|
Preven��o Vascular
IV DIABETES
Quatrocentos mil diab�ticos em Portugal j� sofrem, ou s�o
outros tantos candidatos poss�veis � ateromatose e/ou �s suas complica��es. O
primeiro passo da sua preven��o � a educa��o do diab�tico que, mais do que tratado,
deve ser ensinado a tratar-se.
Na sequ�ncia do que temos dito sobre os factores de risco
vasculares vamos hoje dirigir-nos principalmente aos pr�-diab�ticos ou diab�ticos menos
informados. Que nos perdoem os leitores mais exigentes, que esperam uma li��o magistral
sobre diabetes, se n�o encaramos todos os aspectos do mundo que ela representa.
Ocupar-nos-emos hoje da rela��o diabetes / doen�a vascular, e da educa��o do
diab�tico, pois sem esta n�o haver� hip�tese de prevenir aquela.
A diabetes consiste na incapacidade que o nosso organismo tem de
"queimar", isto �, metabolizar o mais importante a��car do corpo - a glicose
- que � o principal alimento das c�lulas. A quantidade de glicose no sangue - glicemia -
aumenta, porque as c�lulas, embora carentes de a��car, "esfomeadas", n�o
podem captar a glicose porque n�o se abrem as suas "portas" para o a��car. E
porque raz�o essas portas est�o fechadas? Porque a insulina, hormona segregada pelo
p�ncreas, que est� encarregada de abrir as portas das c�lulas ao a��car, n�o cumpriu
a sua obriga��o, ou por ter sido destru�da, ou por n�o ser suficiente, ou ent�o
porque os diversos tecidos n�o s�o sens�veis � sua ac��o. Muitas pessoas t�m
tend�ncia para a diabetes, mas por vezes, para que apare�amos seus sintomas, �
necess�ria a actua��o de diversos factores desencadeantes, como a gravidez, a
obesidade, algumas doen�as end�crinas, as infec��es e o stress.
Os principais sintomas da diabetes, que s�o devidos � falha da
insulina e ao aumento da glicose no sangue, isto �, a hiperglicemia, s�o: a poli�ria,
que significa urinar muito, o que ajuda a eliminar o excesso de a��car; a polidipsia,
que quer dizer muita sede pelo facto de se urinar muito; a polifagia, ou seja, muita fome,
porque as c�lulas, como j� dissemos, est�o "esfomeadas", mas n�o podem
"comer"; a astenia, o mesmo que falta de for�a, e o emagrecimento, porque as
c�lulas "gastam" e n�o "recebem".
H� duas formas fundamentais de diabetes: uma pr�pria dos jovens,
de come�o brusco e cujo tratamento s� pode ser feito com insulina, e outra que aparece
no adulto ou no velho, habitualmente com antecedentes familiares de diabetes, com um
in�cio lento, ap�s um factor desencadeante, e que responde geralmente a um tratamento
com dieta e anti-diab�ticos orais. Ambas as formas, se n�o forem bem tratadas, podem dar
origem a complica��es vasculares, neurol�gicas, oftalmol�gicas e renais.
As complica��es vasculares da diabetes s�o les�es dos vasos
sangu�neos, constitu�das por um grupo de altera��es que aparecem nos vasos mais
pequenos do organismo, entre as quais se encontram a retinopatia e a nefropatia
diab�ticas, e um outro grupo de altera��es das art�rias, produzidas pela acumula��o
de gorduras ou de outras subst�ncias, como o c�lcio, que v�o obstruindo pouco a pouco
esses vasos.
