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Não
me peçam pra voltar atrás
Voltei de minhas férias em Nosotros. E enquanto estava com
a pança apontada para o céu, tomando cerveja e assistindo tv, tomei
a maior decisão para 2002. Mais importante que fazer regime após
o revéillon. Mais decisivo que procurar uma academia de ginástica
ou natação. Mais necessário que não brigar tanto com as pessoas
nesse ano, seja em casa, seja no trabalho.
Decidi, empolgado pelo retorno a iconoclastia digital. Em ano de
Copa do Mundo, meu maior desejo é que o Brasil de Felipão se exploda.
Que volte com o rabinho entre as pernas já nas oitavas de final
(e só não volta antes porque com as tetas de times de nossa chave,
impossível não se classificar. Duro é saber que até essa certeza
pode ser precipitada. Honduras que não nos desminta...).
Minha convicção empedrou, virou rocha dura dias atrás, ao saber
que na falta de gente querendo fazer amistoso com o time da CBF,
sobrou para a Islândia. Só pode ser brincadeira. Foram tirar os
cabras de dentro de um iglu pra jogar em Cuiabá? Logo no Mato Grosso,
onde o diabo anda com ar-condicionado ligado! E falando no pé redondo,
quem diabos é a Islândia no futebol? Cite um islandês que
jogue pelo menos na liga inglesa! Deve ser um catado de primos e
irmãos da Bjork, que faz páreo aos melhores escretes de casados
x solteiros que eu já participei. Só pode ser brincadeira, só pode...
Reza a lenda que a Islândia é o melhor time do Polo Norte, rivalizando
com a Lapônia FC, que tem um centro avante voador de nariz vermelho
chamado Rudolph e no banco um conhecido técnico de nome Santa Claus.
Definitivamente, é brincadeira com a gente...
Admito que confrontar os craques do hoquei, ops, do norte não chega
a ser o maior problema. Mas era o estopim que faltava para eu desistir
dessa Copa depois de tudo que a CPI apurou. Nada contra Rivaldo
& Cia (embora a constante cabeça baixa e aquela constante mãozinha
na cintura do barcelonico me dê vontade de jogar o copo da cerveja
contra a tv). Acho Felipão um cara íntegro, até simpático, no seu
jeito gauchão da fronteira. Mas imagina ter que engolir Ricardo
Teixeira como o homem que deu dois títulos ao Brasil. Pense na perpetuação
dessa cambada mesmo depois de tanta denúncia. "Rouba mas faz". Lembre
do calendário nacional, no encontro dos notáveis, no Eurico Miranda,
nos amistosos fajutos. Cansei de tentar tapar o sol com a peneira.
Tivéssemos um puta time, vá lá. Mas o que vejo é um time puta, que
vai a campo com qualquer um pra ganhar um troco.
Rapaz, definitivamente tenho coisa melhor pra fazer em maio e junho.
Dormir, por exemplo.
Minha torcida? Vai pra Portugal. Nossos patrícios ganharam tudo
nas seleções de base. Esses jogadores cresceram e chegaram ao time
principal. Os portugueses também têm aquele que eu acho o melhor
meia da atualidade, Figo. Não basta o desgraçado ser bonito (sem
viadagens por favor). Assista a um jogo do Real Madrid e veja como
ele e Zidane tocam a bola. Lembra um certo time de 70. Um que jogava
de camisas amarelas e que punha medo em todo mundo. Por isso torço
para joaquins e manuels. Para esconder a vergonha em fingir que
nosso time é bom e bem administrado. Perdemos em 98 e a vida continuou.
Pois percamos em 2002 e quem sabe alguma coisa melhora.
Decidido. Trocarei a cerveja pelo vinho do porto. E quando Brasil
e Portugal se enfrentarem às vésperas da Copa, no único amistoso
decente para os canarinhos, não me convidem para assistir em grupo.
Serei muito irritante. Quase argentino, eles que mesmo falidos e
no grupo mais difícil, são com toda certeza um puta time.
Bob Marochi, 26, é paranista e publicitário, e anda bastante frustrado
com o futebol em geral.
[email protected]
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