"Juntar o útil ao
agradável e o poético ao visual" eis a sábia receita do Prof. Políbio Serra e
Silva que vou ver se consigo sumarizar! Neste livro tudo se encontra: conselhos úteis,
agradáveis de ler, escritos de forma instrutiva; desenhos por vezes caricaturais,
tentando transmitir mensagens de forma simples, que pelos olhos adentro se metem;
finalmente poemas de fina ironia com este sentido poético que as margens do Mondego e o
Choupal comunicam aos Professores de Coimbra.
Sabemos como as doenças cardiovasculares cobram uma taxa
pesadíssima neste país de brandos costumes. A hipertensão e os acidentes vasculares
cerebrais, a angina de peito e o enfarte do miocárdio são espectros sempre presentes no
nosso dia a dia clínico. Para quem vive a tragédia portuguesa, torna-se verdade
axiomática a expressão do meu Colega do Programa CINDI - Islandês nós somos o que
comemos": sofremos de hipertensão e enfarte porque comemos demais, demais e
bem salgado, demais e com bom molho, demais e bem regado. É isso que faz tantos
hipertensos, é isso que faz os doentes do coração, é isso que nos mata por AVC, é
isso que dá cabo dos nossos rins e nos leva à urémia e à máquina de diálise. Todavia
também é por usarmos gorduras vegetais, azeite, girassol, milho ou soja, por comermos
muita fruta, apreciarmos as saladas que nós, em relação à Europa do Norte, temos menos
enfartes do miocárdio. E por sobre isto tudo perpassa a sombra malévola e traiçoeira do
fumo do cigarro que agrava todos estes males, provocando ainda o cancro. O sol e as nossas
praias e a bonomia da nossa convivência ajudam a reduzir o stress, que quando exagerado
atrai uma vez mais para o álcool e o tabaco, quando não para a droga.
Tudo isto nos diz em detalhe, explicando e
aconselhando, repetindo e insistindo, o "nosso" Prof. Polibio. E se ele só fala
na prevenção cardiovascular, a verdade é que estes preciosos textos, escritos e
meditados, muito podem contribuir para a nossa melhor saúde. Perdoem-me os cardiologistas
se aproveito a oportunidade para vos pedir que insistam em todos estes temas, usando
todavia uma maior abrangência. A prevenção cardiovascular "integrada", termo
que eu próprio cunhei, pretende reunir os esforços dos especialistas do coração aos
dos do cancro, da diabetes, das doenças mentais, ou dos acidentes: é que todos os
factores de risco que no livro são comentados, discutidos, criticados, são identicamente
apontados como causadores de cancro, diabetes, doença mental ou acidentes (de estrada,
laborais ou domésticos); basta pensar nos efeitos do álcool, nos erros da alimentação,
na muItitude dos efeitos nocivos do uso do tabaco e da falta de exercício, para se ter de
reconhecer que as acções de prevenção das doenças cardiovasculares ajudam também a
melhorar todas estas outras doenças, todas elas englobadas no Programa CINDI que ajudo a
desenvolver neste nosso Portugal.
Numa actuação integrada, pluridisciplinar e intersectorial que
agora não vou detalhar, todos nós podemos conseguir muitos mais resultados. E não é
por acaso que a notável melhoria de mais de 25% na mortalidade por doenças do aparelho
circulatório, se fez acompanhar por exemplo pela melhoria do cancro do estômago ou do
aumento da duração de vida, e de melhor qualidade dessa vida prolongada.
Somos todos nós, virados para a prevenção, os responsáveis por
essa melhoria das doenças cardiovasculares, que todavia arrasta consigo outros efeitos
sociais, nem sempre de elogiar e que implicam novas actuações face aos novos problemas
dependentes dessas acções. Convenhamos todavia que a quota parte de sofrimento que é
reduzido e a felicidade (por muitos não entendida) de dez ou quinze mil mortes a menos, e
a redução de outros tantos deficientes, conseguida em cada ano são suficiente
recompensa.
Prof. Polibio Serra e Silva, lutador da Zona Centro: aceite um grande
Xi-Coração porque a família preventiva é mais rica por o termos connosco. Esta obra
que prefacio é uma arma poderosa, que vai decerto ampliar, para todo o Portugal, os
efeitos da sua acção. Bem haja por este esforço, bem haja por esta obra. Não espere
agradecimentos porque aqueles que se salvarem não sabem o que os esperava nem sabem que
estavam condenados. Centenas ou milhares vão dever-lhe a sua vida, mesmo que não o
reconheçam ou possam não o saber. Sabemo-lo nós e por isso o abraçamos!
Longa vida para si e para todos os que o lerem!
Lisboa, 91/10/21