Nos �ltimos setenta anos, o emprego da insulina e tamb�m ouso
dos antibi�ticos, permitiram aumentar a sobreviv�ncia dos diab�ticos at� a�
destinados a morrer precocemente por coma diab�tico ou por infec��es graves. Tal facto
p�e cada vez mais em destaque a rela��o diabetes / doen�as vasculares, h� muito j�
reconhecida. De entre as chamadas "doen�as tardias da diabetes", as que
actualmente s�o consideradas como a maior causa de morbilidade e mortalidade, s�o
exactamente as doen�as do sistema vascular. Nestas, causadas por um processo de
aterosclerose precoce, inclu�mos as doen�as das coron�rias, dos vasos do c�rebro e dos
membros inferiores, que levam o diab�tico a ter uma maior incid�ncia de enfarte do
mioc�rdio, acidentes vasculares cerebrais e doen�a obstructiva dos membros inferiores,
que pode culminar na gangrena. As altera��es dos grandes vasos relacionam-se n�o s�
com a hiperglicemia mas tamb�m com a presen�a de outras perturba��es do metabolismo. O
processo ateroscler�tico, sendo semelhante em doentes diab�ticos e n�o diab�ticos,
come�a nos diab�ticos bastante mais cedo e � rapidamente progressivo.
Nas civiliza��es ocidentais, os homens diab�ticos t�m 2 ou 3
vezes mais e as mulheres diab�ticas 5 ou 6 vezes mais doen�a coron�ria, do que os n�o
diab�ticos. Nos diab�ticos ocidentais a doen�a coron�ria, respons�vel por cerca de
50% dos �bitos, � a causa mais importante de morte, tanto na diabetes do adulto como no
tipo juvenil.
O aumento da doen�a coron�ria em diab�ticos pode ser um efeito
do estado diab�tico, mas pode tamb�m ser uma consequ�ncia da pr�pria terap�utica
anti-diab�tica, atrav�s de uma dieta que muitas vezes se exige pobre em hidratos de
carbono e rica em gorduras e dos anti-diab�ticos orais, bem como da insulina, que t�m
sido acusados de aumentar o risco de doen�a arterial. Al�m disso esse aumento poder�
ser devido a factores de risco reconhecidos, que surgem com mais frequ�ncia nos
diab�ticos, como a obesidade, o aumento das "gorduras" do plasma, e
possivelmente, a hipertens�o arterial.
Poder�amos em resumo dizer que � diabetes se associa um aumento
de risco de doen�a coron�ria, possivelmente devido � maior frequ�ncia nos diab�ticos
de outros factores de risco, cujo efeito o estado diab�tico parece agravar.
Embora n�o haja a certeza de que os actuais m�todos de
tratamento anti-diab�tico reduzam o risco aumentado de doen�a coron�ria nos
diab�ticos, parece evidente que com uma terap�utica alargada da diabetes, de forma a
incluir medidas capazes de combater os factores de risco associados, a taxa de doen�a
coron�ria poder� ser consideravelmente reduzida.
Para al�m da nuvem negra que � para o diab�tico a possibilidade
futura da doen�a coron�ria, h� determinadas situa��es como a gravidez, as
infec��es, a hipoglicemia e alguns est�dios evolutivos especiais, como os comas, que
actuam sobre o indiv�duo, alterando a evolu��o da sua diabetes e se chamam
"epis�dios cr�ticos". Vejamos:
A gravidez pode causar o aparecimento da diabetes ou piorar uma
diabetes j� existente, podendo dar lugar a um aumento exagerado do peso e tamanho do feto
que pode apresentar malforma��es, ter hipoglicemias depois do nascimento, ou at�
morrer, o que exige da diab�tica gr�vida um controlo mais rigoroso da sua glicemia.
As infec��es (que S�o frequentes nos diab�ticos porque a
glicose � um bom alimento para os germens e porque as defesas do organismo est�o
reduzidas e os vasos danificados produzem descompensa��o da diabetes.
A hipoglicemia (sensa��o de fome, suores frios e abundantes,
n�useas, tremor, vis�o turva, dores de cabe�a e altera��o brusca do humor) surge
quando os valores da glicose no sangue descem abaixo dos 60 a 45 mg/dl, e � devida a
falta de alimento, dose excessiva de medicamentos ou de exerc�cio que aumenta o consumo
da glicose. Se o diab�tico notar qualquer dos sintomas que referimos deve imediatamente
tomar um copo de leite, uma pe�a de fruta ou a��car e informar o m�dico.
