Edição de 7.1 a 13.1.2001



:: COLUNISTAS ::

André Tezza Consentino
Bob Marochi
Caetano Galindo
Rosiane C. de Freitas
Rogerio W. Galindo



1982

Às vezes tenho saudades de 1982. Tudo era mais simples. Lembro-me quando tinha uns 7 ou 8 anos. Defendia com unhas e dentes meu maior ídolo de então, Michael Jackson, frente à horda de irmãs, primas, vizinhas e coleguinhas de escola que achavam os Menudos o máximo. Era árduo (lá em casa até a empregada, já bem mais mocinha, compactuava com essa gente). Eu era realmente fã do cara. Além do bolachão multiplatinado "Thriller", também tinha um dos melhores discos de black music de todos os tempos, "Off The Wall", quando Sr. Jackson ainda era negão e contava com a produção artística de Quincy Jones (esse último, que na verdade é o primeiro, eu emprestei para o meu vizinho que nunca mais me devolveu).

É claro que eu não sabia o que era a black music, soul music e outras negrices. Tudo era pretexto pra tentar dançar break, melecar toda a roupa de cera do chão de tanto rodopiar, irritar a empregada que gostava de Menudos e pricipalmente impressionar os meninos do bairro - já falei que futebol nunca foi meu forte, tinha que fazer alguma coisa para manter meu orgulho infantil.

Foi desse período um dos dias mais tristes de minha vida. Minhas duas irmãs, com 6 e 5 anos, a mostrar a língua em sinal de deboche, com fitinhas na testa escrito "Menudo World Tour", de mãos dadas com a minha mãe, entrando na Belina da família e partindo em direção ao Couto Pereira para o primeiro show da vida delas. Isso foi muito injusto. Enquanto elas iriam encontrar seus ídolos e gritar "não se reprima" até ficarem afônicas, eu tive que ficar em casa e relembrar o único show pop que havia assistido em minha curta vidinha: o palhaço Bozo. Queria saber quando poderia gritar "Purê, Purê, Purê, Purê" (pra mim o refrão de Beat it era assim).

Anos mais tarde a verdade. Fim dos Menudos. E meu ídolo torna-se uma doce garota caucasiana, enlouquece (ou melhor, torna-se excêntrico, que é o maluco com a conta bancária gorda), compra restos mortais do homem elefante, ajuda os mortos de fome da África, queima o cabelo em comercial da Pepsi, casa com a filha do Rei que é mais Rei que ele, Elvis. Antes de virar menina ainda tem tempo de dar um catracão numa enfermeira. Cansado, vira comunista e passa a comer criancinhas. Achei tudo isso muito esquisito e deixei de comprar os discos do Michael. Agora gosto de Nirvana e quero montar uma banda (assunto para a próxima semana). Meu pai vende a Belina e compra uma Parati 16 V. Já existe MTV no Brasil.

E Ricky Martin vira fodão, faz clipes com as gostosas e já sentou várias vezes no sofá da Hebe. Amiguinhos, isso é o século XXI. Feliz 2002, pessoal.

Às vezes tenho saudades de 1982. Tudo era mais simples.

Bob Marochi, 26 anos. é publicitário e paranista. Na vida real, atua como mídia da agência Forward.


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