|
1982
Às vezes tenho saudades de 1982. Tudo era mais simples.
Lembro-me quando tinha uns 7 ou 8 anos. Defendia com unhas e dentes
meu maior ídolo de então, Michael Jackson, frente à horda
de irmãs, primas, vizinhas e coleguinhas de escola que achavam os
Menudos o máximo. Era árduo (lá em casa até a empregada, já bem
mais mocinha, compactuava com essa gente). Eu era realmente fã do
cara. Além do bolachão multiplatinado "Thriller", também tinha um
dos melhores discos de black music de todos os tempos, "Off The
Wall", quando Sr. Jackson ainda era negão e contava com a produção
artística de Quincy Jones (esse último, que na verdade é o primeiro,
eu emprestei para o meu vizinho que nunca mais me devolveu).
É claro que eu não sabia o que era a black music, soul music e
outras negrices. Tudo era pretexto pra tentar dançar break, melecar
toda a roupa de cera do chão de tanto rodopiar, irritar a empregada
que gostava de Menudos e pricipalmente impressionar os meninos do
bairro - já falei que futebol nunca foi meu forte, tinha que fazer
alguma coisa para manter meu orgulho infantil.
Foi desse período um dos dias mais tristes de minha vida. Minhas
duas irmãs, com 6 e 5 anos, a mostrar a língua em sinal de deboche,
com fitinhas na testa escrito "Menudo World Tour", de mãos dadas
com a minha mãe, entrando na Belina da família e partindo em direção
ao Couto Pereira para o primeiro show da vida delas. Isso foi muito
injusto. Enquanto elas iriam encontrar seus ídolos e gritar "não
se reprima" até ficarem afônicas, eu tive que ficar em casa e relembrar
o único show pop que havia assistido em minha curta vidinha: o palhaço
Bozo. Queria saber quando poderia gritar "Purê, Purê, Purê, Purê"
(pra mim o refrão de Beat it era assim).
Anos mais tarde a verdade. Fim dos Menudos. E meu ídolo torna-se
uma doce garota caucasiana, enlouquece (ou melhor, torna-se excêntrico,
que é o maluco com a conta bancária gorda), compra restos mortais
do homem elefante, ajuda os mortos de fome da África, queima o cabelo
em comercial da Pepsi, casa com a filha do Rei que é mais Rei que
ele, Elvis. Antes de virar menina ainda tem tempo de dar um catracão
numa enfermeira. Cansado, vira comunista e passa a comer criancinhas.
Achei tudo isso muito esquisito e deixei de comprar os discos do
Michael. Agora gosto de Nirvana e quero montar uma banda (assunto
para a próxima semana). Meu pai vende a Belina e compra uma Parati
16 V. Já existe MTV no Brasil.
E Ricky Martin vira fodão, faz clipes com as gostosas e já sentou
várias vezes no sofá da Hebe. Amiguinhos, isso é o século XXI. Feliz
2002, pessoal.
Às vezes tenho saudades de 1982. Tudo era mais simples.
Bob
Marochi, 26 anos. é publicitário e paranista. Na vida real, atua
como mídia da agência Forward.
[email protected]
|