O coma por cetoacidose em que doses insuficientes de insulina,
infec��es, stress, gravidez, opera��es, traumatismos e/ou falta de cumprimento da
dieta e exerc�cio, podem levar a perda de apetite, poli�ria, h�lito com cheiro a ma��
e, mais tarde, n�useas, v�mitos e dores abdominais, podem culminar numa situa��o
extremamente grave de desidrata��o e perda de consci�ncia.
O coma hiperosmolar, mais frequente em pessoas idosas e tendo por
causa as dietas ricas em a��car, desidrata��o por v�mitos, diarreias ou hemorragias,
em que o diab�tico pode sentir secura da boca, febre, palpita��es e dificuldade de
respirar.
Dada a gravidade do que acabamos de expor, imp�e-se uma cuidadosa
educa��o do diab�tico, que lhe permitir� comportar-se como um indiv�duo normal,
vivendo melhor com a sua doen�a e evitando estas complica��es.
Assim o diab�tico, para al�m de dever saber o que � a diabetes, o que �
uma hipoglicemia e o que s�o doen�as intercorrentes, a que j� nos referimos, ter� de
se preocupar tamb�m com a dieta, exerc�cio e cuidados de higiene e aprender como se faz
a auto-administra��o da insulina, o auto-controlo da glicemia e o auto-ajuste das doses
de insulina.

A dieta dos diab�ticos � muito importante, porque � a partir
dos alimentos que o corpo humano obt�m hidratos de carbono, a��cares, que s�o o
combust�vel necess�rio para o seu bom funcionamento, muito embora haja outros elementos,
as prote�nas e as gorduras, que com rendimento menor, tamb�m podem servir de
combust�vel, se n�o houver glicose.
H� dois tipos de a��cares: os a��cares simples, que s�o
rapidamente absorvidos e por isso produzem picos de glicemia, e os a��cares compostos
que s�o lentamente absorvidos n�o aumentando bruscamente a glicemia. Duma maneira geral
o diab�tico pode ingerir os a��cares simples do leite e frutas, porque t�m tamb�m
grande quantidade de vitaminas e sais minerais, mas deve consumir principalmente
a��cares compostos sobretudo os dos legumes, cereais integrais e p�o integral, que s�o
ricos em fibras, de absor��o mais lenta.
N�o � aconselh�vel fritar os alimentos que devem ser grelhados,
cozidos, assados, ou cozidos no vapor sob press�o. Entre as bebidas permitidas est�o os
ch�s, os sumos naturais e os refrescos sem a��car, devendo ser evitadas as bebidas
doces, laranjadas e limonadas, e sobretudo as bebidas alco�licas.
Vemos pois que todos os alimentos s�o permitidos ao diab�tico,
� excep��o do "a��car" propriamente dito que s� muito esporadicamente, em
"dia de festa", poder� ser consumido. Logo, n�o h� necessidade de radicais
altera��es nos h�bitos alimentares do dia a dia. Devem misturar-se v�rios tipos de
alimentos, ingerindo em simult�neo legumes verdes, hidratos de carbono e gorduras. A
quantidade dos alimentos tamb�m interessa e, portanto, o diab�tico gordo ter� que
emagrecer, e o magro dever� recuperar o seu peso ideal. Para reduzir a fome do obeso e
evitara hipoglicemia do diab�tico sujeito a terap�utica insul�nica, h� que fazer, com
intervalo regular, 6 a 7 refei��es por dia.
Os diab�ticos podem e devem fazer exerc�cio, que corresponda a
uma actividade regular e constante - caminhar, correr, jogar, nadar e andar de bicicleta,
estando desaconselhados os desportos mais violentos. O exerc�cio contribui para aumentar
o consumo de glicose, fazendo com que haja menos necessidade de insulina, mas n�o
substitui, de forma alguma, nem a dieta nem o tratamento medicamentoso da diabetes. S� a
associa��o duma dieta equilibrada, tratamento farmacol�gico e exerc�cio adequado,
permite um bom controlo da diabetes. O exerc�cio deve ser feito todos os dias � mesma
hora, sendo esta ajustada aos perfis glic�micos do doente, e � conveniente come�ar de
maneira moderada e ir gradualmente aumentando a intensidade e dura��o do exerc�cio. Se
a diabetes estiver descompensada, com n�veis muito altos ou muito baixos de glicemia, ou
se aparecer acetona na urina, o diab�tico n�o deve fazer exerc�cio.
