UM EM CADA DEZ
PORTUGUESES � ALCO�LICO
Boletim SNS n.� 8, ano I, de
15.11.82
Deixemos falar a elucidativa linguagem dos n�meros: cada portugu�s bebe, em
m�dia, por ano, cerca de 139 litros de vinho e mais de 22 litros de cerveja. "Esta
distribui��o generalizada e intensa de bebedores excessivos, alco�licos, por todo o
Pa�s", sugere � Directora do Centro de Recupera��o de Alco�licos de Coimbra,
"a exist�ncia de uma verdadeira alcooliza��o da popula��o como um fen�meno
social".
O
�lcool, designado quimicamente como etanol, � uma palavra �rabe
que significa, � letra, "o �ltimo esp�rito separado". Parece ter sido isolado
por destila��o, pela primeira vez, h� 1200 anos. Contudo, desde a �poca neol�tica,
mesmo antes da agricultura, j� existia o �lcool na forma de vinho de uva.
Depois de ingerido, o �lcool � absorvido no est�mago e, principalmente, no
intestino delgado, variando a sua velocidade de absor��o, de indiv�duo para indiv�duo,
de acordo como peso, superf�cie corporal, sexo, h�bito de beber, conte�do alimentar do
est�mago, integridade funcional do f�gado, e consoante a concentra��o alco�lica da
bebida que se ingere. Uma vez absorvido � transportado pelo sangue, ficando o cora��o,
o c�rebro e os m�sculos expostos �s concentra��es existentes no est�mago. Depois �,
predominantemente, destru�do no f�gado, sendo uma pequena quantidade eliminada,
inalterada, pela urina e respira��o.
A repetida "passagem do �lcool pelo cora��o", n�o � de forma alguma
gratuita, pois a associa��o entre o alcoolismo cr�nico e doen�a card�aca � conhecida
h� mais de meio s�culo. A miocardiopatia alco�lica, em que o mioc�rdio sofre como
m�sculo que �, tende a surgir nos indiv�duos do sexo masculino, relativamente jovens e
grandes bebedores de h� longa data. Al�m disso t�m sido demonstradas anomalias
funcionais mioc�rdicas em condi��es experimentais de alcooliza��o aguda ou cr�nica e
desencadeamento de epis�dios arr�tmicos durante a ingest�o aguda e abundante de
�lcool. S�o frequentes a hipertrofia e dilata��o do cora��o, com insufici�ncia
card�aca, perturba��es arteriais, fragilidade das paredes dos vasos com hemorragias e
hipertens�o arterial.
No tocante � doen�a coron�ria, n�o h� dados evidentes para podermos pensar
que o �lcool seja causa dela, mas tamb�m n�o existem elementos que nos garantam que o
etanol proteja contra o seu desenvolvimento. Sabemos que o �lcool, bebido regularmente,
mesmo em quantidades moderadas, � uma poderosa fonte de energia, que pode aumentar
consideravelmente a ingest�o cal�rica total. Em alguns indiv�duos, mesmo em quantidades
reduzidas, pode aumentar os triglicer�deos plasm�ticos, cuja acumula��o anormal no
mioc�rdio, e perturba��es do fluxo i�nico atrav�s das c�lulas card�acas, na
depend�ncia prov�vel da ac��o t�xica do �lcool nas membranas biol�gicas, pode estar
na base do efeito cardiot�xico do etanol.
O efeito do �lcool no excesso de peso, no aumento dos triglicer�deos e no maior
consumo de cigarros que, particularmente nos jovens, est� associado � ingest�o
alco�lica, poder�o ter, sobre a doen�a coron�ria, alguma import�ncia indirecta.
Teremos portanto que concordar que o alcoolismo �, pelo menos potencialmente, um
factor de risco de cardiopatia isqu�mica.
Mas afinal o que � um alco�lico? Para a Organiza��o Mundial de Sa�de
� todo "aquele que bebe em excesso, de maneira a atingir um n�vel de depend�ncia
do �lcool que lhe ocasiona perturba��es significativas ou um compromisso da sa�de
f�sica ou mental, das suas rela��es com outras pessoas, da sua vida financeira e das
suas fun��es sociais, bem como aquele que apresenta pr�dromos de uma evolu��o para
este quadro". Logo, o alcoolismo surge porque o doente bebeu demasiado, ou seja, um
indiv�duo torna-se alco�lico quando a quantidade de �lcool que ingeriu, no seu caso
particular, � excessiva. Muitas pessoas, que bebem por raz�es de conv�vio social,
poder�o ter uma depend�ncia psicol�gica do �lcool, mas para o verdadeiro alco�lico
essa depend�ncia psicol�gica � t�o grave que produz sintomas e, sobretudo, origina uma
progressiva perda de controlo sobre as quantidades que ingere.
