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Campanha contra a Campanha
Bob Marochi
Salve, Salve
A legenda que o Rogerio sempre põe lá no pé do texto me denuncia.
Sou publicitário, com todas as coisas boas e ruins da profissão.
As festas mil e as mil úlceras diárias. Os prazos curtos e as verbas
idem. As pessoas chatas que só sabem falar de trabalho e a coluna
social. O empolamento americanizado nas explicações técnicas e o
destaque maior que a profissão merece. Disse certa vez um camarada,
também da laia, durante porre inesquecível - ou esquecível, se preferirem:
"Cara não somos nada além de um vendedor de sabão com algumas ferramentas
a mais pro trabalho." Eu concordo com ele e poderia listar outras
milhares de vantagens e desvantagens em ser publicitário. Mas acredito
que do jogador de futebol, passando pelo padeiro e chegando ao Abilio
Diniz ou ao Antônio Ermínio de Moraes, todos podem fazer o mesmo
para suas labutas diária. Inevitavelmente agora lembrei-me de uma
campanha, não sei pra qual produto, que utilizava justamente essa
idéia para se vender. "Ah, se eu fosse arquiteto..." E o arquiteto
dizia: " Ah, se eu fosse um atleta..." E o jogador dizia " Ah, se
eu fosse professor..." e assim a coisa ia. Lembram-se ?
Todo esse primeiro parágrafo não chega a ser novidade para grande
parte do meu cadastro que semanalmente se aborrece com meu insistente
SPAM de divulgação do E-Rogerio - esqueçam crianças, tão cedo vocês
não deixarão de receber minhas lembranças semanais de atualização!
São em grande parte pessoas do mercado publicitário local, que conhecem
tão bem quanto eu ou melhor as coisas escritas aí em cima. É justamente
pra vocês que escrevo e fico indignado essa semana.
Aos fatos: o Congresso Nacional quer fazer campanha publicitária
para melhorar sua imagem. A verba disponível é de cerca de 8 milhões
de reais. Seria hilário se não fosse a verdade. Os caras pintam
e bordam com a nossa grana, desviam recursos pra construir ranários,
recebem propinas na liberação de verbas, votam leis na medida do
interesse próprio, e agora querem se autopromoverem com grana alheia?
São oito milhôes de reais, cara! Dinheiro meu e seu, que não foi
pago em impostos pra isso.
Publicitariamente, isso dá GRP pra chuchu!!! Nacionalmente!!! Aos
que não sabem o que é GRP, explico: significa Gross Rating Points
(olha o empolamento!), sendo a unidade matemática desenvolvida pelos
mídias das agências para medir a audiência de uma campanha. Oito
paus, cara! Dava pra fazer ao menos alguns hospitais públicos bem
aparelhados (isso se ninguém superfaturar a obra e esse mesmo dinheiro
não construir somente uma creche. Duas, vai! Pra não dar na vista...)
A indignação não termina aqui, leso engano. Do povo de Brasília
(ou mesmo ali do Centro Cívico, que passou a Copel nos cobres semana
última) pouco posso esperar. Meu descontentamento maior vai com
algum publicitário de plantão, amigo de algum deputado ou senador
presidente de alguma comissão, que já sente a coceirinha na mão
em fazer a tal campanha. Os excelentes resultados em premiações
internacionais de criação publicitária mostram um Brasil primeiro
mundo no quesito qualidade da publicidade produzida. Mas esconde
um mercado corrupto como o próprio congresso, imagem e semelhança,
terceiro mundo na qualidade da publicidade negociada, principalmente
quando o cliente é o próprio governo. Com a lei de responsabilidade
fiscal a coisa melhorou, mas ainda existem uma pá de agências com
escritório em Brasília sem um publicitário babaquinha que seja,
somente lobistas.
Pensem comigo. Oito milhões de verba dá uma comissão legal pra
agência de 1,6 milhões de reais. São os 20% instituídos em lei.
E pior! Se essa campanha realmente for realizada, não tenho dúvidas
que seria feita por uma agência com uma faturamento anual na casa
das centenas de milhões de reais (ou próximo disso), onde os 8 milhões
investidos seriam um peido, não fazendo falta! E saio vestido de
baiana no mês de setembro se a mesma agência que efetuar o trabalho
sujo assinar alguma das peças.
Meu estado puto de ser, antes do profissional, é como cidadão.
Lembro que fazer campanha em favor do congresso nacional deveria
ser publicidade enganosa (os benefícios do produto ou serviço não
são muito claros), passível de punição pelo Conar. Amiguinhos, pelo
Amor de Deus, indignem-se também. E em vez de passar correntes pela
internet com piadinhas ou arquivos executáveis, discutam essa amoralidade.
Rápidas
1. In memorian
O mundo deixou de ser um lugar mais interessante essa semana. Faleceu
após o parto, deixando três orfãos e uma dor no coração de todos
os seus próximos, Catarina, a mais bacana, amável e ranzinza pincher
que já conheci. Depois de longos 8 anos fazendo companhia àpatroa
deste escriba, Catarina foi pedir biscoito e dar a patinha em outras
paragens. Em sua memória o silêncio, e chega de notas
Robson Marochi, 25, é publicitário e sócio
da agência Forward.
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