Para al�m dos normais h�bitos de higiene, o diab�tico ter� que
exagerar quanto � higiene dos seus p�s. Os p�s do diab�tico s�o, no todo, o seu
calcanhar de Aquiles. Desde a lavagem com �gua t�pida e o cuidadoso corte
das unhas, at� � proibi��o do saco de �gua quente, passando pelo cuidado a ter com os
sapatos novos, que devem ser comprados ao fim da tarde, e usados progressivamente, tudo �
importante e, cumprido, poder� evitar a trag�dia da amputa��o.
O diab�tico dependente da insulina, cuja vida est� hoje muito
facilitada com o uso da "caneta" Novo Pen, ter� contudo que saber, para
administrar as injec��es, quais os locais de elei��o, e conhecer a necessidade da sua
rota��o. Ter� que ter presente que n�o se injectar� nas coxas, se a seguir vai
"correr a maratona", nem nos bra�os se a "reforma agr�ria" o espera.
Um tal erro poder� ser pago pelo pre�o proibitivo da hipoglicemia, por aumento da
absor��o da insulina.
H� indiscut�vel vantagem em o diab�tico saber como est� a sua
glicemia em cada momento, podendo em situa��es de doen�a intercorrente ajustar a dose
de insulina, evitando desta forma uma cetoacidose. Ser� de boa norma fazer e registar a
autoglicemia uma ou duas vezes ao dia que aumentar� para tr�s ou quatro vezes, em
presen�a de doen�a intercorrente ou gravidez.
Claro que s� ser� poss�vel ajustar correctamente as doses de
insulina, fazendo o auto<ontrolo e sabendo o tempo de actua��o das insulinas de
ac��o r�pida e de ac��o prolongada, conhecimentos que o diab�tico poder� adquirir,
sob a orienta��o duma consulta da especialidade. M aprender� tamb�m que em
presen�a de qualquer dos "epis�dios cr�ticos" referidos atr�s, deve
imediatamente providenciar no sentido de, urgentemente, ser observado por um m�dico, que
far� face �s complica��es agudas. No tocante � cl�nica das "doen�as tardias da
diabetes", onde est�o inclu�das as doen�as vasculares, problema que se tornou mais
actual, interessa principalmente a sua preven��o que est� alicer�ada na educa��o do
diab�tico, educa��o que passa pela auto-vigil�ncia, incluindo a auto-monitoriza��o
da glicemia, mas tendo em linha de conta que normalizar a glicemia � uma protec��o
ilus�ria contra a aterosclerose, se n�o fizermos uma redu��o do excesso de peso e n�o
abolirmos o tabaco.
Da�
as nossas recomenda��es aos diab�ticos:
1.
Tentar energicamente
a regress�o dos factores de risco conhecidos.
2.
Reavaliar e controlar
periodicamente a tens�o arterial, "gorduras" do sangue e peso.
3. Desencorajar
fortemente o consumo do tabaco.
4.
Determinar a sua
dieta de acordo com os l�pidos plasm�ticos e com a glicemia.
5.
Efectuar regularmente
testes da glicose.

Vamos dizer
n�o...
� diabetes.
Se herdaste a propens�o,
V� l� bem no que te metes,
Cuida da alimenta��o,
E diz n�o, � diabetes!
Tiveste um filho pesado,
E tens muita comich�o?
Teu risco est� aumentado,
Se herdaste a propens�o!
Se est�s a engordar,
J� podes ter diabetes.
Se tens feridas sem curar,
V� l� bem no que te metes.
Se est�s sempre a urinar,
Bebes �gua ao garraf�o
E est�s sempre a mastigar,
Cuida da alimenta��o.
Tenta n�o cumprir a sina,
Teu fado n�o interpretes,
Faz controlo da urina,
E diz n�o, � diabetes!

|