Edição de 10.12 a 17.12.2001



:: COLUNISTAS ::

André Tezza Consentino
Bob Marochi
Caetano Galindo
Rosiane C. de Freitas
Rogerio W. Galindo



Suor e Experiências

Decidi. Chega! Finito! Definitivamente não dou pra coisa. Obriguei-me a descobrir novos talentos. Se for depender de minhas experiências esportivas, estou morto. Melhor continuar somente lendo os colunistas preferidos e assitindo ESPN aos fins de semana. Melhor continuar estudando planejamento de mídia. E já basta. Em capítulos.

Convido a todos os colegas a lembrarem de seu grande gol de placa feito entre os 7 e 10 anos. Todos têm um, dois, ou mais. Pois eu só fui debutar aos 16. Embora tarde foi em grande estilo. Clássico do segundo grau do Colégio Integral: Spy x Spec. Maior rivalidade construída em diversos recreios e peladas de sexta-feira a tarde. Em dias normais todo mundo era amigo, fazíamos parte da mesma classe e um passava cola ao outro em dias de prova. Mas com futsal era diferente. A turma se polarizava.

Eles, o Spy (alusão a marca de óculos escuro sonho de consumo da gurizada), eram os caras do fundão, aqueles que ficavam com as meninas bonitas da turma, que tinham um uniforme bonito pra jogar com o nome de cada um às costas. Um timaço. Rodolfo no gol, Naso, Bahiano, Sabbag e Moacir. Dos 5, 3 eram da seleção da escola.

Nós, o Spec (não me lembro o que isso significava) éramos o show de horrores. Montanha no gol, Bob, Feijão, Tumulto e Maurício. Um balaio de gatos com um surfista (o Maurício), dois encrenqueiros, um cara de 1,90 m e eu, um esforçado ala esquerda. Quando a coisa apertava e precisávamos de mais presença na área, entrava o C.G no gol e o Montanha virava pivô. Quase nunca dava certo, mas a gente insistia. Usávamos uma camisa parecida com a do Criciúma, o número costurado à mão. Tenho a minha número 4 guardada até hoje.

Pois no primeiro campeonato envolvendo todo o colégio tínhamos começado bem. Nossa chave tinha um time de oitava série e outro de sétima série. Espécies de China e Costa Rica daquela escola. Vencemos em sofríveis 1x0 e 2x1, pra nenhum Felipão por defeito. O Spec permanecia invicto e eu também, sem ter feito nenhum gol.

Passamos para as quartas de final. E quem era nosso adversário? O Spy. Tensão durante toda a semana. Agora o bicho ia pegar. Melhor reforçar o time:

- Bob, é o seguinte: Agora não dá pra brincar... Perdeu tá fora. Então o CG vai pro gol e o Montanha será o pivô. Ele tem mais presença na área. Maurício é o ala direito, Feijão o esquerdo e Tumulto é o fixo. Tipos... Você fica no banco...

- Ficaram malucos! Essa coisa do Montanha nunca funcionou! E eu? Como é que vocês vão por o CG no gol? Ele quebrou o pulso não faz nem três meses...

Briga, discussão. Tinha certeza que aquele era meu jogo. A estratégia com Montanha nunca dera certo. Mas agora eu estava fora. E puto, putíssimo. 20 minutos depois, declarei um acordo, e para o bem de todos era bom o restante do time aceitar.

- Ok, cambada! Eu fico no banco. Mas se saírmos perdendo o Montanha volta pro gol e eu entro. Fechado? (malditos, eles precisam de mim...)
- Fechado! (A gente não vai sair perdendo)

Chegada a hora. O juíz, famoso professor de educação física com uma vistosa pança de chopp, dá a partida. Na segunda jogada, bola com Spy de pé em pé até o arremate de Moacir. Gol! Seus fdp, agora vocês vão ver.

- Sai CG! Sai...

Ninguém entendeu nada. O time leva gol e trocam o goleiro por um cara que estava no ataque...? Entro após um lateral a nosso favor. Fico na direita. Maurício cobra, passa para Feijão que me vê livre. Ele toca. Minha primeira jogada. Era agora. Naso em minha marcação. Girei a frente dele e escacarei a área todinha livre. Vi Feijão se infiltrando. Quis cruzar. Errei o chute e mandei a bola no ãngulo. Golaço! Comemorei com raiva, quase surrando os meus companheiros. Minha mão doía após os abraços.

Relaxei. Esse jogo é meu! Minutos depois contra ataque para nós. Feijão com a redonda na intermediária. Eu aguardava lançamento na área. Vi que estava marcado. Levei a marcação comigo e liberei o canto esquerdo do gol para o chute. Feijão caprichou. 2x1. Seguramos o placar. Fim de jogo, classificados para a semi-final. Nesse dia entendi como é a lógica do Romário. Eu podia tudo. Ficaria com a gostosa da sala, poderia pegar o carro emprestado do pai, beberia cerveja na hora do almoço. Eu era foda! E minha vaga no time estava garantida.

Tomamos um baile na semi final. Foram 5 ou 6 a 1. Mas meu gol do jogo anterior estava eternizado. Tanto para meus amigos quanto para mim. Nunca mais joguei como naquele dia. Mas já tinha uma história de futebol para contar aos netinhos. Desde então só me lembro de um gol de calcanhar sem querer em uma pelada entre publicitários. E só. Hoje recuso todos os convites porque sei que a vergonha será maior que a vontade. Talvez com uns 10 quilos a menos eu me atreva novamente. Com futebol parei.

Pensei então num outro esporte que muito me agrada. Que tal o automobilismo? Não sou do tipo barbeiro, eu imagino. Posso me dar bem. Pois após uma rodada de Cart nesse fim de semana com uns colegas do cunhado, decidi que nunca mais falo mal do Rubinho. Tampouco do Enrique Bernoldi. Até Tarso Marques e Ricardo Zonta merecem meus elogios. Entre 8 corredores, não bastou chegar em oitavo. Consegui o prodígio de chegar três voltas atrás. Mas é divertido pra chuchu ver o mundo rodando sobre a grama.

De qualquer modo parei, como já disse. Não deixei de me divertir com essas coisas, mas por hora minha auto-estima e minha autocrítica pediram um tempo.

Aquele abraço

Bob.


Em tempo: Jogador que tira a camisa para comemorar o gol gosta mesmo do time em que atua? Parece-me que não. O gol é meu, do meu filho e até de Deus. Mas não é do clube que defendo.

Bob Marochi, 26 anos. é publicitário e paranista. Na vida real, atua como mídia da agência Forward.


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