|
Artigos anteriores
A campanha
pela venda da Copel
Outras versões
do ataque
Som de gago
Só breves
Campanha contra
a campanha
Semana festiva
Rock é pura
diversão
Corno
ou fodão? Eis a questão
Homenagem a Felipão
|
Amor à camisa, apenas uma camisa
(ou voltando às banalidades enquanto o mundo não acaba)
Bob Marochi
Salve, salve, amiguinhos.
Papo de bar, qualquer bar, em qualquer tempo, de qualquer grande
cidade brasileira:
- E seu time, hein?
- Como assim, "meu time"?
- Pois não sabe? Tomou um chocolate de quatro no clássico desta
rodada!
- Ah! É isso? Deixa pra lá... Isso foi aqui, um breve descuido do
meio de campo. O importante é que em São Paulo meu verdão é líder.
No Rio o Vascão tá mais ou menos, mas chega lá... Dizem que apareceu
um cara por lá que é um novo Roberto Dinamite. Em Minas meu queridíssimo
Galo meteu bucha no Cruzeiro. Na Bahia só um desastre me tira o
título do Vitória...
- Porra, Betão! Conversar sobre futebol com você é muito chato!
- Nada...! Não sabe como é emocionante torcer pelo Grêmio. O Zinho
tá jogando um bolão e ano que vem é nós em Tokio! Uhu! É maravilhoso
ver a cara dos colorados depois de tanto tempo de fila. O garçon!
Traz mais uma pra comemorar a vitória do Barcelona. Já te falei
que Zidane não joga nada depois que foi pro Real Madrid?
Dura é a vida de torcedor de um só time. Justa também é a vida
deste, que sofre muito, porém quando ganha, tem o direito de curtir
com todos. Mas quem não tem um tio, primo, cunhado, amigo que não
se deixa de rogado e sempre tem um time de preferência em boas condições?
Meu avô, grande figura, era Colorado, Palmeiras e Vasco. Não fosse
pelo time paranaense, o velho vivia estourando rojão.
Pois lanço a campanha "Amor à camisa, uma só camisa!" pra acabar
com os chatos de bar que não sabem falar de futebol - meu avô era
a exceção. E digo mais: nessas terras, poligamia e adultério são
crimes, e as regras de Direito deveriam ser estendida ao time de
futebol. Leitores: isso é tão sério que no mundo de hoje você pode
mudar de esposa, de família, de emprego e até de sexo. Mas nunca,
nunca mesmo você pode mudar de time. O que dizer então dos que têm
muitos times para escolher.
Dedico a breve coluna de hoje a todos os leitores amantes convictos
de um só time: aos coxas Leandro, Emilio e irmãos Galindo. Aos atleticanos
André, Cristovão e Hamad. Ao tricolor Marcello, à são paulina Candi.
Ainda discutiremos muito. E não escondo. Essa campanha é porque
meu Paraná está bem na tabela e eu quero curtir enquanto posso.
Saudações apenas e tão somente paranistas a todos, e uma semana
de paz.
Rápidas
Por que não com o Pelé? Porque não!
A Associação Argentina de Futebol presta homenagem ao seu maior
jogador, Maradona, excluindo a camisa 10 da seleção nacional. Estive
por lá há algum tempo e a adoração dos portenhos pelo canhoto chega
a ser doentia. Hinos, gritos de guerra, canções que parecem gemidos
de prazer ( fale "Maradona" em voz baixa, mas gemendo. Depois comece
a repetir o mantra cada vez mais e mais alto. É assim que os argentinos
fazem...Problema deles.) Muito diferente da admiração que temos
pelo rei, sem comparação no futebol, somente se assemelhando em
excelência esportiva com o basqueteiro Michael Jordan. Mesmo esse
porém não resiste ao teste da alfândega. Teste da Alfândega? É!
Apresente o passaporte em qualquer país do mundo e diga que é brasileiro.
Qual será a resposta de seu interlocutor?
Pois tem gente por aqui sugerindo o mesmo para a camisa que já
foi de Pelé. Eu acho que não deve ser feito porque não se compara.
Por três motivos. A perna esquerda de Diego era melhor que a esquerda
do rei; a perna direita do Edson era melhor que a perna direita
de Dieguito; e a mesma perna direita do crioulo divino é muito melhor
que a perna esquerda do Maradona.
Depois, como lembrou Juca Kfouri essa semana, tivéssemos nós que
pendurar camisas de grandes boleiros nacionais, a seleção ia numerada
de 1 a 6 e depois pulava pra 12. Senão vejamos:
- camisa 7: Garrincha!
- Camisa 8: Gerson, Didi e arrisco um Sócrates.
- Camisa 9: Tostão (que jogava com a 10 no clube mas na seleção
essa já tinha dono) e o próprio Ronaldo Fenômeno dos bons tempos.
- Camisa 11: Romário (assim como Diego, deu uma Copa do Mundo para
seu país. Penso inclusive em tema para as próximas semanas. "Maradona
não é Pelé, mas Romário pode ser um dieguito brasileiro." Em breve).
Dá pra comparar? A exceção do Sócrates (1982, que pena!) todos
fizeram pelos clubes e seleção o mesmo que Maradona fez pelos seus.
Conte-me agora um ilustre argentino camisa 7, ou 8, ou 11. Batistuta?
Veron? Temos muitos mais e melhores.
O argumento definitivo: não tivesse exisitido Pelé, não tivesse
ele escolhido a camisa 10 (que desde então virou sinônimo do melhor
do time), teria Maradona jogado com o mesmo número do Rei?
Nossa maior memória é manter a 10 em campo. Se hoje sofremos com
Rivaldo, de repente aparece outro Zico para aumentar e justificar
a mística.
Robson Marochi, 25, é publicitário e sócio
da agência Forward.
Não gostou? Escreva para
[email protected]
|