O alcoolismo �, fundamentalmente, uma doen�a do homem de meia idade. Embora n�o
se tenha demonstrado heran�a gen�tica, h� mais alta probabilidade de alcoolismo para os
filhos de pais alco�licos. Certas ra�as apresentam claras liga��es culturais com o
alcoolismo.
As complica��es do alcoolismo, para al�m das j� referidas na esfera
cardiovascular, s�o m�ltiplas: diabetes, pancreatite, bronquite cr�nica, relacionada
com o maior consumo de cigarros e perturba��es de ordem psiqui�trica. Entre estas o
"delirium tremens" (estado de hiperactividade confusa e desorganizada), a
encefalopatia, a psicose e a alucina��o alco�lica, caracterizada pelo aparecimento de
alucina��es auditivas e conte�do paran�ico num estado de perfeita consci�ncia; nos
estados de paran�ia s�o vulgares os crimes sem fundamento, que podem tamb�m estar
relacionados com a perda de capacidade sexual do alco�lico (impot�ncia da cerveja>. A
dem�ncia alco�lica caracteriza-se pela degrada��o intelectual progressiva.
A incapacidade a que o �lcool arrasta cria, naturalmente, muitos problemas,
quer em rela��o com o pr�prio indiv�duo, pelos efeitos epis�dicos agudos dum
forte consumo de �lcool, ou dum consumo excessivo e prolongado, ou ainda dos efeitos do
�lcool na gravidez e aleitamento, quer em rela��o com a fam�lia, pelas
perturba��es na fam�lia do alco�lico, quer tamb�m no trabalho pela
diminui��o do rendimento laboral, elevado absentismo, acidentes, reformas prematuras e
acidentes de via��o, e quer ainda na comunidade, pelas perturba��es nas
rela��es sociais e da ordem p�blica, delitos, actos violentos, criminalidade,
desemprego, vagabundagem e degrada��o da sa�de e do n�vel de vida e bem-estar.
Em Portugal, pa�s t�o f�rtil na produ��o do agente causal, e onde, de
gera��o para gera��o, s�o transmitidos costumes, tradi��es e falsos conceitos -
"beber vinho � dar de comer a um milh�o de portugueses" - n�o admira que o
�lcool constitua um permanente risco para a sa�de e seguran�as individual e social. De
facto, 10% da popula��o portuguesa possui graves problemas ligados ao consumo do
�lcool, 15 a 20% n�o bebem ou s� o fazem esporadicamente, e 60% dos adultos, dentro dum
fen�meno social de alcooliza��o, bebem regularmente bebidas alco�licas. �
fundamentalmente para este �ltimo e grande grupo, onde muitas vezes se incluem os
"bebedores excessivos", que vaio nosso alerta: o �lcool funciona como elemento
causal de muitas situa��es bastantes vezes n�o encaradas numa perspectiva alcool�gica,
e s� deixando de beber poder� evitar muitos problemas digestivos, cerebrais,
comportamentais, socio-econ�micos e jur�dicos.
N�o podemos
deixar de referir que nos Hospitais Gerais a frequ�ncia com que aparecem as doen�as
relacionadas com o alcoolismo � a seguinte: cirrose hep�tica - 80 a 90%; doen�as do
p�ncreas - 60%; gastrite e �lcera g�strica - mais de 20%; miocardiopatia - 26 a 83%;
tuberculose pulmonar - 15 a 20%. Al�m disso, nos Hospitais Psiqui�tricos, mais de 40%
dos internamentos anuais s�o de alco�licos.
