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Suor
e Experiências
Decidi. Chega! Finito! Definitivamente não dou pra
coisa. Obriguei-me a descobrir novos talentos. Se for depender de
minhas experiências esportivas, estou morto. Melhor continuar
somente lendo os colunistas preferidos e assitindo ESPN aos fins
de semana. Melhor continuar estudando planejamento de mídia.
E já basta. Em capítulos.
Convido a todos os colegas a lembrarem de seu grande gol de placa
feito entre os 7 e 10 anos. Todos têm um, dois, ou mais. Pois
eu só fui debutar aos 16. Embora tarde foi em grande estilo.
Clássico do segundo grau do Colégio Integral: Spy
x Spec. Maior rivalidade construída em diversos recreios
e peladas de sexta-feira a tarde. Em dias normais todo mundo era
amigo, fazíamos parte da mesma classe e um passava cola ao
outro em dias de prova. Mas com futsal era diferente. A turma se
polarizava.
Eles, o Spy (alusão a marca de óculos escuro sonho
de consumo da gurizada), eram os caras do fundão, aqueles
que ficavam com as meninas bonitas da turma, que tinham um uniforme
bonito pra jogar com o nome de cada um às costas. Um timaço.
Rodolfo no gol, Naso, Bahiano, Sabbag e Moacir. Dos 5, 3 eram da
seleção da escola.
Nós, o Spec (não me lembro o que isso significava)
éramos o show de horrores. Montanha no gol, Bob, Feijão,
Tumulto e Maurício. Um balaio de gatos com um surfista (o
Maurício), dois encrenqueiros, um cara de 1,90 m e eu, um
esforçado ala esquerda. Quando a coisa apertava e precisávamos
de mais presença na área, entrava o C.G no gol e o
Montanha virava pivô. Quase nunca dava certo, mas a gente
insistia. Usávamos uma camisa parecida com a do Criciúma,
o número costurado à mão. Tenho a minha número
4 guardada até hoje.
Pois no primeiro campeonato envolvendo todo o colégio tínhamos
começado bem. Nossa chave tinha um time de oitava série
e outro de sétima série. Espécies de China
e Costa Rica daquela escola. Vencemos em sofríveis 1x0 e
2x1, pra nenhum Felipão por defeito. O Spec permanecia invicto
e eu também, sem ter feito nenhum gol.
Passamos para as quartas de final. E quem era nosso adversário?
O Spy. Tensão durante toda a semana. Agora o bicho ia pegar.
Melhor reforçar o time:
- Bob, é o seguinte: Agora não dá pra brincar...
Perdeu tá fora. Então o CG vai pro gol e o Montanha
será o pivô. Ele tem mais presença na área.
Maurício é o ala direito, Feijão o esquerdo
e Tumulto é o fixo. Tipos... Você fica no banco...
- Ficaram malucos! Essa coisa do Montanha nunca funcionou! E eu?
Como é que vocês vão por o CG no gol? Ele quebrou
o pulso não faz nem três meses...
Briga, discussão. Tinha certeza que aquele era meu jogo.
A estratégia com Montanha nunca dera certo. Mas agora eu
estava fora. E puto, putíssimo. 20 minutos depois, declarei
um acordo, e para o bem de todos era bom o restante do time aceitar.
- Ok, cambada! Eu fico no banco. Mas se saírmos perdendo
o Montanha volta pro gol e eu entro. Fechado? (malditos, eles precisam
de mim...)
- Fechado! (A gente não vai sair perdendo)
Chegada a hora. O juíz, famoso professor de educação
física com uma vistosa pança de chopp, dá a
partida. Na segunda jogada, bola com Spy de pé em pé
até o arremate de Moacir. Gol! Seus fdp, agora vocês
vão ver.
- Sai CG! Sai...
Ninguém entendeu nada. O time leva gol e trocam o goleiro
por um cara que estava no ataque...? Entro após um lateral
a nosso favor. Fico na direita. Maurício cobra, passa para
Feijão que me vê livre. Ele toca. Minha primeira jogada.
Era agora. Naso em minha marcação. Girei a frente
dele e escacarei a área todinha livre. Vi Feijão se
infiltrando. Quis cruzar. Errei o chute e mandei a bola no ãngulo.
Golaço! Comemorei com raiva, quase surrando os meus companheiros.
Minha mão doía após os abraços.
Relaxei. Esse jogo é meu! Minutos depois contra ataque para
nós. Feijão com a redonda na intermediária.
Eu aguardava lançamento na área. Vi que estava marcado.
Levei a marcação comigo e liberei o canto esquerdo
do gol para o chute. Feijão caprichou. 2x1. Seguramos o placar.
Fim de jogo, classificados para a semi-final. Nesse dia entendi
como é a lógica do Romário. Eu podia tudo.
Ficaria com a gostosa da sala, poderia pegar o carro emprestado
do pai, beberia cerveja na hora do almoço. Eu era foda! E
minha vaga no time estava garantida.
Tomamos um baile na semi final. Foram 5 ou 6 a 1. Mas meu gol do
jogo anterior estava eternizado. Tanto para meus amigos quanto para
mim. Nunca mais joguei como naquele dia. Mas já tinha uma
história de futebol para contar aos netinhos. Desde então
só me lembro de um gol de calcanhar sem querer em uma pelada
entre publicitários. E só. Hoje recuso todos os convites
porque sei que a vergonha será maior que a vontade. Talvez
com uns 10 quilos a menos eu me atreva novamente. Com futebol parei.
Pensei então num outro esporte que muito me agrada. Que
tal o automobilismo? Não sou do tipo barbeiro, eu imagino.
Posso me dar bem. Pois após uma rodada de Cart nesse fim
de semana com uns colegas do cunhado, decidi que nunca mais falo
mal do Rubinho. Tampouco do Enrique Bernoldi. Até Tarso Marques
e Ricardo Zonta merecem meus elogios. Entre 8 corredores, não
bastou chegar em oitavo. Consegui o prodígio de chegar três
voltas atrás. Mas é divertido pra chuchu ver o mundo
rodando sobre a grama.
De qualquer modo parei, como já disse. Não deixei
de me divertir com essas coisas, mas por hora minha auto-estima
e minha autocrítica pediram um tempo.
Aquele abraço
Bob.
Em tempo: Jogador que tira a camisa para comemorar o gol gosta mesmo
do time em que atua? Parece-me que não. O gol é meu,
do meu filho e até de Deus. Mas não é do clube
que defendo.
Bob
Marochi, 26 anos. é publicitário e paranista. Na vida real, atua
como mídia da agência Forward.
[email protected]
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