Universo?... "Gefaehrlich leben" (viver perigosamente), disse
Nietzsche, é a mais fascinante essência da vida humana, o inebriante elixir duma
existência intensamente vivida...
Para melhor apreciar o grandioso
espetáculo, subi à ponte de comando - mas logo fui apanhado por uma catadupa
salgada, que me arrojou ao interior da casinha do piloto, defendida por maciças
paredes de vidro.
No meio da quase total deserção dos
passageiros, que se refugiavam às cabines, encontrei no convés um garotinho de 5
a 6 anos, a contemplar tranqüilamente a tormenta desfeita e trauteando, a
meia-voz, um Liedchen (canção); de vez em quando dirigia pilhérias ao
mar, como se se tratasse de um garotinho travesso. Perguntei-lhe se não tinha
medo dessa enorme barulhada.
"Nein - respondeu o menino em tom marcial - Papa ist am Steuer"
(não, papai está ao leme).
Era filho do primeiro piloto.
Pareceu-me que essa criança, calma e tranqüila no meio da procela, fosse a
personificação da fé e confiança do homem que, por entre as tempestades da vida,
confia integralmente na Providência de Deus. Para esse cachopinho, o pai era
onipotente; nada podiam ventos e mares contra ele; ao lado do pai sentia-se ele
perfeitamente seguro; podia até cantar, despreocupado, e desafiar os elementos
adversos. "Papai está ao leme", era para esse menino a mais completa profissão
de fé num poder invencível. "Homens de pouca fé!" é esta a mais freqüente
censura que Jesus faz a seus discípulos. A fé é o caminho para todas as
grandezas. A falta de fé é caminho aberto para todas as falências. "Se não vos
tornardes como crianças, não entrareis no reino dos céus".
Quantas vezes não eclipsa a ingênua sabedoria dos simples a orgulhosa ciência
dos eruditos! O sábio sabe que nada sabe - o ignorante ignora a sua própria
ignorância... Sempre é preferível saber a sua insipiência a ignorar a sua
ignorância... Nunca aprendemos melhor do que quando estamos convencidos de que o
nosso saber é uma fração infinitesimal do nosso não-saber...
Ao anoitecer do domingo da Páscoa foi se acalmando, aos poucos, a tempestade.
Surgiram das suas catacumbas alguns dos passageiros, ainda com os olhos cheios
de estupor e com o rosto amarelo a refletir o enjôo. Nada tinham visto do
grandioso drama cantado pela terrífica liturgia dessa vasta e libérrima Natureza
de Deus. Não lho permitiam os nervos, esses tiranos da vida humana...
Quando, finalmente, a derradeira retaguarda da procela entregou as armas e
desmaiou no seio das águas escuras, dissiparam-se também os espessos nevoeiros
que toldavam o espaço, e apareceram no céu algumas estrelas, contemplando
tranqüilamente o nosso pequenino planeta perdido na intérmina vastidão do
cosmos...
"Papai está ao leme"...
Extraído de: "Por um Ideal", Huberto Rohden, vol. 01,
Editora Martin Claret. |