Em trabalho recente, efectuado na Regi�o Centro, por um grupo de profissionais
ligados ao Centro de Recupera��o de Alco�licos de Coimbra, chega-se � conclus�o que
70% das crian�as bebem vinho �s refei��es, que 50 a 60%, com menos de treze anos, faz
uso de bebidas alco�licas, e que 83% dos doentes observados naquele Centro iniciaram a
ingest�o de bebidas alco�licas na primeira inf�ncia. Al�m disso, 50% das mulheres
bebem vinho �s refei��es e mais de 20% tamb�m fora delas e, o que � extremamente
grave, 50 a 80% das mulheres continuam a ingeri-lo durante a gravidez e amamenta��o,
altura em que algumas delas iniciaram o h�bito de beber, por um doentio comportamento,
determinado por falsos conceitos e qualidades tradicionalmente atribu�dos ao �lcool.
Por ignor�ncia, ou simples pretexto, muita gente bebe quando est� doente, porque
� um lugar comum dizer-se que o �lcool � um rem�dio, quando na realidade, o �lcool,
simplesmente euforizante e anest�sico, pode perigosamente diminuir as defesas e
resist�ncias do organismo, tornando-o mais vulner�vel � doen�a. Logo, corte com o
"ponche", abafado e aguardente, quando se sentir doente! Outros bebem quando
comem muito, porque diz-se que o �lcool facilita a digest�o, quando na realidade a
sensa��o de est�mago menos cheio, depois de um digestivo, corresponde a um falso efeito
do �lcool que provocou uma acelera��o dos movimentos g�stricos por ac��o irritante
da mucosa, o que obriga os alimentos a passarem ao intestino insuficientemente digeridos.
Portanto, a melhor forma de se sentir menos cheio � comer com o prato meio! Outros
ainda, bebem porque se sentem cansados, e o vizinho lhes disse que o �lcool d� for�a,
quando na realidade o �lcool s� d� uma ilus�o de maior energia, pois, de facto,
diminui o rendimento do trabalho muscular. Assim, depois de um dia de intenso labor, o
melhor ser� um sono reparador! H� ainda quem beba porque toda a gente diz que o
�lcool mata a sede, quando na realidade o �lcool actua sobre os rins, provocando um
aumento do volume da urina, com consider�vel perda de �gua, e sede significa necessidade
de �gua no organismo .Por isso, quando sente secura, beba sempre s� �gua pura!
Mas h� ainda quem, no Inverno, beba porque tem frio, e est� arreigado no esp�rito das
pessoas que o �lcool aquece, quando na realidade, o que ele provoca � uma dilata��o
passiva dos pequenos vasos da pele, que leva a uma consider�vel perda de calor por
irradia��o. Portanto, quando se sentir enregelar, em vez de se embebedar, trate de se
agasalhar!
O
que toma este quadro ainda mais terr�vel � que em Portugal, tal
como noutros pa�ses, se nota um agravamento nos tradicionais h�bitos de beber:
1. Consumo crescente de bebidas alco�licas por
crian�as e jovens, por vezes dentro dum quadro de politoxicomania.
2. Maior consumo de bebidas alco�licas pela
mulher.
3. Consumo aumentado de bebidas brancas.
4. Marcado aumento do consumo de cerveja
(note-se o que se passa no Cortejo da Queima das Fitas e no Concurso/Promo��o de Cerveja
do Herman Jos�).
5. Internacionaliza��o dos
"h�bitos de beber".
Os efeitos t�xicos do �lcool podem manifestar-se quer por uma ac��o
t�xica aguda - alcoolismo agudo - embriaguez, quer por uma ac��o t�xica cr�nica -
alcoolismo cr�nico.
As manifesta��es agudas da intoxica��o alco�lica, est�o relacionadas
com a ac��o directa do etanol sobre o sistema nervoso, o que leva o indiv�duo a um
comportamento diferente consoante a sua toler�ncia e a quantidade e qualidade de �lcool
ingerido -1 litro de vinho de 120 e 1/4 de litro de aguardente de 480 cont�m 96
gramas de �lcool puro e a cerveja 24 a 66 gramas -.
Assim, com uma alcool�mia de 0,5 a 0,8 gramas por litro, correspondente �
ingest�o de aproximadamente 1 litro de vinho, nota-se um breve estado de excita��o
ps�quica, euforia, diminui��o da tens�o e ansiedade, come�ando a verificar-se perda
da capacidade intelectual, inibi��o da aten��o e altera��es a n�vel dos movimentos.
