O Bob Gosta
Coisas banais que são muito legais: carta branca para Bob Marochi

Última atualização
em 27/08/2001

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Bob Marochi

Salve, Salve

A legenda que o Rogerio sempre põe lá no pé do texto me denuncia. Sou publicitário, com todas as coisas boas e ruins da profissão. As festas mil e as mil úlceras diárias. Os prazos curtos e as verbas idem. As pessoas chatas que só sabem falar de trabalho e a coluna social. O empolamento americanizado nas explicações técnicas e o destaque maior que a profissão merece. Disse certa vez um camarada, também da laia, durante porre inesquecível - ou esquecível, se preferirem: "Cara não somos nada além de um vendedor de sabão com algumas ferramentas a mais pro trabalho." Eu concordo com ele e poderia listar outras milhares de vantagens e desvantagens em ser publicitário. Mas acredito que do jogador de futebol, passando pelo padeiro e chegando ao Abilio Diniz ou ao Antônio Ermínio de Moraes, todos podem fazer o mesmo para suas labutas diária. Inevitavelmente agora lembrei-me de uma campanha, não sei pra qual produto, que utilizava justamente essa idéia para se vender. "Ah, se eu fosse arquiteto..." E o arquiteto dizia: " Ah, se eu fosse um atleta..." E o jogador dizia " Ah, se eu fosse professor..." e assim a coisa ia. Lembram-se ?

Todo esse primeiro parágrafo não chega a ser novidade para grande parte do meu cadastro que semanalmente se aborrece com meu insistente SPAM de divulgação do E-Rogerio - esqueçam crianças, tão cedo vocês não deixarão de receber minhas lembranças semanais de atualização! São em grande parte pessoas do mercado publicitário local, que conhecem tão bem quanto eu ou melhor as coisas escritas aí em cima. É justamente pra vocês que escrevo e fico indignado essa semana.

Aos fatos: o Congresso Nacional quer fazer campanha publicitária para melhorar sua imagem. A verba disponível é de cerca de 8 milhões de reais. Seria hilário se não fosse a verdade. Os caras pintam e bordam com a nossa grana, desviam recursos pra construir ranários, recebem propinas na liberação de verbas, votam leis na medida do interesse próprio, e agora querem se autopromoverem com grana alheia? São oito milhôes de reais, cara! Dinheiro meu e seu, que não foi pago em impostos pra isso.

Publicitariamente, isso dá GRP pra chuchu!!! Nacionalmente!!! Aos que não sabem o que é GRP, explico: significa Gross Rating Points (olha o empolamento!), sendo a unidade matemática desenvolvida pelos mídias das agências para medir a audiência de uma campanha. Oito paus, cara! Dava pra fazer ao menos alguns hospitais públicos bem aparelhados (isso se ninguém superfaturar a obra e esse mesmo dinheiro não construir somente uma creche. Duas, vai! Pra não dar na vista...)

A indignação não termina aqui, leso engano. Do povo de Brasília (ou mesmo ali do Centro Cívico, que passou a Copel nos cobres semana última) pouco posso esperar. Meu descontentamento maior vai com algum publicitário de plantão, amigo de algum deputado ou senador presidente de alguma comissão, que já sente a coceirinha na mão em fazer a tal campanha. Os excelentes resultados em premiações internacionais de criação publicitária mostram um Brasil primeiro mundo no quesito qualidade da publicidade produzida. Mas esconde um mercado corrupto como o próprio congresso, imagem e semelhança, terceiro mundo na qualidade da publicidade negociada, principalmente quando o cliente é o próprio governo. Com a lei de responsabilidade fiscal a coisa melhorou, mas ainda existem uma pá de agências com escritório em Brasília sem um publicitário babaquinha que seja, somente lobistas.

Pensem comigo. Oito milhões de verba dá uma comissão legal pra agência de 1,6 milhões de reais. São os 20% instituídos em lei. E pior! Se essa campanha realmente for realizada, não tenho dúvidas que seria feita por uma agência com uma faturamento anual na casa das centenas de milhões de reais (ou próximo disso), onde os 8 milhões investidos seriam um peido, não fazendo falta! E saio vestido de baiana no mês de setembro se a mesma agência que efetuar o trabalho sujo assinar alguma das peças.

Meu estado puto de ser, antes do profissional, é como cidadão. Lembro que fazer campanha em favor do congresso nacional deveria ser publicidade enganosa (os benefícios do produto ou serviço não são muito claros), passível de punição pelo Conar. Amiguinhos, pelo Amor de Deus, indignem-se também. E em vez de passar correntes pela internet com piadinhas ou arquivos executáveis, discutam essa amoralidade.

Rápidas

1. In memorian
O mundo deixou de ser um lugar mais interessante essa semana. Faleceu após o parto, deixando três orfãos e uma dor no coração de todos os seus próximos, Catarina, a mais bacana, amável e ranzinza pincher que já conheci. Depois de longos 8 anos fazendo companhia àpatroa deste escriba, Catarina foi pedir biscoito e dar a patinha em outras paragens. Em sua memória o silêncio, e chega de notas

Robson Marochi, 25, é publicitário e sócio da agência Forward.

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