O Bob Gosta
Coisas banais que são muito legais: carta branca para Bob Marochi

Última atualização
em 1/10/2001

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Amor à camisa, apenas uma camisa (ou voltando às banalidades enquanto o mundo não acaba)

Bob Marochi

Salve, salve, amiguinhos.

Papo de bar, qualquer bar, em qualquer tempo, de qualquer grande cidade brasileira:
- E seu time, hein?
- Como assim, "meu time"?
- Pois não sabe? Tomou um chocolate de quatro no clássico desta rodada!
- Ah! É isso? Deixa pra lá... Isso foi aqui, um breve descuido do meio de campo. O importante é que em São Paulo meu verdão é líder. No Rio o Vascão tá mais ou menos, mas chega lá... Dizem que apareceu um cara por lá que é um novo Roberto Dinamite. Em Minas meu queridíssimo Galo meteu bucha no Cruzeiro. Na Bahia só um desastre me tira o título do Vitória...
- Porra, Betão! Conversar sobre futebol com você é muito chato!
- Nada...! Não sabe como é emocionante torcer pelo Grêmio. O Zinho tá jogando um bolão e ano que vem é nós em Tokio! Uhu! É maravilhoso ver a cara dos colorados depois de tanto tempo de fila. O garçon! Traz mais uma pra comemorar a vitória do Barcelona. Já te falei que Zidane não joga nada depois que foi pro Real Madrid?

Dura é a vida de torcedor de um só time. Justa também é a vida deste, que sofre muito, porém quando ganha, tem o direito de curtir com todos. Mas quem não tem um tio, primo, cunhado, amigo que não se deixa de rogado e sempre tem um time de preferência em boas condições? Meu avô, grande figura, era Colorado, Palmeiras e Vasco. Não fosse pelo time paranaense, o velho vivia estourando rojão.

Pois lanço a campanha "Amor à camisa, uma só camisa!" pra acabar com os chatos de bar que não sabem falar de futebol - meu avô era a exceção. E digo mais: nessas terras, poligamia e adultério são crimes, e as regras de Direito deveriam ser estendida ao time de futebol. Leitores: isso é tão sério que no mundo de hoje você pode mudar de esposa, de família, de emprego e até de sexo. Mas nunca, nunca mesmo você pode mudar de time. O que dizer então dos que têm muitos times para escolher.

Dedico a breve coluna de hoje a todos os leitores amantes convictos de um só time: aos coxas Leandro, Emilio e irmãos Galindo. Aos atleticanos André, Cristovão e Hamad. Ao tricolor Marcello, à são paulina Candi. Ainda discutiremos muito. E não escondo. Essa campanha é porque meu Paraná está bem na tabela e eu quero curtir enquanto posso. Saudações apenas e tão somente paranistas a todos, e uma semana de paz.

Rápidas

Por que não com o Pelé? Porque não!
A Associação Argentina de Futebol presta homenagem ao seu maior jogador, Maradona, excluindo a camisa 10 da seleção nacional. Estive por lá há algum tempo e a adoração dos portenhos pelo canhoto chega a ser doentia. Hinos, gritos de guerra, canções que parecem gemidos de prazer ( fale "Maradona" em voz baixa, mas gemendo. Depois comece a repetir o mantra cada vez mais e mais alto. É assim que os argentinos fazem...Problema deles.) Muito diferente da admiração que temos pelo rei, sem comparação no futebol, somente se assemelhando em excelência esportiva com o basqueteiro Michael Jordan. Mesmo esse porém não resiste ao teste da alfândega. Teste da Alfândega? É! Apresente o passaporte em qualquer país do mundo e diga que é brasileiro. Qual será a resposta de seu interlocutor?

Pois tem gente por aqui sugerindo o mesmo para a camisa que já foi de Pelé. Eu acho que não deve ser feito porque não se compara. Por três motivos. A perna esquerda de Diego era melhor que a esquerda do rei; a perna direita do Edson era melhor que a perna direita de Dieguito; e a mesma perna direita do crioulo divino é muito melhor que a perna esquerda do Maradona.

Depois, como lembrou Juca Kfouri essa semana, tivéssemos nós que pendurar camisas de grandes boleiros nacionais, a seleção ia numerada de 1 a 6 e depois pulava pra 12. Senão vejamos:
- camisa 7: Garrincha!
- Camisa 8: Gerson, Didi e arrisco um Sócrates.
- Camisa 9: Tostão (que jogava com a 10 no clube mas na seleção essa já tinha dono) e o próprio Ronaldo Fenômeno dos bons tempos.
- Camisa 11: Romário (assim como Diego, deu uma Copa do Mundo para seu país. Penso inclusive em tema para as próximas semanas. "Maradona não é Pelé, mas Romário pode ser um dieguito brasileiro." Em breve).

Dá pra comparar? A exceção do Sócrates (1982, que pena!) todos fizeram pelos clubes e seleção o mesmo que Maradona fez pelos seus. Conte-me agora um ilustre argentino camisa 7, ou 8, ou 11. Batistuta? Veron? Temos muitos mais e melhores.

O argumento definitivo: não tivesse exisitido Pelé, não tivesse ele escolhido a camisa 10 (que desde então virou sinônimo do melhor do time), teria Maradona jogado com o mesmo número do Rei?

Nossa maior memória é manter a 10 em campo. Se hoje sofremos com Rivaldo, de repente aparece outro Zico para aumentar e justificar a mística.

Robson Marochi, 25, é publicitário e sócio da agência Forward.

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