A uma alcool�mia de 0,8 a 1,5 g/l, por ingest�o de 1,5 litros, j� correspondem reflexos
cada vez mais alterados, traduzindo uma embriaguez mais ou menos ligeira, que p�e em
perigo o trabalho e a condu��o. Por sua vez, uma alcool�mia de 1,5 a 3 g/l,
correspondente a uma ingest�o de 2 litros, traduz-se por perturba��o da marcha,
diplopia - o indiv�duo "v� a dobrar" - ou seja, embriaguez n�tida, que leva a
condu��o e trabalho muito perigosos. Se a alcool�mia sobe a 3 a 5 g/l, por ingest�o de
3 litros, surge uma embriaguez profunda, com impossibilidade de condu��o. Por �ltimo,
quando a alcool�mia � superior a 5 g/l, por ingest�o de mais de 3 litros, � de esperar
o coma, que pode conduzir � morte.
Frisemos contudo que uma alcool�mia de 0,2 a 0,3 g/l j� arrasta a erros de
vis�o e altera��es dos reflexos e que a alcool�mia m�xima, para quem conduz, � de
0,5 g/l, correspondendo � ingest�o de 2,5 dl de vinho de 12�.
As manifesta��es cr�nicas da intoxica��o alco�lica, j� referidas
quando trat�mos das complica��es, fazem-se sentir em todo o organismo, podendo culminar
na dem�ncia alco�lica.
O objectivo do tratamento do alcoolismo agudo � acelerar a destrui��o do
�lcool e neutralizar os seus efeitos depressores sobre o sistema nervoso central.
Se � verdade que as formas comuns de intoxica��o aguda pelo etanol - embriaguez
ligeira e moderada, com alcool�mias inferiores a 2,5 a 3 g/l, geralmente n�o necessitam
de terap�utica, por serem habitualmente espontaneamente reversivas, o tratamento das
formas mais graves da intoxica��o alco�lica aguda segue os princ�pios b�sicos de
qualquer urg�ncia toxicol�gica: lavagem g�strica, repouso e ventila��o, seda��o e,
por vezes, reanima��o, devendo depois o "bebedor excessivo/alco�lico
cr�nico" ser orientado para um tratamento da sua doen�a alco�lica.
No tocante � terap�utica do alcoolismo cr�nico, o seu sucesso depende,
natural e principalmente, da motiva��o do doente para o tratamento e processo de
mudan�a, e do envolvimento do seu ambiente pr�ximo, da sua reintegra��o na fam�lia,
no trabalho e na sociedade. O c�njuge do doente alco�lico poder� desempenhar um papel
muito importante e insubstitu�vel no seu tratamento e recupera��o. O alco�lico tratado
deve pensar sempre que a abstin�ncia ter� de ser total, definitiva e vivida de uma
maneira positiva.
Em termos de preven��o, duas grandes estrat�gias: limita��o da
oferta e redu��o da procura.
A limita��o
da oferta poder� fazer-se:
1. Pelo controlo na produ��o e com�rcio de bebidas
alco�licas.
2.
Pela regulamenta��o da sua distribui��o.
3. Pela subida do pre�o real da bebida alco�lica, cria��o
de taxas especiais e estabelecimento de idade limite para a venda e compra.
4.
Pela regulamenta��o severa da publicidade e certos meios de promo��o e
venda de bebidas alco�licas.
A
redu��o da procura poder� efectuar-se:
1. Pela informa��o.
2.
Pela educa��o.
3. Pela an�lise e mudan�a de condi��es de vida.
O alcoolismo pode evitar-se.
Dizendo... n�o:
- Ao �lcool nas mulheres gr�vidas ou a amamentarem,
- �s bebidas alco�licas nos menores de 14 anos,
- A quantidades excessivas de �lcool,
- A bebidas alco�licas em jejum ou no intervalo das refei��es,
- � oferta de bebidas alco�licas a alco�licos tratados.

Vamos
dizer n�o...
ao alcoolismo!
Porque o �lcool arrefece,
E conduz ao etilismo,
N�o d� for�as... desfalece,
Diz n�o, ao alcoolismo!
Como provoca rubor,
At� parece que aquece,
Mas s� faz perder calor,
Porque o �lcool arrefece.
Sem matar a sede, mente,
E faz um cataclismo,
Quando leva ao acidente,
E conduz ao etilismo.
Nas tuas horas de t�dio,
N�o bebas, se te apetece,
Que o �lcool n�o � rem�dio,
N�o d� for�as... desfalece.
N�o ajuda a digest�o,
Tira-te, sim, do mutismo;
Mas faz mal ao cora��o...
Diz n�o, ao alcoolismo!
